Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mitologia em Português

26 de Maio, 2020

A "Visão de Túndalo" e o inferno medieval

Um episódio da Visão de Túndalo

A Visão de Túndalo, conhecida no original latino como Visio Tnugdali, pode ser vista como a grande predecessora medieval da visão do inferno de Dante Alighieri. Na verdade, quem for ler os dois textos poderá, sem muita dificuldade, notar que existe uma relação notória entre eles, sendo muito possível que o poeta italiano até conhecesse este poema do século XII. Mas, se a obra italiana é muito famosa, qual é a trama desta Visão de Túndalo? Podemos resumir este poema de uma forma breve:

 

Túndalo era um cavaleiro rico que conduzia a sua vida cometendo os maiores e mais brutais pecados. Depois, um dia, enquanto jantava, caiu num enorme torpor e sentiu-se a morrer. Foi parar ao inferno, onde, acompanhado por um anjo, não só viu as muitas torturas que existiam por lá como até teve - não porque o quisesse, mas porque a isso foi obrigado - que participar nelas, sentindo parte dos sofrimentos que os pecadores também passavam.

A essa visão do inferno - certamente o elemento mais famoso da obra - segue-se uma pequena visão dos penitentes e do feliz destino daqueles que tinham seguido uma vida conforme os preceitos do Cristianismo. E, face a todas essas visões, Túndalo fica tão impressionado que quando volta ao mundo dos vivos, corrige por completo todos os seus comportamentos negativos, dá as suas riquezas aos pobres e torna-se um homem santo.

 

Mesmo por esta breve sinopse, quem conhecer a Divina Comédia conseguirá entender as semelhanças. Porém, o que Dante parece ter adicionado ao tema é um elemento particularmente curioso, em que a punição dos diversos pecadores é ligada de uma forma directa aos seus próprios crimes, enquanto que neste poema essa relação ainda não era assim tão consistente e notória. Além disso, o próprio sofrimento de Túndalo pode ser resumido num simples e repetitivo "ele viu X, depois passou por isso, e finalmente o anjo salvou-o desse castigo", tornando a obra significativamente formulaica.

 

Enfim, a Visão de Túndalo não é uma obra literária muito interessante para o leitor comum, essencialmente porque nos apresenta um conjunto de ideias que depois foram reutilizadas, com um resultado muito mais digno de nota, na Divina Comédia. Porém, é uma obra notória para quem tiver curiosidade relativamente à forma como o conceito do pós-vida cristão foi evoluindo ao longo dos séculos.

Gostas de mitos, lendas, literatura ou curiosidades?
Recebe as nossas publicações futuras por e-mail - é gratuito e poderás aprender muitas coisas novas!
26 de Maio, 2020

O mito da deusa Éris, personificação da discórdia

A deusa grega Éris podia ser só mais uma personificação como tantas outras. Podia ser uma daquelas figuras de que raramente nos lembramos, como Fobos (o medo), Deimos (o pânico), ou até os Erotes, mas bastou uma só participação na Mitologia Grega para a tornar uma das mais famosas deusas da Antiguidade Clássica.

Uma maçã na mesa dos deuses

Conta-nos o mito que numa data incerta os deuses celebraram o casamento do mortal Peleu com a ninfa Tétis. Todas as figuras divinas foram convidadas, da maior à mais pequena, com uma única excepção - a deusa Éris, a discórdia personificada.

Naturalmente zangada pela ausência de convite para um banquete em que até seres disformes estiveram presentes, a deusa rapidamente decidiu vingar-se - enviou ao banquete uma prenda, uma maçã (ou pomo) com a inscrição "Para a mais bela". E o resto, como se costuma dizer, é história.

 

O que não pode deixar de ser particularmente fascinante neste mito é o facto de esta deusa Éris, personificação da discórdia, ter um único papel e presença real nos mitos gregos, mas é um papel fulcral na instigação da Guerra de Tróia, cuja fama até chegou aos nossos dias. O seu nascimento aparece em Hesíodo, a deusa é mencionada como uma mera personificação em diversas outras histórias, mas esta sua intervenção directa no casamento de Peleu e Tétis é hoje o único instante em que ela age por si mesma. E talvez isso até explique o porquê dos Romanos venerarem a deusa Concórdia, não fosse o proverbial diabo tecê-las e Éris, a Discórdia sob o seu nome grego, voltar a fazer das suas...

