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Mitologia em Português

20 de Agosto, 2020

A lenda da Nossa Senhora da Arrábida

Nossa Senhora da Arrábida

É provável que a lenda da Nossa Senhora da Arrábida, em Setúbal, seja uma daquelas com que o espaço lendário se cruza diariamente na vida de milhares de pessoas, mas que também poucos ainda tendem a reconhecer. Sim, é famoso o Convento da Arrábida, construído no século XVI, mas esta história - e as devoções que lhe estão associadas - é-lhe muito anterior, possivelmente ainda das primeiras décadas do século XIII.

 

Conta então a lenda que um mercador estrangeiro, de nome Hildebrand (ou Hildebrant?), viajava para Lisboa quando, a meio de uma qualquer noite, se deparou com uma tempestade infernal. Temendo a enorme fúria dos mares, procurou uma imagem de Nossa Senhora a que já era muito devoto, mas por muito que a procurasse não conseguia encontrá-la em lado nenhum. Procurou então uma alternativa - pôs-se a rezar, juntamente com os seus companheiros de viagem, e depressa a tempestade desvaneceu, aparecendo igualmente, no meio de uma montanha próxima (a da Arrábida, naturalmente), uma enorme luz que aclarava o escuro da noite.

Curiosos, na manhã seguinte Hildebrand e os seus companheiros dirigiram-se para esse local, em busca da proveniência da luz misteriosa. E o que encontraram por lá? Nada mais, nada menos, do que a imagem que tinha desaparecido miraculosamente. Na verdade, foi tamanho esse milagre que Hildebrand abandonou a sua vida comercial e dedicou o resto dos seus dias ao local em que esta estranha ocorrência teve lugar, tornando-se ainda mais devoto do que antes.

 

Infelizmente, o local fundado por Hildebrand já há muito parece ter sido perdido nas vastas areias do tempo. Fruto de devoções posteriores, o mesmo espaço em que imagem original foi encontrada foi sendo reocupado por outros locais, nomeadamente pelo já-famoso Convento da Arrábida, o que nos impede de saber muito mais sobre o original, tal como ele foi fundado pelo ex-mercador e como existia anos depois, em finais do século XIII. Neste caso não temos a certeza se isso será necessariamente bom, mas pelo menos faz-nos acreditar na existência de uma grande e contínua devoção a esta figura da Nossa Senhora da Arrábida.

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20 de Agosto, 2020

A lenda do Papa Judeu

A lenda do Papa Judeu merece ser contada por cá em virtude do facto de levantar algumas questões curiosas. Claro que, por definição, um papa terá de ser católico, terá de ter professado uma vida religiosa, e mesmo em casos estranhos, como o da Papisa Joana ou do Bispo Negro, essa educação religiosa teve de existir. Mas então, qual é o seu limite? Poderá um antigo Judeu aceder ao trono papal?

A lenda do Papa Judeu

A lenda do Papa Judeu, que vem da Idade Média, conta-nos que numa dada altura o filho de um rabi (um chefe religioso de uma comunidade judaica) foi raptado por uma empregada cristã. Posteriormente foi aprendendo mais e mais da religião católica, até que se tornou religioso e foi ascendendo de posição na Igreja até que acabou por se tornar papa. Então, já desse topo do trono papal, começou a interrogar-se sobre as origens da sua família, acabando por descobrir que tinha raptado de uma família judaica. O seu pai foi então chamado, e foi - segundo as versões mais curiosas que encontrámos - capaz de o reconhecer durante um jogo de xadrez, instando-o depois a juntar-se àquela que considerava ser a verdadeira religião, o Judaísmo. Dias depois, este Papa - cujo nome a história não parece preservar - chamou todos os maiores dignatários, subiu a uma torre, abandonou a fé cristã e proclamou a sua fé judaica. Em seguida suicidou-se, atirando-se do local.

