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Mitologia em Português

Mitologia em Português

30 de Setembro, 2020

"Fé do carvoeiro", origem e significado

A expressão fé do carvoeiro já não é muito utilizada em Portugal nos nossos dias, mas foi-nos recordada há alguns dias, quando, ao falarmos com uma idosa, esta nos disse, relativamente às suas crenças religiosas, que "Deus são três pessoas, iguais mas distintas". Quando confrontada com a dificuldade de algo ser ao mesmo tempo igual e distinto, ela limitou-se a declarar que não sabia de nada, que não percebia nada disso, mas que foi apenas o que lhe ensinaram nos tempos da catequese. E esta fé simples, de uma espécie de "eu acredito apenas porque me disseram", constitui precisamente o significado da expressão de hoje,

 

A origem parece ser francesa, foi du charbonnier, que é como quem diz "fé do carvoeiro", e vem de uma pequena história em que um demónio transformado em homem se cruzou com um carvoeiro, um homem simples que faz e/ou vende carvão. Procurando tentá-lo e conduzi-lo ao pecado, o demónio perguntou em que acreditava o carvoeiro, e este limitou-se a responder-lhe "Acredito na Santa Igreja." Então, em seguida, perguntou-lhe em que acreditava a Santa Igreja, e desta vez o homem limitou-se a retorquir-lhe que esta acreditava "No mesmo que eu." Depois, a conversa continuou por algum tempo, sempre com respostas que nada revelavam sobre as crenças deste homem, até que o demónio lá desistiu das suas más intenções.

 

Esta expressão refere-se, assim, à fé religiosa que as pessoas mais simples têm, em que nada questionam, limitando-se a acreditar naquilo que as autoridades religiosas lhes dizem, sem que procurem sequer compreender as suas palavras ou as ideias, muitas vezes até um tanto ou quanto estranhas, que lhes vão sendo passadas por aqueles em que têm confiança. Acreditam em "algo", sim, mas sem que saibam muito bem no quê ou porquê... como o carvoeiro desta pequena história!

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28 de Setembro, 2020

Andreas Bichel e o espelho mágico

Andreas Bichel nasceu na Bavária, na Alemanha, no ano de 1760. Viria a ser enforcado 49 anos mais tarde, em virtude de ter morto duas mulheres, mas suspeita-se que até possa ter cometido muitos outros crimes da mesma natureza. Isto pouco ou nada teria digno de nota, não fosse o facto de entre os envolvidos em toda esta história se contar um suposto espelho mágico!

Espelho Mágico

Bem, na verdade não sabemos se o espelho mágico existia, sequer. Ou se, a existir, tinha na verdade os poderes que lhe eram atribuídos. O que sabemos, isso sim, é que numa dada altura da sua vida Andreas Bichel decidiu envolver-se nas artes de previsão do futuro. Depois, veio a dizer a uma jovem que tinha em sua posse um espelho mágico, capaz de lhe mostrar a identidade do homem com quem ela acabaria por casar. Um pouco incrédula, mas naturalmente fascinada (e que mulher solteira e desejosa por amor não o ficaria?!), a jovem pediu-lhe então essa revelação.

Andreas Bichel foi então buscar "algo" e colocou-o numa mesa. Disse à jovem para se sentar, e disse-lhe igualmente que teria de a amarrar, para que ela, mesmo que acidentalmente, não se metesse em perigo ao interferir no suposto feitiço. E depois, com esta jovem presa e sem que o conseguisse ver, atacou-a pelas costas, matou-a, e vendeu o seu vestido. Mais tarde, voltaria a fazer o mesmo a uma segunda mulher (confirmada), o que levaria à sua prisão, mas... face a toda esta história, não podemos deixar de nos interrogar quantas mais terão caído na esparrela.

 

Não sabemos, repita-se, se o espelho mágico existia mesmo, ou se Andreas Bichel até possuía alguma espécie de espelho, mágico ou não. Mas pelo menos duas jovens acreditaram que sim, que tudo isto era possível, e isso levou-as às suas mortes, quando apenas procuravam o amor. Por isso, esta é uma história um tanto ou quanto triste, mas que diz muito sobre a credulidade humana nos poderes do oculto. Pense-se nisso - a ter lugar nos dias de hoje, quantas pessoas desapaixonadas caíriam no mesmo truque? Provavelmente mais do que pensamos...

