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Mitologia em Português

Mitologia em Português

31 de Dezembro, 2019

Em busca da história da Princesa Magalona

Já ouviram falar da Princesa Magalona? Já foi muito famosa, mas hoje em dia está bastante esquecida. Podemos até dar um exemplo da sua popularidade - num famoso filme português, Aldeia da Roupa Branca, de 1939, surge uma breve sequência em que um grupo de crianças ensaia uma pequena peça de teatro. Nela estão representadas uma princesa, um pastor, uma bruxa e alguns anjos. Pouco depois, quem está a ensaiar a peça diz que a cena pertence à "nova história da Princesa Magalona, que eu comprei em Lisboa".

A Princesa Magalona

Aos mais curiosos poderia surgir uma questão - afinal de contas, quem é essa tal "Princesa Magalona"?

 

Em busca de uma resposta acabámos por descobrir que existe mesmo uma história com esse nome. Tratava-se, originalmente, de uma história medieval, que parece ter sido popular por toda a Europa e que até teve diversas edições em Portugal. Mas, nas edições a que tivemos acesso, já dos séculos XVIII e XIX, intituladas História verdadeira da princesa Magalona, filha d'El-Rei de Nápoles, e do nobre, e valoroso cavalheiro Pierres, Pedro de Provença, e dos muitos trabalhos, e adversidades, que passaram, sendo sempre constantes na fé, e virtudes, e como depois reinaram, e acabaram a sua vida virtuosamente no serviço de Deus, não existe qualquer referência ao momento mostrado no filme. De facto, a história do livro não tem quaisquer elementos mágicos, apresentando uma trama que muito se assemelha a tantos outros romances de cavalaria. E, na verdade, parte do seu conteúdo até é muito brevemente aludido no Dom Quixote de Cervantes, através de uma menção ao "rapto" de Magalona por Pedro.

 

Mas seria, então, a história presente no filme pura fantasia cinematográfica? Parecia-nos que sim, até que nos apercebemos da existência de diversas histórias tradicionais associadas ao nome de uma outra "Princesa Magalona", que não era a figura medieval e cuja herança ainda hoje pode ser encontrada no substantivo magalona, que o dicionário da Priberam diz tratar-se de uma "mulher vistosa, ataviada".

Nesse contexto, o breve momento do filme parece derivar de uma ligação entre duas tradições reais mas distintas - a personagem ter comprado um possível folhetim em Lisboa; e ele conter uma possível "nova" história de uma princesa cujo nome era bem conhecido nas histórias orais da época.

Esta possibilidade faz até sentido se tivermos em conta o carácter muito tradicional, quase estereotipado, das personagens da peça - a bela princesa, o pastor que não gosta da cidade, a feiticeira cujos poderes nada podem contra a religião cristã, etc. E se, nesse seguimento, a história aí parcialmente representada não parece existir de forma mais completa... até faria algum sentido que sim!

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26 de Dezembro, 2019

A verdadeira lenda da Porca de Murça

A "Porca" de Murça

Imaginem-se, por um breve momento, a passear na Vila de Murça, no norte de Portugal, conhecida pelo que é chamada a Porca de Murça. Ao cruzarem o Largo 31 de Janeiro poderão encontrar a estátua presente na imagem acima. Mas... o que vêem representado nela? É uma porca, um javali, um urso, ou um outro animal?

 

Queiramos ou não, a resposta a essa questão é um elemento fulcral da lenda da Porca de Murça. Numa dada altura esta estátua celta foi encontrada perto da povoação, e dela derivou a lenda de que, em tempos idos, um enorme animal tinha assolado aquela região, até que foi atacado e morto pelos habitantes, restando dessa grande batalha a memória imortalizada na estátua.

 

Mas, a acreditar nessa breve lenda, qual foi o animal a atacar os aldeões, e que pode ser visto tanto na estátua como no emblema da vila? Uma enorme porca? Uma ursa? Um javali? Outro animal? É, talvez mais que tudo, aquilo que nela quisermos ver, uma reinterpretação de uma antiga estátua, cujo significado original já há muito se perdeu nas areias do tempo.

