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Mitologia em Português

29 de Julho, 2020

Os Blémias e a divindade chinesa Xingtian

Já cá mostrámos anteriormente uma famosa gravura da Crónica de Nuremberga, em que podem ser vistos um conjunto de espécies que na Antiguidade e na Idade Média se acreditava popularem terras distantes. Até foi sobre elas que Santo Agostinho disse algo de muito fascinante - ele não sabia se existiam mesmo, mas a existirem, se fossem humanas só poderiam ter descendido de Adão e Eva. Recorde-se, nesse sentido, a imagem anterior:

Algumas criaturas antigas

A mais famosa destas figuras é certamente o Ciclope, com um único olho no meio da testa, mas estão aqui igualmente os Ciápodes (também conhecidos como Monópodes, com um único pé gigante, com que criavam a sombra para se defenderem do calor do deserto), um ser bicéfalo e um Cinocéfalo (ou seja, um ser humano com cabeça de cão, de que o São Cristóvão Cinocéfalo dos cristãos ortodoxos é hoje o exemplo mais famoso - uma história que fica para outro dia). Na obra original até existem mais algumas outras criaturas, mas o que nos interessa hoje é precisamente a figura que ainda não nomeámos, a segunda a contar da direita, um representante da espécie dos Blémias. Era, essencialmente, um ser humano sem cabeça, com as características faciais em pleno peito, que um qualquer autor anterior a Heródoto - a nossa primeira fonte completa que atesta a sua existência - dizia ter visto numa terra distante.

 

Isto pode levar-nos a uma questão... será que os viu mesmo, de alguma forma mais inesperada? É muito possível que sim, por estranho que isso nos possa parecer.

Xingtian

Enquanto liamos alguns mitos da China encontrámos uma história antiga associada a uma figura chamada Xingtian, que aparece representada acima num desenho do século XVII. Essencialmente, era uma figura divina que desafiou o deus supremo; este venceu-a facilmente, como não poderia deixar de ser, chegando até ao ponto de lhe cortar a cabeça. Mas, depois, algo de muito inesperado teve lugar - mesmo sem cabeça, utilizando apenas o seu peito como uma nova face, Xingtian continuou o seu combate, tal era o seu espírito guerreiro!

 

A semelhança dos Blémias com a figura deste Xingtian é muito notável, sendo até possível que tenham partilhado uma origem. Será que algum europeu trouxe esta figura da China para a Europa? Será que algum chinês teve contacto com a figura lendária europeia? Não sabemos - a tê-lo feito, seria certamente muito antes da era cristã - mas isto levanta a possibilidade de que possa ter existido uma altura, ou um mito perdido, em que os Blémias até ainda tinham cabeça - como Xingtian, também eles eram guerreiros ferozes. Claro que o caso em favor de toda esta possibilidade é todo muito circunstancial, mas pergunte-se uma coisa - será que conhecem muitas figuras sem cabeça e com a face no peito? E isso pode dizer muito...

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29 de Julho, 2020

Qual a origem e significado da palavra "puta"?

Hoje em dia puta tem um significado bastante conhecido, e que se prende essencialmente com o grande nome que é dado em Portugal a uma mulher promiscua, vulgo uma prostituta, alguém que vende relações sexuais por dinheiro. Porém, por mais estranho que isto nos possa parecer, Puta também parece ter sido uma deusa romana que presidia à poda das árvores. Só é mencionada por Arnóbio, no seu Contra as Nações, sendo provável que essa informação tenha vindo de uma famosa obra de Varrão que já não chegou aos nossos dias. Nada mais nos é dito sobre esta figura mitológica, mas - sem qualquer apoio de informação real - alguns autores parecem considerar que as sacerdotisas desta deusa se prostituíam, o que supostamente teria levado ao seu uso pejorativo ao longo dos séculos. Mas têm esses autores razão? 

Uma puta?

A resposta é um ressonante "não!", não só pela falta de informação real que apoie essas ideias, mas também pelo próprio contexto da referência na obra de Arnóbio - surge numa sucinta referência a diversas divindades, como Peta (deusa das preces), Patelana e Patela (deusas das coisas reveladas e ainda por revelar) ou Noduterense (deus associado à separação do grão), entre outros. Nada mais nos é dito sobre cada uma dessas figuras divinas dos Romanos, sendo apenas dadas por mero exemplo - o autor continua o seu argumento apontando a estranheza que é ter divindades associadas a todas as coisas - "Osílago, que dá aos ossos a sua solidez, não teria nome [se não existissem ossos]? (...) Existem deuses encarregados de coisas que ainda não foram criadas?"

Em suma, tratando-se Arnóbio de um autor cristão, se a esta deusa fosse associado um culto com contornos sexuais, certamente que isso também seria mencionado na sua obra, até para poder criticar ainda mais o Paganismo - mas nunca o é!

 

Mas então, qual é mesmo a origem e significado da nossa palavra portuguesa "puta"? Um dicionário consultado diz que esta palavra tem "origem controversa", mas devemos apontar que em Latim até existiam as palavras putus e puta, que podiam significar "puro/pura/puras" (provavelmente num sentido de castidade) ou "homem jovem". Faria, nesse último contexto, sentido construir o seu feminino como puta, para significar uma "mulher jovem" (ou rapariga, como dizemos em Portugal). Mas será então possível que a palavra latina, com um sentido original de uma mulher jovem e/ou casta, tenha ao longo dos séculos obtido um sentido satírico, até acabar por derivar na significação pejorativa que tem nos dias de hoje? É possível que sim - se não o sabemos com certeza absoluta, podemos é afirmar, sem quaisquer dúvidas, que o seu significado nos nossos dias não provém de qualquer culto, potencialmente sexual, de uma obscura deusa romana, como muitos dizem erradamente!

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