 

Claro que esta lenda do Papa Judeu é apenas isso mesmo, uma lenda. Provavelmente nem terá um fundo de verdade - desconhecemos a história de algum papa que se tenha suicidado como estas linhas nos dizem - mas é uma de muitas histórias judaicas criadas na Idade Média e que normalmente exaltam essa religião face ao Cristianismo. Se, como a trama desta lenda nos diz e como também devemos inferir, até um papa consegue ver a suposta falsidade da religião católica, como seria possível que os seus crentes não a vissem também? É uma questão que a história, com quase 1000 anos, nos deixa em aberto, mas para os seus leitores originais - quase sempre Judeus, porque ela aparece em livros de histórias judaicas - a resposta teria sido óbvia, exaltando a religião judaica face à sua congénere cristã.

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19 de Agosto, 2020

Qual a origem do nome de Portugal?

Nunca pensaram em qual a origem do nome de Portugal? Já em tempos de Dom Afonso Henriques que a parte norte do nosso território era conhecido como Portucale, um nome que ao longo dos séculos se irá expandindo para designar todo o território nacional, mas qual essa sua origem?

Mapa de Portugal Antigo

Essencialmente, o nome de Portugal é composto por duas partículas distintas. A primeira delas, Portus, era usada para designar aquilo a que ainda hoje chamamos um porto, ou seja, um local em que os navios atracam, trazendo os produtos comerciais de outros locais. Foi até essa designação que deu lugar ao nome da cidade do Porto, no norte do país.

Mas o que dizer em relação à segunda partícula, Cale? Os mais diversos autores divergem no seu significado real, desde a palavra grega para "bonito" até a um nome que servia para designar a etnia dos seus habitantes - os Galos, Gauleses, Galenses ou Galegos - entre muitas outras possibilidades. Qualquer que seja a resposta para o significado dessa segunda partícula, não deixa é de ser curiosa a ideia de que possa ter levado ao nome da cidade de Gaia, no lado oposto do Rio Douro.

 

Face a estas informações, é muito provável que Portucale tenha sido o nome original de uma cidade no norte do país, um possível "Porto dos Galos", que era originalmente composta pelos territórios do Porto e de Gaia. A cidade terá sido tão grande, ou tão famosa, que à medida que o seu território se foi expandindo levou o seu nome para novas terras, fazendo desse antigo nome o do próprio território. Depois, o nome original separou-se no de duas cidades distintas, talvez pela dificulade em viajar consistentemente entre as duas margens do Douro, ou por uma qualquer outra razão. Mas o nome do país, esse, manteve-se, evoluindo para o que usamos hoje, com a evolução natural da língua ao longo dos séculos. E assim se explica a origem do nome de Portugal, em parte um facto concreto e em parte envolta em mistério, até aos nossos dias...

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17 de Agosto, 2020

Três feitiços de amor do Livro de São Cipriano

Achámos que também poderíamos falar aqui de três feitiços de amor do Livro de São Cipriano, essencialmente para ilustração de parte dos seus conteúdos, em favor de todos aqueles que tiverem uma certa curiosidade por este tipo de conteúdos. Mas cuidado, eles contêm alguns elementos que não são indicados para todas as audiências, considerem-se avisados!

Rectângulo para ritual

Pense-se então que um homem quer causar o amor de uma mulher. Segundo o livro, deveria obter um pombo virgem e uma cobra. Matando o pombo e tirando-lhe o coração, deveria dá-lo a comer à cobra e guardá-la por 15 dias, até que morra. Cortando então a cabeça da mesma, deve ser secada sobre brasas, e depois molhada com 30 gotas de ópio. O resultado deve ser moído e colocado num frasco de vidro completamente novo. Em seguinda, quando se quiser causar o amor da pessoa, um pouco dessa estranha substância deve ser esfregada nas mãos, enquanto se diz "Iselino Belzebu, canta-galen-se-chando-quinha, é a própria xime, é golote", e o feitiço ficava feito. Curiosa é a forma como toda a sequência termina - "O leitor ou leitora pode usá-la sem escrúpulo, que aqui não entra em pecado, pois o mesmo São Cipriano a ensinava a seus servos".

