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Mitologia em Português

Mitologia em Português

26 de Junho, 2005

O mito de Pigmalião e Galateia (e sua interpretação)

Hoje conto aqui o mito de Pigmalião e Galateia, seguido por uma sua possível interpretação:

Talvez uma das lendas de amor mais inverosímeis e estranhas da época clássica seja a de Pigmaleão e a sua estátua favorita [que viria a ficar conhecida como Galateia]. Segundo a tradição popular, Pigmaleão era um soberano cretense, amante da escultura: dedicava todo o seu tempo livre a lavrar a pedra, até que um dia encontrou que tinha esculpido uma figura feminina tão bela que já nunca pôde separar-se dela. Até rogou, e invocou, os deuses do Olimpo para que lhe permitissem casar com aquela estátua de pedra que, de resto, era uma fiel reprodução da deusa Vênus e, por isso mesmo, tinha que ser a deusa quem decidisse o que havia que fazer a esse respeito. Passava o tempo e Pigmaleão sentia-se cada vez mais atraído por aquela efígie que considerava a sua obra mestra. Estava já como transtornado e pedia insistentemente à própria Afrodita /Vênus que lhe procurasse, para a fazer sua esposa, uma mulher idêntica à que ele tinha feito de mármore. Um dia que Pigmaleão se encontrava ensimesmado olhando aquela obra observou que se movia e que descia do seu pedestal de mármore e se aproximava ao seu criador com a mesma forma de um ser vivo. Sem sair do seu assombro, Pigmaleão viu-se em braços daquela mulher que era uma réplica fiel da estátua que ele tinha esculpido. O que é que tinha sucedido? Pois que a deusa Afrodita /Vênus tinha decidido dar satisfação a Pigmaleão e, para isso, nada melhor que converter a sua estátua numa mulher real, à qual se imporá o nome de Galateia. Depois dos acontecimentos mencionados, Pigmaleão e Galateia casaram, viveram felizes e tiveram uma filha chamada Pafo; esta era tão bela que até o próprio Apolo a pretendeu.

(Retirado de um site que em 2019 já tinha desaparecido)

 

Tal como na famosa história de Shakespeare, "Romeu e Julieta", este mito começa por nos apresentar um amor impossível, a paixão entre um homem e uma estátua, considerada pelo mesmo como a sua obra prima. Então, será que o próprio amor não deverá também ele ser considerado como a melhor das obras, a possibilidade do encontro de uma pessoa que nos compreende e auxilia acima de tudo o resto? Também este, como a possibilidade da transformação de uma estátua em carne viva, é hoje consideradada como muito difícil, ou mesmo impossível. No entanto, tal como o sonho de Pigmaleão se tornou realidade através de uma contínua insistência na crença de uma impossível possibilidade, também cada um de nós deverá agarrar-se aos seus sonhos e lutar por eles. Talvez seja essa a verdade por trás a do mito, que tudo poderá ser vencido ou conseguido através de uma crença contínua, sincera em algo. Tal como Pigmaleão lutou, lutem também vocês pelo que querem.

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25 de Junho, 2005

O mito de Píramo e Tisbe

O mito de Píramo e Tisbe, por muito conhecido que seja das obras de Shakespeare, vem de tempos da Antiguidade. Pode ser recordado assim:

