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Mitologia em Português

Mitologia em Português

17 de Agosto, 2020

Três feitiços de amor do Livro de São Cipriano

Achámos que também poderíamos falar aqui de três feitiços de amor do Livro de São Cipriano, essencialmente para ilustração de parte dos seus conteúdos, em favor de todos aqueles que tiverem uma certa curiosidade por este tipo de conteúdos. Mas cuidado, eles contêm alguns elementos que não são indicados para todas as audiências, considerem-se avisados!

Rectângulo para ritual

Pense-se então que um homem quer causar o amor de uma mulher. Segundo o livro, deveria obter um pombo virgem e uma cobra. Matando o pombo e tirando-lhe o coração, deveria dá-lo a comer à cobra e guardá-la por 15 dias, até que morra. Cortando então a cabeça da mesma, deve ser secada sobre brasas, e depois molhada com 30 gotas de ópio. O resultado deve ser moído e colocado num frasco de vidro completamente novo. Em seguinda, quando se quiser causar o amor da pessoa, um pouco dessa estranha substância deve ser esfregada nas mãos, enquanto se diz "Iselino Belzebu, canta-galen-se-chando-quinha, é a própria xime, é golote", e o feitiço ficava feito. Curiosa é a forma como toda a sequência termina - "O leitor ou leitora pode usá-la sem escrúpulo, que aqui não entra em pecado, pois o mesmo São Cipriano a ensinava a seus servos".

 

Um segundo feitiço propõe "fazer amar contra vontade (...) ou fazer casamentos". Pega-se num objecto dessa pessoa e prende-se na barriga de um sapo. Atam-se os pés do sapo com um fita vermelha e ele é colocado dentro de uma panela com terra e leite de vaca. Colocando o nosso rosto sobre a panela, deve então ser dito o seguinte - "[nome da pessoa], assim como eu tenho este sapo preso dentro desta panela, sem que veja sol nem lua, assim tu não vejas mais mulher nenhuma, esteja ela casada, solteira ou víuva. Só pensarás em mim. E assim como este sapo tem as pernas presas, assim também tu terás as tuas, e não poderás andar excepto para a minha porta. E assim como este sapo vive dentro desta panela, consumido e mortificado, assim tu viverás enquanto não te casares comigo."

 

Terceiro e último, também partilhando do mesmo objectivo! Entra-se numa loja e compra-se uma vara de fita. Depois, ao sair, olha-se para o céu e vai-se dizendo - "Três estrelas no céu vejo, e a de Jesus quatro, e esta fita à minha perna ato, para que [nome da pessoa] não possa comer, nem beber, nem descansar, enquanto não casar comigo", o que deve ser repetido três vezes.

 

No seu geral, e como pode ser visto acima, estes feitiços assentam na ideia teórica de que existe uma relação cósmica entre o que se pretende realizar e a forma como se tenta obter essas coisas, o que é particularmente claro no caso do ritual do sapo mostrado acima, mas também em outros exemplos provindos da Antiguidade. E, se alguém acreditar nestas coisas estranhas ao ponto de as realizar, por favor deixe ali em baixo como lhe correu todo o processo.

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17 de Agosto, 2020

Toda a verdade sobre o Livro de São Cipriano

Sobre o Livro de São Cipriano, devemos começar por dizer que se trata do mais famoso livro sobre feitiçaria e macumbas em Português que chegou aos nossos dias. Na verdade, até há muito poucos anos quem se dizia bruxa tinha uma quase obrigatoriedade de ter uma cópia desta obra no local que usava como escritório, sempre à vista de potenciais clientes, para que estes pudessem depreender que se tratava de uma profissional a sério, com um pseudo-canudo universitário na matéria, e não de uma qualquer intrujona que só lhes queria roubar o dinheiro e não iria ajudar realmente com o problema que lhe apresentassem. Mas de que trata o livro, poderiam perguntar?

 

Convém explicar, antes de mais, que existem as mais diversas edições desta obra, que se distinguem nos conteúdos que apresentam, e que muitas vezes adicionam novas secções ao original sem qualquer critério fixo. Há uns poucos anos até inventaram umas novas, como O Livro de São Cipriano de Capa Preta, possivelmente para as editoras poderem dizer "esta é melhor, tem mais conteúdo, mas não existe em domínio público", arrecadando algum dinheiro extra com coisas como a Oração da Cabra Preta Milagrosa. Com uma certa ironia, até apetece dizer que só existe uma edição verdadeira e que funciona mesmo, que é aquela que temos de ir comprar, e que se até já tivermos essa... afinal é falsa, há uma melhor e mais cara! Mas deixando essa brincadeira de lado, fomos agora consultar a edição mais popular que conseguimos encontrar, comparando-a com uma mais antiga.