 

Um segundo feitiço propõe "fazer amar contra vontade (...) ou fazer casamentos". Pega-se num objecto dessa pessoa e prende-se na barriga de um sapo. Atam-se os pés do sapo com um fita vermelha e ele é colocado dentro de uma panela com terra e leite de vaca. Colocando o nosso rosto sobre a panela, deve então ser dito o seguinte - "[nome da pessoa], assim como eu tenho este sapo preso dentro desta panela, sem que veja sol nem lua, assim tu não vejas mais mulher nenhuma, esteja ela casada, solteira ou víuva. Só pensarás em mim. E assim como este sapo tem as pernas presas, assim também tu terás as tuas, e não poderás andar excepto para a minha porta. E assim como este sapo vive dentro desta panela, consumido e mortificado, assim tu viverás enquanto não te casares comigo."

 

Terceiro e último, também partilhando do mesmo objectivo! Entra-se numa loja e compra-se uma vara de fita. Depois, ao sair, olha-se para o céu e vai-se dizendo - "Três estrelas no céu vejo, e a de Jesus quatro, e esta fita à minha perna ato, para que [nome da pessoa] não possa comer, nem beber, nem descansar, enquanto não casar comigo", o que deve ser repetido três vezes.

 

No seu geral, e como pode ser visto acima, estes feitiços de amor do Livro de São Cipriano assentam na ideia teórica de que existe uma relação cósmica entre o que se pretende realizar e a forma como se tenta obter essas coisas, o que é particularmente claro no caso do ritual do sapo mostrado acima, mas também em muitos outros exemplos provindos da Antiguidade. E, se alguém acreditar nestas coisas estranhas ao ponto de as realizar, por favor deixe ali em baixo como lhe correu todo o processo.

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17 de Agosto, 2020

Toda a verdade sobre o Livro de São Cipriano

Sobre o Livro de São Cipriano, devemos começar por dizer que se trata do mais famoso livro sobre feitiçaria e macumbas em Português que chegou aos nossos dias. Não é o único, como os feitiços de Luís de La Penha comprovam, mas na verdade até há muito poucos anos quem se dizia bruxa tinha uma quase obrigatoriedade de ter uma cópia desta obra no local que usava como escritório, sempre à vista de potenciais clientes, para que estes pudessem depreender que se tratava de uma profissional a sério, com uma espécie de pseudo-canudo universitário na matéria, e não de uma qualquer intrujona que só lhes queria roubar o dinheiro e não iria ajudar realmente com o problema que lhe apresentassem. Mas de que trata o livro, poderiam perguntar?

 

Convém explicar, antes de mais, que existem as mais diversas edições desta obra, que se distinguem nos conteúdos que apresentam, e que muitas vezes adicionam novas secções ao original sem qualquer critério fixo. Há uns poucos anos até inventaram umas novas, como O Livro de São Cipriano de Capa Preta, possivelmente para as editoras poderem dizer "esta é melhor, tem mais conteúdo, mas não existe em domínio público", arrecadando algum dinheiro extra com coisas como a Oração da Cabra Preta Milagrosa. Com uma certa ironia, até apetece dizer que só existe uma edição verdadeira e que funciona mesmo, que é aquela que temos de ir comprar, e que se até já tivermos essa... afinal é falsa, há uma melhor e mais cara! Mas deixando essa brincadeira de lado, fomos agora consultar a edição mais popular que conseguimos encontrar, comparando-a com uma mais antiga.