Gostas de mitos, lendas, literatura ou curiosidades?
Recebe as nossas publicações futuras por e-mail - é gratuito e poderás aprender muitas coisas novas!
25 de Maio, 2020

Fenghuang, a Fénix Chinesa, e como se distingue da ocidental

Fenghuang, a Fénix Chinesa, tem nas obras de Mitologia um papel parcialmente enganador, porque as referências a ela induzem um pouco o leitor ocidental em erro. Na verdade, há alguns dias, enquanto líamos um dado texto chinês, deparámo-nos com esse problema - o texto, lido em tradução inglesa, mencionava uma "fénix". Estranhámos a referência, porque isto poderia levar a uma (falsa) ideia de que diversas culturas por todo o mundo acreditavam numa mesma criatura com características análogas à da nossa Fénix. Mas, na verdade, o que o texto mencionava em chinês era uma criatura que hoje é conhecida como Fenghuang, e que pelas razões que mostraremos abaixo tende a ser traduzida entre os ocidentais como "fénix".

Será Fenghuang?!

Deixe-se muito claro que Fenghuang é uma criatura significativamente diferente da fénix ocidental. O seu nome nasceu da junção de uma espécie em que o elemento masculino era chamado Feng e o feminino Huang - juntando-se ambos num só corpo, assim nasceu esta Rainha dos Pássaros e símbolo do ponto cardeal sul. Este animal, também conhecido em Japonês como Ho-ho, é um dos quatro animais sagrados chineses e um símbolo da imperatriz (por analogia ao dragão Yinglong, símbolo do imperador), com cada uma das suas cores a ter uma simbologia muito específica.

 

Mas então, porque é o nome deste pássaro normalmente traduzido como "fénix"? Não tem qualquer relação simbólica com o fogo ou ressurreição, mas essa convenção poderá ter vindo do facto de só existir uma Fenghuang, tal como a Mitologia da Antiguidade nos diziam que só existia uma única fénix - ou seja, eram ambas criaturas únicas e do sexo feminino. No entanto, a relação entre estes dois pássaros parece terminar precisamente nessa coincidência, sendo esta portanto uma tradução muito imprecisa...

Gostas de mitos, lendas, literatura ou curiosidades?
Recebe as nossas publicações futuras por e-mail - é gratuito e poderás aprender muitas coisas novas!
25 de Maio, 2020

O "Cantar de Mio Cid" - e qual é o mais antigo poema épico português?

Cavaleiro

O Cantar de Mio Cid é o mais antigo poema épico espanhol (e ibérico). Conta-nos parte da história de um famoso herói espanhol, Rodrigo Díaz de Vivar, que viveu no século XI e ficou conhecido para a história como "El Cid" e "Campeador". A história começa com o exílio deste herói da corte de Afonso VI (de Castela, obviamente), e prossegue com várias aventuras até à morte do herói.

 

Claro que os combates abundam neste épico, mas o que é particularmente digno de nota é que este poema se inspira em múltiplos factos bem reais, salvo um ou outro elemento ficcional menor - por exemplo, nunca é mencionado que El Cid teve um filho, e a trama só lhe associa duas filhas, que são dadas em casamento a dois irmãos (ficcionais). Porém, e apesar desse grande carácter real, esta não é uma criação poética enfadonha, puramente histórica, mas uma que até dá algum prazer de leitura, mesmo na completa ausência daqueles elementos mágicos e fantasiosos que acabarão por caracterizar as aventuras de cavalaria mais recentes.

 

Após a leitura dos seus versos temos agora uma curiosidade para oferecer. Perto do final da trama deste Cantar de Mio Cid tem lugar um momento numa espécie de tribunal, em que é dado um papel de juiz a um membro da corte castelhana chamado "Henrique" - é provável que se trate de Henrique de Borgonha, pai do "nosso" Afonso Henriques, unindo de uma forma ténue este escrito de nuestros hermanos ao nosso país.

Mas, ao mesmo tempo, isto suscita-nos uma grande dúvida - se este é o mais antigo poema épico espanhol, qual foi o primeiro composto em Portugal? Já ouvimos vários especialistas teorizarem um possível épico sobre os grandes feitos de Afonso Henriques, que já não chegou aos nossos dias e que possivelmente até seria o primeiro da pátria portuguesa, mas então... qual é o mais antigo poema épico português que ainda podemos ler? Será que alguém sabe?

