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Mitologia em Português

Mitologia em Português

28 de Fevereiro, 2020

A invulgar história de Ganga e Shantanu, provinda do "Mahabharata"

Ganga, Shantanu e o filho

Se são muitos os mitos belíssimos presentes no Mahabharata, também serão poucas as pessoas que os conhecerão em Portugal e no Brasil. Por isso, para terminar este mês dedicado (quase) exclusivamente aos mitos e lendas decidimos contar uma pequena história que provém dessa obra, a de Ganga e Shantanu.

 

Um dia, enquanto o rei Shantanu passeava próximo do rio Ganges, viu a mais bela mulher que alguma vez lhe tinha cruzado o olhar. Num momento de desespero, com medo de que não mais a tornasse a ver, pediu-lhe que casasse com ele. Esta aceitou, mas com uma pequena condição - o rei nunca poderia questionar qualquer uma das decisões que ela tomasse.

Os anos passaram e o casal teve um filho - e Ganga afogou-o. Tiveram um segundo - e Ganga afogou-o. Nasceu um terceiro - e Ganga afogou-o. Tiveram sete filhos, e por sete vezes a esposa os afogou, mas Shantanu, apesar de desesperado com estes acontecimentos, nunca questionou a esposa.

E então nasceu um oitavo filho. Quando Ganga se preparava para o afogar, o rei, num acto do mais derradeiro desespero, decidiu questionar a esposa - "Porque o fazes? Porque afogas todos os nossos filhos?"

 

Antes de continuarmos esta história há que deixar uma pequena referência cultural imprescindível para a compreender - se a nós, criados na cultura ocidental e num meio eminentemente cristão, a conclusão poderá parecer um tanto ou quanto estranha, para os Hindus, e para todos aqueles que acreditem na vida humana como um ciclo repetitivo de existências, isto faz o mais completo sentido (pense-se até numa famosa ideia grega, "o melhor para todos os seres humanos é nunca ter nascido, mas ao terem-no feito, morrer o mais cedo possível"):

 

A esposa, Ganga, reencarnação do próprio Ganges, decidiu então revelar-lhe a verdade. Falou-lhe de uma maldição do deus Brama, segundo a qual oito divindades teriam de reencarnar no mundo dos vivos, mas poderiam falecer no seu primeiro ano de vida e assim retornar logo ao reino dos deuses. Ganga tinha libertado sete deles, mas o oitavo, impedido de morrer pelas acções de Shantanu, iria viver uma vida longa e virtuosa, mas sempre sem ter mulher ou filhos. Depois, como que por magia, Ganga desapareceu e levou o filho consigo, deixando o rei no maior de todos os sofrimentos.

 

O filho, cujo nome ainda não é dado nesta sequência, viria posteriormente a reencontrar Shantanu e a tornar-se uma personagem importante no próprio Mahabharata, mas essa continuação já foge ao tema de hoje - uma história de amor e compaixão, que a nós nos poderá parecer estranha, mas que para o seu público original tinha uma excelente razão de ser.

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27 de Fevereiro, 2020

A lenda da origem da Sopa da Pedra

Uma sopa parecida com a da pedra

De entre as muitas lendas que nos recordamos de ter ouvido nos nossos tempos de juventude conta-se a da origem da Sopa da Pedra. Mas quando há alguns dias a comíamos em terras do Alentejo, uma das nossas colegas desconhecia a história por detrás da estranha designação. Face a esse problema (e também para que ninguém se queixe do facto de ontem não termos contado mesmo uma lenda portuguesa), nada como recordarmos a origem deste prato:

 

Conta-se que um dado dia um monge se encontrou numa terra que desconhecia. Estava cheio de fome, mas não tinha qualquer dinheiro consigo. Pediu esmola aqui, ali, acolá, mas naquele triste dia ninguém estava interessado em ajudá-lo. Então, pegou numa qualquer pedra que viu no caminho e, aproximando-se de um popular que ainda não tinha interpelado antes, disse-lhe que estava a planear fazer uma sopa da pedra.