Píramo era o mais belo jovem e Tisbe, a mais formosa donzela em toda a Babilônia, onde Semíramis reinava. Seus pais moravam em casas contíguas; a vizinhança aproximou os dois jovens e o conhecimento transformou-se em amor. Seriam venturosos se se casassem, mas seus pais proibiram. Uma coisa, contudo, não podiam proibir: que o amor crescesse com o mesmo ardor no coração dos dois jovens. Conversavam por sinais ou por meio de olhares, e o fogo se tornava mais intenso, por ser oculto. Na parede que separava as duas casas, havia uma fenda provocada por algum defeito de construção. Ninguém a havia notado antes, mas os amantes a descobriram. Que há que o amor não descubra? A fenda permitia a passagem da voz; e ternas mensagens passaram nas duas direções, através da fenda. Quando Píramo e Tisbe se punham de pé, cada um de seu lado, suas respirações se confundiam. - Parede cruel! - exclamavam. - Por que manténs separados dois amantes? Mas não seremos ingratos. Devemos-te, confessamos, o privilégio de dirigir palavras de amor a ouvidos complacentes. Diziam tais palavras, cada um de seu lado da parede; e, quando a noite chegava e tinham de dizer adeus, apertavam o lábio contra a parede, ela do seu lado, ele do outro, já que não podiam aproximar-se mais. De manhã, quando a aurora expulsara as estrelas e o sol derretera o granizo nas ervas, os dois encontraram-se no lugar de costume. E então, depois de lamentarem seu cruel destino, combinaram que, na noite seguinte, quando tudo estivesse quieto, eles se furtariam aos olhares vigilantes, deixariam suas moradas, dirigir-se-iam ao campo e, para um encontro, iriam ter a um conhecido monumento que ficava fora dos limites da cidade, chamado o Túmulo de Nino, e combinaram que aquele que chegasse primeiro esperaria o outro, junto de uma certa árvore.Era uma amoreira branca, próxima de uma fonte. Tudo ficou combinado e os dois aguardaram, impacientes, que o sol se escondesse sob a s águas e que a noite delas se levantasse. Então, Tisbe ergueu-se, cautelosamente, sem ser observada pela família, cobriu a cabeça com um véu, caminhou até o monumento e sentou-se embaixo da árvore. Enquanto estava ali sentada, sozinha, à luz difusa da noite, avistou uma leoa, que, com a boca ensangüentada por uma presa recente, aproximava-se da fonte, para matar a sede. Ao vê-la, Tisbe fugiu e refugiou-se numa gruta, deixando cair o véu quando fugia. A leoa, depois de saciar a sede na fonte, virou-se para voltar aos bosques, e, ao ver o véu no chão, investiu contra ele e despedaçou-o, com sua boca ensangüentada. Píramo, que se atrasara, aproximou-se, então, do local do encontro. Viu, na areia, as pegadas da leoa e o sangue fugiu-lhe das faces. Logo em seguida, encontrou o véu, dilacerado e cheio de sangue. - Desventurada donzela! - exclamou. - Fui a causa de tua morte! Tu, mais digna de viver que eu, caíste como primeira vítima. Seguir-te-ei. Fui o culpado, atraindo-te a um lugar tão perigoso, e não estando ali eu próprio a guardar-te. Vinde, leões, dos rochedos e despedaçai com vossos dentes este corpo maldito! Apanhou o véu, levou-o até a árvore onde fora combinado o encontro, e cobriu-o de beijos e lágrimas. - Meu sangue também manchará teu tecido - exclamou. E arrancando a espada mergulhou-a no coração. O sangue esguichou da ferida, tingiu de vermelho as amoras brancas da árvore, e, penetrando na terra, atingiu as raízes, de modo que a cor vermelha subiu, através do tronco, até o fruto. Enquanto isso, Tisbe, ainda trêmula de medo, e não desejando, contudo, desapontar o amante, saiu cautelosamente, procurando o jovem com aflição, ansiosa por contar-lhe o perigo que atravessara. Ao chegar ao local e vendo a nova cor das amoras, duvidou que estivesse no mesmo lugar. Enquanto hesitava, avistou um vulto que se debatia nas vascas da agonia. Recuou, e um tremor percorreu-lhe o corpo todo, como a água tranqüila se encrespa ao ser atingida por uma lufada repentina de vento. Logo, porém, reconheceu o amante, gritou e bateu no peito, abraçando-se ao corpo sem vida, derramando lágrimas sobre as feridas e beijando os lábios frios. - Píramo, quem te fez isto? - exclamou. - Responde, Píramo! É tua Tisbe quem fala. Sou eu, a tua Tisbe, quem fala. Ouve-me, meu amor, e ergue esta cabeça pendente! Ao ouvir o nome de Tisbe, Píramo abriu os olhos e fechou-os de novo. A donzela avsitou o véu ensangüentado e a bainha vazia da espada. - Tua própria mão te matou e por minha causa - disse. - Também posso ser corajosa uma vez, e meu amor é tão forte quando o teu. Seguir-te-ei na morte, pois dela fui a causa; e a morte, que era a única que nos podia separar, não me impedirá de juntar-me a ti. E vós, infelizes pais de nós ambos, não negueis nossas súplicas conjuntas. Como o amor e a morte nos juntaram, deixai que um único túmulo nos guarde. E tu, árvore, conserva as marcas de nossa morte. Que tuas frutas sirvam como memória de nosso sangue. Assim dizendo, mergulhou a espada no peito. Os pais ratificaram seu desejo, e também os deuses. Os dois corpos foram enterrados na mesma sepultura, e a árvore passou a dar frutos vermelhos, como faz até hoje.

(Retirado de este site)

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