 

Apesar de não ter sido escrito na Antiguidade (a edição mais antiga que encontrámos é posterior aos tempos da Idade Média), este livro começa por contar a história de quem foi São Cipriano, o de Antioquia, para o legitimizar como um feiticeiro pagão que, após um dado momento da sua vida, foi convertido ao Cristianismo, passando a utilizar os seus antigos poderes em favor e auxílio dos crentes da nova religião, como já contámos aqui. E, face a esse contexto, faria sentido que todos os feitiços da obra fossem de carácter positivo, a chamada "magia branca", mas a esse elemento juntam-se também indicações para a realização dos rituais, preces, magias mais negativas, locais secretos onde podiam ser encontrados tesouros (todos eles muito difíceis de encontrar, como é óbvio), conteúdos que supostamente vinham de outros livros mágicos - quase sempre manuscritos encontrados debaixo de uma pedra sabe-se lá onde - e até breves explicações sobre todos estes temas. Por exemplo, para recordar uma curiosidade, num dado momento é até explicado o porquê de os sapos serem muito utilizados pelas bruxas (curiosos? É dito que o Diabo obriga as pessoas no Inferno a comerem-nos, talvez até pela associação com a expressão "engolir sapos"). Quem ficar curioso pode ver três feitiços de amor aqui, seguidos por três feitiços mais estranhos, e até saber como prever o futuro pelos sonhos.

 

Mas o que também torna este Livro de São Cipriano particularmente intrigante é o facto de, sem qualquer dúvida, ter passado por diversos momentos de composição, sendo muito inconsistente na forma como trata os seus vários temas.

Um rectângulo para ritual

Por exemplo, na imagem acima pode ser visto um rectângulo usado num ritual, no interior do qual um invocador poderia obter uma protecção completa, supostamente seguindo as indicações de São Cipriano. Na Antiguidade e na Idade Média estas protecções eram redondas, por ligação directa à mónade, mas esta, de formato rectangular, surge no livro sem qualquer explicação ou justificação... e até sem que o leitor seja informado do significado de "Agla" (se ficarem curiosos, é uma expressão cabalística judaica, Atah Gibor Le-olam Adonai, ou seja, "És poderoso para sempre, Senhor"). Ao mesmo tempo, em outros capítulos o leitor até é informado sobre como fazer outras representações mágicas, mas raramente lhe é explicado o seu verdadeiro significado. E, efectivamente, essa inconstância é incómoda, porque alguns dos rituais tornar-se-iam muito mais interessantes se ao leitor fossem explicados cada um dos seus elementos, ou porque ele deverá fazer X em vez de Y para atingir um dado objectivo.

 

Deixando de lado também estes problemas, como iremos demonstrar nos próximos dias os rituais provindos da obra tendem a focar-se frequentemente em três grandes temas - relações, dinheiro e saúde - e recorrer à chamada "magia por simpatia", ou seja, um estilo de ritual mágico em que se acredita existir uma relação quase teatral entre o seu propósito e os mecanismos do próprio ritual. Por exemplo, se quisessemos fechar a vida de alguém à maldade dos espíritos, deveria ser dita uma dada fórmula e deveria ser feito, com a mão direita, uma espécie de movimento como se estivessemos a fechar uma porta, sem a qual todo o processo, supostamente, não funcionaria.

 

Para terminar... será que este livro tem mesmo poderes e rituais mágicos reais? Será que as suas magias funcionam realmente, e podem embruxar alguém? Mais do que dar as nossas opiniões individuais, podemos deixar a própria obra falar por si mesma... Existe um dado momento em que é explicado o que são os fantasmas e como estes divergem dos demónios. Depois, este Livro de São Cipriano acrescenta então uma informação muitíssimo inesperada - os fantasmas apenas apareciam, ou tinham qualquer influência, na vida daqueles que já acreditam neles, sendo impossível fazerem-no a quem não acreditava neles; de igual forma, também as magias, feitiços e macumbas só resultavam com quem já acreditasse nelas, o que, em ambos os casos, não pode deixar de nos parecer muito conveniente. Esta informação, por si só, deveria dizer tudo o que precisam de saber sobre a veracidade do conteúdo deste livro, mas caso pretendam aceder (gratuitamente) a uma cópia desta obra em formato PDF, por curiosidade ou por alguma outra razão menos vulgar, podem fazê-lo na página de O grande livro de S. Cypriano ou o thesouro do feiticeiro.

