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Mitologia em Português

Mitologia em Português

30 de Setembro, 2019

A história da festa de Santo António

Santo António e Cristo

Esta história portuguesa chegou-nos por via oral. É uma história que em tempos de meninice foi contada a uma pessoa, hoje já com 83 anos, pela sua avó.

 

Um dia, Santo António queria ir a uma festa, mas o seu pai [António?] ordenou-lhe que guardasse as colheitas. Então, na ausência do pai, Santo António construiu uma gaiola com algumas canas e, por milagre, fez com que os pássaros entrassem todos para o seu anterior. Depois, foi para a sua desejada festa.

Quando o pai o viu por lá, disse-lhe "Ó meu malandro, o que estás tu a fazer aqui? Devias ter ficado em casa, a guardar os campos!" Bateu-lhe. Mas, mais tarde, quando voltaram a casa, ambos viram uma pequena gaiola no meio de um campo, com todos os pássaros lá dentro, bem aconchegadinhos... e o seu pai entendeu que só se poderia tratar de um milagre divino!

 

Esta história, com mais ou menos detalhes, pode ser lida em algumas obras portuguesas. Neste exemplo é-lhe atribuída uma data na década de 1930. Isto não só mostra que era uma história conhecida na altura, mas que também o era um pouco por todo o país. E agora, com um pouco de sorte, pode ser que venha a ser conhecida entre mais pessoas das novas gerações.

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26 de Setembro, 2019

Quem foi Esopo, e porque contou ele as suas fábulas?

Afinal de contas, quem foi Esopo, e porque contou ele as suas fábulas?

Em completa verdade dizemos que de entre os muitos textos que nos chegaram dos tempos da Antiguidade, poucos serão tão populares como as fábulas de Esopo. De facto, até nos arriscaríamos a dizer, sem certezas de maior, que nos nossos dias as pequenas histórias que lhe estão atribuídas são ainda mais famosas que os próprios Poemas Homéricos. Mas, estranhamente, já poucos parecem perguntar-se quem foi Esopo, e porque contou ele as famosas fábulas...

 

Se pretenderem uma resposta rápida, ela deverá ser "não sabemos". Se Esopo realmente existiu, as suas fábulas dizem-nos muito pouco sobre ele, e são poucos os autores que nos preservam qualquer espécie de dados biográficos. Mas, visto que este é um mês dedicado aos mitos, lendas e histórias, estas linhas ainda não ficam por aqui.

 

Numa dada altura da Antiguidade alguém se apercebeu do mesmo problema. Provavelmente também essa pessoa se interrogava sobre a identidade de Esopo. E, por isso, decidiu escrever um texto sobre o tema, que nos chegou e a que hoje damos o nome de Vida de Esopo ou Romance de Esopo. Não temos qualquer forma de saber quais os elementos reais dessa obra, e quais as ficções que ela inclui, mas segundo as suas linhas Esopo poderá ter sido contemporâneo de Creso, no século VI a.C. E, então, quem foi Esopo? E, tanto ou mais importante, porque compôs fábulas?

 

Segundo a versão deste texto (ficcional?), Esopo era um escravo muito feio e mudo. Um dia ajudou uma sacerdotisa de Isis; como agradecimento, esta pediu à deusa que desse novas faculdades ao herói. Agora capaz de falar (mas ainda muito feio - o contraste da sua fealdade com a sua enorme sabedoria é um elemento muito importante da trama), depressa foi vendido a um novo dono, de nome Xanto. Grande parte do texto apresenta Esopo em confronto com esse novo dono e nos mais diversos desafios de conhecimento, mas esses episódios ultrapassam o nosso objectivo de hoje.

Num dado momento surge então a primeira fábula - o famoso Rei Creso estava prestes a atacar a cidade de Samos, a quem exigia um tributo anual. Foi pedida a opinião de Esopo sobre o que se deveria fazer, a que este respondeu algo como "Não posso dá-la, porque seria marcado como inimigo do rei. Porém, irei contar-vos uma fábula". Prosseguiu, contando-lhes uma primeira fábula, em que Prometeu instruiu os Homens nos caminhos da liberdade e da servidão. Os ouvintes compreenderam o que ele estava a querer dizer e agiram em consonância.