A expressão na cara do veraneante foi de grande confusão. "Sopa da pedra? Isso existe?" Por três vezes o monge lhe disse que sim, e por três vezes o homem se mostrou incrédulo. Então, o religioso ofereceu-se para cozinhar essa sopa, de forma a provar-lhe a completa veracidade da mesma. O homem, na maior das curiosidades, naturalmente que aceitou.

Então, o monge começou por aquecer uma panela com água e colocou a pedra no seu interior. Esperando alguns minutos, provou um pouco do caldo com uma colher de pau e disse "Hum... está muito boa, esta sopa da pedra, mas ficaria ainda melhor com um pouco de feijão." O homem deu-lhe o feijão. Minutos depois a cena repetiu-se - "Sabe o que ficaria fantástico aqui? Uma orelha de porco." Novamente, o homem concedeu-lhe esse sugestão. E assim se repetiram os pedidos, uma e outra vez, com o monge a pedir outros ingredientes - um pouco de chouriço, umas gramas de toucinho, cebolas e alho, umas batatinhas, fatias de pão, uma pitada de sal... e no final, o monge e o seu novo amigo deleitaram-se com um belo petisco!

 

Esta lenda partilha de um conjunto de elementos comuns em outras histórias de todo o mundo, em que ao abrigo da ideia de cozinhar uma sopa "impossível" uma personagem vai conseguindo os ingredientes para cozinhar um prato bem real. Porém, se a sopa da história é verdadeiramente deliciosa, quem quiser prová-la sairá parcialmente gorado - são poucos os restaurantes que hoje em dia a servem com a famosa pedra. Se poderá parecer algo pouco importante - "a pedra não se come, não é?!" - de um ponto de vista simbólico poderia colocar-se uma na beira do prato, em memória da sua origem lendária...

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26 de Fevereiro, 2020

A não-lenda da Cruz da Poupa

Para a última "lenda" portuguesa deste mês decidimos falar de algo pouco vulgar.

Uma Poupa

Há uns meses pássamos por um local chamado "Cruz da Poupa". Numa das ruas próximas encontrámos uma representação antiga de uma poupa - o pássaro mostrado acima - poisada próxima de uma fonte e de um cruzeiro, mas já ninguém nos soube dizer de onde vinha o nome do local. Na verdade, pouco mais nos souberam informar do que "eu vivo aqui há mais de 80 anos e sempre conheci o local por esse nome". Insistimos. "Sim, havia ali umas ruínas, mas a gente não ligava a nada disso". Só isto.

 

O mistério, como já é costume, não pôde deixar de nos fascinar. A representação próxima do local deixa clara a existência de um pássaro (com a penugem acima da cabeça que é bem característica à poupa), por oposição a uma "popa" de qualquer outro tipo. Deixa igualmente clara a existência de um cruzeiro, que ainda está no local. E deixa ainda clara a presença de uma fonte, mas que já não existe.

 

Esta seria, normalmente, a altura em que contávamos como descobrimos a resposta, e qual era, afinal de contas, esta lenda oculta da Cruz da Poupa, mas neste caso especifico não foi possível encontrá-la. Segundo apurámos, em inícios do século XX o cruzeiro estava parcialmente destruído, mas ainda existia uma mina de água no local, levantando a possibilidade da existência anterior de uma fonte, desaparecida em data incerta. Se a lenda original unia, de alguma forma muito significativa, o pássaro à cruz e à fonte, é possível que o desaparecimento do último elemento tenha levado ao esquecimento progressivo de toda a trama. O que, para nós, é muito triste, porque representa a perda de um património cultural irrecuperável, como aquele que algumas vezes ainda tentamos preservar por cá...

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25 de Fevereiro, 2020

Quem quer dormir dentro do Cavalo de Tróia?

Um hotel em forma de Cavalo de Tróia

Poderia até parecer uma brincadeira de Carnaval, mas já é mesmo possível dormir dentro de uma espécie de Cavalo de Tróia.

