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Mitologia em Português

Mitologia em Português

16 de Fevereiro, 2020

Actualização deste espaço

Hoje avisaram-nos que existia uma falha na plataforma que impedia a colocação de novos comentários. Já foi corrigida! Além disso, foi melhorado o look da página.

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14 de Fevereiro, 2020

O Passo Honroso, símbolo do amor de Suero de Quiñones por Leonor de Tovar

Justas Medievais

Falar do Passo Honroso, símbolo do amor de Suero de Quiñones por Leonor de Tovar, é um tema perfeito para este Dia dos Namorados. É um belíssimo (e, admita-se, romântico) episódio que tem tanto de lenda como de realidade. Na imagem pode ser visto um torneio medieval, como aqueles que hoje vemos em diversos filmes. O que poucos saberão, no entanto, é que esses torneios, e toda uma mística que os envolve, têm um fundo de verdade, de que iremos dar um breve exemplo.

 

Simplificadamente, em 1434 um cavaleiro de Leão (no norte de Espanha), de seu nome Suero de Quiñones, decidiu organizar um torneio com o objectivo de honrar a sua amada, a bela Leonor de Tovar, antes de terminar a sua peregrinação a Santiago de Compostela. Por isso, com permissão do rei ele e nove companheiros ocuparam uma ponte (que ainda existe, e pode ser vista aqui), e decidiram que quem a quisesse cruzar teria de os defrontar em combate, ou em alternativa dar-lhes uma luva, em evidente sinal de cobardia, e depois atravessar o rio a nado. Queriam partir 300 lanças antes de abandonar o local, o que, segundo as regras do evento, equivaleria a combater pelo menos 100 cavaleiros diferentes.

O torneio começou a 10 de Julho de 1434 e terminou a 9 de Agosto do mesmo ano, quando os organizadores já estavam demasiado cansados e feridos após 166 batalhas contra 68 cavaleiros diferentes, delas resultando um único morto e zero derrotas para os defensores, como nos é referido no Libro del Passo Honroso - uma crónica do evento que até contém estatísticas dos combates e muita outra informação, e pode ser facilmente encontrada online.

 

Não encontrámos registo do que Leonor de Tovar terá pensado de toda esta grande prova de amor do Passo Honroso, mas sabe-se que em dada altura casou efectivamente com Suero de Quiñones, tornado muito famoso por todo este evento, e tiveram um filho e uma filha.

Fica sempre o convite para que alguém dos nossos dias organize, por amor, um evento semelhante a este. O de Hospital de Órbigo, a localidade onde tomaram lugar estes eventos, repete-se todos os anos no primeiro fim de semana de Junho.

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12 de Fevereiro, 2020

Santa Isabel e o Milagre das Rosas

De entre as lendas de santos em Portugal é provável que a de Santa Isabel e o Milagre das Rosas seja uma das mais famosas. Por isso, iremos recordá-la não com as nossas palavras, mas aquelas que descrevem todo o acontecimento no Largo do Castelo do Sabugal:

Santa Isabel e o Milagre das Rosas

A história mais popular da Rainha Santa Isabel é sem sombra de dúvida o «Milagre das Rosas». Segundo a lenda portuguesa, numa manhã fria e geada de inverno a rainha santa saiu do Castelo do Sabugal para fazer a caridade aos mais desprotegidos da sociedade, levando no seu regaço pedaços de pão e outros víveres. Foi de imediato interpelada pelo rei seu marido, que a questionou «que levais no regaço?» De imediato respondeu «são rosas, senhor!»

Desconfiado, D. Dinis inquiriu-a de novo. «Rosas de Inverno?» A rainha mostrou então o conteúdo do regaço do seu vestido e nele só haviam rosas, ao contrário dos pãos que aí colocara.

