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Mitologia em Português

03 de Maio, 2020

O outro castelo de Sintra

Hoje, quando pensamos num castelo de Sintra, a nossa mente é imeditamente levada àquele que é chamado o "Castelo dos Mouros". Mas, ainda assim, talvez sejam já poucos aqueles que sabem que em outros tempos existia um segundo castelo, ou uma espécie de fortaleza, associada à mesma vila. Infelizmente, são já poucos os vestígios palpáveis desse segundo recinto, mas o Livro das Fortalezas, de Duarte de Armas, datado de inícios do século XVI e que pode ser consultado aqui, preserva-nos duas imagens muito interessantes.

O Castelo de Sintra

Aqui, o Castelo dos Mouros pode ser visto no topo da montanha, circundado a vermelho, enquanto que algumas muralhas, num estado de destruição já muito notório, estão assinaladas a verde. É certamente possível que estas segundas se tenham tratado, em tempos agora já demasiado esquecidos, de uma primeira cerca de protecção em redor da vila.

O Castelo de Sintra

Nesta segunda imagem, desenhada do lado oposto, estão o famoso castelo a azul (no topo da montanha) e a Igreja Paroquial de São Martinho de Sintra, a vermelho, que ainda existe e cuja entraa continua a ser muito semelhante à mostrada aqui. Mas, a verde, pode ser vista uma espécie de muralha, que ainda existe (mas talvez não totalmente igual?), e que trai a função defensiva original de todo o complexo a que hoje se chama o Palácio Nacional de Sintra.

 

Os mais puristas poderão dizer que estas imagens, do século XVI, não mostram verdadeiramente um segundo castelo de Sintra. E isso é verdade, não conseguimos encontrar imagens reais em que essa fortificação ainda se encontrasse completa - o que provavelmente ainda acontecia no século XII, quando o local foi conquistado pelos Cristãos - mas dão-nos é a entender que existiu um período em que existia uma muralha defensiva em redor de toda a vila, um espécie de outro castelo de Sintra, com os seus contornos hoje perdidos em função do peso dos séculos. Já pouco sabemos sobre ele, mas pelo menos estes desenhos de Duarte de Armas permitem-nos ter consciência, de uma forma muito vaga, dos contornos que Sintra tinha em outros tempos...

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02 de Maio, 2020

A lenda do Lobisomem (e o Tardo)

A lenda do Lobisomem (a que depois juntámos a figura portuguesa do Tardo), conta-se entre as três maiores lendas brasileiras, juntamente com as das figuras do Saci e da Mula Sem Cabeça. Agora, se já aqui falámos das outras duas figuras anteriormente, é natural que também fossemos falar desta, antes de discutirmos se esta criatura verdadeiramente existe.

A lenda do Lobisomem (e o Tardo)

A ideia de toda esta criatura, de uma figura humana que em determinadas condições adopta a forma de um lobo ou de outro animal, poderá até vir da pré-história. No entanto, a sua primeira referência mais significativa que temos a ela surge no mito grego de Licáon, em que um rei é transformado em lobo como punição divina. Agora, isto pouco assustaria fosse quem fosse - se tais acontecimentos apenas acontecessem por punição divina, poucos ou nenhuns lobisomens existiriam no mundo - mas Marcelo de Side, um autor da Antiguidade que escreveu uma obra chamada Da Licantropia (que apenas nos chegou num fragmento), considera esta uma doença bem real, dizendo sobre ela o seguinte:

Os que sofrem da doença chamada Cinantropia ou Licantropia saem durante toda a noite no mês de Fevereiro, imitando lobos e cães, passeando em redor dos cemitérios durante a noite. Podem reconhecer quem está afectado por ela pelos seguintes sinais: são pálidos, parecem fracos, têm olhos secos e não choram. (...) Também têm muita sede e feridas incuráveis nas pernas, por causa das quedas contínuas e das mordidelas dos cães. (...) [No fragmento segue-se informação, aqui irrelevante, sobre como essa doença pode ser curada.]

 

Isto não revela muito sobre a criatura que também pode ser conhecida como Licantropo, excepto pelo facto de nos fazer compreender que no primeiro século da nossa era, altura em que viveu este Marcelo de Side, esta era uma doença quase puramente psicológica, não configurando uma transformação verdadeira de ser humano em lobo (ou cão). Por isso, pense-se no tema por um breve momento - nos filmes e livros dos nossos dias como é que nascem estas criaturas? É frequentemente mencionada a lua cheia, a mordidela de um lobo, o simples nascimento de um pai (ou mãe) que também partilha deste poder místico, algum outro método mais mágico... mas nem sempre assim o foi, e nesse sentido a lenda do Lobisomem no Brasil é derivada de uma antiga lenda portuguesa e europeia. Segundo ela, quando uma mulher tem sete filhos consecutivos de um mesmo género sexual (sete filhas geram uma bruxa ou uma Peeira, para quem tiver essa curiosidade), esse sétimo rebento irá sofrer de Licantropia, uma ideia que não vem da Antiguidade!