Gostas de mitos, lendas, literatura ou curiosidades?
Recebe as nossas publicações futuras por e-mail - é gratuito e poderás aprender muitas coisas novas!
24 de Maio, 2020

Tudo sobre a lenda de Teresa Fidalgo

A estranha lenda de Teresa Fidalgo, também conhecida anteriormente como a de um fantasma de Sintra ou a de "Teresa Fidalga", deve aqui ser apresentada através de uma pequena história pessoal, mas também bastante real - há já uns anos um dos nossos colegas estava a viver no México quando um amigo lhe quis mostrar um pequeno vídeo exibido num programa da manhã desse país, e que supostamente tinha sido gravado na zona de Sintra, em Portugal. A história de terror apresentada lá, que até se confunde com a própria lenda de que falamos hoje, é muito simples, pelo que podemos resumi-la assim:

Foto do fantasma de Teresa Fidalgo, ou Teresa Fidalga

A lenda de Teresa Fidalgo

Três jovens andam de carro por Sintra a meio da noite e encontram uma bela jovem, com um agora muito invulgar vestido branco, na berma da estrada. Oferecem-lhe boleia, não se sabe muito bem para onde, e ela aceita-a. Apesar de muito calada, ela diz-lhes o seu nome, o mesmo nome pelo qual ficará conhecido este fantasma. Minutos depois, aponta-lhes para um dado lugar na estrada e diz-lhes "Foi ali que tive um acidente [em 1983, um elemento que a lenda adiciona posteriormente]... e morri!", causando aos ocupantes do carro o que se supõe ter sido um acidente mortal.
 

E é somente esta a lenda associada a Teresa Fidalgo, a sua copypasta ou biografia (se assim o quisermos chamar), sem tirar nem pôr uma vírgula em toda a história - ela era uma jovem que, supostamente, em 1983 morreu numa curva de uma estrada de Sintra e agora assombra os vivos que por lá passam, conduzindo-os para as suas próprias mortes no mesmo local em que ela própria um dia faleceu.

No programa mexicano a apresentação deste vídeo, que pode ser recordado abaixo, foi seguida por uma discussão de "especialistas", que o analisaram e, com base nas supostas "provas", o proclamaram como o registo de um acontecimento completamente real, de um assombramento por parte desta entidade metafísica. E então, esse amigo mexicano foi perguntar ao nosso colega se o que ele tinha visto - e a lenda - eram mesmo verdade...

Será a história de Teresa Fidalgo verdade?

De facto... estas coisas não eram e não são verdade, deixe-se isso completamente claro! Não parece existir qualquer referência oral ou literária a esta suposta lenda de Teresa Fidalgo (ou "Teresa Fidalga", como insistem em chamar-lhe outros), antes da criação desse vídeo, nem quaisquer provas reais da sua morte nas estradas de Sintra. De facto, hoje até já se sabe que a sequência reproduzida acima se tratava somente de uma curta metragem portuguesa, produzida pelo português David Rebordão e de título A Curva, sem qualquer fundamento real, que assentou no conceito de found footage - como o mais famoso Projeto Blair Witch anglófono - para efeitos muito significativos de publicidade e marketing.

Fotografia de Sara Cipriano, que um dia fez de Teresa Fidalgo em filme

Também nós revimos agora o vídeo e o que nos fascinou - e nos fez ver que era tudo mentira - é mais ou menos o que parece ter levado o nosso colega à mesma ideia há alguns anos atrás - os diálogos claramente ficcionais, a estapafúrdia ideia de se dar boleia a um fantasma nem se sabe bem para onde (se isso é possível, porque não raptá-lo ou levá-lo a jantar fora?!), o final com falsas mortes, a notória falsidade do vídeo ter sido gravado e encontrado em Sintra, etc. Na verdade, a jovem que um dia fez de Teresa Fidalgo, de seu nome Sara Cipriano, até pode ser vista, alguns anos mais tarde, nesta segunda foto, bastando comparar as semelhanças das duas personagens femininas para que a realidade seja, muito rapidamente, posta a nu!

 

O mito de Teresa Fidalgo e outras lendas nacionais de fantasmas...