In «História de Portugal», de Manuel Pinheiro

 

Onde tomou lugar um tão estranho acontecimento? Se a relação entre Santa Isabel e o Milagre das Rosas é mesmo real, seria de esperar que tivessemos algum relato consistente de onde ele tomou lugar, mas as diversas fontes dizem-nos é que poderá ter sido em Coimbra, em Alenquer, em Leiria, ou até em outros locais. A presença desta versão da lenda no Castelo do Sabugal nota que também esse local é a ele associado. Mas, se realmente tomou lugar, ou se se trata somente de uma história fictíca, é algo mais difícil de responder...

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10 de Fevereiro, 2020

Sobre o mito de Narciso

De entre os que nos chegaram da Antiguidade, o mito de Narciso, que aqui resumimos, é ainda um dos mais famosos dos nossos dias, tanto que ainda se fala bastante de "narcisismo", a qualidade de alguém que gosta exageradamente da sua própria imagem, por uma evidente relação com a famosa história desta curiosa figura dos tempos da Antiguidade. Por isso, nada como recordar esse mito aqui, de uma forma bastante resumida e fácil de ler:

Um Narciso dos nossos dias

Narciso era um jovem de incrível beleza. Porém, por muitas que fossem as mulheres a se apaixonarem por ele, ele rapidamente se dizia incapaz de amar qualquer uma delas. Até que um dia, farta de todas essas rejeições contínuas, uma dada jovem - ou seria ela uma ninfa? - lhe desejou que este se viesse a apaixonar por si mesmo. E, por intervenção divina, assim aconteceu - um dado dia, enquanto bebia água de um pequeno ribeiro, o herói olhou para si mesmo, estacou por um breve momento, e... apaixonou-se. Não por outra mulher, ou por um mero homem, ou mesmo por uma deusa do Olimpo, mas só por si mesmo. Completamente apaixonado, este jovem foi então incapaz de afastar o olhar por um só segundo que fosse, deixou-se ficar nesse local por horas, dias, semanas... até falecer de fome e de cansaço, mas num "júbilo" constante de se amar a si próprio.

 

Este é o cerne de todo o mito. Se as diversas versões adicionam um ou outro elemento - por exemplo, a das Metamorfoses de Ovídio funde-o com o de Eco, e metamorfoseia-o numa nova flor após a morte - tende sempre a ser um aspecto comum que este herói seja levado à sua destruição pela sua húbris, pelo facto de se considerar inapaixonável, independentemente de quem se lhe cruze. E é esse amor desmesurado por si próprio, seja o deste Narciso ou o de cada um de nós, que o mito nos tenta instar a temer, numa espécie de moral da história.

Diga-se mais, até. No tempo de agora, das mais distintas redes sociais, de vários "likes" a cada nova imagem que se vai publicando, talvez seja sempre uma óptima ideia relembrar aquela grande lição que o jovem Narciso, cujas acção aqui resumimos, só aprendeu com a sua própria morte... gostarmos de nós mesmos não tem absolutamente nada de mal, até bem pelo contrário, mas o problema começa é quando essa paixão se torna tão grande que interfere na nossa relação com os outros, não vos parece? E é essa a grande lição que este mito nos tenta passar, hoje, tal como nos tempos da Antiguidade...

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08 de Fevereiro, 2020

A versão original da Saia da Carolina

Cremos que todos os leitores já conhecem a letra da Saia da Carolina dos nossos dias, i.e. "A saia da Carolina tem um lagarto pintado", pelo que é preferível recordá-la somente com um pequeno vídeo infantil, o primeiro que encontrámos na internet, acessível aqui.

Saia da Carolina

Esta música nada teria de especial, não fosse o facto de ontem uma idosa, ao recordar-nos algumas músicas do seu tempo de meninice, nos ter cantando uma versão significativamente diferente. Os mais cépticos poderão tentar apontar que se tratam de músicas diferentes... e poderíamos aceitar, não fosse um problema na canção infantil dos nossos dias, que passa pelo facto de somente descrever uma saia, em que ás tantas é acrescentado "foi lavada com sabão, tem cuidado ó Carolina não lhes deixes pôr a mão"...

