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Mitologia em Português

Mitologia em Português

29 de Junho, 2020

A Mitologia Japonesa, o Kojiki e o Nihongi

Uma edição do Kojiki

Quando se quer conhecer algum novo sistema de mitos um grande problema tende a ser o de descobrir por onde começar. É por isso que, a título de exemplo, em aulas de Mitologia Grega se costuma introduzir um texto como a Ilíada de Homero ou a Teogonia de Hesíodo - porque são um bom ponto de partida para explorações adicionais. Nesse seguimento, podemos dizer que para a Mitologia Japonesa um bom exemplo desse mesmo tipo de literatura é o Kojiki (possivelmente seguido pelo Nihongi), que até é o mais antigo texto que nos chegou do País do Sol Nascente.

 

O que é, então, o Kojiki? De forma breve, pode ser resumido como uma compilação histórica do século VIII da nossa era, que cobre os principais eventos do Japão desde os inícios do mundo até muito próximo da data de compilação. O que isto tem de muito relevante é o facto não só de preservar a memória desses eventos supostamente históricos, mas de o fazer quase em paralelo com a apresentação de muitos mitos e lendas japonesas (isto, no segundo e terceiro volumes - o primeiro é quase puramente mitológico), chegando ao ponto de se confundir onde termina a ficção e começam os factos propriamente ditos. E, por essa fusão, acaba por ser uma obra que dá um prazer de leitura pouco comum em obras da sua natureza.

 

É verdadeiramente possível que esse prazer venha da forma simples como toda a ficção e realidade se fundem no texto. Talvez esse prazer até venha dos pequenos poemas que se acreditava que as personagens tinham dito numa dada altura das suas vidas. A título de exemplo, o herói Yamato Takeru reencontra a sua amada após uma longa ausência e apercebe-se de que ela está com a menstrução. Diz-lhe então o seguinte:

Acima da celeste
Montanha Kagu
Voa como um foice afiada
O cisne de pescoço comprido.

O teu braço magro e delicado
É como o pescoço do pássaro -
Apesar de eu desejar tocá-lo
Num meu abraço;
Apesar de eu desejar
Dormir contigo,
Na bainha
Do robe que usas
A lua nasceu.

Ao que a sua amada, conhecida aqui como Miyazu-hime, lhe responde com as seguintes palavras:

Ó muito brilhante,
Príncipe do Sol,
Ó meu grande senhor
Que lidera em paz!

Como os anos
Passam um a um,
Também as luas
Passam uma a uma.
Não é mistério
Que enquanto esperava por ti,
No robe
Que estou a usar
A lua tenha nascido.

 

É um pouco difícil ler estas palavras sem que, pelo menos, nos surja um breve sorriso nos lábios. E, depois, lembramo-nos que, supostamente, esta se deveria tratar de uma obra histórica, em que raramente há motivos para tais liberdades. Nesse sentido, este é um texto que não só nos vai contando, aqui e ali, alguns dos mais famosos mitos do Japão, mas também o faz de uma forma tão interessante quanto bela. Por isso, se alguém quiser aprender mais sobre a Mitologia Japonesa, talvez a melhor obra por onde começar seja mesmo este Kojiki - se possível até com notas explicativas, devido a algumas sequências que nem sempre são fáceis de compreender.

 

Depois, se assim o desejar, pode continuar com um outro texto da mesma época e de natureza muito similar, o Nihongi, que conta os mesmos eventos da Mitologia Japonesa mas de uma forma muito mais detalhada, chegando ao ponto de relatar, para cada episódio, diversas versões de autores e obras distintas, raramente identificados pelo compilador. Porém, essa já é uma obra mais complexa e bem menos agradável para uma leitura meramente casual, sendo mais apropriada para leitores mais avançados, que procurem o máximo de informação disponível sobre algum mito ou episódio histórico em particular...

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27 de Junho, 2020

Os 47 Ronin e o teatro kabuki

47 Ronin com Keanu Reeves, poster japonês

É provável que a lenda dos 47 Ronin seja muito mais famosa que as anteriores, até porque já teve diversas adaptações ocidentais (aparentemente até um filme com Keanu Reeves, datado de 2013). Por isso, mais do que a contarmos novamente, bastará resumi-la de uma forma muito rápida, dizendo que é a história (com alguns contornos verídicos) de 47 samurais que juraram vingar a morte do seu amado mestre.