Se até existem fenómenos fantasmagóricos e misteriosos famosos em Portugal, desde uma casa assombrada na Costa do Estoril até à chamada "Casa do Medo", passando pela costureirinha, já toda esta lenda associada a Teresa Fidalgo é completamente falsa, ao ponto de nem sequer ter página na Wikipedia. Assim sendo, na altura o nosso colega ainda confrontou a produção do programa mexicano com essas falhas, mas não mostraram qualquer interesse em apresentar este outro lado da questão. Os "especialistas" do programa tinham dito que era verdade e, por isso, tinha de ser verdade, por muito mentira que o fosse...

Assim nasceu esta figura fantasmagórica, Teresa Fidalgo, numa lenda - ou se quisermos ser mais precisos, um puro mito - que se acreditava originalmente ser de Sintra, e que depressa foi publicada pelo mundo fora, continuando a ser reutilizada ainda hoje como se de um fantasma verdadeiro se tratasse, em mensagens em corrente que avisam coisas como "se não postares isto em mais 20 fotografias, vou dormir contigo para sempre", "hoje completo 26 anos de morte, se não enviar isto a 20 pessoas, dormirei a seu lado para sempre, se não acredita pesquise no Google", ou até "envie para 20 pessoas, uma garota que ignorou isso morreu 20 dias depois". Não o façam, não reencaminhem essas coisas para ninguém, porque toda esta história é falsa!

Gostas de mitos, lendas, literatura ou curiosidades?
Recebe as nossas publicações futuras por e-mail - é gratuito e poderás aprender muitas coisas novas!
24 de Maio, 2020

A lenda da Gruta da Moeda

A lenda da Gruta da Moeda remete-nos para um espaço muito próximo da cidade portuguesa de Fátima. É, como o respectivo site nos informa, uma gruta com extensão visitável de cerca de 350 metros, cuja beleza nos pode ser apresentada parcialmente nesta fotografia panorâmica tirada por um dos seus visitantes:

Porém, o que nos interessa particularmente é a sua lenda. O site já mencionado acima relata a seguinte:

Em tempos idos, um homem abastado destas redondezas ao passar por um bosque, em torno de um algar, foi assaltado por um bando de malfeitores que lhe tentaram saquear a bolsa de moedas que trazia à cintura. Com a confusão do assalto, o homem caiu para dentro do algar, levando consigo a bolsa de moedas tão cobiçada pelos assaltantes. Pelo precipício se espalharam e perderam irremediavelmente as moedas, dando ao algar o nome pelo qual ainda hoje é conhecido - Algar da Moeda.

 

Contudo, há já alguns anos contaram-nos uma versão popular significativamente diferente. Segundo ela, a "Gruta da Moeda" tinha esse nome porque quando Nossa Senhora apareceu em Fátima, numa das viagens para o seu encontro com os Três Pastorinhos deixou cair a sua carteira numa gruta próxima do local, onde viria a ser encontrada alguns anos mais tarde.

 

É possível que esta segunda versão se trate de um mero mito, ou de uma versão um tanto ou quanto satírica da outra lenda da Gruta da Moeda, mas o que ambas nos mostram é um aspecto das lendas e mitos que foi sendo repetido ao longo dos séculos - um local tem um determinado nome (ou característica), a razão original perdeu-se com o tempo, e então surgem tentativas de justificar o nome conhecido de diversas formas, algumas mais naturais do que outras.

Gostas de mitos, lendas, literatura ou curiosidades?
Recebe as nossas publicações futuras por e-mail - é gratuito e poderás aprender muitas coisas novas!
23 de Maio, 2020

As estranhas cabeças dos deuses do Antigo Egipto

Não é preciso perceber-se muito sobre estes temas para reconhecer que existem elementos característicos em todas as mitologias. Por exemplo, os santos cristãos têm auréola; os deuses gregos podem transformar-se; os deuses índicos reencarnam múltiplas vezes; e os deuses do Antigo Egipto tinham estranhas cabeças de animais.