O Hotel La Balade des Gnomes, em Heyd (comuna de Durbuy, na Bélgica), tem diversos quartos temáticos, entre eles um que, exteriormente, se assemelha muito ao Cavalo de Tróia dos mitos. O preço por noite, para quem tiver curiosidade, é de 260€ para duas pessoas. Para mais informação, e algumas imagens extra, bastará carregar na imagem acima.

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24 de Fevereiro, 2020

O mito do Rapto de Europa

Rapto de Europa em mosaico

De um ponto de vista cultural e artístico é possível que este seja um dos mais famosos mitos da Grécia Antiga, estando muito bem representado nos mais diversos lugares - de facto, clicando na imagem acima, até podem comprar, a um preço muito razoável, um mosaico com esta cena mitológica para vossa casa (e convém deixar claro que, infelizmente, não fomos pagos para dizer isto). Recorde-se então o mito:

 

Europa era uma jovem de grande beleza. Um dia, enquanto apanhava flores numa área próxima de uma praia, ela e as companheiras viram um touro de enorme beleza. Curiosas, afagaram-lhe a face, cobriram-no de carinhos, mas somente Europa teve a coragem de subir para o seu dorso. E, quando o fez, o touro rapidamente se pôs em corrida, chegando até a passar pelo próprio mar, como se de um simples prado se tratasse.

Levando-a para a ilha de Creta, o touro revelou-lhe então a sua verdadeira identidade - era Zeus, que queria consumar a sua paixão pela jovem! Dessa relação viriam a nascer diversos rebentos, os mais famosos de entre eles provavelmente Sarpédon e Minos.

 

Normalmente, o mito termina por aqui. Algumas fontes até dizem que Europa casou com um Astério, rei de Creta, mas ninguém parece ter dedicado muito tempo ao destino final da heroína. Sabemos, pelo menos, que Cadmo, cujo pai comum encarregou de procurar o paradeiro da irmã, jamais a tornaria a reencontrar em vida, e terá sido pelos seus constantes gritos de "Europa! Europa! Onde estás tu?" que, em termos de pura lenda, o nosso continente ficou conhecido por esse nome. Dificilmente terá sido verdade, mas... é uma bela história da Mitologia Grega para justificar o nome do nosso continente, não é?

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23 de Fevereiro, 2020

Encontrado o túmulo de Rómulo?!

Túmulo de Rómulo (fotografia de Andrew Medichini/AP)

Recentemente foi encontrado em Roma o túmulo de Rómulo, mas só hoje foram publicadas fotografias do local (ver acima, podem carregar na imagem para ler mais sobre o assunto, em Inglês), daí termos demorado alguns dias a escrever estas linhas. O curioso é que não existia qualquer esqueleto no seu interior. Porquê?

Porque, como contámos anteriormente, acreditava-se que esta figura fundadora de Roma não tinha morrido; como tal, a existência do seu corpo era impossível, sendo este túmulo exclusivamente o local em que era prestado um culto significativo ao herói.

Esta é uma novidade interessante, pelo que convém adicionar que, segundo lemos, se espera que o local possa vir a ser visitável pelo público dentro de dois anos.

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23 de Fevereiro, 2020

Porque está um tritão representado no Palácio da Pena?

Pórtico do Tritão

Quem visitar o chamado "Pórtico do Tritão", no Palácio da Pena, em Sintra, poderá ver uma belíssima representação de um tritão, um deus marinho menor, por cima de uma das portas. Mas o que faz esse monstro marinho no local? Bem, se consultarmos um site "oficial" do local, aqui, podemos ler o seguinte:

Há duas possíveis origens para este Tritão, ambas literárias. Uma é a obra de Damião de Góis de 1554, onde é mencionado um Tritão que tinha sido avistado a cantar com uma concha numa praia perto de Colares. Mas também Luís de Camões menciona um Tritão no Canto IV dos Lusíadas, cuja descrição lembra o monstro da Pena.