 

São várias outras as fábulas contadas por Esopo neste texto (curiosamente, a da lebre e da tartaruga, tão bem conhecida entre nós, não é uma delas), mas parecem ter todas elas um mesmo objectivo, o de transmitir uma lição ou moral de uma forma muitíssimo simples. E, de facto, quase todas as fábulas de Esopo são intemporais, perpetuando lições que ainda se mostram muitíssimo relevantes nos nossos dias.

 

Que me perdoem os leitores e o meu colega, mas escrevendo de um modo mais pessoal por um breve momento, posso dizer que há uns anos até dei uma cópia das Fábulas a uma criança, apelidando essa obra de "o melhor livro que se pode dar aos mais novos". E talvez seja até esse o grande segredo da fábula - pouco ou nada sabemos sobre o seu autor (a história acima é, quase certamente, nada mais que uma ficção), mas a lição que frequentemente transmite é, por si só, mais significativa que a identidade do seu autor.

 

Assim, fica uma questão de duas faces - quem pensam vocês ter sido Esopo? E porque acham que contou as suas fábulas?

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23 de Setembro, 2019

A história de Wu Gang

Um dos aspectos mais curiosos de se tentar estudar Mitologia Comparativa é o facto de, uma e outra vez, nos depararmos com alguns elementos que, apesar de pouco vulgares, transcendem culturas de uma forma difícil de explicar. Por exemplo, há algum tempo uma idosa contou-nos uma história que a avó dela lhe tinha contado, de que já falámos aqui. Sucintamente, apresentava um homem que Deus transportou para a Lua como punição por um pecado repetido. Poderia parecer uma ideia estranha, mas não é única.

Wu Gang, um exemplo na arte nipónica

Quase do outro lado do mundo, os Chineses ainda hoje contam a história de Wu Gang, um camponês que foi transportado para a Lua e perpetuamente destinado a tentar cortar uma árvore, que tornava a crescer por magia a cada nova noite. É uma espécie de "Sísifo Chinês", como lhe ouvimos chamar em diversas obras ocidentais.

Qual foi o seu crime? As várias versões a que tivemos acesso divergem nas razões para a sua punição, mas parecem ter um elemento em comum - que esta terá advindo do facto de Wu Gang nunca levar os empreendimentos que planeava até ao seu final. E, nessa sequência, que ele tenha sido punido com a atribuição de uma tarefa impossível de finalizar faz todo o sentido.

 

Resta, então, uma questão - será que existe alguma ligação entre a história portuguesa que nos foi contada e a de Wu Gang? Quase certamente que não, mas esse é um dos grandes mistérios da Mitologia Comparativa, o porquê de algumas histórias, aparentemente similares mas sem uma fonte comum, surgirem em culturas e contextos completamente diferentes.

 

[Editado: Recentemente, o Sapo colocou este artigo em destaque, aqui. Deixamos o nosso agradecimento, e se esse destaque contribuir para uma só pessoa adicional conhecer esta história e a passar a outras, já valeu a pena deixá-la escrita por cá!]

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19 de Setembro, 2019

A Batalha dos Centauros e dos Lápitas

A Batalha dos Centauros e dos Lápitas

Se há alguns dias aqui falámos dos Centauros, achámos que podíamos igualmente contar um grande mito relativo a eles, o da "Centauromaquia", também conhecida como a "Batalha dos Centauros e dos Lápitas". Se este mito é pouco conhecido nos nossos dias, teve um relevo enorme na arte grega, possivelmente por representar o confronto da civilização (grega) com "o outro", o monstruoso (bárbaro). Por isso, reconte-se o que ainda sabemos sobre este episódio.