 

Ainda, como se costuma perguntar, "o que acontece com quem ler o livro de São Cipriano?" Na verdade... absolutamente nada, nem é perigoso lê-lo, sendo que isso é apenas um rumor lançado, possivelmente até por "bruxas" e místicos, para que as pessoas não tentem realizar os feitiços da obra por si mesmas, tendo então de lhes pagar dinheiro a eles...

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15 de Agosto, 2020

Delfos, o centro do mundo

Ao longo dos séculos, em quase todas as culturas do globo foram aparecendo mitos e lendas que as designam como as mais importantes de sempre. O Japão era a "terra dos deuses",e  algumas culturas mexicanas acreditavam que seriam as primeiras a ser visitadas no regresso do seu maior deus, entre muitos outros exemplos aqui possíveis. Mas hoje focamo-nos, mais especificamente, na Grécia Antiga, onde existia um pequeno mito que dizia que a cidade de Delfos, ou mais precisamente o Templo de Apolo que existia por lá, era o centro do mundo. É um mito pequeno, mas nem por isso menos significativo - contava-se que Zeus tinha enviado duas águias para voarem por todo o mundo, em sentidos opostos, e que posteriormente elas se cruzaram precisamente neste local, que seria então uma espécie de umbigo do mundo.

Onfalo de Delfos

Diz-se que o Onfalo, representado acima, marcava o local preciso em que as duas águias se cruzaram, mas já não sabemos até que ponto esta escultura era a original. Porém, há algo de intrigante em vê-la no seu contexto actual, no Museu Arqueológico de Delfos:

Colocada assim, em vez de numa imagem muito estática, podemos ver o quão grande este proverbial umbigo era. E depois, se o imaginarmos no contexto das montanhas de Delfos, ficamos com uma ideia muito melhor de todo o espaço que este mito um dia ocupou:

Será Delfos o centro do mundo? Certamente que já não o é, o mito original já muito esquecido nas areias do tempo, mas parecia sê-lo no tempo da Grécia Antiga, e mesmo no tempo dos Romanos a sua fama ainda pode ser constatada pelo facto do deus de Delfos, Apolo, não ter obtido um novo nome, um que fosse puramente latino. Já não o é, admita-se, mas foi-o, e nos muitos mitos de outros tempos, de que o de Creso e Sólon é um bom exemplo,  ainda pode ser revisitado como tal...

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13 de Agosto, 2020

Charles Darwin - "A Origem das Espécies" e "A Descendência do Homem"

Darwin, descendente de um macaco

Aquelas que podem ser vistas como as duas principais obras de Charles Darwin - A Origem das Espécies e a A Descendência do Homem - caem naquele grupo de livros que quase toda a gente conhece mas que, ao mesmo tempo, também muito poucos efectivamente leram, como já aconteceu quando cá falámos de uma famosa obra de Galileu. Porém, neste caso isso parece fácil de justificar, por serem ambas obras muito científicas, dificilmente aquele tipo de leitura que queremos para um dia de praia ao sol. Mas, ao mesmo tempo, estão ambas tão intimamente ligadas que nos pareceria difícil separá-las, razão pela qual optámos por falar das duas por aqui.

 

A Origem das Espécies fala, essencialmente, de que terá existido uma evolução das espécies ao longo do tempo, ou seja, que os animais não foram todos pura e simplesmente criados, como na história bíblica do Jardim do Éden, mas sim que existem interrelações entre eles, que apenas podem ser explicadas se quisermos admitir que foram descendendo de elementos comuns. Posto isto com um exemplo muito simples, é como se tivéssemos dois cães completamente iguais, criássemos um num ambiente quente e outro num ambiente frio, e depois, ao longo dos séculos, o primeiro perdesse o seu pêlo e o segundo ganhasse um agasalho muito mais significativo. Assim, o autor vai defendendo esta ideia ponto por ponto, enquanto dá muitos exemplos práticos do que foi observando e que apoia esta sua teoria.