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23 de Dezembro, 2019

Alguns ditados portugueses pouco conhecidos

Para celebrar esta quadra de Natal trazemos, desta vez, algo bastante inesperado - numa espécie de prenda, decidimos recordar alguns provérbios ou ditados portugueses dos Antigos que já poucos parecem conhecer nos nossos dias. Para quem estiver curioso, estes vieram da obra Tradições Populares de Portugal, de Leite de Vasconcelos, e de fontes orais a que fomos tendo acesso:

Uma pequena prenda de Natal

  • "Até ao Natal salto de pardal, de Natal a Janeiro salto de carneiro e de Janeiro a Fevereiro salto de outeiro." (Ou, em alternativa, "De Santa Luzia ao Natal, um salto de pardal, de Natal a Janeiro, um salto de carneiro.")
  • "Falar com sete pedras na mão."
  • "Joaninha voa voa, leva as cartas a Lisboa."
  • "Deus lhe dê tantos anos de vida como de palmos tem uma formiga."
  • "Pita que canta quer galo."
  • "Casa de pombos, casa de tombos."
  • "Bafo de cão até com pão."
  • "Bafo de gato que nem chegue ao fato."
  • "Miguel Monteiro, não és santo e queres ir no andeiro."
  • "Merda e o cagalhão não entram na confissão."
  • "Antes burro vivo que cavalo morto."
  • "Madrasta, o nome lhe basta."
  • "Ovelha que berra, bocado que perde."
  • "Das largas ceias estão as sepulturas cheias."

 

Festas Felizes para todos, com estes ditados portugueses que hoje são pouco conhecidos!

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21 de Dezembro, 2019

A origem do Presépio de Natal

Um presépio

Na Língua Portuguesa poucas palavras são tão singulares como presépio. Quase toda a gente parece saber o que significa, mas ao mesmo tempo é também um vocábulo quase completamente esquecido durante 11 meses do ano. E, na verdade, o nome "presépio" vem do Latim; entre os seus significados originais encontra-se o do local em que os animais domésticos comem, não somente a própria manjedoura (vista na imagem acima como o berço de Jesus Cristo), mas também todo um imaginário que a envolve.

 

Agora, se o local do nascimento de Jesus Cristo não é totalmente estável nas fontes literárias que temos - alguns autores falam de um estábulo, enquanto que outros se referem a uma caverna - porque é esta cena religiosa tão representada nos nossos dias? Bem, conta-nos a Vida de São Francisco de Assis (da autoria de São Boaventura), que por volta do ano 1233, na cidade italiana de Greccio, o santo decidiu representar a Natividade com o objectivo de recordar ás pessoas a verdadeira essência do Natal.

Segundo a mesma fonte, esse primeiro Presépio tinha já uma manjedoura, feno, um boi e um burro, mas não nos é dito se já apresentava outras figuras (sob a forma de pessoas reais ou estátuas). Foi celebrada uma missa em seu redor, cuja beleza levou os crentes às lágrimas, e após ser desmanchado foram vários os milagres suscitados pelo feno que aí tinha sido utilizado.

 

Foi através de esta singular ideia de São Francisco de Assis, feita com aprovação papal, que a representação do nascimento de Jesus Cristo entrou para o imaginário da Igreja, sendo depois disseminada para toda a Europa ao longo dos séculos. E foi também assim que o Presépio veio a entrar em nossas casas, tanto em Portugal como em muitos outros países pelo mundo fora.

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16 de Dezembro, 2019

Origem e significado da expressão "Bicho de sete cabeças"

Esta expressão, bicho de sete cabeças, parece ser utilizada tanto no masculino como no feminino, referindo-se frequentemente a uma bicha com as mesmas características. Mas, seja uma bicha ou um bicho, tanto o seu significado como a sua origem parecem ser as mesmas.

A Hidra de Lerna e Hércules

A expressão tem a sua origem no difícil confronto de Hércules com a Hidra de Lerna, de que já falámos anteriormente. Essa interrelação entre a expressão dos nossos dias e o antigo mito é fácil de notar se tivermos em conta que ela admite um certo grau de cepticismo, significando não só a uma situação complicada, mas uma também com um fundo mais imaginário do que real, em que provavelmente nem tudo é o que parece.

