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Mitologia em Português

Mitologia em Português

31 de Maio, 2020

A origem do Tarot - verdades e falsidades

Há algumas semanas fizeram-nos uma pergunta relacionada com a origem do Tarot. Isso levou-nos a uma busca maior por respostas, mas também pela evolução e significado das suas cartas. Apesar de termos encontrado mais perguntas do que respostas, achámos que podíamos fazer aqui um breve resumo da origem do Tarot em sete pontos:

 

1-- Até meados do século XV não temos qualquer prova real de que estas cartas existissem. Nenhuma!

A carta Tarocchi de Saturno

2-- Em meados do século XV sabemos que existiam em Itália um conjunto de cartas hoje chamadas Tarocchi. Eram constituídas por uma imagem, um nome, e uma numeração que as identificava numa determinada sequência, num total de 50 cartas separadas em cinco temas diferentes. Nenhuma obra literária da altura nos parece contar precisamente como eram utilizadas, mas são diversos os estudiosos que argumentam que eram usadas para ajudar a ensinar as crianças de famílias mais abastadas, como se fossem as flash cards dos nossos dias. No exemplo acima pode ser visto o deus Saturno a devorar um dos seus filhos, numa evidente referência ao cerne do mito latino.

A carta Tarocchi da Justiça

3-- Juntamente com estas cartas existiam várias outras chamadas Tarocco, que eram usadas para jogos. Entre as que compunham os baralhos para esses jogos incluíam-se algumas das representações também presentes nas anteriores, como a imagem da "Justiça", mostrada acima, permite compreender. O que é importante frisar sobre estas cartas, independentemente da composição do baralho, é que eram usadas exclusivamente para jogos lúdicos, não tendo qualquer relação com a cartomancia ou alguma tentativa de previsão do futuro.

A carta XVI do Tarot

4-- Nenhum autor nos parece ter preservado o verdadeiro significado por detrás das imagens presentes nessas cartas. Na verdade, algumas delas até mudavam frequentemente de nome e de imagem; por exemplo, na carta XVI "A Torre" podia ser substituída por "O Relâmpago"... mas quem olhar para a primeira das duas poderá ainda encontrar frequentemente o segundo elemento lá, podendo fazer crer que o elemento pictórico original era mesmo esse, mais do que algum edifício.

 

5-- Na segunda metade do século XVIII - ou seja, quase 300 anos depois da sua primeira aparição atestável - é que nos aparecem provas de que essas cartas eram usadas para cartomancia, uma prática que foi popularizada por Jean-Baptiste Alliette, i.e. "Etteilla". A ideia parece ter originado com Antoine Court, cuja obra Le Monde primitif argumentava, sem quaisquer provas reais, que estas cartas vinham do tempo dos Egípcios. A origem do Tarot, no sentido moderno da ideia e na sua função de prever o futuro, é indisputavelmente desta altura!

 

6-- Porquê os Egípcios, e não os Gregos ou os Romanos? Esse autor, também conhecido como Court de Gébelin, vivia numa altura em que existia uma espécie de pandemia de amor por tudo o que viesse do Egipto; sem quaisquer provas reais, repita-se essa ideia crucial, levantou então a "certeza" de que as cartas em questão escondiam um conhecimento secreto dos Egípcios.

 

7-- Voltando a "Etteilla", parece ter sido o primeiro autor famoso que popularizou e ensinou como usar estas cartas para prever o futuro, associando a elas um conjunto de ideias místicas. Outros autores seguiram-se, atribuindo diferentes ideias místicas às mesmas cartas ou a baralhos muito semelhantes. Daí, a ideia foi chegando aos nossos dias.

 

Face a estas provas, que são fáceis de comprovar, uma questão tem de ser posta - será o tarot digno de algum crédito? Mesmo que queiramos acreditar, de forma completamente imparcial, nas ideias de autores como Jean-Baptiste Alliette, há que reconhecer que elas têm uma falha fatal, que é o facto de se basearem em cartas cuja composição e significados originais são completamente desconhecidos, e que até foram sendo alteradas ao longo dos séculos.