 

Piríto, o famoso amigo de Teseu, estava para casar com Hipodâmia e convidou para a boda os Lápitas e os Centauros, com quem - segundo algumas versões do mito - tinha um laço de sangue. Inicialmente tudo corria bem, mas quando os Centauros beberam vinho puro, ao qual não estavam habituados, a sua natureza monstruosa veio ao de cima e começaram a causar problemas - tentaram raptar e violar algumas mulheres, bateram nos homens, e outras coisas que tais.

Como parecerá natural os outros convidados tentaram defender-se, levando a uma enorme batalha entre os dois grupos. Infelizmente, as informações que nos chegaram não preservam muitos detalhes do combate, com a excepção notável de um determinado episódio - sabemos que Ceneu (anteriormente Ceneia, mas esse curioso mito terá de ficar para um outro dia), um herói que era completamente indestrutível, foi enterrado vivo - os Centauros bateram-lhe repetidamente com árvores e atiraram-lhe pedras, até que este seu opositor ficasse totalmente enterrado e, segundo uma versão do mito, caído no próprio reino de Hades ainda vivo!

 

Se leram estas linhas até aqui, fica agora um pequeno convite - voltem a olhar para a imagem reproduzida acima e poderão ver, do lado esquerdo, perto do local em que o vaso está partido, três centauros e uma figura parcialmente soterrada - não podemos ver-lhe a cara, mas uma legenda por perto identifica-o como um dos Lápitas, o Ceneu do mito, próximo do momento em que deixou este mundo.

Um centauro e Ceneu

Como também pode ser visto nesta nova imagem, esse momento específico é preservado num número muito grande de vasos, atestando a já-referida fama desta batalha e, mais concretamente, do episódio que une estes monstruosos adversários a Ceneu. O que não pode deixar de nos levar a uma dúvida natural - sabemos de Ceneu, mas o que mais teve lugar nesta Batalha dos Centauros e dos Lápitas? Essa é, infelizmente, uma informação que os autores da Antiguidade já não conseguiram fazer chegar até aos nossos dias, restando-nos a famosa ideia, que um dia até foi preservada nos frisos do Parténon, de que esta se tratava de uma batalha metafórica dos Gregos contra os Bárbaros.

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16 de Setembro, 2019

A origem dos Centauros, e as "Centauras"

Poucas criaturas dos mitos gregos são tão famosas como os Centauros. Metade homem e metade cavalo, são diversas as sequências mitológicas em que vão aparecendo - a mais famosa de todas elas provavelmente na batalha contra os Lápitas - nas mais diversas histórias da Antiguidade. Mas, afinal de contas, de onde nasceram estas estranhas criaturas?

Esqueleto de Centauro

De acordo com a versão mais famosa do mito, numa altura em que os deuses e os seres humanos ainda partilhavam os mesmos espaços, o rei Íxion apaixonou-se pela deusa Hera. Zeus, que tudo sabia, fez uma nuvem em forma da sua esposa. Quando o rei a viu, pensou tratar-se da sua amada e tentou violá-la; foi dessa união pouco natural e muito ilegítima que nasceram os primeiro Centauros.

Porém, esta não é a única versão do mito. Numa outra, estas criaturas nasceram simplesmente da paixão de um homem chamado Centauro, filho de Íxion e Nefele (i.e. a nuvem do mito anterior), pelas éguas do monte em que vivia. Uma terceira versão, provinda de autores como Palaefato, diz que os Centauros nunca existiram - em vez disso, a sua ideia surgiu somente porque tinha existido uma tribo de homens que conduzia os seus cavalos de uma forma tão perfeita que ambas as criaturas pareciam tratar-se de uma só.

 

Agora, se são vários os mitos que se referem a centauros do sexo masculino, somos levados a uma questão adicional - será que existiram "Centauras"? Apesar de terem pouca participação real nos mitos, a resposta é positiva. Ovídio menciona o caso de uma centaura que se suicidou após o falecimento do marido na famosa batalha contra os Lápitas. Além disso, existem, aqui e ali, vários exemplos destas criaturas femininas na arte, que se prolongam até aos nossos dias.