Esta informação sempre nos pareceu enganadora, na medida que poderá dar ao leitor a sensação de que a associação de um tritão à cultura portuguesa nasceu no século XVI. Quando tanto Damião de Góis como Camões se referem a um tritão, fazem-no quase certamente porque em diversas fontes da Antiguidade (nomeadamente Plínio e Cláudio Eliano, se a memória não nos engana) existiam referências à existência de uma caverna próxima de Lisboa em que podia ser ouvido o canto de um tritão.

Esses autores nunca nos falam da região de Colares (essa identificação parece provir de Damião de Góis), nem são muito específicos no local do acontecimento, dizendo-nos exclusivamente que era próximo da cidade que viria a ter o nome de Lisboa. Mas o que esta menção tem de notável é o facto de ser um dos mais antigos mitos associados à futura capital de Portugal, juntamente com o dos cavalos lusitanos, o da suposta fundação da cidade por Ulisses e o do Tejo (de que falaremos algum outro dia).

 

Dada a fama dos mitos, é natural que tanto Damião de Góis como Camões tenham decidido torná-los parte das suas obras, imortalizando-os entre uma nova audiência. E, nesse seguimento, se o tritão do Palácio da Pena é mesmo o referido nestas duas obras (algo de que não temos a certeza...), faz todo o sentido que tenha sido representado no local pela sua relação com os antigos mitos, os mais antigos associados ao nosso país e, por isso, um digno exemplo da história mitológica de Portugal.

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21 de Fevereiro, 2020

A lenda da Cadeira do Diabo

A lenda de hoje vem de Espanha, mais precisamente de Valladolid:

 

Em meados do século XVI desapareceu uma criança em Valladolid. Os habitantes da cidade muito procuraram pelo desparecido, até que um deles ouviu estranhos barulhos vindos da casa de um tal "Andrés de Proaza", estudante de Medicina e supostamente tanto português como judeu. Em busca de respostas, entraram nessa casa e viram Andrés sentado numa cadeira, enquanto que na mesa próxima estavam os corpos dissecados da criança desaparecida e de diversos animais.

Andrés contou aos presentes que tinha feito um pacto com o Diabo e que este lhe tinha dado uma cadeira com poderes sobrenaturais - quem nela se sentasse ou receberia todo o conhecimento do mundo, ou acabaria morto em três dias.

Face ao abominável pacto, ou talvez pelos seus crimes bem reais, Andrés foi morto na forca, mas ninguém parecia saber o que fazer com a cadeira, temendo-se que a sua destruição levasse aos mais diversos malefícios. Então, ela foi passando de mão e mão até aos nossos dias, dizendo-se que todos aqueles que nela se sentaram morreram pouco depois.

A Cadeira do Diabo

Existem outras versões da história, nomeadamente em que é dito que só morreria quem nela se sentasse e não tivesse perfeitos conhecimentos de Medicina, mas contamos aqui apenas o essencial da história.

A infame cadeira pode ser vista na imagem acima, mas atente-se a um pormenor delicioso, o facto de uma pequena corda dificultar que alguém se tente sentar nela. Estará ela realmente embruxada pelo diabo? Fica o convite de que quem passar por essa cidade espanhola visite o Museu do Palácio de Fabio Nelli e faça a tentativa.

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19 de Fevereiro, 2020

A lenda da Bezerra de Monsanto

A lenda de hoje tem de começar com uma pequena história a ela acessória - quem viver perto de Lisboa certamente que conhece o parque florestal com o nome de Monsanto. Porém, quando há uns anos inquirimos sobre uma possível origem do nome, foi-nos contada uma lenda de outro Monsanto, uma pequena vila próxima de Idanha-a-Nova. É essa segunda lenda que aqui recordamos hoje, a primeira ficará para outro dia.