Assim, dizer a alguém algo como "Essa situação não é um bicho de sete cabeças" equivale a dizer-lhe que se encontra numa posição que não é tão difícil de superar como lhe poderá estar a parecer.

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12 de Dezembro, 2019

Como é desenhado um emblema? Um exemplo dos nossos dias

Há pouco mais de um mês que a Polícia Judiciária Militar passou a ter o seguinte emblema:

Emblema da PJM

Uma questão que os mais curiosos poderão ter passa pela simbologia por detrás de cada um destes elementos. O Diário da República explica-a da seguinte forma:

O dragão com a vara de meirinho, que alude à fidelidade da PJM à missão que lhe está legalmente confiada na persecução da administração da justiça; a estrela de seis pontas é um elemento associado às forças e serviços de segurança, considerada guia para a ação e repositório de nobreza, cujo número e disposição estabelece a ligação com as cinco quinas que constituem o símbolo do MDN, lembrando, por conseguinte, a dependência orgânica da PJM e, além de símbolo eminentemente militar, as quatro espadas abatidas também representam a virtude, a bravura e o poder, assim como a separação entre o bem e o mal, na persecução da justiça, consubstanciando, desta forma, o contributo firme da PJM na preservação do caráter imparcial da justiça nos três ramos das Forças Armadas e na Guarda Nacional Republicana. As cores predominantes são o ouro, representado pela cor amarela, simbolizando a nobreza, o poder, a generosidade, luz e elevação da mente, e o azul, associada ao zelo, lealdade, caridade, justiça e verdade.

No listel sotoposto, inscreveu-se o lema da PJM - «JUSTUM ET TENACEM» - locução latina cujo significado é «justo e tenaz». Trata-se do fragmento de um verso das Odes, de Quinto Horácio Flaco (65 a. C.-8 a. C.), famoso poeta da Roma antiga, comummente conhecido como Horácio.

Curiosa, a referência às Odes de Horácio, mas é igualmente interessante constatar que cada um dos elementos do emblema foi aí incluído graças a uma simbologia muito específica. É mesmo isso que estuda a Heráldica, "ciência dos brasões", e atente-se ao facto de alguns elementos - como o dragão, ou as espadas - terem um significado já tão conhecido que, como pode ser lido acima, pouco se questionam.

 

Essencialmente, e como pôde ser lido no exemplo acima, desenhar um emblema passa por ir associando diversos elementos simbólicos, bem conhecidos da Heráldica, com um determinado objectivo. Até seria uma actividade gira para os mais novos, ensinar-lhes alguns elementos básicos dessa ciência e pô-los a criar os seus próprios brasões... fica a sugestão!

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09 de Dezembro, 2019

Porque escrevemos Sintra e não Cintra?

Vista do Palácio da Pena durante a noite

Será que a famosa vila de Portugal deve ser chamada Sintra ou Cintra? Hoje é usada a primeira dessas formas, mas a outra também já foi bastante utilizada. E porquê? A explicação de hoje provém de uma nota sublime nas Religiões da Lusitânia, de Leite de Vasconcelos, com algumas ligeiras adaptações:

 

No séc. XVI, em virtude da confusão que na pronúncia do sul se estabelecia entre S e Ç, a palavra Sintra começou a pronunciar-se Cintra. Por isso os eruditos e poetas, que sabiam que aí tinha existido em épocas remotas o culto da Lua, mas que não sabiam que as explicações filológicas devem basear-se em documentos mais sólidos que os que provêm de mera fantasia, admitiram relações fonéticas entre Cintra e Cynthia, um dos epítetos latinos de Diana, deusa lunar [romana]. É assim que numa carta dirigida por el-rei D. Sebastião ao Pontífice, em 1570, se lê "Sintiae" (...), forma que tem da antiga o S, e da latina a terminação. Fr. Amador Arraiz (...) escreve Syntra e, falando de Scynthia, forma em que concorre o S e o C, diz «isto é, da Lua».

