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Mitologia em Português

Mitologia em Português

31 de Março, 2020

A História de Sinué

Um exemplo de óstraco com fragmento da história

A História de Sinué é um texto egípcio com cerca de 3800 anos, que nos chegou em fragmentos como aqueles representados na imagem acima. Conta-nos, sob a forma de algo que poderíamos descrever como um brevíssimo poema épico (tem apenas cerca de 311 versos na versão a que tivemos acesso), alguns fragmentos da vida adulta do homem que lhe deu o título.

 

A história começa contando como Sinué, assustado com a notícia da morte do monarca dos seus dias, fugiu do Egipto e passou vários anos a servir um outro rei. E serviu-o bem, sem qualquer dúvida. Foi tendo vários filhos, venceu opositores muito fortes, mas nunca deixou de querer voltar à terra que o viu nascer. E quando, já velho, acabou por fazê-lo, foi até muito bem recebido de volta.

 

Esta História de Sinué é, como pode ser visto pelo breve resumo acima, uma que tem uma trama bastante simples. Não contém nada de muito implausível, não apresenta qualquer episódio estritamente mitológico, sendo até possível que se tenha tratado de uma história completamente real, cuja grande popularidade conseguiu fazer chegar até aos nossos dias. Agora, cabe apenas a cada um de nós decidir se iremos lê-la, ou não...

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30 de Março, 2020

A "Ilíada" da Marvel

Faz já algumas semanas que aqui falámos da banda desenhada The Trojan War da Marvel. Na altura, mencionámos igualmente que a mesma editora já tinha publicado, anteriormente, uma versão da Ilíada em quadradinhos, mas o que podemos dizer dessa outra obra, publicada um ano antes?

 

Trata-se, única e exclusivamente, de uma opinião pessoal, que até foi muito debatida deste lado do ecrã, mas sentimos que é inferior à sua "sequela", na medida em que se foca mais nos diálogos do que em tentar relatar acções mais gerais. Isto nada teria de mal, naturalmente, não fosse o facto da conjugação entre as acções mostradas e os próprios diálogos parecerem frequentemente pouco condizentes. Veja-se, por exemplo, este momento de um diálogo entre Páris e Heitor:

Páris e Heitor nesta obra de Marvel

Este deveria ser o momento em que Heitor, o bastião de Tróia, critica o seu irmão, mas Páris quase que parece gozá-lo, não nas suas palavras mas na forma como é aqui representado. Além disso, os diálogos pareceram-nos todos muito estáticos, como se se pretendesse reproduzir o épico não pela sua beleza poética, mas enchendo-os de palavras caras - e, na verdade, os próprios autores parecem ter reconhecido essa dificuldade, já que os (oito) volumes terminam com um glossário. Apesar destas fragilidades, há que admitir que as aventuras respeitam, quase sempre, o conteúdo do poema de Homero.

 

Se, anteriormente, até elogiámos a obra The Trojan War da Marvel, neste outro caso não nos parece justo fazê-lo. Se a ideia de transpor os Poemas Homéricos para banda desenhada é interessante e digna de nota, a forma como o próprio poema foi adaptado por Roy Thomas parece-nos muito menos positiva, dando lugar a um resultado um tanto ou quanto enfadonho, menos aprazível que a sua sequela.

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29 de Março, 2020

Um momento belíssimo da "Dionisíaca" de Nono, sobre a vida e a morte

Aqui fica outro belíssimo momento da Dionisíaca de Nono, desta vez em tradução para Português. Quando a Cadmo é perguntada a linhagem, ele responde o seguinte:

 

Porque me perguntas assim o meu sangue e linhagem? Eu comparo as rápidas gerações do homem mortal às folhas. Algumas delas o vento selvagem dispersa pela terra quando a altura do Outono surge; outras crescem nas cabeças florescentes das árvores da floresta na altura da Primavera. Assim são as gerações dos homens, vivem por pouco tempo - um segue o caminho da vida até que a morte o rebaixe; um ainda floresce, apenas para dar lugar a outro. O tempo move-se sempre em si mesmo, mudando de forma da idade grisalha para a juventude.

 

Essa ideia, das gerações humanas como brevíssimas folhas no grande conjunto do tempo, não pode deixar de nos fascinar, enquanto seres humanos...