Por exemplo, a carta XVI, já mostrada acima, pode ser chamada "A Torre" mas mostra é frequentemente a destruição desse edifício. Seria, originalmente, uma alusão à Torre de Babel bíblica, que não parece ter vindo das cartas do Tarocco mas de outro baralho? É possível que sim, até o afirma a "Dra." Maria Helena da televisão, mas então o que dizer da carta XII, que tem representada um homem pendurado pelos pés, como eram punidos alguns criminosos na Itália do século XV? Ou como fazer sentido da ideia de que a carta IX, "O Eremita", representava originalmente o Tempo, i.e. o conceito grego, com uma ampulheta na mão? Ou como explicar a presença de apenas três das quatro virtudes cardeais - o que aconteceu à Prudência, que até aparecia nas cartas Tarocchi e em outros baralhos do mesmo género?

A carta Tarocchi da Prudência

É estranhíssima, esta ausência em particular, dado todo o contexto em que se insere, mas também nos permite provar algo - mesmo que até preservassem um qualquer conhecimento secreto, esse seu significado original já se perdeu há muitos séculos atrás. Se as cartas conhecidas como Tarocchi eram compostas por cinco ciclos de dez constituintes cada, cujos significados contextuais são fáceis de compreender, nas cartas do Tarocco, que viriam dar lugar aos Arcanos Maiores do Tarot, essa relação já não existe, nem sabemos se algum dia terá existido. Nem sabemos verdadeiramente de onde surgiram cartas como "A Torre" ou "A Papisa", apenas para dar dois exemplos.

 

O que sabemos, isso sim, é que a origem do Tarot não está ligada à Antiguidade, e dizer que as suas cartas constituintes preservam, por exemplo, algum conhecimento secreto de um tal Livro de Thoth (sim, o deus egípcio do conhecimento), como o quis dizer Jean-Baptiste Alliette, é puramente falso. Querer prever o futuro com cartas de Tarot - ou com quaisquer outras - deve sempre ter em conta esta sua falsa herança... porque, na verdade, utilizá-las a elas, seja porque método for, não faz qualquer sentido real, só nos podendo dar as respostas que os "leitores" de cartas já sabem que queremos ouvir. E nenhuma Maya, Maria Helena, ou outro dos tantos "astrólogos" que existem pode mudar isso...

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31 de Maio, 2020

O mito de Hermafrodito e Salmacis, a ninfa violadora

Não é Salmacis, mas até podia ser...

São virtualmente incontáveis os mitos gregos e latinos em que uma personagem do sexo masculino não sabe aceitar o desinteresse do sexo oposto. Porém, o mito comum de Hermafrodito e Salmacis prima por apresentar uma situação oposta, mostrando-nos o caso de uma ninfa - ou, para sermos mais precisos, uma naíade - que, pura e simplesmente, não sabia aceitar um "não" alheio.

 

Hermafrodito era um jovem de 15 anos que, um dado dia, decidiu passear pela floresta. Enquanto habitava a sua pequena fonte, Salmacis viu-o e sentiu um enorme amor à primeira vista. Tentou insinuar-se perante ele, tentou beijá-lo, tentou mil outros estratagemas, mas o jovem pura e simplesmente não tinha qualquer interesse nela. Então, irritada, decidiu enganar Hermafrodito, para que este tomasse um pequeno banho na fonte. Quando, ingenuamente, ele acabou por o fazer, Salmacis puxou-o para seu lado, abraçou-o com força, cobriu-o de beijos e disse que nunca mais o iria largar, pedindo aos deuses que a fizessem cumprir essa promesa. Eles, inesperadamente, e sem nunca ouvirem os horrendos gritos de desespero do jovem, fundiram então Salmacis e Hermafrodito num só corpo, que ambos depois viriam a ocupar para o resto do tempo...

 

Muito podíamos escrever sobre este mito em específico, desde a origem do nome de Hermafrodito até ao possível facto de toda esta história poder ter sido uma invenção ovidiana, mas se o contamos hoje é por uma necessidade especial. Raramente nos metemos em certo tipo de questões, mas... hoje, abrimos uma pequena excepção. A violência, no contexto de qualquer espécie de relação, nunca é aceitável. Nunca. Há pouco mais de uma semana uma amiga pessoal sofreu algo completamente bárbaro por causa de um homem, numa situação com contornos como os acima, e... se gostam de uma pessoa, tenham a decência de a respeitar sempre. Para vosso bem e deles.

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