Esta falsa teoria continuou a vigorar nos séculos seguintes, até hoje. Na nota 110 da Henriqueida, poema de D. Francisco Xavier de Meneses, lê-se : «Cintra deve escrever-se com C, e não com S, porque lhe deu o nome Cinthia, que é a Lua, a quem este monte era dedicado». (...) E mais citações podiam ainda fazer-se. Do que fica dito nesta nota resulta:

1.°, Que a antiga ortografia, e portanto a preferível, é Sintra;

2.°, Que a ortografia Cintra é moderna, e devida a falsas ideias históricas de eruditos e poetas.

 

Interessante, não é? Mas, para mais curiosidades sobre a bela Sintra, pode sempre ser visitada ali a página do Caminheiro de Sintra.

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07 de Dezembro, 2019

Resumo dos doze Trabalhos de Hércules

Para quem ainda não os conhece, apresentamos aqui um breve resumo dos doze Trabalhos de Hércules. Começamos com três curiosidades muito importantes, depois uma pequena introdução a toda a história, e finalmente contamos um resumo individual de cada um dos trabalhos, que esperamos que agrade a todos aqueles que querem saber mais sobre estes temas!

 

Três Curiosidades sobre os Trabalhos de Hércules

Eles são 12 - ou, se preferirem, até 12+1 - porque, conforme nos informa Sérvio, esse seu número advinha do número dos doze signos do Zodíaco. Estaria ele completamente certo? Não sabemos, até porque existem diversas opiniões para justificar esse número em particular, mas bastará dizer que o número era simbólico.

Sobre a sua ordem, seguimos aqui a versão da Biblioteca atribuída a Apolodoro, mas tanto na Antiguidade como na Idade Média existiam diversas outras opiniões, numa sequência que começava tipicamente pelo Leão da Nemeia (para justificar porque o herói tem uma pele de leão nas suas costas) e pela Hidra de Lerna. Já os mitos finais - em particular o das maçãs e o de Cérbero - tendem a aparecer quase sempre nessa posição, até por serem os mais difíceis de cumprir.

Quanto à sua composição, devemos dizer que ela é relativamente estável ao longo do tempo. Alguns autores adicionam-lhe, por exemplo, um combate com Aqueloo, ou a destruição de Anteu, mas não são adições muito frequentes e vêm quase sempre de fontes tardias - os Contos da Cantuária, por exemplo, acrescentam até um trabalho com Caco!

Os Doze Trabalhos de Hércules

Breve introdução aos doze Trabalhos de Hércules

Hércules - ou, se preferirem o nome grego original, Héracles - é, sem qualquer dúvida, o maior e mais famoso herói da Mitologia Grega. Muitas foram as suas aventuras, mas as mais famosas resumem-se nos doze trabalhos do herói. Conta-se então que, numa dada altura da sua vida, este herói foi enloquecido pela deusa Hera e matou a sua própria mulher, Mégara, e os filhos de ambos. Depois, quando se apercebeu do que tinha feito, foi ao Oráculo de Delfos para saber como podia ser perdoado; o deus Apolo disse-lhe que isso só aconteceria se ele fosse ter com Euristeu, rei da cidade de Micenas, e cumprisse dez difíceis tarefas para ele. O herói aceitou fazer isso, e começaram então estes doze trabalhos de Hércules:

 

Hércules e o Leão da Nemeia

O primeiro de todos os Trabalhos de Hércules envolveu o Leão da Nemeia, filho dos monstruosos Tífon e Equidna, numa aventura que passou por três momentos essenciais. No primeiro deles, Hércules tentou atacar o leão com alguma arma (uma clava, espada e flechas), apenas para vir a descobrir que essas acções não surtiam qualquer efeito, porque este monstro tinha uma pele completamente invencível. No segundo, incapaz de derrotar o seu opositor com os artifícios anteriores, o herói atacou-o com as suas próprias mãos, acabando por sufocá-lo. Finalmente, Hércules arrancou a pele ao Leão da Nemeia e passou a usá-la ás costas - pelo menos um relato do episódio diz que o fez usando as próprias garras do monstro que derrotou!