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29 de Março, 2020

Viagem (virtual) ao Museu Nacional do Brasil

Incêndio no Museu Nacional do Brasil

Como é bem sabido, em Setembro de 2018 o Museu Nacional do Brasil sofreu um incêndio que levou à perda de muita da sua vasta colecção. Infelizmente, já não é possível visitá-lo de forma física, com o respectivo site a informar-nos de que "Nossas exposições estão fechadas ao público por tempo indeterminado em virtude do incêndio que destruiu grande parte de nossas coleções". Porém, o próprio Museu foi parcialmente indexado aos sistemas do Google no mês de Março de 2017, o que nos permite fazer isto:

Claro que, como já insistimos anteriormente, isto não é o mesmo que visitar o museu fisicamente, mas neste caso específico o que é muitíssimo interessante é a possibilidade de ainda se visitar um espaço que já não pode ser visitado e que jamais voltará a ser visitável nesta mesma forma. E, por isso, deixamos uma sugestão - carreguem ali no botão para ver estas imagens em ecrã completo e divirtam-se a explorar parte destas colecções hoje perdidas. É o que também nós faremos, este domingo.

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28 de Março, 2020

O mito de Dioniso e os piratas

Contar todas as grandes aventuras de Dioniso numa só sequência seria aqui impossível, mas existem fragmentos do seu mito que são notavelmente mais conhecidos do que outros. Por isso, contamos a sequência de hoje dado o facto de ter algum relevo na arte grega.

 

Numa dada altura da sua vida o deus Dioniso precisou de viajar, e então aproximou-se de alguns navegadores, pedindo-lhes passagem para a ilha de Naxos. Estes aceitaram ajudá-lo, sem lhe revelar que eram piratas, mas vendo-o depois tão belo e tão rico decidiram mudar de planos e pensaram em vendê-lo como escravo. O que viria a acontecer em seguida certamente que supreenderia qualquer ser humano.

Dioniso e os piratas

Quando prenderam Dioniso ao mastro principal, esta parte do navio começou a transformar-se numa videira. Depois, mesmo no meio do mar, sem qualquer terra à vista, começaram a ouvir-se flautas, cujo som provinha de algum local completamente desconhecido. Assustados com estas e outras ocorrências semelhantes, os piratas depressa se atiraram ao mar, sendo transformados em golfinhos por um milagre do mesmo deus. E Dioniso, esse, lá acabou por chegar a Naxos...

 

O que este pequeno mito tem de muito especial é o facto de condensar num só instante temporal toda uma história passível de ser representada estaticamente. Se as pinturas de outros vasos requerem, em muitos casos, uma explicação completa de um dado mito e das suas personagens, neste caso o mito pode ser recontado e representado muito facilmente - "Dioniso ia ser raptado. Ali está o barco a transformar-se em videira e os piratas transformados em golfinhos".

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27 de Março, 2020

Dríades, Sereias, Sátiros, e outras figuras da Antiguidade

Há já algumas semanas que nos vieram colocar uma pergunta, "Qual a diferença entre uma dríade e uma sereia?". Porém, mais do que simplesmente lhe respondermos de uma forma muito rápida, apontando exclusivamente as definições de ambas num qualquer dicionário, achámos que poderíamos escrever um pouco mais sobre todo o grande tema por detrás dessa questão.

 

Essencialmente, os Gregos acreditavam em deuses (como Zeus, Hera, Apolo, etc.) e em heróis (como Hércules, Aquiles, Heitor, etc.), ou seja, em figuras divinas, e em figuras humanas que, face aos seus bons actos em vida, poderiam depois vir a ser deificadas. Contudo, se a maior parte dos leitores até saberá disto, estas mesmas afirmações também são muito redutoras da realidade, na medida em que os Gregos também acreditavam numa terceira categoria de seres, que não são completamente divinos mas que também não são humanos - como Marciano Capela, talvez também nós lhes possamos chamar longaevi.