 

Apesar de não ter sido escrito na Antiguidade (a edição mais antiga que encontrámos é posterior aos tempos da Idade Média), este livro começa por contar a história de São Cipriano de Antioquia, para o legitimizar como um feiticeiro pagão que, após um dado momento da sua vida, foi convertido ao Cristianismo, passando a utilizar os seus antigos poderes em favor e auxílio dos crentes da nova religião. E, face a esse contexto, faria sentido que todos os feitiços da obra fossem de carácter positivo, a chamada "magia branca", mas a esse elemento juntam-se também indicações para a realização dos rituais, preces, magias mais negativas, locais secretos onde podiam ser encontrados tesouros (todos eles muito difíceis de encontrar, como é óbvio), conteúdos que supostamente vinham de outros livros mágicos - quase sempre manuscritos encontrados debaixo de uma pedra sabe-se lá onde - e até breves explicações sobre todos estes temas. Por exemplo, para recordar uma curiosidade, num dado momento é até explicado o porquê de os sapos serem muito utilizados pelas bruxas (curiosos? É dito que o Diabo obriga as pessoas no Inferno a comerem-nos, talvez até pela associação com a expressão "engolir sapos"). Quem ficar curioso pode ver três feitiços de amor aqui, seguidos por três feitiços mais estranhos, e até saber como prever o futuro pelos sonhos.

 

Mas o que também torna este Livro de São Cipriano particularmente intrigante é o facto de, sem qualquer dúvida, ter passado por diversos momentos de composição, sendo muito inconsistente na forma como trata os seus vários temas.

Um rectângulo para ritual

Por exemplo, na imagem acima pode ser visto um rectângulo usado num ritual, no interior do qual um invocador poderia obter uma protecção completa, supostamente seguindo as indicações de São Cipriano. Na Antiguidade e na Idade Média estas protecções eram redondas, por ligação directa à mónade, mas esta, de formato rectangular, surge no livro sem qualquer explicação ou justificação... e até sem que o leitor seja informado do significado de "Agla" (se ficarem curiosos, é uma expressão cabalística judaica, Atah Gibor Le-olam Adonai, ou seja, "És poderoso para sempre, Senhor"). Ao mesmo tempo, em outros capítulos o leitor até é informado sobre como fazer outras representações mágicas, mas raramente lhe é explicado o seu verdadeiro significado. E, efectivamente, essa inconstância é incómoda, porque alguns dos rituais tornar-se-iam muito mais interessantes se ao leitor fossem explicados cada um dos seus elementos, ou porque ele deverá fazer X em vez de Y para atingir um dado objectivo.

 

Deixando de lado também estes problemas, como iremos demonstrar nos próximos dias os rituais provindos da obra tendem a focar-se frequentemente em três grandes temas - relações, dinheiro e saúde - e recorrer à chamada "magia por simpatia", ou seja, um estilo de ritual mágico em que se acredita existir uma relação quase teatral entre o seu propósito e os mecanismos do próprio ritual. Por exemplo, se quisessemos fechar a vida de alguém à maldade dos espíritos, deveria ser dita uma dada fórmula e deveria ser feito, com a mão direita, uma espécie de movimento como se estivessemos a fechar uma porta, sem a qual todo o processo, supostamente, não funcionaria.

 

Para terminar... será que este livro tem mesmo poderes e rituais mágicos reais? Será que as suas magias funcionam realmente, e podem embruxar alguém? Mais do que dar as nossas opiniões individuais, podemos deixar a própria obra falar por si mesma... Existe um dado momento em que é explicado o que são os fantasmas e como estes divergem dos demónios. Depois, este Livro de São Cipriano acrescenta então uma informação muitíssimo inesperada - os fantasmas apenas apareciam, ou tinham qualquer influência, na vida daqueles que já acreditam neles, sendo impossível fazerem-no a quem não acreditava neles; de igual forma, também as magias, feitiços e macumbas só resultavam com quem já acreditasse nelas, o que, em ambos os casos, não pode deixar de nos parecer muito conveniente. Esta informação, por si só, deveria dizer tudo o que precisam de saber sobre a veracidade do conteúdo deste livro, mas caso pretendam aceder (gratuitamente) a uma cópia desta obra em formato PDF, por curiosidade ou por alguma outra razão menos vulgar, podem fazê-lo na página de O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro. E não, contrariamente ao que algumas vozes populares dizem, nada de mal vos acontecerá por lerem este livro...

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