 

Hércules e a Hidra de Lerna

Sabemos que a batalha entre Hércules e a Hidra de Lerna teve lugar no pântano de Lerna, local onde a criatura vivia. Esse é um ponto assente em todas as versões do mito, mas este é também um confronto cujos contornos essenciais vão sendo alterados ao longo dos séculos. Sabemos que o herói teve auxílio de um companheiro, Iolau, que a sua opositora tinha algum veneno no corpo (extraído após a sua morte) e que durante o confronto o semideus foi incomodado por um caranguejo, mas alguns elementos nem sempre são tão constantes como se poderia pensar - o número original das cabeças varia, e a criatura nem sempre consegue gerar novas cabeças, apesar dessas características serem agora muito famosas.

Temos, porém, a certeza de que Hércules derrotou a Hidra de Lerna, que o caranguejo foi vencido e colocado entre as estrelas, e que o herói sempre foi ajudado por alguém, razão pela qual este trabalho não seria aceite por Euristeu, aumentando o inicial número de 10 trabalhos para 11. Também temos a certeza que algum fluido deste monstro era venenoso, razão pela qual o herói acabou por nele banhar as suas setas, que se tornariam importantes em pelo menos dois mitos futuros, o da morte deste herói e o de Filoctetes em Tróia.

 

Hércules e a Corça de Cerineia

Se os dois Trabalhos de Hércules anteriores são sempre mencionados na mesma ordem, já os que se seguem tendem a ocorrer em ordens diferentes mediantes as fontes. Seguindo sempre a versão de Pseudo-Apolodoro, o terceiro foi o confronto entre Hércules e a Corça de Cerineia. Contrariamente ao que sucedeu com os dois opositores anteriores, o objectivo aqui não era tanto o de matar a criatura mas sim de conseguir capturá-la viva, seja por este se tratar de um animal dócil, ou por estar consagrado à deusa Ártemis (que certamente não permitiria a sua destruição).

As diversas versões deste confronto entre Hércules e a Corça de Cerineia parecem apresentar dois elementos consistentes - a corça tinha chifres de ouro, e o herói teve de a perseguir por algum tempo antes de a conseguir capturar. Menos comuns são referências ao facto da corça poder ter sido uma figura humana transformada em animal devido à inveja de Ártemis, ou que o herói teve de a ferir para conseguir capturá-la.

 

Hércules e o Javali do Erimanto

A luta contra o Javali do Erimanto foi o quarto trabalho de Hércules. Pouca ênfase lhe parece ser dada na literatura existente; ele tratava-se de um animal feroz, que destruía tudo por onde passava e sabemos que o herói o capturou, mas sem que tenhamos qualquer informação mais concreta sobre como o fez, ou que dificuldades encontrou pelo caminho. Sabemos, porém, que foi durante este episódio de Hércules e o Javali do Erimanto que o herói teve um confronto com os Centauros, feriu mortalmente Quíron, e que à captura do Javali do Erimanto se seguiu um episódio engraçado e bastante ilustrado nos vasos gregos, em que Hércules apresentou o animal a Euristeu, mas este monarca teve tanto medo que se escondeu dentro de uma enorme jarra.

Um dos doze Trabalhos de Hércules

Hércules e os Estábulos de Áugias

O quinto trabalho, o de Hércules e os Estábulos de Áugias, é pautado por alguma incerteza. Sabemos, efectivamente, que o herói teve de limpar os estábulos dos imensos rebanhos do rei Áugias, e que na sequência dessa tarefa o rei negou ao herói um pagamento que lhe tinha prometido, dizendo-lhe que era a sua tarefa fazer o que tinha feito sem esperar qualquer tipo de recompensa. Então, a personagem principal matou o rei e deu esse reino ao filho deste, Fileu.

É possível que tenha existido uma versão deste episódio dos Estábulos de Áugias em que a figura faz todo o trabalho com as próprias mãos, mas nas versões mais famosas a situação tende a ser resolvida com o desvio de um curso de água próximo. A menção de que Hércules tinha de cumprir a tarefa num só dia parece ser mais recente que o resto da trama.

Deve também adicionar-se que graças ao facto do herói grego ter empreendido esta tarefa por dinheiro, Euristeu lhe negou o crédito, acrescentando ao seu número original de 10 trabalhos mais um, tornando-os agora num total de 12.