 

E que seres são esses? São criaturas como as Sereias, Dríades, Faunos (divindades dos campos), Sátiros, etc. Em comum, todas elas têm o facto de não serem nem puramente humanas, nem completamente divinas. Viviam muito tempo mas não era imortais, e normalmente tinham uma forma que as colocava entre os humanos e os animais. Isso é particularmente fácil de notar no caso dos Sátiros, que tinham pernas de cabra e cornos mas uma forma essencialmente humana:

Filoctetes da Disney

Além destas criaturas existiam também as Ninfas, colectivamente divindades dos rios, montes, florestas e outros locais semelhantes. Porém, mediante a sua função obtinham nomes diferentes - Bacantes (enquanto ninfas, acompanhavam Baco nas suas viagens), Dríades (protegiam as árvores e florestas), Hamadríades (uma espécie de alma das próprias árvores), Lâmpades (viviam no submundo), Naíades (ou naíadas, associadas aos rios e fontes), Nereidas (do mar), Oceânides (das águas), Oréades (das montanhas e grutas), entre muitas outras - delas poderia dizer-se que todas são ninfas, mas não seria correcto dizer que uma ninfa é necessariamente uma Lâmpade. Por exemplo, Calipso, que durante anos prendeu Ulisses nos seus braços, é chamada uma ninfa, mas Dodona (que levou ao nome da cidade onde existia uma oráculo de Zeus) era considerada uma oceânide.

 

Onde entram então as sereias, que não devem ser confundidas com as Sirenas? Quase que em lado nenhum - são quase sempre consideradas como criaturas mitológicas completamente distintas das anteriores, meros monstros. Se quiséssemos, como na pergunta que nos foi feita, distingui-las especificamente das Dríades, poderíamos dizer que até vivem em reinos totalmente distintos - enquanto que as Sereias (originalmente) tinham um corpo de pássaro e tocavam música, as Dríades limitavam-se a viver nas florestas, em que protegiam os espaços verdes aí existentes.

 

Mas, para terminar estas linhas, é necessário deixar claro um elemento importante - estas categorizações não eram totalmente fixas. Nunca parece ter sido sistematizado que a figura X era sempre uma oceânide enquanto que a Y era sempre e somente uma ninfa. De igual forma, ao falar-se de uma bacante não se está obrigatoriamente a falar de alguém que não é um ser humano - poderá estar a referir-se, exclusivamente, uma companheira do deus Baco; ainda, os diversos autores que nos chegaram poderão, referindo uma mesma figura, por vezes chamar-lhe "ninfa", outras vezes "oceânide" ou "naíade", sem que isso seja considerado errado.

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26 de Março, 2020

A origem e o significado de "Lorem Ipsum"

Só as pessoas muito distraídas nunca se aperceberam que existe um texto muito comum na internet, um que começa sempre com a expressão Lorem Ipsum. E isso poderá levar-nos a uma questão - afinal, qual a sua origem, e o que significa verdadeiramente toda essa sequência textual?

Um exemplo de Lorem Ipsum

Na verdade, costuma ser usado um gerador de texto para o prolongar até à extensão desejada, mas a fonte original deste texto foi uma das obras de Cícero, no seu título latino De Finibus Bonorum et Malorum. Aparentemente - nunca conseguimos uma confirmação 100% segura - quando, por volta do século XVI, alguém estava a desfazer uma composição tipográfica desse texto, retirou umas palavras aqui, umas letras ali, criou parte deste texto e por uma qualquer razão imprimiu-o. Depois, talvez por mero acidente, talvez como uma espécie de piada que já nos escapa, ou até talvez "porque sim", este Lorem ipsum foi sendo impresso sempre que se necessitava de um conjunto de palavras que não fossem para ser lidas, mas sim para testar como um texto irá surgir numa página ou num ecrã.

 

Mas o que diz ele? Essencialmente... nada! Pode haver, por mera coincidência, uma sequência aqui e ali que tenha algum significado acidental em Latim, mas no seu geral não tem qualquer sentido. A palavra lorem, por exemplo, nem sequer existe, tendo sido retirada do original dolorem, que significa "a dor" (em complemento directo).

Por isso, este é um texto em Latim, mas sem qualquer significado real, como se alguém, nos nossos dias, escrevesse algo como "sapo da comer um azul mas casa os porquê".