Centaura e um Humano

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12 de Setembro, 2019

A história de Sidarta Gautama, o Buda

Estas linhas de hoje não poderão começar sem se abordar um pequeno problema - será que o Buda, também conhecido como Sidarta Gautama, realmente existiu? E, mesmo que a resposta a essa pergunta seja positiva, onde é que acaba a sua historicidade e começa a lenda?

 

Conta-nos esta história que o homem que nasceu com o nome de Sidarta Gautama, mas que viria a ficar conhecido simplesmente como "o Buda" (i.e. o Iluminado), foi príncipe de um reino muito rico, e os seus pais sempre tentaram que tivesse todas as melhores coisas, pois já lhes tinha sido profetizado o seu destino (que, diga-se, pareciam querer evitar). Um dia, enquanto a sua carruagem era conduzida por uma povoação, viu algo que nunca tinha visto até então - um idoso. Pouco depois, numa segunda viagem, viu um doente. Numa terceira, um homem morto, e a realidade dessas sucessivas descobertas levou-o à contemplação de um problema - de que lhe valiam todas as coisas que tinha, se acabaria por morrer mais cedo ou mais tarde?

Alguns dias depois viu um asceta, e essa nova ocorrência levou Sidarta Gautama a decidir despojar-se de tudo o que tinha e ir para uma floresta meditar no seu problema. Uma e outra vez os seus pais, a esposa e o próprio filho, aqueles que conhecia, tentaram-no fazer desistir dessa ideia, muitas vezes até lhe apontando alternativas, mas não conseguiram demovê-lo. Procurou quem o pudesse ajudar a alcançar o seu objectivo, mas nenhum professor ou colega lhe pôde ensinar o que ele queria aprender. Então, numa determinada altura, decidiu sentar-se em baixo de uma árvore e não se mover do local até encontrar a resposta que procurava.

Buda e Mara

Na imagem acima pode ser visto esse momento, de algum relevo na arte budista, em que Mara, a personificação da morte e das muitas tentações da vida, e os seus demónios tentam perturbar Sidarta Gautama enquanto meditava. Tentaram assustá-lo, seduzi-lo pelos prazeres da carne, e outras coisas semelhantes, mas durante toda a sua meditação mostrou-se imperturbável. E depois, passadas sete semanas, encontrou a resposta que procurava, tornando-se Buda, i.e. "O Iluminado".

 

As crenças atribuídas ao Budismo nascem depois deste episódio, e tentam, de uma certa forma, que o crente consiga compreender as realidades que o Buda, sob a forma de Sidarta Gautama, defrontou por si mesmo. Ele nunca é visto como uma divindade, nem as suas palavras como cânone religioso, mas convida é que as suas mensagens e ensinamentos sejam contemplados por quem o quiser fazer. E isso leva a uma questão - na ausência de uma divindade tuteral, será o Budismo uma religião ou um sistema de crenças? Essa é uma resposta que já caberá ao leitor...

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09 de Setembro, 2019

A verdadeira história do Galo de Barcelos

Galo de Barcelos

De entre as muitas lendas de Portugal poucas já foram tão famosas como a do Galo de Barcelos. Mas, estranhamente, parecem ser cada vez menos os Portugueses que conhecem a lenda por detrás de este artefacto. Por isso, nada como recordá-la.

 

Num ano hoje desconhecido tiveram lugar em Barcelos diversos crimes. Acabou por ser acusado um peregrino que se deslocava para Santiago de Compostela. Por muito que insistisse na sua inocência ninguém quis acreditar nele. Então, numa derradeira tentativa de se salvar da forca, pediu para ser levado a um juíz.

Tratando-se possivelmente de um domingo, o peregrino foi levado a casa do juíz, onde o encontrou a tomar um faustoso almoço. Apontando para o galo que estava numa das travessas, disse-lhe: "É tão certo eu estar inocente como esse galo ir cantar quando eu for enforcado". Obviamente que todos os presentes se riram - quem não o faria, nessas circunstâncias? - mas, prudentemente, decidiram esperar.