 

Hércules e os Pássaros do Lago Estínfalo

O encontro entre Hércules e os Pássaros do Lago Estínfalo foi o seu sexto trabalho. Ele tinha aqui de defrontar essas criaturas, com alguns autores a dizerem que elas eram carnívoras. No entanto, mediante as fontes o objectivo final deste trabalho parece diferir, existindo duas grandes versões - na primeira delas é-nos apenas dito que o herói tinha de afastar esses animais do local, enquanto que na segunda também tinha de os destruir. Em ambos os casos Hércules afasta os Pássaros do Lago Estínfalo com recurso a um qualquer tipo de instrumento musical, mas nas versões em que também tem de os matar fá-lo com as suas flechas ou com os projécteis lançados por uma espécie de fisga.

 

Hércules e o Touro de Creta

Sétimo trabalho na contagem de Pseudo-Apolodoro, o de Hércules e o Touro de Creta, em que foi pedido ao herói que capturasse esse famoso bovino vivo. O requisito de não matar o animal é de alguma importância, já que o herói Teseu acabaria por mais tarde defrontar o mesmo animal nas planícies de Maratona. De um modo geral sabemos que Hércules cumpriu esta tarefa do Touro de Creta com alguma facilidade, mas um aspecto extremamente importante deste mito passa pela identidade do próprio touro. Poderá parecer uma afirmação estranha para leitores mais incautos, mas mediante a fonte literária consultada são dadas diferentes proveniências ao animal, podendo tratar-se do touro que transportou Europa para Creta (que, como é óbvio, então não se trataria de uma transformação de Zeus), do que foi enviado pelo deus dos mares e por quem a esposa de Minos se apaixonou (o pai do Minotauro, frise-se), ou de algum outro animal que em comum com os anteriores bastaria ter a forma bovina.

 

Hércules e as Éguas Antropófagas de Diomedes

O episódio de Hércules e as Éguas Antropófagas de Diomedes foi o oitavo, mas é um mito muito mais complexo do que nos poderia parecer a uma primeira vista, sendo apenas constantes dois elementos em todas as suas versões - que as éguas eram antropófagas e que o seu dono e criador, Diomedes, morreu ao defendê-las.

No decurso de trama pelo menos uma figura é devorada pelas Éguas Antropófagas de Diomedes; frequentemente é o próprio monarca a sofrer esse destino, sendo-nos dito que consumi-lo acalmou os animais, facilitando a tarefa de os transportar. Mas também o destino final desse equídeos varia de versão para versão, sendo elas destruídas ou consagradas aos deuses por Hércules.

 

Hércules e o Cinto de Hipólita

Esta sequência de Hércules e o Cinto de Hipólita, a que Pseudo-Apolodoro atribuía o nono lugar, também pode ser vista como de alguma complexidade, na medida que parecer ter evoluído bastante ao longo dos séculos. Se em fontes mais antigas o principal objectivo parecia ser o de derrotar as Amazonas em combate (servindo um cinto somente como prova desse feito), nas mais recentes o objectivo final já parte de um pedido da filha de Euristeu, que desejava, por alguma razão que não é muito clara, possuir o cinto de uma rainha desse povo guerreiro.

Independentemente da razão inicial para esta demanda, terá existido um confronto guerreiro com as Amazonas, em que pelo menos dois heróis, Hércules e Peleu, tiveram algum papel importante. Mais tarde, o semideus consegue um cinto, seja o de uma outra amazona ou o próprio Cinto de Hipólita (nesse caso sendo ela vista como uma rainha), conquistando-o no campo de batalha, e apresenta-o a Euristeu.

Tenha-se também em atenção que um elemento de romantismo entre Hércules a Hipólita, ou uma qualquer outra interveniente feminina, é apenas mencionado em algumas versões mais tardias do mito, não parecendo ocorrer nas mais antigas.

 

Hércules e o Gado de Gerião

O décimo trabalho foi o de Hércules e o Gado de Gerião. E neste ponto devemos relembrar que se inicialmente teriam sido propostas ao herói dez tarefas diferentes, este número foi sendo aumentado para 12 devido a duas que Euristeu se recusou a considerar na sua própria contagem; falamos, como já foi indicado antes, das relativas à Hidra (na qual o herói teve ajuda de Iolau) e aos estábulos de Áugias (que o herói completou também devido a uma promessa de compensação monetária). Faltam, então, neste ponto da trama ainda três tarefas adicionais. O principal objectivo desta aventura era capturar o Gado de Gerião, trazendo-o para Micenas e Euristeu. Porém, dada a sua extensão (é, creio eu, o mais complexo de todos os trabalhos deste herói), parece-me justo dividir a aventura em três sequências.