 

Estes versos não puderam deixar de nos intrigar. À medida que pesquisávamos, encontrámos uma versão da música que era a cantada pela idosa, e uma outra, bastante semelhante mas de origem galega. Em ambos os casos, apenas aqui reproduzimos alguns versos mais significativos:

A saia da Carolina tem um lagarto pintado
Quando a Carolina dança o lagarto dá ao rabo.

A saia da Carolina, ten un lagarto pintado;
Cando a Carolina baila, o lagarto dalle o rabo.

Bailaste, Carolina?

Bailei sim senhor

Diz-me com quem bailaste?

Bailei com o meu amor.

Bailaches Carolina?

Bailei, si señor.

Dime con quen bailaches.

Bailei con meu amor.

A Carolina é uma tola que tudo faz ao revés

Despe-se pela cabeça e veste-se pelos pés.

A Carolina é unha tola que todo fai ó revés.

Éspese pola cabeza e díspese polos pés.

 

Bailaches Carolina?

Bailei, no cuartel.

Dime con quen bailaches.

Bailei co coronel.

O senhor cura nos baila porque tem uma coroa.

Baile, senhor cura, baile que Deus tudo lhe perdoa!

O señor cura non baila porque ten unha coroa.

Baile señor cura baile, que Dios todo llo perdoa.

 

Bailaches Carolina?

Bailei, abofé.

Dime con quen bailaches.

Bailei co meu Xosé.

A Saia da Carolina não tem pregas nem botão

Tem cuidado ó Carolina não te caia a saia ao chão.

A saia da Carolina foi lavada com sabão

Tem cuidado ó Carolina não lhe deixes pôr a mão.

 

A saia da Carolina é curta é das modernas

Tem cuidado ó Carolina ela não te tapa as pernas.

 

 

No curro da Carolina non entra carro pechado.

Na máis entra Carolina, co seu cocho polo rabo.

 

Co teu amor Carolina, non volvas a bailar,

Porque che levanta a saia

Ié moi mala de baixar.

 

Onde nos pode levar esta comparação? Essencialmente, A Saia da Carolina, enquanto canção infantil dos nossos dias, é uma versão sanitizada de uma versão sanitizada portuguesa de uma canção originalmente galega. Que é a versão de nuestros hermanos a original, e não a nossa, pode ser compreendido pelo facto de existir uma simplificação da letra geral e do próprio refrão, que é algo muito mais comum do que uma ampliação de um original.

 

A canção original não era, de todo, para crianças. Contém alguns elementos metaforicamente sexuais, associados a uma rapariga "tola" que "faz tudo ao contrário". Em que consistem as suas várias tolices é fácil de compreender na versão galega, mas esses elementos foram sendo censurados ou removidos tanto na versão dos nossos dias como na cantada pela idosa. E compreende-se assim de que "lagarto" fala a letra, a razão pela qual andavam a pôr as mãos na saia da Carolina, e o porquê de esta necessitar de ser lavada com sabão... e, no mesmo contexto, talvez um dia revelemos quem foi o tal gato a quem atiraram um pau!

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07 de Fevereiro, 2020

A lenda de George Washington e a cerejeira

Esta é uma daquelas lendas sobejamente conhecidas nos Estados Unidos da América, mas que até poucos conhecerão na Europa e em outros locais. Como tal, decidimos explorá-la um pouco:

George Washington e a cerejeira

Diz então a lenda que quando George Washington era criança recebeu no seu aniversário um pequeno machado. Feliz com a prenda, decidiu tentar cortar algumas das árvores no seu quintal, até que acabou por cortar a cerejeira favorita do seu pai. Certamente que o progenitor se zangou, mas quando foi confrontar a criança com o seu acto, o filho limitou-se a responder-lhe, com palavras que se tornariam muito famosas, "Fui eu que cortei a cerejeira. Não posso mentir." A ira original rapidamente se transformou em orgulho pela enorme honestidade do filho.