Agora, quem for ler esse primeiro livro poderá notar que a possibilidade da evolução do Homem, em si mesma, é algo que o autor não foca muito no seu trabalho. É isso que, posteriormente, ele depois fez na obra A Descendência do Homem, em que tentou demonstrar que as ideias defendidas no seu outro livro também se aplicavam ao ser humano, sendo provável que este descendesse dos símios, o que gerou, por parte dos seus críticos, a divertida imagem que mostramos ali em cima. Como antes, o autor vai provando a sua ideia ponto por ponto, vai estabelecendo conclusões parciais e, quem tiver a paciência de ir ler também este livro, certamente que acabará convencido pela tese defendida pelo autor.

 

Mas então, qual é a origem de toda a controvérsia? Como Charles Darwin admite na conclusão deste segundo livro, existiam muitos que consideravam a sua tese como "irreligiosa", já que implica não apenas negar que os animais tenham sido criados por Deus (se assim o fosse, não teriam eles já as formas mais perfeitas que fossem possíveis?), como também retira ao ser humano aquele papel principal que a Bíblia lhe dá, fazendo dele somente mais uma das muitas criaturas que existiam neste mundo - o que, como é óbvio, não poderia deixar de contrariar as ideias defendidas pelo Cristianismo. Como tal, entre aceitar uma boa teoria ou as ideias de um livro que ainda alguns consideravam ter sido escrito por Deus, existiram - e, estranhamente, até continuam a existir - os que pura e simplesmente optaram pelo segundo caminho.

 

Mas porque o fizeram? Porque existia, e continua a existir, gente que defende a ideia de uma criação face à evolução? Não podemos deixar de tentar propor uma resposta - A Origem das Espécies e A Descendência do Homem, de Charles Darwin,  não são, de todo, obras que uma pessoa comum possa pegar a ler. Essa dificuldade leva, naturalmente, a que as teorias deste autor tenham sido julgadas não pelo que efectivamente diziam, mas por uma espécie de sátira dos seus opositores; a ideia de que descendemos de símios poderá, num vácuo, parecer completamente absurda, excepto a quem for ler o segundo livro e vir que o autor a apoia em bases sólidas, que seriam difíceis de explicar excepto se acreditarmos que existe uma qualquer relação, nem sempre fácil de explicar, entre os nossos corpos e os desses animais. E é uma boa tese, uma tese que faz todo o sentido, mas que, ao encontrar-se num livro de difícil leitura, também poucos terão conhecido pelos seus próprios olhos; hoje, também não recomendamos a leitura destes dois livros, excepto por um público especializado, e por isso as verdadeiras ideias de Darwin têm de continuar a ser conhecidas não pelo que verdadeiramente eram, mas por uma forma simplificada do que originalmente defendiam, ao longo de inferências estabelecidas através de muitos exemplos práticos...

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12 de Agosto, 2020

'Verdade de la palisse' - origem e significado

Se as expressões verdade de la palisse, ou lapalissada, ainda são comuns na nossa língua, qual é a sua verdadeira origem e significado? Bem, a expressão nasceu de um nobre francês falecido no século XVI, de seu nome Jacques de La Palice (ou La Palisse, se preferirem essa ortografia), mas sem que se refira a absolutamente nada que ele tenha realizado na sua vida. E isto pode parecer um tanto ou quanto estranho, pelo que passamos então a explicar.

Um retrato moderno de La Palisse

Quando La Palice faleceu, foi escrito um epitáfio em que constavam as seguintes palavras francesas - s'il n'était pas mort, il ferait encore envie - que querem dizer algo como "se ele não estivesse morto, ainda agora causaria inveja". Porém, alguém as leu incorrectamente, tendo percebido que em vez do original, o epitáfio dizia antes era o seguinte - s'il n'était pas mort, il serait encore en_vie - ou seja, alterando-se apenas uma letra e adicionando um único espaço, a frase podia ser lida como "se ele não estivesse morto, ainda agora estaria vivo", o que representa uma ideia mais que óbvia.

