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Mitologia em Português

03 de Março, 2020

Que práticas do Paganismo continuaram na Idade Média? Alguns exemplos...

Se existe uma palavra que bem poderá definir a Idade Média ocidental é "Cristianismo". Porém, se nessa altura a maior parte das pessoas já tinha abandonado as religiões ditas "pagãs", havia igualmente um conjunto de práticas do Paganismo que continuavam a tomar lugar. A informação presente na obra Da Correcção dos Rústicos, de São Martinho de Dume, é um dos exemplos portugueses mais eminentes, mas também existiram muitos outros autores que se preocuparam com essa interrelação, essa fusão de crenças, que lhes parecia abominável.

 

Um exemplo particularmente curioso do problema está preservado num texto de autoria anónima conhecido como Indiculus superstitionum et paganiarum. Pensa-se que terá sido composto antes do século IX da nossa era, mas o que o torna especialmente digno de nota é o facto de ter sido quase totalmente perdido. Na verdade, não nos chegaram quaisquer fragmentos das suas linhas, com uma excepção totalmente inesperada - o índice, que nos apresenta os 30 capítulos que compunham a obra original. Optámos por traduzi-los para Português, dada a sua importância para o tema aqui em questão:

 

  1. Do sacrilégio nos sepulcros dos mortos.
  2. Do sacrilégio em relação aos que já partiram, ou seja, dadsisas*.
  3. Da Spurcalia em Fevereiro.
  4. Das pequenas casas, ou seja, santuários.
  5. Dos sacrilégios com ligação às igrejas.
  6. Dos rituais sagrados dos bosques, a que chamam nimidas**.
  7. Das coisas feitas sobre as pedras.
  8. Dos rituais sagrados de Mercúrio e de Júpiter.
  9. Dos sacrifícios oferecidos aos santos.
  10. Dos amuletos e nós.
  11. Das fontes de sacrifícios.
  12. Dos encantamentos.
  13. Dos augúrios das aves, dos cavalos, do esterco dos touros ou dos espirros.
  14. Dos adivinhadores ou dos feiticeiros.
  15. Do fogo feito pela fricção da madeira, ou seja, nodfyr.
  16. Do cérebro dos animais.
  17. Da observação pagã do fogo, ou do início de qualquer coisa.
  18. De locais incertos celebrados como sagrados.
  19. Do apelo que algumas boas pessoas fazem a Santa Maria.
  20. Dos feriados que são feitos a Júpiter e Mercúrio.
  21. Do eclipse da Lua, a que chamam Vinceluna***.
  22. Das tempestades, cornos e caracóis.
  23. Dos sulcos em redor das casas.
  24. Da corrida pagã chamada yrias, com panos rasgados ou com calçado.
  25. Daqueles que fingem que aqueles que morrem são santos.
  26. Da imagem feita de farinha espalhada.
  27. Das imagens feitas de panos.
  28. Da imagem que é levada pelos campos.
  29. Dos pés ou mãos de madeira num rito pagão.
  30. De se acreditar que as mulheres controlam a lua, e que podem destruir os corações dos homens, segundo os pagãos.

 

Cada uma destas linhas, por si só, mereceria um comentário individual alongado da nossa parte, mas por motivos de tempo e espaço não podemos fazê-lo aqui (se alguém quiser saber mais sobre alguma em particular, bastará deixar um comentário). Podemos, isso sim, é mostrar duas características curiosas deste índice:

  • Estão aqui presentes quatro palavras que não são latinas, i.e. dadsisas, nimidas, nodfyr e yrias. Pelo menos uma delas é indisputavelmente germânica, dando-nos a supor que o seu autor reportava, pelo menos em parte, um conjunto de crenças dos povos germânicos.
  • Em alguns casos as práticas reportadas neste índice ainda chegaram aos nossos dias - colocam-se velas nos túmulos dos falecidos, dizemos "santinho" quando alguém espirra, são feitas oferendas aos santos (como se eles se tratassem de deuses pagãos...), acredita-se em amuletos, pedem-se favores a Nossa Senhora, celebram-se eclipses, etc.

Oferendas de Cera

É pena que este Indiculus superstitionum et paganiarum não nos tenha chegado de uma forma mais completa, porque certamente teria muito para nos ensinar em relação a um conjunto de rituais pagãos que, em alguns casos, até chegaram mesmo aos nossos dias. Continuam a ser praticados, por exemplo, quando alguém deixa em Fátima uma vela com uma representação de Santa Maria ou uma escultura de cera em forma de uma mão. Quem o faz, fá-lo na sequência de um conjunto de crenças que, em alguns casos, já têm mais de dois milénios, e que sucessivas gerações de ministros da Igreja Católica não conseguiram exterminar. Porquê? Porque é que já não parecemos celebrar a Spurcalia, mas continuamos a acreditar na magia e no estranho poder de saber o futuro? Ficam as perguntas, mas as respostas, essas, não são nada fáceis e vão além do nosso objectivo nestas linhas...

 

*- Aparentemente, esta tradição poderá ter passado por elaborados cantos fúnebres.

**- Poderão ter estado ligados com o culto aos Carvalhos Sagrados.

***- A expressão latina era, acredita-se, gritada durante os eclipses.

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03 de Março, 2020

A lenda de Pincho de Benaciate

É provável que nunca tenham ouvido falar de Pincho de Benaciate. Ele seria uma pessoa como tantas outras que já viveram na aldeia de Benaciate, na freguesia de São Bartolomeu de Messines (no Algarve), não fosse uma sequência de estranhos episódios que tiveram lugar com ele por volta do já-distante ano de 1656.

 

Ainda criança, este Pincho tinha por hábito ir apanhar ninhos de pássaros na região de Benaciate, uma brincadeira muito comum no nosso país até meados do século XX. Mas, depois, um dos pequenos passarinhos que foi encontrando falou com ele. Sim, leram bem, supostamente um avezita falou com ele em voz humana e revelou-lhe as muitas coisas que iriam tomar lugar no futuro, entre elas a data de falecimento do rei Afonso VI e a do regresso de Dom Sebastião. Supostamente, e segundo foi informado dessa forma tão singular, o estranho evento desse retorno iria ter lugar em 1666, quando o famoso rei iria voltar a Portugal, recuperar as suas armas místicas de um palácio mágico localizado no Cabo de São Vicente, viajar para Lisboa numa manhã de nevoeiro e reconquistar o trono que ainda era seu por direito.

 

Hoje, sabemos que nada disso acabou por tomar lugar, mas o importante nesta lenda de Pincho de Benaciate é que não só ele acreditava nas palavras que dizia, como essa sua sinceridade foi atestada e reconhecida por religiosos de Faro, que acreditaram tanto nas suas palavras como em toda a situação em que se viram envolvidos. Não sabemos o que lhe aconteceu depois das suas previsões não terem tomado lugar, já em 1666, mas é provável que, como tantos outros falsos profetas do passado, tenha caído no esquecimento, até porque nada mais conseguimos descobrir sobre algum deles...

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