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25 de Março, 2020

A diferença entre Héracles e Hércules

São Héracles e Hércules uma e a mesma figura, ou existem diferenças entre os heróis por detrás dos dois nomes? Se, de um modo muitíssimo geral, podemos dizer que os deuses romanos são os dos Gregos com outros nomes, quando a situação é vista ao pormenor descobre-se que isso não é completamente verdade. O Júpiter latino não é Zeus, a Hera dos Gregos não é igual a Juno, o nome de Apolo manteve-se em virtude da enorme fama do seu oráculo na cidade de Delfos, mas... o que dizer em relação à figura do mais famoso filho dos deuses do Olimpo?

O herói em questão

Comece-se pela figura grega. Héracles nem sempre teve esse nome - na verdade, a mãe, Alcmena, deu-lhe o nome de Alcides - mas após as muitas conquistas da sua vida o seu nome foi alterado para Héracles (em Grego Ἡρακλῆς, que significa "glória de Hera"), em virtude da fama que lhe foi trazida por todas as enormes dificuldades que a deusa o fez passar, nomeadamente os seus doze trabalhos.

O nome latino da mesma figura, Hércules, deriva deste segundo nome grego, mas isso não quer dizer que são uma única e a mesma figura. Se ao Hércules latino são associados todos os mitos do famoso Héracles dos Gregos, o contrário já não é verdade, porque existem alguns mitos que são associados exclusivamente a este herói pelos Romanos - o mais óbvio é o de Caco, mas existem outros.

 

O que aconteceu neste caso específico é fácil de explicar - a fama do herói grego era tão grande que os Romanos sentiram não só a necessidade de a apropriar para si mesmos, mas também atribuir-lhe novas aventuras, mais ligadas à sua própria cultura mitológica. Sob esse novo nome a sua fama acabou por se tornar ainda maior, levando a que ficasse conhecido com esse nome na cultura ocidental. Disso é perfeito exemplo uma pesquisa pelo Google - mesmo que os mitos de ambos sejam semelhantes, uma procura por "Heracles" dá 21 milhões de resultados, enquanto que "Hercules" já retorna 142 milhões - seis vezes mais!

 

Fazendo então uma espécie de "tldr", a grande diferença entre Héracles e Hércules é que ao herói latino estão associados alguns mitos que o seu congénere grego nunca teve.

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24 de Março, 2020

A "História do Hierosolimita", de autoria desconhecida

De entre as obras que fomos estudando ao longo dos anos existiram, aqui e ali, alguns textos verdadeiramente curiosos. Esta História do Hierosolimita, no seu original Maaseh Yerushalmi, tem de ser considerado um deles. É um texto judaico medieval que insta o leitor a obedecer aos seus pais e a cumprir as promessas que faz, mas mais do que uma simples parábola é quase um verdadeiro romance.

 

Tudo começa quando um pai, já idoso e a ponto de morrer, decide deixar uma grande herança ao seu único filho, avisando-o e fazendo-o prometer que nunca viajaria por mar. O filho, sábio e estudioso da Tora, cumpriu esse pedido durante muitos anos, até que alguns navegadores o foram visitar e o informaram das muitas e valiosas propriedades que o pai tinha deixado no além-mar. Uma e outra vez, este filho - cujo nome nunca nos é dito - lembrou-se da promessa que fez ao pai, mas movido pela curiosidade ou pela ganância lá acabou por aceitar a viagem por mar.

E é precisamente aqui que toda a história se começa a tornar menos vulgar. O herói cai ao mar, encontra-se somente com a roupa que tinha no corpo, é perseguido por um leão, sobe a uma árvore, é levado por um pássaro, refugia-se numa sinagoga de uma cidade de demónios, etc. Uma e outra vez, escapa a uma morte quase certa, acaba por fazer alguma nova promessa e consegue, de uma ou outra forma, moralizar o facto de quebrar cada um desses novos juramentos.

 

De forma inesperada, a história não termina bem. Não poderia terminar, não com uma figura heróica que parece jamais aprender a sua lição. Em vez disso, esta é uma história que transporta o leitor através de um conjunto de limites quase absurdos para lhe ensinar uma lição preciosa, quando algo muito mais simples até bastaria. Mas, por outro lado, poderá ter sido essa desnecessária complexidade que contribuiu para a sua popularidade em relação a outros textos judaicos da mesma época. Por isso, este seria um texto que recomendaríamos a quem gosta de obras de ficção, não fosse pelo "pequeno" facto de não ser fácil de encontrar - na verdade, tivemos de o ler traduzido na tradução, ainda por publicar à data presente, de um amigo que fala a língua original.