Parada de deuses egípcios

Talvez essas estranhas cabeças dos deuses egípcios tenham nascido de uma necessidade de preservar sob forma humana a sua divinização dos animais. Talvez tenham nascido de visitas de extraterrestres. Talvez tenham vindo de mitos já há muitos perdidos (já voltaremos a esse tema). Não sabemos qual é a resposta correcta, mas o que sabemos, sem qualquer dúvida, é que quando imaginamos um qualquer deus do Antigo Egipto, fazemo-lo com corpo humano mas cabeça de animal. Agora, catalogar todas essas cabeças dos deuses seria difícil, até porque variam (i.e. um deus não tem sempre a mesma cabeça), mas o que poucos parecem saber é que os atributos dos deuses são frequentemente dois - a cabeça de animal e outro elemento  a ela externo.

 

Olhando para a imagem acima, o deus Rá pode ser visto com cabeça de falcão, mas igualmente com um círculo solar engolido por uma cobra, relembrando o mito de Apófis. O deus Sobek, com cabeça de crocodilo, tem uma espécie de coroa com duas penas de avestruz, por razões que já desconhecemos. Thoth tem cabeça de íbis, juntamente com o círculo lunar sobre a sua cabeça.

 

Mas de onde vêm todas essas ideias? Porque têm estes deuses do Egipto tanto cabeças de animais como outros atributos? Já não se conhece qualquer mito que o explique, mas existe uma pequena pista nos mitos da Grécia - quando Tífon atacou o Olimpo, é-nos dito que os vários deuses fugiram para o Egipto e adoptaram a forma de animais, de que o exemplo dos peixes é o mais famoso. A ideia permitia um sincretismo religioso, mas pode igualmente levar-nos a considerar que terá existido um tempo em que os deuses ainda não tinham as suas estranhas cabeças, tendo-as recebido após algum episódio mítico hoje perdido.

 

Será verdade? Será que o mito grego preserva parte de um mito egípcio hoje esquecido? Não sabemos, até porque, por definição, um "episódio mítico hoje perdido" implica que não tenhamos qualquer acesso a ele. O que sabemos, no entanto, é que como já foi dito acima os deuses do Antigo Egipto não tinham sempre as mesmas estranhas cabeças. Os deuses e as suas formas variavam, evoluíam, como é natural numa cultura que se prolongou por vários milénios.

 

Talvez seja essa a grande lição a retirar destas linhas, o facto de, numa cultura que subsistiu por vários milénios como a do Antigo Egipto, não se dever esperar uma consistência horizontal inesgotável. Mais do que dizer que Sobek tinha cabeça de crocodilo e Anubis a de um chacal, é mais correcto dizer-se que um dos atributos desses deuses é o facto de, em dadas alturas, serem representados com as estranhas cabeças desses animais.

Gostas de mitos, lendas, literatura ou curiosidades?
Recebe as nossas publicações futuras por e-mail - é gratuito e poderás aprender muitas coisas novas!
22 de Maio, 2020

Qual é a verdadeira origem do hipogrifo?

A criatura conhecida por este nome é-nos hoje famosa das aventuras do Harry Potter, mas qual é a verdadeira origem do hipogrifo? Talvez sejam poucos os leitores que o sabem, mas esta criatura não foi totalmente criada por J. K. Rowling, tendo até uma origem literária significativamente ilustre, que já vem do século XVI da nossa era.

Harry Potter e o Hipogrifo

Mas, antes de nos focarmos nesse ponto, há que perguntar - afinal, o que é um hipogrifo? Essencialmente, é uma criatura (ficcional) híbrida, composta por partes de três animais distintos - um cavalo (do grego hippos) e um grifo, este segundo por sua vez um híbrido composto pelo corpo de um leão e uma águia. Tanto na sua constituição física como no seu carácter, retira alguns aspectos particulares de cada um desses três animais - por exemplo, pode voar como a águia, tem a força do leão e a velocidade do cavalo. A origem do hipogrifo, ou do seu aspecto físico, prende-se então com as características conjuntas desses animais.

 

E então, qual foi a origem e a primeira aparição literária do hipogrifo? Se a ideia de acasalar grifos com cavalos já aparece na literatura da Antiguidade para significar algo que é certamente impossível de fazer (até pela dificuldade em encontrar os primeiros), a aparição mais famosa deste animal é na obra italiana Orlando Furioso, em que um dos heróis (e um vilão, se a memória não nos engana...) até o monta no decurso das suas aventuras de cavalaria. Será que J. K. Rowling leu essa obra, ou terá conhecido esta criatura fantástica através de algum texto mais recente? Não sabemos, mas é um bom exemplo de como essa autor reutilizou o património literário dos séculos passados para as suas aventuras, como também aconteceu nos casos do Basilisco e da Manticora...