 

Agora, se existem várias adaptações cinematográficas desta lenda, tanto ocidentais como provindas de terras do oriente, o tema também é muito popular no teatro kabuki, marcadamente japonês e reconhecido em 2008 pela UNESCO como património imaterial da humanidade. Infelizmente, não é muito fácil assistir a peças deste tipo de teatro em Portugal, razão pela qual temos de recorrer a recursos online. Por isso, quem quiser ver parte de uma peça de teatro baseada nesta lenda poderá fazê-lo neste link, com uma segunda sequência aqui (mas não é possível ver toda a peça, infelizmente...). São pouco mais de três horas de visualização, mas pelo menos depois poderão dizer que conheceram algo completamente novo, que tem um grande significado noutra cultura bem diferente da nossa. E conhecer coisas novas - sejam mitos de um qualquer país no outro lado do mundo, ou estilos teatrais de que poucos terão ouvido falar em terras de Portugal - é sempre bom, não é? Por isso, fica essa sugestão invulgar para este fim de semana...

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26 de Junho, 2020

A lenda de Tawara Toda

Ontem, contámos um mito japonês que até se poderia confundir com tantos outros da Europa. Por isso, hoje queríamos mostrar o contrário, uma história provinda das terras do sol nascente mas significativamente diferente das ocidentais. Por isso, recordemos a lenda associada a Tawara Toda:

 

Originalmente chamado Fujiwara no Hidesato, enquanto se preparava para cruzar uma das muitas pontes existentes no Japão este herói encontrou um terrível dragão. Mas, mais do que o combater, quando o viu no local limitou-se a passar-lhe por cima, cuidadosamente, para não o acordar. Pouco depois foi-lhe revelado que essa era uma criatura mágica (a identidade varia mediante a versão consultada), que face à coragem demonstrada pediu a ajuda do herói - por perto existia uma enorme centopeia, que destruía tudo por onde passava, e que muito incomodava os habitantes de um reino místico. Feliz por poder ajudar, prontificou-se ao combate.

Tawara Toda e a centopeia

O herói apenas tinha três flechas consigo. Atirou a primeira, que apesar de atingir a centopeia no meio da cabeça, não a magoou. Disparou uma segunda, atingindo-a novamente num local que deveria ter sido mortal, mas sem qualquer efeito real. E então, antes de lançar o seu derradeiro ataque, lembrou-se que lhe tinha dito que as centopeias eram fracas contra o cuspe humano; humedecendo assim a ponta da sua flecha, atingiu o espaço que separava os dois olhos da criatura, fazendo-a sofrer as maiores dores. E, depois, aproximou-se e cortou-a em mil pedaços.

Felizes com tal milagre, os habitantes do reino místico local depressa o recompensaram. Deram-lhe um conjunto de ítens mágicos, o mais famoso dos quais foi um saco que dava ao seu portador arroz sem fim, graças ao qual Fujiwara no Hidesato passou a ser conhecido como Tawara Toda.

 

O que esta lenda tem de mais notável é uma espécie de inversão de algumas convenções ocidentais, em que o dragão é uma figura que necessita de ajuda, mais do que um opositor, enquanto que uma centopeia - para os ocidentais, uma criatura completamente inócua - acaba por ser o monstro da trama. Porque teria um dragão medo de uma simples centopeia seria difícil de compreender para os ocidentais, mas é em momentos como esses que podemos apreciar as diferenças culturais constantes em muitas histórias provindas dos quatro cantos do mundo...

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25 de Junho, 2020

O mito de Susanoo e Orochi

O mito de hoje, o de Susanoo e Orochi, é um bom exemplo nipónico de um tema frequente na cultura ocidental, nomeadamente o dos mitos e lendas de heróis que combatem contra grandes serpentes, vulgo dragões.

Uma belíssima imagem de Susanoo em batalha contra Orochi

Nas suas viagens, Susanoo, deus japonês do mar, encontrou um casal que tinha oito filhas, sete das quais já tinham sido devoradas por um enorme dragão. Só restava "Kushinadahime", a mais nova e mais bela. Sentido imensa pena do casal e da sua filha, ofereceu-se para os ajudar a todos, só pedindo em troca a mão dessa bela princesa chamada Inada, um pedido que os pais gentilmente lhe concederam.