Face a esta ideia, parece então ter-se gerado a (quase certamente falsa) sugestão de que La Palice, enquanto figura histórica, era uma pessoa que verdadeiramente tinha vivido a sua vida num conjunto constante de verdades muito óbvias. Depois, essa ideia gerou diversas cantigas populares, a mais famosa das quais atribuída a Bernard de la Monnoye, uma Chanson de la Palisse que parece ter múltiplas versões, e que atribui a esta figura coisas como as seguintes:

  • Não conseguia colocar o chapéu sem cobrir a sua cabeça;
  • Não perdia a calma excepto quando estava irritado;
  • Quando comia em casa dos seus vizinhos estava lá em pessoa;
  • Para melhor provar um vinho pensava que este devia ser bebido;
  • Se tivesse vivido solteiro, não teria qualquer esposa;
  • Não teria iguais a ele se tivesse sido o único;
  • Quando escrevia em verso não escrevia em prosa;
  • Dizia que uma égua era sempre a fêmea de um cavalo;
  • Enquanto bebia não dizia nenhuma palavra;
  • Quando estava aqui não estava ali;
  • Quando tinha os olhos fechados não conseguia ver nada;
  • ... entre muitas outras!

 

Naturalmente que não há qualquer verdade histórica comprovável por detrás de todas estas afirmações, são meramente jocosas, mas foi assim que a estranha popularidade da morte de La Palisse, mais do que a sua vida enquanto guerreiro em França, levou à origem da expressão verdade de la palisse, que não significa mais do que uma afirmação completamente indisputável, um truísmo,  do qual jamais alguém sano discordaria.

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11 de Agosto, 2020

A lenda de Kianda

A história de hoje, a que poderíamos até chamar o mito ou lenda de Kianda (ou Quianda, como também muitas vezes vimos escrito) vem de um país africano, mais precisamente de Angola, onde a sua influência está bem atestada até em obras tão famosas como as de Pepetela, de que reproduzimos um título abaixo. Foquemo-nos, portanto, numa breve apresentação da lenda:

O Desejo de Kianda, de Pepetela

Sobre esta Kianda, diz-se então que era uma divindade marinha, muitas vezes semelhante a uma sereia, que vivia por perto da Praia do Bispo, na capital angolana de Luanda. Um dia, enquanto se encontrava na margem das águas, reparou que por perto se encontrava um homem muito triste. Procurando então trazer-lhe alguma alegria, deu-lhe um enorme tesouro.

Num primeiro momento, claro que isso agradou ao homem, mas depois ele começou a reagir de uma forma muito ingrata (os seus actos menos bons parecem variar entre as versões da história), levando a que Kianda lhe retirasse o dom que lhe tinha oferecido. Mas não só. Depois, descontente com o que se tinha passado, esta figura jurou a si mesma que não voltaria a ajudar mais gente ingrata, conduzindo até para a sua destruição todos aqueles que se atravessem a violar o bom carácter inato das suas águas.

 

O que podemos então dizer sobre esta lenda de Kianda? São muitas as mitologias pelo mundo fora que advertem para o poder multifacetado das águas - recorde-se, por exemplo, o caso do Kappa Japonês, mas também o mito grego de Hilas, entre muitos outros - e esta história conduz-nos no mesmo sentido, apresentando uma divindade que, mediante o verdadeiro carácter de quem a conhece, pode ser tanto uma salvadora como uma destruidora. Existiram, naturalmente, rituais destinados a propiciá-la, a torná-la mais simpática para com os pescadores, mas a lição essencial a retirar de toda esta história é bastante simples - devemos saber respeitar as águas, porque elas tanto nos dão coisas muito boas como também nos podem até retirar a nossa própria vida. Fica, por isso, essa grande lição, que serve tanto para Angola como para Portugal, Brasil, ou qualquer outro país deste nosso mundo.

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10 de Agosto, 2020

O segredo do Unicórnio

Será que já conhecem o grande segredo do Unicórnio?