Na primeira parte do mito Hércules precisa de viajar até ao local onde vivia Gerião, que muitos autores diziam tratar-se de Gadeira (actual Cádiz, em Espanha). Fez parte da viagem a pé mas mais cedo ou mais tarde sentiu tanto calor que acabou por ameaçar Hélio, o Sol, com as suas flechas.

Chegando depois ao local onde residia Gerião, Hércules combateu contra o cão (ou cães) e o pastor de Gerião, antes de defrontar essa figura, uma das mais singulares de toda a mitologia grega, em relação à qual é dito que tinha "três corpos". Seria difícil de definir, essa sua figura, se não fosse o facto de ser muitas vezes representado em combate nessa sua invulgar junção.

Após este episódio é claro que o herói capturou o gado de Gerião, levando esses touros de volta para Micenas por terra. São muitas as aventuras que também então tomaram lugar, devendo ser feita uma referência ao facto de diversos mitos etiológicos derivarem da pessagem do herói por diversas regiões (aqui pode ser visto um exemplo bem recente) , incluíndo algumas invulgares inovações gnósticas que só ocorrem já nos primeiros séculos da nossa era.

 

Hércules e as Maçãs das Hespérides

Para Pseudo-Apolodoro o trabalho de Hércules e as Maçãs das Hespérides era o décimo-primeiro, mas que alguns autores também dizem ter sido o último, invertendo a ordem com a captura de Cérbero, de que falaremos abaixo. Hércules procura aqui apanhar as famosas maçãs, mas depara-se desde logo com o enorme problema de descobrir a sua localização concreta. Após diversas viagens, em que usa (novamente?) a taça de ouro de Hélio que já foi referido no mito anterior, salva Prometeu da águia que o atacava todos os dias. É nessa sequência que o titã o aconselha a não continuar a procura por si mesmo, mas sim pedir a Atlas que lhe traga essas Maçãs das Hespérides; este acede em fazê-lo, mas depois do famoso semideus tomar o globo do mundo nas suas costas ele volta atrás na sua palavra, escapando Hércules da árdua tarefa através de um pequeno subterfúgio.

Há que também ter em conta a existência de versões menos conhecidas, em que o herói procura as maçãs por si mesmo, acabando por derrotar, de alguma forma, um dragão que as guardava e até visitar as próprias Hespérides.

Outro momento dos doze trabalhos de Hércules

 

Hércules e Cérbero

O trabalho entre Hércules e Cérbero era, de acordo com Pseudo-Apolodoro, o último dos doze, pelo que muitos autores o equacionam a uma vitória sobre a própria morte. Ainda assim, pouco sabemos sobre as circunstâncias em que teve lugar a captura de Cérbero; é provável que tenha passado por algumas dificuldades na sua descida ao reino dos mortos, que o herói tenha obtido permissão de Hades e/ou Perséfone para "levar emprestado" Cérbero, que possa ter existido uma qualquer condição para esse empréstimo e que Euristeu se tenha (novamente) escondido ao ver a terrível figura do monstro, mas pouco sabemos sobre cada um desses eventos, fruto de falta de informação horizontal consistente sobre este derradeiro desafio. Sabemos, porém, que mais tarde o herói levou este cão de três cabeças de volta ao reino de onde tinha vindo, provavelmente um dos requisitos que os deuses do submundo lhe tinham imposto.

 

Hércules e as Filhas de Téspio

Convém ainda mencionar aquele que alguns autores consideram um décimo-terceiro trabalho para o herói, o de Hércules e as Filhas de Téspio. É muito menos conhecido do que os anteriores, e não costuma aparecer nas contagens "oficiais", mas conta-nos como Hércules dormiu com as filhas de Téspio ao longo de 50 noites consecutivas, engravidando-as a todas (ou quase, em algumas versões uma delas não tem relações sexuais com o herói, tornando-se depois uma sacerdotisa virgem), de forma a cumprir um desejo do pai destas. Importa esclarecer que se tratavam de 50 gémeas, razão pela qual o semideus provavelmente pensava que se estava a deitar com a mesma mulher por múltiplas vezes.