Mas como derrotar Orochi, um dragão enormíssimo, com oito cabeças e oito caudas? O deus decidiu pegar em todo o saké que conseguiu encontrar e depositá-lo em oito barricas no interior de oito portas distintas. Atraído pelo cheiro da bebida, a monstruosa criatura fez passar cada um dos seus pescoços pelas portas, bebeu tanto quanto podia e, depois, completamente bêbada, adormeceu. Então, aproveitando a oportunidade, Susanoo atacou Orochi e cortou-o em mil pedaços.

Seria o fim da história? Ainda não - enquanto tentava cortar uma das caudas do monstro, o deus partiu a sua espada. Então, procurando uma nova arma, no interior de uma das caudas encontrou a lendária espada Kusanagi, um dos tesouros sagrados do Japão, com que destruiu completamente o seu opositor, e que posteriormente viria a oferecer à deusa Amaterasu. E, depois, casou com Inada.

 

Não fossem os "estranhos" nomes e esta até poderia ser uma história como tantas outras, desde a de Perseu e São Jorge até às lendas medievais do Rei Artur e de incontáveis cavaleiros andantes, demonstrando que os mitos e lendas dos heróis e dos dragões até têm um carácter muito horizontal por todo o globo. Se, nesta história, os nomes originais foram reduzidos à sua forma mais simples - por exemplo, Kushinadahime significa algo como "a bela princesa Inada", a espada Kusanagi também é a Kusanagi-no-tsurugi, enquanto que os opositores no mito podem ser chamados Susanoo-no-Mikoto e Yamata-no-Orochi - fora esse elemento é fácil perceber que esta até podia ser uma história europeia, mas que antecede em muito a chegada dos europeus ao Japão... talvez não sejamos tão diferentes assim, independentemente de onde nascemos ou vivemos?!

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24 de Junho, 2020

O mito de Shoki (e o de Zhong Kui)

Que muitos dos mitos e lendas do Japão foram importados de outros países é relativamente fácil de notar, até pela influência de figuras pseudo-budistas na cultura nipónica, mas essa interrelação é particularmente notória no mito de Shoki, que é uma versão japonesa do mito (chinês) de Zhong Kui.

Shoki

Este mito apresenta-nos, essencialmente, uma figura que estudou toda a sua vida para aquilo que, em Portugal, poderíamos chamar os exames nacionais. Mas depois, o que lhe aconteceu parece variar mediante a versão do mito - em algumas ele pura e simplesmente teve más notas; enquanto que noutras até foi o melhor classificado, mas essa posição foi-lhe retirada somente com base na sua fealdade.

Em qualquer dos casos, o que se passou levou a que esta figura, conhecida como Shoki no Japão e Zhong Kui na China, se suicidasse. Mas depois, quando chegou ao reino dos mortos, o seu conhecimento era tanto que um deus do submundo ficou muito impressionado e decidiu dar-lhe uma nova tarefa, a de reger e controlar aqueles monstruosos espíritos dos falecidos que tantas vezes causavam problemas - e, na verdade, na imagem acima, como em muitas outras, esta figura até pode ser vista em plena tarefa, aqui preparando-se para atacar um oni, uma espécie de pequeno demónio.

 

Se tanto o início como o final deste mito parecem ser relativamente estáveis, não podemos deixar de nos interrogar sobre o porquê das variações na trama. Fruto de algum debate sobre o tema, acabámos por nos interrogar se não derivariam, originalmente, de diferentes locais; seria estranho, numa cultura assente no mérito como o é frequentemente a chinesa, que alguém perdesse uma posição somente pela sua falta de beleza, ainda para mais se algumas versões dizem que foi o próprio Imperador a impedir o acesso de Shoki à posição que, por direito, seria efectivamente sua. E talvez seja mesmo essa a resposta - Shoki e Zhong Kui não são apenas uma mesma figura com dois nomes diferentes, mas sim duas figuras que, fruto do contexto cultural em que eram recordadas, acabaram por adoptar destinos diferentes para um mesmo final comum.

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23 de Junho, 2020

A lenda de Momotaro

De entre as mais famosas lendas do Japão conta-se a de Momotaro, cujo nome pode ser traduzido como "[o] Primogénito Pêssego". Quem souber disto certamente que não poderá deixar de se interrogar, automaticamente, sobre de onde virá um tão estranho nome, e por isso podemos recordar esta história, aparentemente muito pouco conhecida no Ocidente.