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27 de Setembro, 2020

O mito de Sísifo

De entre os que nos chegaram da Antiguidade, é possível que o mito de Sísifo se encontre entre aqueles cujo desfecho é mais famoso, ao ponto da sua punição infindável ter dado, por exemplo, o nome e a ideia ao famoso livro Mito de Sísifo de Albert Camus. Mas já lá iremos, por agora recorde-se a trama essencial desta história da Mitologia Grega:

O mito de Sísifo e a pedra eterna

Conta-se que Sísifo terá sido um dos maiores espertalhões da Antiguidade, uma espécie de um determinado antigo primeiro ministro português mas há muitos séculos atrás. E, na verdade, dizia-se que ele até se considerava mais sábio e capaz do que o próprio Zeus, o rei dos deuses do Olimpo. Então, depois de uma vida repleta das maiores malfeitorias, cujos contornos e eventos variam de versão para versão, o monarca do Olimpo decidiu que já era altura de alguém punir este rei de Corinto e condenou-o à morte.

Na maior parte dos mitos a trama tenderia a acabar por aqui, mas o caso de Sísifo foi bem diferente. Uma e outra vez, ele foi capaz de escapar das garras da própria morte. Numa das histórias, ele pediu à esposa que não lhe fizesse o devido funeral; assim, quando chegou ao barco de Caronte, como não tinha o óbolo necessário para pagar o cruzamento para o reino dos mortos, teve de voltar para trás (e à vida). Numa outra, quando Tânato (ou Hades, mediante a versão) se preparava para o agrilhoar, o herói enganou-o e prendeu essa divindade, fazendo com que durante várias semanas nenhum ser vivo falecesse. E fez outras maldades como estas... ás tantas, os deuses lá se fartaram e prenderam mesmo este espertalhão, condenando-o para toda a eternidade a levar uma grande pedra para o topo de uma montanha, apenas para rapidamente a ver a cair desse local, obrigando-o a recomeçar todo o trabalho.

 

Como podemos ver através deste pequeno resumo, o grande interesse do mito de Sísifo não passa tanto pelos seus actos em vida - como é muito comum nestas histórias, que vulgarmente terminam com a morte do herói - mas pela forma como, uma e outra vez, foi capaz de iludir o próprio fim da vida humana, levando a que os deuses o condenassem a uma punição completamente original (para outros exemplos, podem ser vistos mitos como os das Danaides, Ixion ou Tício). E, nesse contexto, a sua eterna punição parece fazer muito sentido - condenado a um trabalho que não tem fim, é provável que os deuses tenham pensado que essa tarefa acabaria por vergar a vontade do condenado, mas... segundo Albert Camus, no seu livro Mito de Sísifo, também é possível ver nessa tarefa de completa inutilidade uma espécie de metáfora para a própria vida humana, em que demasiadas vezes repetimos (inutilmente) as mesmas acções sem alguma vez conseguirmos chegar a algum lado. Dá que pensar, não é?

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25 de Setembro, 2020

O mito de Aracne

O mito de Aracne não parece ter a sua origem nas histórias dos Gregos. Em vez disso, a versão mais antiga desta história que nos chegou provém dos versos do poeta latino Ovídio, sendo suas as linhas que aqui iremos adaptar:

A morte de Aracne

Aracne era uma jovem que toda a sua vida se dedicou à tecelagem. Cada vez que tecia algo de novo, não podia deixar de admirar a extensa beleza da sua produção. E depois, um dia, isto levou-a até a considerar o seu trabalho melhor do que o dos próprios deuses. Com peito bem inchado, desafiou a deusa Atena - uma das padroeiras da arte que praticava - e, de uma forma completamente inesperada, acabou até por conseguir produzir um trabalho superior ao da própria deusa. Zangada, Atena rasgou a produção da sua opositora; e esta, quando se apercebeu do que tinha feito, da forma imperdoável como tinha desafiado os deuses, decidiu suicidar-se. O mito poderia até ter acabado por aqui, mas Atena, num misto de admiração pelo trabalho da falecida e tristeza pela morte que tinha causado, decidiu transformar Aracne numa aranha, que até aos nossos dias continua a exercer a sua arte.

 

O mito de Aracne é, como muitos outros dos tempos da Antiguidade, uma espécie de alerta aos leitores, instando-os para que não tentem violar os derradeiros limites da condição humana (a chamada hybris). Se, por um lado, é estranho que esta figura tenha verdadeiramente conseguido derrotar a deusa - normalmente o desfecho é o oposto, como no mito de Marsias - há que notar que ela não foi completamente victoriosa, perdendo a sua vida pouco após o confronto. Isso acontece porque, no contexto dos mitos gregos e latinos, as histórias em que os seres humanos desafiam os deuses nunca podem terminar bem para os desafiadores - que estranho exemplo seria esse, dizer-se que eles, no seu quase-infinito poder, podiam ser derrotados por meros mortais?!