Quando o peregrino estava prestes a ser enforcado, o galo cantou miraculosamente. O juíz e os seus companheiros ainda tentaram impedir a punição planeada, mas... não teriam chegado a tempo ao local não tivesse tomado lugar um segundo milagre - São Tiago amparou a queda do acusado, impedindo-o de morrer na forca. O peregrino foi libertado e prosseguiu viagem até ao santuário do seu salvador. Uns anos depois voltou a Barcelos para mandar erigir um cruzeiro a celebrar o que lhe tinha acontecido.

Cruzeiro do Senhor do Galo

Este cruzeiro ainda pode ser visto em Barcelos, próximo da Rua Fernando Magalhães, mas já não ocupa o seu local original (que, naturalmente, era próximo do local da forca). Como visto na imagem acima, o topo do monumento tem a figura de Cristo crucificado; abaixo dele pode ser visto o miraculoso galo, o peregrino prestes a ser enforcado, e até São Tiago (ou, se preferirem, "Santiago") a amparar a queda.

 

A existência deste monumento é crucial para compreender uma potencial versão antiga da lenda. Se muitas outras são conhecidas nos nossos dias - bastará fazer uma pesquisa no Google por "Lenda do Galo de Barcelos" - elas tendem, quase sempre, a apresentar um único milagre, o do cantar de um galo que já há muito tinha morrido. Mas, como este monumento prova, também um santo interviu na mesma trama, e ele não merece o esquecimento a que parece estar muito votado nos nossos dias.

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06 de Setembro, 2019

Como é que (a Virgem) Maria concebeu e se manteve virgem?

Maria e o Anjo

Um dos grandes mistérios de Bíblia, tal como a temos nos nossos dias, é a forma como Maria, mãe de Jesus, engravidou e deu à luz mantendo-se virgem. Claro que existem, ao longo dos séculos (e até nos nossos dias), outros exemplos de mulheres que engravidaram ainda virgens, mas se a cesariana já existia nos inícios da nossa era (Solino diz-nos que o nome foi popularizado por César ter nascido através dessa técnica), nada no texto bíblico nos diz que foi assim que o filho nasceu. O que nos leva, por isso, a uma questão intrigante - como foi Jesus concebido, e como foi possível que ele nascesse sendo mantida a virgindade de Maria?

 

A resposta que um padre vulgarmente nos dará é que "foi milagre". Sim, a um deus omnipotente tudo seria possível, até a manutenção da virgindade de uma mulher após um nascimento, mas essa pseudo-resposta é também muito pouco satisfatória, até porque se abriria a caricata possibilidade de se poder dar igual resposta a toda e qualquer questão bíblica.

Em alternativa, ao longo dos séculos foram sugeridas alternativas. A mais interessante delas, e aquela que trazemos aqui hoje, diz que Maria engravidou pela orelha, e que o próprio filho nasceu, também ele, pela mesma orelha da mãe. Não fazemos qualquer ideia dos potenciais fundamentos biológicos necessários para tal, mas a ideia desta estranha concepção já aparecia em autores como Efrém da Síria (século IV), numa dada altura até apareceu representada na arte, e o nascimento de Jesus de forma semelhante ocorre, pelo menos, num texto cátaro (i.e. da Idade Média).

 

Claro que esta é uma resposta muito estranha, mas parte do cumprimento de uma pseudo-profecia presente no Antigo Testamento. É, por isso, uma possibilidade como qualquer outra, rementendo-nos, como é muito frequente nestes casos, para o reino exclusivo da fé...

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04 de Setembro, 2019

A história de Lugalbanda, com 4100 anos

Pássaro Anzu

Preparados para o primeiro mito deste mês temático? Falar de este mito tem até algum significado extra para nós, pelo facto de ser um dos mais antigos que já passou por este espaço. A versão a que tivemos acesso, apesar de fragmentária, tem cerca de 4100 anos e permite-nos conhecer parte da história de uma figura suméria chamada Lugalbanda. Vamos a isso?