Gostas de mitos, lendas, literatura ou curiosidades?
Recebe as nossas publicações futuras por e-mail - é gratuito e poderás aprender muitas coisas novas!
22 de Maio, 2020

As lendas de dois buracos muito profundos

Um buraco muito grande e perigoso

As duas pequenas lendas de hoje falam-nos de dois locais completamente distintos, mas até têm um elemento comum que os une - são dois buracos muito, muito grandes e profundos. De facto, dois buracos tão grandes que acabariam por se tornar famosos em virtude de nos ser completamente impossível ver o seu fim com os nossos próprios olhos.

 

O primeiro destes buracos foi na Rússia, e foi alegadamente escavado numa data imprecisa dos últimos anos do século XX. Com mais de 12 Km de profundidade, a lenda diz-nos que em dada altura quem o escavou - com uma máquina, obviamente - se deparou com um espaço oco. Quando baixaram uma câmara e um microfone nesse local, encontraram então algo completamente inesperado - o buraco era tão profundo que tinham chegado ao Inferno! Sim, aquele Inferno em que se diz que os pecadores serão punidos após a morte, e pouco depois um demónio até saiu do buraco e atacou os responsáveis por todo este prodígio.

 

O segundo buraco, e respectiva lenda, vem-nos dos Estados Unidos da América, e ficou conhecido como o Buraco de Mel [Waters], que é o nome do homem a quem pertencia o terreno em que alegadamente estava localizado. Segundo ele, na sua propriedade havia um buraco sem fim, que até tinha a propriedade miraculosa de trazer animais de volta à vida, mas nunca ninguém conseguiu localizá-lo, e procuras pelo mesmo no Google Maps também falharam.

 

Agora, o que têm estes dois buracos em comum? Mais que tudo, o facto de não existirem quaisquer provas reais e palpáveis da sua existência. Na verdade, até se sabe que o primeiro deles - e a respectiva história - é pura e simplesmente fictício, enquanto que mesmo aqueles que afirmam já terem visto o segundo não conseguem localizá-lo quando lhes é pedido que o façam. E isso poderá levar-nos a crer, de forma muito bem justificada e compreensível, que ambos os buracos são pura ficção, nada mais que uma lenda dos nossos dias.

Gostas de mitos, lendas, literatura ou curiosidades?
Recebe as nossas publicações futuras por e-mail - é gratuito e poderás aprender muitas coisas novas!
21 de Maio, 2020

Porque é que os Egípcios construíram pirâmides?

A Pirâmide de Unas

Hoje fizeram-nos uma pergunta que não podemos deixar de considerar fascinante - porque é que os Egípcios construíram pirâmides? Já todos ouvimos falar das pirâmides como túmulos, como portais para outras dimensões, como naves espaciais escondidas, entre outras tantas ideias muitíssimo estranhas, mas porquê pirâmides? Porque não cubos, ou simples buracos no chão, ou enormes templos, ou até qualquer outra forma geométrica?

 

Existem várias teorias, mas uma das possibilidades mais interessantes para ser abordada neste espaço poderá ter a ver com um mito da criação egípcia. Segundo ele, originalmente só existiam águas sem fim... até que um dia, por razões hoje desconhecidas, surgiu um monte no meio da água, como se da barriga de uma mulher grávida se tratasse. Desse monte foi dado à luz um enorme ovo. Finalmente, desse ovo primordial nasceram os primeiros deuses.

 

A forma das pirâmides, enquanto elevação pouco natural na superfície da terra, poderá remeter-nos de volta para esse mito inicial da criação. O faraó morreu, é sepultado num local que relembra essa gravidez inicial da terra, e depois nasceria dela, de forma sobrenatural, entre os próprios deuses, numa espécie de repetição teatral do mito da criação.

 

Será esta a resposta correcta e verdadeira a porque é que os Egípcios construíram pirâmides? Não sabemos, nem é possível que se venha a ter qualquer certeza sobre o tema, mas de um ponto de vista da intersecção entre mito e ritual esta é uma razão suficientemente interessante para ser mencionada por cá.

Gostas de mitos, lendas, literatura ou curiosidades?
Recebe as nossas publicações futuras por e-mail - é gratuito e poderás aprender muitas coisas novas!