Cronologicamente, este não poderia tratar-se do último trabalho (tomou lugar antes de todos os outros), apesar de alguns autores, como Tzetzes (Quilíadas 2.503), se referirem a ele como tal.

 

Para terminar, alguma dúvida sobre estes doze Trabalhos de Hércules?

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05 de Dezembro, 2019

O mito português de Endovélico?

Face de Endovélico

Sobre o mito português de Endovélico, há que esclarecer que a grande maioria dos mitos que vão sendo contados por cá provêm da Grécia Antiga ou do tempo dos Romanos. Temos acesso a esse conhecimento porque os autores da altura decidiram deixar-nos, por escrito, algumas das histórias que envolviam cada uma dessas divindades e heróis. Contudo, o caso desta figura divina é significativamente diferente.

 

Endovélico é conhecido como o mais popular dos deuses (ou heróis divinizados?) da Península Ibérica na Antiguidade. Mas, mesmo se tratando, aparentemente, de uma importante divindade nativa, nenhum autor grego ou romano nos fala dele, nem nenhum autor ibérico a ele se refere com informação credível. E, na verdade, nada saberíamos hoje sobre esta figura não fosse o facto de terem sido encontrados diversos ex-votos com o seu nome, como aquele que pode ser visto na imagem acima, juntamente com uma cabeça que se supõe ser de Endovélico. A pouca informação que temos (ver, por exemplo, aqui um interessante artigo de José D'Encarnação que a resume) permite-nos perceber alguns dos seus contornos e poderes, mas nada nos diz sobre alguma possível história real que possamos associar a esta figura ou ao seu santuário de São Miguel da Mota.

 

Nesse sentido, se Endovélico até é uma divindade de uma importância inegável na cultura ibérica, procurar um mito associado a ele é uma tarefa impossível. Nenhum autor nos parece ter deixado a sua história real, sendo ele, para nós, pouco mais que um mero nome de um passado há muito esquecido.

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05 de Dezembro, 2019

Sobre a lenda de Avalon

Um castelo no nevoeiro

Onde é Avalon, e quais as suas grandes lendas? Quem decidir partir em busca dessa informação depressa se aperceberá de um problema - a primeira referência a um lenda de Avalon é feita nas obras de Geoffrey of Monmouth, figura muito ligada às lendas arturianas, mas nada nos seus relatos nos indica que seja um local verdadeiro. Pelo contrário, Avalon é representada como uma ilha lendária, com contornos mágicos e muito misteriosos, onde foi forjada a espada Excalibur e onde, após a sua derradeira batalha, o Rei Artur descansa até ao momento do seu regresso profético.

 

Face a essa falta de informação original sobre Avalon, o que aconteceu foi que à medida que as lendas arturianas se foram desenvolvendo, os mais diversos autores sentiram necessidade de tornar bem real o famoso provérbio "quem conta um conto aumenta um ponto", adicionando cada vez mais tradições às histórias e elaborando cada vez mais sobre os contornos da lenda de Avalon - características essas que, originalmente, a ilha ainda não tinha, e que foram somente fruto de sucessivas gerações de autores com necessidades muito distintas. Por exemplo, as agora famosas "brumas de Avalon" surgiram para explicar o porquê da ilha não poder ser encontrada facilmente...

 

Na verdade, a lenda de Avalon em Geoffrey of Monmouth não é a mesma que em Chrétien de Troyes, Thomas Malory, ou de Marion Zimmer Bradley. Cada um deles (entre muitos outros...) adicionou novos elementos a uma mesma lenda, dando contornos mais reais a uma Avalon que, originalmente, era uma pura ficção lendária - se não o fosse, qualquer pessoa poderia ir salvar o Rei Artur do seu túmulo eterno (e não há memória de que alguém o tenha tentado), acabando as lendas arturianas com a sequência em que esse famoso rei, desaparecido em Camlann, se retira para uma espécie de paraíso terreno, então chamado Avalon...

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