Momotaro e os seus companheiros

Existia um casal, já idoso, que toda a sua vida quis ter um filho, mas que nunca o conseguiu. Rezaram, rezaram e rezaram, até que um dado dia, enquanto estavam ao pé de um rio, viram um enorme pêssego a flutuar na corrente. Face a um tal prodígio, os idosos levaram esse pêssego e pretendiam comê-lo, mas quando o abriram ao meio encontraram, em vez do usual caroço dessa fruta, uma criança misteriosa no seu interior, que rapidamente lhes disse que tinha sido enviada pelos deuses para ser o filho que tanto desejavam. Em grande felicidade, o casal recebeu-o com as maiores honras e decidiu chamar-lhe então Momotaro.

Anos mais tarde, após Momotaro ter passado o período da sua tenra adolescência, decidiu viajar por toda a ilha do Japão numa espécie de tarefa civilizadora, combatendo e derrotando os demónios que ia encontrando. Enquanto o fazia, conheceu três animais falantes - um cão, um macaco e um faisão - que o foram ajudando nas suas aventuras em troca de doces. Derrotando muitos outros demónios, o herói foi recolhendo tesouros até que um dia voltou a casa, onde viveu com os seus pais e foram felizes para sempre.

 

Assim, a lenda de Momotaro é quase a do um mini herói civilizador, de que até já cá falámos anteriormente. Lendas como estas existem em quase todas as culturas do mundo (não diríamos "todas", porque não as conhecemos a todas...), que servem para nos dar uma razão pela qual certos seres monstruosos já não existem como antes. Mas, neste caso, é também uma história mais direccionada para um público mais jovem, ao ponto de existirem cantigas infantis associadas a Momotaro (quem quiser sorrir um bocado pode ver este vídeo), e até diversas séries animadas, que vão adicionando muitos elementos novos à pequena história original.

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22 de Junho, 2020

A lenda da origem do chá

Chá

Historicamente, sabemos que o chá é originário da China, com algumas fontes puramente lendárias a darem-lhe uma origem anterior ao século XXIV a.C. Porém, se se desconhece hoje a sua verdadeira origem, existe uma lenda que a explica, associada a uma mesma figura que é conhecida na Índia como Bodidharma, na China como Damodashi e no Japão como Daruma. Normalmente, ele é um monge budista dos primeiros séculos da nossa era que, entre outras coisas, ficou conhecido como o criador do Kung Fu Shaolin. Recorde-se então este mito de uma forma muito breve, na versão japonesa:

Daruma procurava atingir o Nirvana,  mas por diversas razões foi falhando repetidamente nas suas tentativas. Numa delas viveu numa caverna durante nove anos e passou (quase) todo esse tempo em meditação em frente a uma parede vazia. Um esforço tão grande estava prestes a compensar quando, inexplicavelmente, Daruma se deixou adormecer. Irritado com a sua fragilidade tão humana (tentem passar 9 dias sem dormir, quanto mais esse número de anos...), o herói arrancou as suas próprias pálpebras e atirou-as ao chão. Depois, nesse mesmo local apareceu a primeira de todas as plantas de chá, com o efeito de retirar todo o sono a quem a bebesse.

 

Não conseguimos descobrir qual terá sido esta primeira planta de que foi feita o chá, mas pela breve referência no final do mito depreende-se que tenha sido uma com notáveis propriedades soporíferas, que permitia não só a Daruma, como também aos seus companheiros monges, aguentar infindáveis sessões de meditação. Naturalmente que esta não é uma história totalmente verdadeira, até pela presença significativa de um elemento mágico, mas não deixa de cumprir a sua função essencial, a de apresentar a uma audiência de uma determinada cultura a forma como uma das suas mais famosas bebidas foi inventada.

E, para quem até nunca o tiver provado, fica a sugestão de se beber um pouco de chá nipónico com kasutera, que é uma espécie de pão-de-ló japonês baseado numa receita que os Portugueses levaram para o Japão no século XVI.

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21 de Junho, 2020

Três exemplos de mitos orientais em Dragon Ball

Já cá falámos sobre Sun Wukong, a inspiração por detrás do Son Goku da série japonesa de Dragon Ball, mas há alguns dias pediram-nos que contassemos mais alguns mitos japoneses, e portanto decidimos usar essa referência antiga para, durante os próximos sete dias, contar mais algumas histórias provindas do País do Sol Nascente.