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23 de Março, 2020

Porque foi o Brasil chamado Terra de Vera (ou Santa) Cruz?

Quando os Portugueses primeiro chegaram ao Brasil, no ano de 1500, chamaram-lhe "Terra de Vera Cruz" (ou "Terra de Santa Cruz", ou Ilha desse mesmo nome). Claro que já todos ouvimos isto, nos nossos tempos de escola, mas, afinal de contas, qual é a origem desse nome e o seu significado?

Vera Cruz no Planisfério de Cantino

Imagine-se que, como nos foi contado na escola, Pedro Álvares Cabral viajou por mar dias e dias até encontrar esta nova terra, que inicialmente pensou tratar-se de uma ilha. Viu um monte, uma floresta luxuriante, papagaios a esvoaçar, e tinha de decidir dar-lhe um nome para Portugal. E porquê "Vera Cruz"?

 

Explicar isso implica viajar no tempo para vários séculos antes. Quanto o cânone da Bíblia foi escolhido, existiram alguns textos que foram aceites e outros que ficaram de lado. Entre os que pertencem à segunda categoria contavam-se vários relatos (apócrifos) da juventude e idade adulta de Jesus. Esses textos, e outros que foram aparecendo mais tarde, continham várias histórias que se foram tornando populares ao longo dos séculos (por exemplo, as histórias de São Joaquim e Santa Ana, pais de Santa Maria, mãe de Jesus), mas que nunca foram totalmente aceites como "oficiais" pela Igreja, apesar de serem parte de uma tradição muito conhecida entre o povo.

Entre esses vários textos conta-se uma história, hoje já pouco conhecida, que dizia que José e Jesus, no seu emprego como carpinteiros, fizeram várias cruzes em que os criminosos iam sendo punidos. Entre as muitas que construíram contava-se uma cruz feita pelo próprio Jesus Cristo com a madeira de uma árvore muito especial - a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, a tal que deu o fruto que Adão e Eva comeram antes de serem punidos por Deus - e onde ele próprio acabaria por ser crucificado, associando (metaforicamente) a punição da humanidade com a expiação desse mesmo pecado original.

Em termos de certa brincadeira, podemos acrescentar que a história nunca conta como foi obtida essa madeira, ou quem foi buscá-la ao Paraíso. Mas, seguindo esta história popular, a cruz em que Cristo foi crucificado foi feita com madeira provinda do Paraíso.

 

Mas toda esta história ainda não terminou. Séculos após esses eventos supostamente reais, quando Santa Helena procurou a Cruz de Cristo em Jerusalém encontrou várias cruzes. Querendo saber qual a verdadeira, testou-as de alguma forma (os contornos da lenda variam, mas mostram sempre o carácter miraculoso exclusivo do lenho em que Cristo foi crucificado) e encontrou a que procurava, que ficou conhecida em Latim como Vera Crux, a "cruz verdadeira", por oposição às cruzes em que outros tinham sido crucificados.

 

Volte-se agora a Pedro Álvares Cabral. Certamente que ele conhecia estas histórias populares da sua época. Nesse sentido, quem for ler a Carta de Pero Vaz de Caminha, um dos primeiros relatórios do "achamento" do Brasil, poderá aí notar quatro aspectos dignos de nota:

  • A razão por detrás do nome nunca é revelada;
  • A descoberta teve lugar na altura da Páscoa, um monte próximo até foi chamado de "Monte Pascoal" (e a ligação entre essa festa religiosa e a cruz de Cristo é evidente);
  • É repetidamente referida a nudez impudica dos nativos de ambos os sexos, chegando esta até a ser comparada com a inocência de Adão;
  • São feitas várias referências à veneração da própria cruz.

 

Face a todas estas provas, não sabemos se alguma vez Pedro Álvares Cabral terá pensado verdadeiramente que tinha chegado ao Paraíso de que falava o Antigo Testamento, mas é certo que viu algo nas características da terra recém-descoberta que o fez pensar numa espécie de local paradisíaco, levando-o ao nome que lhe viria a dar - "Terra de Vera Cruz", ou seja, o/um Paraíso.

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