Uma bezerra gordinha

Conta o povo que há muitos, muitos séculos atrás, o local que se tornaria a aldeia de Monsanto foi cercado pelos Romanos. Durante quase uma década que estes cercaram o castro, enquanto que os habitantes locais se tentavam aguentar como podiam. Numa dada altura, já quase sem qualquer espécie de alimento, consideraram capitular. Discutiram essa possibilidade uma e outra vez. Enquanto que alguns queriam desistir, outros queriam resistir até à sua própria morte.

Foi nesse contexto que uma jovem sugeriu tentar-se algo de muito pouco vulgar - quis pegar na última bezerra que tinham, enchê-la da comida ainda restante e depois oferecê-la aos Romanos. Assim o pensou, de semelhante forma o sugeriu, e ainda melhor o fizeram os habitantes da localidade.

Os atacantes, vendo então uma bezerra tão gorda, que os futuros Portugueses tão gentilmente lhes ofereceram após tantos anos de cerco, acreditaram que estes ainda tinham comida e bebida para muitos mais anos, e como tal decidiram retirar-se, desistindo de conquistar o local.

 

É uma bela lenda, esta conhecida sob o nome da Bezerra de Monsanto, mas não é totalmente original. Histórias semelhantes já eram contadas na Antiguidade, em que uma povoação era salva da destruição de um cerco tomando partido de um derradeiro gesto semelhante a este... seria mera coincidência, ou estaria a jovem de Monsanto também familiarizada com esses outros exemplos, usando-os em seu proveito na situação em que se encontrava? Só ela saberia responder...

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17 de Fevereiro, 2020

O mito do reencontro de Helena e Menelau

Ainda a celebrar um pouco do amor, falamos hoje de outro mito em que este sentimento também tinha um papel principal.

Bastará que se tenha lido a Ilíada para se saber que a grande razão de todo o conflito entre Gregos e Troianos foi o rapto de Helena, vulgarmente até conhecida como "Helena de Tróia". Existem diversos momentos durante essa guerra em que os Troianos consideraram devolvê-la ao seu marido, quase sempre com o objectivo de conseguirem salvar a sua cidade. Mas, afinal de contas, como acabou toda essa sequência da história?

 

Após a morte de Páris, que a tinha como que raptado dos braços do marido, Helena foi dada em casamento a um irmão deste, Deifobo. Mais tarde, aquando da conquista de Tróia, Menelau esquartejou-o com enorme violência, antes de perseguir a sua esposa, que também pretendia vir a matar. E teve então lugar a cena que pode ser vista neste vaso, e que também aparece repetida em muitos outros:

O reencontro de Helena e Menelau

Do lado esquerdo está Menelau, quase próximo de Helena, com uma espada na sua mão, que aqui já parece cair (um elemento muitíssimo frequente nos vasos que têm esta cena pintada). Do lado direito está a sua esposa, numa clara pose de fuga, a buscar refúgio num altar de alguma figura divina. O que quer tudo isto dizer?

 

Segundo o mito, quando Menelau se preparava para alcançar a sua esposa e matá-la, por influência da deusa Afrodite sentiu um amor infindável. Em vez de dar um golpe mortal com a sua espada, deixou-a cair e abraçou Helena ternamente, enquanto chorava. Desculpou-a de tudo o que se tinha passado, tornando a amá-la como 10 anos antes.

Que isto se deveu a uma intervenção da deusa do amor está bem presente em outros vasos que mostram o episódio. Por vezes Helena mostra-lhe os seios nus, em outros casos Eros sobrevoa a cena, e frequentemente a própria deusa do amor até é representada no local. Veja-se outro belíssimo exemplo neste pequeno vídeo:

Esta parece ter sido a versão mais popular do episódio do reencontro (e, possivelmente, até a mais bela). Porém, não era a única - tanto Eurípides como Estesícoro (entre outros possíveis autores perdidos), apresentavam uma hipótese segundo a qual Helena nunca tinha estado em Tróia, como já cá falámos antes, e em que o reencontro das duas figuras é bem menos impressionante...

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