Então, voltando ao Rei Macaco, quem for ler a Viagem ao Oeste e decidir comparar essa obra literária com a trama da série japonesa poderá encontrar várias relações notórias entre elas, mas há que deixar claro que a obra de Wu Cheng'en não tem a mesma trama que a série - na verdade, Akira Toriyama apenas se aproveitou do famoso texto oriental para alguns aspectos da sua trama, tal como reutilizou muitos outros mitos orientais. E é sobre isso que escrevemos hoje, a forma como três desses mitos influenciaram o desenvolvimento de Dragon Ball:

Goku e o dragão

Pense-se então no jovem Son Goku, tal como ele surge nos inícios da série. Entre os seus elementos mais notórios contam-se um bastão de comprimento variável e uma cauda de macaco. Se o segundo elemento nos remete facilmente para as próprias origens de Sun Wukong, o "rei dos macacos", já o primeiro terá sido influenciado pelo Ruyi Jingu Bang, o bastão do herói original, cujas várias dimensões podiam mudar consoante os desejos e necessidades do seu portador. A história desse bastão tem uma essência bastante semelhante na série e no livro original.

 

Depois, o que dizer sobre as chamadas "bolas do dragão", em número de sete, que concediam desejos a quem as juntasse a todas? Se não encontrámos um mito semelhante na China ou no Japão, os dragões são sinal de poder em ambas as culturas, e alguns mitos chineses indicam que um dragão poderia emprestar a sua força a quem controlasse o seu cristal - é por essa razão que os dragões chineses são frequentemente representados com uma orbe numa das garras, mas presume-se que a história de Dragon Ball não seria muito interessante se os heróis tivessem de procurar uma única bola de cristal para atingirem os seus objectivos.

 

Um terceiro exemplo, a figura de Kame Sennin, conhecida na versão portuguesa como Tartaruga Genial. Poderá ter sido baseada numa figura misteriosa que treinou Sun Wukong, cujo nome nos escapa neste momento, mas quem pensar na sua longevidade e no facto de estar sempre acompanhado por uma tartaruga poderá ser levado ao mito de uma tartaruga chinesa, de nome desconhecido (as referências que vimos chamam-lhe sempre "a tartaruga" ou "tartaruga mística"), que se dizia já ter vivido por mais de 10000 anos e que era um dos Quatro Animais Lendários, juntamente com o dragão Yinglong e o pássaro Fenghuang.

 

Como estes, existem muitos outros exemplos da influência dos mitos e lendas orientais em Dragon Ball. Não seria fácil detalhá-los a todos por aqui, mas fica aqui essa breve referência à sua existência, e se existirem interessados poderemos voltar a este mesmo tema no futuro.

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20 de Junho, 2020

O mito da Medusa

Já cá falámos do mito da Medusa anteriormente - brincámos com um possível encontro com o Rei Midas, tentámos explicar porque ela era mortal (contrariamente às duas irmãs), e unimos a sua morte com o mito de Pégaso e o de Perseu. Até distinguimos entre a sua cabeça decepada e a égide de Atena, mas nunca contámos foi, em específico, o próprio mito da Medusa, que até nos nossos dias continua a ser muito famoso.

 

Comece-se, então, pela origem de Medusa. Nas versões mais comuns, ela era uma criatura monstruosa, nascida de Fórcis e Ceto (ambas divindades marinhas) e tinha duas irmãs. Contudo,  numa outra versão, que nos foi tornada famosa pelo poeta Ovídio, Medusa tinha sido originalmente uma jovem (humana) extremamente bela que foi violada pelo deus dos mares num templo de Atena; zangada com esse acto abominável, a deusa puniu a violada (em vez de, estranhamente, o possível violador - mas não sabemos se a relação sexual até foi consensual), dando-lhe a horrenda forma com que aparece nos diversos mitos.

 

Qualquer que tenha sido a origem desta figura, já só temos um famoso mito que relate o resto da sua existência, mas que implica uma alteração significativa do ponto de vista da narrativa, na medida em que é Perseu o herói da história. O futuro marido da sua mãe ordenou a este que lhe trouxesse a cabeça de Medusa como prenda de casamento. Então, com a ajuda de Atena e de Hermes, o herói encontrou a toca desta figura mitológica e cumpriu a sua tarefa - mas não foi uma tarefa nada fácil!