 

Se existem muitas lendas nesta página que não sabemos se se tratam de ficção ou realidade, neste caso em particular sabe-se que esta é uma mera história ficcional, inventada por um biógrafo para dar um colorido extra à juventude do herói americano e deixar claro que a sua famosa honestidade era inata.

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05 de Fevereiro, 2020

A lenda da Batalha de Ourique

O tema de hoje, a lenda da Batalha de Ourique, foi-nos suscitado por alguém que há algumas semanas veio cá procurar por "lendas antigas da época dos portugueses". Não é totalmente claro o que essa pessoa pretendia encontrar, mas dado esse estranho mote achámos que poderíamos contar uma das mais antigas histórias de Portugal, esta mesma lenda da Batalha de Ourique.

Afonso Henriques em combate

Conta-nos esta lenda que a 25 de Julho de 1139 Afonso Henriques se encontrou em combate contra os exércitos de cinco reis mouros. As hostes inimigas pareciam-lhe infindáveis. Em desespero, retirou-se para um local fechado, um simples espaço em que pudesse descansar. Minutos depois surgiu-lhe um misterioso idoso que o convidou a sair para o exterior e olhar o céu. Quando o fez, Afonso Henriques viu Cristo Crucificado entre inúmeras hostes de anjos, e este prometeu-lhe que venceria a dura batalha do dia seguinte, como veio a acontecer.

Em gesto de agradecimento, o rei colocou cinco quinas na sua bandeira, em homenagem aos cinco reis mouros então derrotados.

 

Quem seria o misterioso idoso, que apareceu a Afonso Henriques na Batalha de Ourique? Porque insistiu para que o milagre fosse exibido no exterior? Não sabemos a resposta à segunda pergunta, mas em relação à primeira a identidade da figura parece variar mediante as versões, podendo tratar-se de um qualquer santo ou até do próprio Jesus Cristo.

 

Agora, esta até podia ser a grande lenda da fundação de Portugal, que permitiria ver a independência como um desejo divino e Afonso Henriques como o grande timoneiro dos destinos de Portugal, mas... estragando um pouco a proverbial festa, é também uma lenda que só aparece em fontes escritas já no século XV, ou seja, mais de 300 anos após o suposto evento. É pouco provável que tenha um fundo de verdade, mas não deixa de ser uma belíssima lenda da fundação do nosso país, que teve um momento fulcral nesta Batalha de Ourique.

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03 de Fevereiro, 2020

Os breves mitos dos dois Ascálafos

Este mês de Fevereiro de 2020 decidimos tentar algo de novo - ás segundas feiras iremos publicar um mito grego, ás quartas um mito ou lenda de Portugal, e ás sextas uma surpresa completamente inesperada. Nesse contexto, começamos hoje com os breves mitos de duas figuras, ambas chamadas "Ascálafo".

 

Um primeiro Ascálafo era filho de Ares e rei da cidade de Orcómeno. Foi um dos Argonautas, mas não parece ter tido um papel muito grande nessa aventura. Posteriormente, foi também um dos pretendentes de Helena, e acabou por falecer durante a Guerra de Tróia.

 

O segundo Ascálafo parece ter sido uma figura tardia, até porque não conseguimos encontrar qualquer representação dele na arte grega. Filho de Aqueronte, era ele quem cuidava das árvores que (supostamente?) existiam no reino de Hades. Foi ele quem testemunhou que Perséfone tinha comido as sementes de uma romã e, por punição divina, foi depois colocado debaixo de uma enorme rocha. Mais tarde, quando Héracles passou pelo reino dos mortos, libertou-o desse tenebroso local, mas esta figura acabou então por ser transformada em coruja, pássaro cuja relação com o reino dos mortos pode ser facilmente percebida pelas suas muitas aventuras nocturnas.

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