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Mitologia em Português

Mitologia em Português

31 de Janeiro, 2009

O poema "Alexandra", de Licofron

Hoje, finalmente acabei de ler esta obscura obra, a Alexandra de Licofron. É importante ter em conta que este não é, de todo, um poema ligeiro, algo que se possa ler sem muita dificuldade numa paragem de autocarro, mas sim uma obra da qual se merece ter uma visão geral. De facto, este poema, o único dos supostos trabalhos do autor que sobreviveu até aos dias de hoje, é composto por sequências extremamente complexas, tanto do ponto de vista temático como artístico.

 

A obra, que pode ser lida gratuitamente (e em inglês) no seguinte link, apresenta algumas previsões da profetisa Cassandra de Tróia (também conhecida como Alexandra, talvez por ligação com o seu irmão [Alexandre] Páris), que assentam, na sua maioria, nos regressos dos heróis gregos após o término da guerra. Infelizmente, como sucede em grande parte das previsões, ainda hoje conhecidas, do Oráculo de Delfos, também estas são extremamente crípticas, e referem mitos bastante obscuros, grande parte dos quais nem sequer sobreviveram até aos dias de hoje; é necessário, ainda, ter em conta que mesmo os autores antigos consideravam esta obra como extremamente obscura, e portanto trata-se de uma obra apresentada como mera curiosidade, não sendo indicada para a maioria dos leitores, excepto se for lida com comentários de apoio.

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24 de Janeiro, 2009

"Interpretação de Sonhos", de Artemídoro Daldiano

Finalmente, consegui arranjar uma cópia da Interpretação de Sonhos, ou Oneirocritica, de Artemídoro Daldiano, para a minha colecção pessoal. Trata-se, como o próprio nome indica, de uma obra sobre interpretação de sonhos, mas compreende essencialmente dois pormenores essenciais, que merecem certamente ser analisados.

 

Em termos gerais, esta é uma obra que relata costumes, bem como vários outros elementos da própria cultura grega, de uma forma extremamente jovial. O autor chega, em determinadas alturas, a questionar a própria religião, quando se refere à Titanomaquia como uma simples história, apesar de considerar outros mitos (por exemplo, o de Seleno) como reais e, portanto, dignos de ser considerados na própria arte de interpretação dos sonhos. Desse ponto de vista, esta é uma obra que merece realmente ser lida, para que se possam conhecer melhor vários elementos da cultura grega.

 

Contudo, de um ponto de vista mais filosófico, esta obra é bastante rica, e dá muito que pensar. Ao tentar ensinar a arte de interpretação de sonhos ao seu próprio filho, Artemídoro de Éfeso (ou, segundo ele escreve na própria obra, Daldânio) refere que a própria interpretação de sonhos pode ser executada recorrendo-se somente a uma justaposição e associação de ideias, o que acaba por ser uma interessante visão da própria psique humana. Em termos práticos, não é de todo possível compreender o que nos sucede nos sonhos nocturnos, mas uma teoria deste género leva-me a pensar que, mais do que preverem o futuro, os sonhos podem condicionar as nossas acções. O próprio Artemídoro o escreveu, quando disse que os sonhos de quem os sabe interpretar acabam por ser bastante diferentes, mais crípticos, que aqueles dos comuns mortais...

 

Recordo-me, por exemplo, de um caso referido por esse autor, em que um homem tinha um sonho que parecia prever que a futura esposa se tornaria uma prostituta; infeliz com um tal presságio, e após várias peripécias, esta esposa acabou por falecer sem cumprir esse provável destino. Ao pensar que o conteúdo da profecia já se teria, até certo ponto, cumprido, o homem casou com uma outra mulher, sendo esta que acabaria por realmente se tornar prostituta... pura realidade, ou será que a própria previsão de sonhos, enquanto ciência inexacta, condicionou as acções do próprio homem?

 

Pense-se nisso... se, por uma qualquer via, um homem da época contemporânea soubesse que ia morrer vítima de um acidente de automóvel, é bastante provável que tendesse a tentar evitar os carros; a previsão, como se poderá ver neste caso, condicionaria as próprias acções humanas, e por conseguinte levaria a caminhos que, normalmente, ele até poderia jamais vir a cruzar.

 

Assim... será que os sonhos têm realmente uma capacidade obscura de ajudar a prever o futuro? Fica a questão aberta para debate...

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