Há algum tempo vimos uma pessoa que tinha no seu perfil de uma rede social um pormenor de um conjunto de tapeçarias medievais que é conhecido sob o nome de La Dame à la licorne, ou seja, A Dama e o Unicórnio. Isso relembrou-nos que há anos que estamos para contar o que se segue.

Uma Dama com um Unicórnio (e outros animais)

Para quem ainda não o souber, o Unicórnio não é uma criatura estática. O Leão é sempre o rei dos animais, a Raposa é sempre muito traiçoeira, o Cordeiro é muito mansinho, mas já o Unicórnio - ou, se preferirmos dar-lhe outro nome dado o contexto de hoje, o Licorne - é um animal cujas características foram mudando ao longo dos séculos. Na Idade Média, por exemplo e como já cá dissemos uma vez, uma representação muito vulgar é a desta criatura a ser abraçada no regaço de uma dama, enquanto que um caçador lhe dá um golpe mortal. É uma representação que faz algum sentido, porque na época se acreditava que apenas as mulheres virgens podiam capturá-lo. Mas nem sempre assim o foi - pelo menos um autor dizia que os homens poderiam fazê-lo se se disfarçassem muito bem (numa espécie de travestismo de outros tempos), e depois se ungissem com todos os melhores cheiros acessíveis aos seres humanos. E esta ideia, por estranha que nos pareça, permite-nos compreender uma existência sequencial de pelo menos três formas de um mesmo animal:

 

  • Já existia, pelo menos em tempos da Pérsia Antiga, a ideia de um animal semelhante ao cavalo mas com cornos. Dizemos cornos, no seu plural, porque ele tendia a ser representado de perfil, sendo difícil de saber se apenas tinha um ou já vários, mas a localização do único corno visível parece indicar o segundo caso;
  • Foi-se gerando, mais tarde, a ideia de que apenas as mulheres podiam amansar e capturar esta criatura, que se pensava ser muito brava. Não sabemos precisamente de onde veio essa ideia, mas é repetida por diversos autores pagãos;
  • Já na época cristã é que surgiu a ideia de que a captura do animal estava ligada à própria virgindade de uma mulher. Novamente, desconhecemos de onde vem essa inovação, mas muitas vezes é estabelecido um paralelismo entre a história do animal e a pureza perpétua da Virgem Maria.

 

Talvez seja esse o estranho segredo do Unicórnio medieval, um segredo como o que se esconde nas tapeçarias mencionadas acima. Na última da sequência de seis, que até reproduzimos parcialmente acima, a dama pode ser vista em frente a um pequeno pavilhão onde está escrito À mon seul désir, algo como "pelo meu próprio desejo". A frase pode ter mil significados diferentes, até dado o seu contexto, mas podemos ligar a ideia ao animal central dizendo que essa sua mansidão - veja-se que o equídeo até está numa pose de submissão, acompanhado por um feroz leão numa pose semelhante - apenas podia ser obtida por uma dama que pelo seu próprio desejo se mantivesse virgem. Seria toda a história deste animal, já em tempos da Idade Média, uma estranha metáfora para algo que não podemos repetir aqui?

 

Ou seria, de um modo mais geral, o estranho segredo do Unicórnio medieval o facto de ele se tratar de uma espécie de fantasia, de papão, perpetuada para incentivar a virgindade das jovens das classes altas da altura? Não sabemos se sim ou se não, mas a verdade é que quando pensamos neste animal nos nossos dias, já não o fazemos com qualquer conotação moral. O Licorne, ou como quisermos chamar a este animal, é agora uma criatura supostamente muito rara, em alguns momentos até associada à pureza dos tempos de criança, mas já não parece ter qualquer conotação mais moral, numa espécie de quarta existência da figura, que se segue às três de que falámos acima. E talvez seja melhor que assim o seja, porque uma criatura sempre tão bela não merece ser morta nem conspurcada como a que Marco Polo diz ter visto nas suas viagens, quando a confundiu com um rinoceronte que chafurdava na lama...

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