Para terminar, a associação de Aracne ás aranhas serve, essencialmente, para tentar explicar o porquê de estas tecerem as suas teias - segundo este mito, elas fazem-no porque descendem dessa heroína e, como tal, continuam a praticar a famosa arte da sua predecessora.

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22 de Setembro, 2020

O mistério do Flautista de Hamelin

A história do Flautista de Hamelin é provavelmente uma daquelas de que todos ouvimos falar quando éramos mais novos. Aparece em incontáveis livros, sob a forma de um conto ou lenda, mas independentemente do que lhe quisermos chamar por detrás dela esconde-se um verdadeiro e gigantesco mistério, que funde ficção com realidade. Mas já lá iremos, por agora resumimos aqui a versão mais famosa de toda a trama:

O Flautista de Hamelin

Há muitos, muitos anos atrás a cidade alemã de Hamelin estava a sofrer uma enorme praga de ratos. Um dia, os seus habitantes foram visitados por um homem misterioso em roupas coloridas, que se dispôs a resolver a praga que afectava a cidade a troco de algum dinheiro. E então, os cidadãos de Hamelin, felizes com a proposta, depressa a aceitaram, e o homem que viria a ficar conhecido como o Flautista de Hamelin rapidamente resolveu o problema - através do som da sua música de flauta atraiu todos os ratos para um dado local e, conduzindo-os depois para um rio, afogou-os a todos.

O problema estava resolvido, mas quando o honesto trabalhador voltou à cidade e pediu o dinheiro que lhe era devido, os habitantes recusaram dá-lo. Por três vezes insistiu no que era dele por direito, e por três lhe recusaram o que pedia justamente. Então, tocando novamente a sua flauta, desta vez o estranho herói atraiu [130?] crianças para fora da cidade e elas nunca mais voltaram a ser vistas.

 

Esta poderia ser uma história como tantas outras, de flautas mágicas e homens misteriosos que resolvem problemas mundanos com recurso a um qualquer deus ex machina, mas dizem as crónicas que ela efectivamente tomou lugar no dia 26 de Junho de 1284, altura em que um homem que tocava flauta levou as crianças para um monte próximo e, depois, todos eles desapareceram sem deixar qualquer espécie de rasto (a sequência aos ratos parece ser mais tardia). Se isto não for suficientemente intrigante, as crónicas da cidade de Hamelin contaram, durante algum tempo, a passagem dos anos com base neste evento, e.g. "faz agora 32 anos que as nossas crianças desapareceram". E, se também isto não vos tornar curiosos por mais, existe uma rua nessa cidade, chamada então Bungelosenstrasse, em que a música continua proibida, supostamente porque foi a rua que o Flautista de Hamelin tomou com as crianças, e onde elas foram vistas pela última vez.

 

Face a estas provas, acreditando então que esta história tem um fundo de verdade, o que sabemos sobre ela? O relato completo mais antigo que ainda temos, presente no Manuscrito de Lueneburg (de meados do século XV), diz apenas que a 26 de Junho de 1284 130 crianças foram levadas por "um tocador de flauta vestido com muitas cores", e que desapareceram para o interior de um monte cuja localização é hoje desconhecida. Só isso. O que lhes aconteceu continua a ser completamente desconhecido até aos nossos dias, um que não pode deixar de nos fascinar - o que acham que aconteceu ao misterioso viajante, que ficou conhecido como Flautista de Hamelin, e às crianças que o seguiram? Alguém tem alguma opinião que gostasse de partilhar, ou alguma ideia do que se poderá esconder por detrás deste estranho mistério?

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22 de Setembro, 2020

O Espiritismo é verdade?

Será que o Espiritismo é verdade? Para a maior parte das pessoas que conhecemos, a resposta a uma pergunta como essa é e será provavelmente um ressonante e indubitável "não, claro que não!" E isto porque, salvo algumas raras fraternidades e federações espíritas em Portugal, a crença nos espíritos não é muito comum por cá, apesar de ainda o ser bastante no Brasil (através dos ensinamentos de figuras como Allan Kardec e Chico Xavier), e em países como os EUA. Mas, mesmo que por cá não acreditemos muito nessas coisas, certamente que todos conhecemos - por exemplo, através de filmes ou de histórias literárias ficcionais - a realidade das sessões espíritas, em que várias pessoas se reúnem numa sala escura, de mãos dadas ou em cima da mesa, enquanto dizem comunicar com os espíritos dos falecidos.