 

A mesma lenda acrescenta, depois, que em determinadas noites essa pessoa iria ficar como louca, devendo ser trancada em casa na mais completa solidão. Não é dito que isso acontecia em noites de lua cheia, como é comum nas histórias literárias e cinematográficas, mas algumas versões que ouvimos de idosos dos nossos dias em Portugal referem que isso acontecia nas noites de sexta-feira para sábado, com pelo menos uma idosa a nos dizer que o marido de uma amiga já falecida, que era lobisomem, um dia não foi trancado nem o deixaram sair de casa, e então entrou numa espécie de coma profundo, de que só saiu já na noite seguinte. Um elemento curioso - em nenhum momento nos foi dito que a transformação em lobo era literal, mas simplesmente que quem sofria dessa espécie de "doença" ficava com o carácter metafórico de um lobo - vicioso, feroz, a uivar, etc.

 

Nesse contexto, a lenda brasileira, com mais ou menos detalhes, parece derivar parcialmente de uma lenda portuguesa que também existiu por toda a Europa. Contudo, hoje em dia, fruto de uma cultura cada vez mais global, este monstro no Brasil, como o de Portugal e o de tantos outros países, está a perder as suas origens e a tornar-se uma criatura com feições horizontais por todo o globo...

 

Mas, para terminar, será que a criatura de todo este mito ou lenda existe mesmo? Como é fácil ver pelas palavras escritas acima, a forma como hoje vemos esta criatura, hoje, resulta de um sincretismo de diversas crenças diferentes ao longo de muitos séculos. É uma ideia que se foi alterando ao longo dos tempos, sendo por isso impossível que alguma vez tenha tido uma existência real - se assim o fosse, como explicar as formas tão diversas e inconsistentes como foi sendo representada na literatura? Isso não faria qualquer sentido, excepto se se tratar de uma criatura que só nasceu da imaginação humana, e à qual cada nova geração foi adicionando um pouco mais à história, como é comum em relatos puramente ficcionais, que não assentam numa realidade física.

 

[Adicionado posteriormente:] Porque acrescentámos ao artigo acima esta sequência sobre uma figura puramente portuguesa, o Tardo? Porque, mais tarde, viemos a encontrar um curioso documentário nacional que não só mostra as muitas semelhanças entre as duas figuras, como também fala extensamente sobre as crenças relativas à figura a que se refere este artigo de hoje! Podem vê-lo abaixo, em três sequências relativamente curtas, que permitem ao leitor saber mais sobre o Tardo - e outras figuras dos mitos populares de Portugal - do que nós poderíamos dizer em algumas breves linhas:

Na verdade, se nem concordamos com tudo o que é dito nestes três vídeos, há que admitir explicitamente que eles apresentam o Tardo, entre outras figuras da Mitologia Popular Portuguesa, de uma forma rápida, interessante, e até com algumas histórias na primeira pessoa, o que é sempre de elogiar no nosso panorama ibérico!

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01 de Maio, 2020

A lenda da Mula Sem Cabeça

Hoje falamos da lenda da Mula Sem Cabeça, também conhecida como Cavala-Canga ou Cavala-Acanga, inspirados pelo Sítio do Picapau Amarelo, em que muitas criaturas do folclore brasileiro aparecem quase lado a lado e interagem entre si. Nos próximos dias também falaremos de algumas outras!

Mula Sem Cabeça

A primeira delas, a de hoje, é a lenda da Mula Sem Cabeça, também conhecida ainda com os nomes de Burrinha-de-Padre ou Burra-de-Padre. É uma lenda que parece ter sido famosa - é muito mencionada no inquérito conduzido por Monteiro Lobato, juntamente com a do Saci e a do Lobisomem, como parte das grandes lendas do Brasil - mas cujos contornos variam um pouco de região para região brasileira. O que têm em comum todas essas versões? Dizem-nos que esta criatura era originalmente uma mulher que tinha sido sido metamorfoseada nessa estranha figura devido a um enorme pecado que cometeu, e depois condenada a vaguear todas as noites enquanto deitava fogo ardente pelas ventas e relinchava de forma assustadora*.

 

O pecado cometido por esta mulher, essa futura criatura mitológica, varia significativamente - na versão de Monteiro Lobato ela é apanhada num cemitério a comer o corpo de crianças falecidas. Noutra versão ela apaixonou-se por um padre. Numa terceira, teve relações sexuais com um antigo pároco. Ou, se preferirem uma resposta mais geral e horizontal, o que a mulher transformada fez foi transgredir de alguma forma significativa as leis e preceitos da Igreja. E, como tal, sofreu uma punição divina.

 

Porém, o que não encontrámos foi uma história fiável que explicasse o porquê da transformação numa mula, ou a razão para esta não ter cabeça. Porque se transformou a mulher numa Mula Sem Cabeça, nesta lenda, em vez de em qualquer outra criatura? Segredos dos deuses, ou talvez uma associação com uma outra lenda já há muito perdida? Uma estranha opinião que ouvimos entretanto diz apenas que a mula se devia ao facto de esse ter sido, na Idade Média, o animal normalmente usado nas viagens dos padres, mas será mesmo por isso? E será que esta criatura não tem cabeça porque, de uma forma metafórica, "perdeu a cabeça" quando foi conduzida ao seu pecado original? Não sabemos, mas são certamente possíveis explicações para todo o problema da origem desta criatura puramente brasileira...

 

 

*- Como é que um ser que não tem cabeça relincha e tem narinas é algo que nos escapa por completo, mas são várias as versões da lenda que mencionam que o fogo sai desse preciso lugar - outras referem simplesmente o pescoço como fonte das chamas! Todas as fontes que consultámos nunca explicam este enorme mistério...

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