A morte de Medusa

Diz-nos este mito grego que a Medusa tinha o poder de transformar em pedra todos aqueles que a olhassem directamente. Como derrotar uma criatura assim? A resposta surgiu com o auxílio dos deuses - Atena emprestou-lhe um escudo, Hades um elmo que tornava o portador invisível, e Hermes uma foice e as famosas sapatilhas aladas, sinónimo de rapidez. Depois, chegando ao local, usou o elmo para se aproximar e fitando a sua opositora só pelo reflexo num escudo, o herói fechou os olhos, virou-se rapidamente e cortou-lhe a cabeça, guardando-a numa espécie de saco. Do sangue que brotou nesse instante nasceu, famosamente, o cavalo Pégaso.

 

Toda esta grande sequência do mito pode ser vista na belíssima imagem acima, que marca a morte de Medusa e o último instante em que aparece em qualquer mito. Ou penúltimo, se quisermos associar à história o momento em que Atena tomou a cabeça de Medusa para si mesma e a colocou no seu escudo.

 

Mas então, o que podemos dizer de todo este mito da Medusa? É um mito que tem consequências bem visíveis na representação de Atena, como acontece com o de Hércules e o Leão da Nemeia, em que o herói passa a ser representado com a pele do monstro que venceu. O facto de a figura ter o poder de transformar em pedra todos aqueles que olhavam para a sua face, ou o auxílio de vários deuses (por oposição a apenas um, como é frequente), entre outros elementos da história, fazem deste um mito particularmente singular. E é certamente possível que a sua fama ao longo dos séculos tenha provindo disso mesmo, dessa presença de um conjunto de vários elementos invulgares no panorama das histórias da Grécia Antiga - se a história original era assim tão diferente das outras, seria difícil que as pessoas se esquecessem dela, contrastando, por exemplo, com os incontáveis mitos de transformações, como aquelas que nos chegaram em massa num famoso poema de Ovídio.

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17 de Junho, 2020

A origem da expressão "Dia de São Nunca"

Quando teremos políticos honestos?

Que o Dia de São Nunca [à tarde] significa pura e simplesmente "nunca" não tem muito que se lhe diga e é sobejamente conhecido. Porém, a origem de toda a expressão - com ou sem o seu "à tarde", que parece ter sido uma adição posterior - é bem menos famosa, razão pela qual achámos que podíamos falar desse tema.

 

Até há cerca de um século existiam em Portugal - como certamente em outros países - um conjunto de eventos que se regiam pelos dias dos santos. Havia bailaricos, havia um conjunto de tradições específicas para cada santo, sendo então comum que se referissem esses dias pela figura santa que tinham associados. A prática foi-se perdendo ao longo dos anos, mas ainda prevalece em algumas aldeias do norte de Portugal, e mesmo nas grandes cidades é comum associar-se, por exemplo, o Dia de São Martinho a uma celebração com castanhas e água-pé. E nesse contexto dizer-se "Dia de São Martinho" ou 11 de Novembro era precisamente o mesmo, tal como dizer "Dia de Nossa Senhora de Fátima" equivaleria a dizer-se 13 de Maio, e assim por diante.

 

Até aqui tudo bem, mas estas situações poderão gerar um problema - qual é o Dia de Santo Agostinho? Ou o dia de Santo Atanásio? Pelas mesmas razões, será que alguém sabe qual é o dia associado a Santa Hermínia, a São Tasquízio, ao Venerável Asdrúbal ou a tantas outras figuras religiosas menos conhecidas? Naturalmente que não (!), e terá sido este problema que gerou um conjunto de figuras, falsamente santas, sem uma existência real ou um dia específico associado - veja-se, por exemplo, o São Nunca e o São Pisco, ou mesmo o São Glinglin francês (entre muitos outros que nos escapam neste momento).

 

Nesse sentido, quando alguém se refere ao "Dia de São Nunca", ou a outro similar, está, com base na cultura dos séculos passados, a urgir-nos a consultar um calendário em busca do dia associado a esse santo. E obviamente que não existe, nunca poderemos encontrá-lo, sendo esse próprio nome do falso santo uma alusão natural a essa impossibilidade.

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