 

Lugalbanda era um soldado do Rei Enmerkar. Adoecendo durante uma guerra, foi levado por alguns companheiros para uma caverna numa montanha, onde se esperava que vivesse ou morresse. Após rezar a três deuses recuperou a sua saúde. Alguns dias depois capturou três animais e, num sonho, foi-lhe comunicado que os sacrificasse aos deuses. O que acontecia em seguida está parcialmente perdido, mas a história do herói ainda não acabou para nós.

 

Algum tempo depois Lugalbanda ainda estava a viver nas montanhas. Num dado dia encontrou uma cria do Pássaro Anzu [uma criatura famosa dos mitos suméricos, uma grande águia com cabeça de leão, que pode ser vista na imagem anterior], que alimentou e de quem cuidou durante algum tempo. Quando o respectivo Pássaro Anzu voltou, ficou tão feliz com os actos do herói que decidiu recompensá-lo com um dom semelhante à super-velocidade, mas que ele não deveria divulgar a ninguém.

Voltando então à civilização, Lugalbanda reencontrou os seus companheiros do exército, que ainda estavam a tentar atacar a mesma cidade. Face à lentidão do confronto, o Rei Enmerkar decidiu procurar o auxílio da deusa Inana [i.e. Ishtar], enviando o herói em busca dela. A deusa respondeu-lhe com uma parábola, mas o resto da história está perdido.

 

Pouco mais sabemos sobre este Lugalbanda, com excepção de uma informação um tanto ou quanto curiosa - no Épico de Gilgamesh, o famoso herói refere-se a si mesmo como "filho de Lugalbanda" (e de uma deusa). É provável que esse matrimónio tomasse lugar depois dos episódios que nos chegaram nas fontes da Suméria, com mais de 4100 anos, mas é pouco mais do que uma suposição. Mas, pelo menos, este mito não foi totalmente perdido nas areias dos tempos...

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03 de Setembro, 2019

"Henriqueida", um poema épico que poucos lêem

Quando pensamos em poesia épica temos em mente obras como a Ilíada, a Odisseia, a Eneida... ou, num contexto português, quase certamente Os Lusíadas de Camões. Porém, raramente se pensa é que para esses poemas se tornarem particularmente famosos existiram muitos outros que tiveram de ficar pelo caminho, de que os Anais de Énio são provavelmente o exemplo mais famoso, mas não o único.

Capa da obra

Hoje falamos da Henriqueida, um poema épico português de meados do século XVIII. Quase nada conseguimos descobrir sobre ele online, mas quando o fomos ler acabámos por perceber o porquê dessa grande ausência de informação - é, pura e simplesmente, uma obra bastante desinteressante. E a opinião não é somente nossa - pelo menos um outro leitor dela disse que se trata de uma "obra de merito mediocre, na opinião dos criticos, apezar da summa diligencia com que o auctor pretendeu reduzi-lo ás regras e preceitos epicos, de que era perfeito sabedor. O que lhe faltava unicamente era genio e gosto" (fonte).

 

O problema começa logo com o próprio tema - quem será o "Henrique" que dá título à obra? Talvez um épico sobre o Infante D. Henrique até fosse uma ideia muito interessante, mas o escolhido é aqui um outro Henrique, o de Borgonha, pai de Afonso Henriques.

Depois, se a obra até tem alguns instantes notáveis, parecem ser ainda mais aqueles que não o são. Por exemplo, no segundo canto Henrique encontra uma caverna secreta perto do Porto e Gaia, em que está escondida a Sibila e onde estão presentes algumas estátuas dos futuros monarcas portugueses. A ideia é interessante, mas relatada de uma forma tão cansativa, enfadonha.

É, talvez mais que tudo, essa grande falha desta obra. O autor parece ter estado tão preocupado com seguir um conjunto de regras formais, e em demonstrar o seu conhecimento da Antiguidade, que se parece ter esquecido de tornar o seu poema interessante para o leitor. Na verdade, o próprio autor, ao escrever este seu poema, sentiu a necessidade de o adornar com copiosas notas explicativas - mais de 700, ao longo dos 12 cantos - porque parecia saber que só assim os leitores o poderiam compreender...

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