Sessão Espírita - será o Espiritismo verdade?

É provável que a maior parte dos leitores nunca tenha experienciado uma coisa destas na primeira pessoa, mas face ao que vemos na televisão certamente que, pelo menos para alguns, a questão sobre a verdade do Espiritismo já lhes terá passado pela cabeça. E, nesse sentido, se a crença na possibilidade de comunicar com os espíritos já vem de tempos da Antiguidade - recordem-se, por exemplo, algumas das histórias de Flégon de Trales - o desenvolvimento de uma forma sistemática para esse contacto foi feito já no século XIX, dizendo-se muitas vezes que começou com Kardec, e as Irmãs Fox nos EUA (que, ironicamente, depois se vieram a provar fraudes). Agora, poderíamos escrever muito sobre tudo isto, mas para evitar repetições podemos dizer que existem dois bons livros que devem ser lidos por quem se interroga sobre estas coisas.

 

O primeiro deles é de Harry Houdini (sim, o famoso mágico). Ele tinha um fascínio com o Espiritismo, que até queria mesmo que fosse verdade e que pode ser visto em filmes como Death Defying Acts, mas depressa se deparou com um grande problema - por muito que quisesse acreditar, uma e outra vez só conseguiu encontrar charlatões que apenas queriam tomar proveito da fraqueza das pessoas. E então escreveu um livro chamado A Magician Among the Spirits, onde mostra que o Espiritismo é todo uma enorme fantasia. É um livro bastante bom, escrito quase em oposição à History of Spiritualism de Arthur Conan Doyle (de quem ele era amigo), em que até chega ao ponto de mostrar os vários estratagemas utilizados por aqueles que se dizem médiuns. É muito interessante, esta obra, mas a ser adquirida deve sê-lo numa edição com todas as fotografias (que, infelizmente, raramente são incluídas, possivelmente porque podem "chocar" alguns leitores mais sensíveis - ver um exemplo, retirado de outra obra, abaixo). Para o autor, o Espiritismo não é verdade.

Um espírito do outro mundo

Outro livro interessante sobre este mesmo tema é Confessions of a Medium, de autoria anónima. Conta-nos a história, supostamente autobiográfica, de um céptico que passou a acreditar no Espiritismo, e que depois, ao longo do tempo e enquanto se ia envolvendo nessas artes, também se foi apercebendo que, afinal de contas, era tudo apenas uma enorme falcatrua. O livro chega até a contar como se fazem muitas das coisas ditas espíritas, entre elas as famosas mesas flutuantes e as aparições físicas. E deixa uma questão simbólica - e se... nem tudo for o que parece aos mais crédulos? Para o autor, o Espiritismo não é verdade.

 

E o que dizer das obras de Allan Kardec? Numa delas - pensamos tratar-se do Livro dos Espíritos, mas já não temos cópias das suas obras connosco - o autor adverte que os espíritos são reais mas não se deve falar com eles, visto que podem mentir nas suas respostas apenas para obter a nossa atenção e admiração. Até aqui tudo bem, isso faz sentido, não fosse o facto de, pouco depois, o tema da mesma obra assentar precisamente em se fazerem perguntas repetidas aos espíritos... os mesmos que o autor nos disse que poderão estar a mentir. Irónico, não é? Como conseguir acreditar em algo assim?! Se, para este autor, o Espiritismo é verdade, o acesso aos espíritos apenas deve ser feito num ambiente muito controlado, sempre com o auxílio de aqueles que só têm a ganhar com uma suposta verdade de todos esses processos - estranho, não vos parece?

 

Face a conteúdos como todos estes, não podemos deixar de adaptar as palavras de Cícero num contexto muito semelhante - como é possível que dois espíritas não se riam, quando se cruzam na rua? Deveriam fazê-lo, se ambos sabem, naturalmente, que isto do Espiritismo é verdade apenas na frágil credulidade de pessoas mais desesperadas. Só que elas, infelizmente, não têm as capacidades de um Houdini para mostrar, uma nova vez, que tudo isto é falso, ilusório e uma mera fantasia.

Querem saber se o Espiritismo é verdade? A resposta passa por um teste simples - suponham que um familiar vosso faleceu. Suponham, igualmente, que lhe poderiam fazer uma só pergunta, muito concreta, à qual apenas ele próprio vos saberia responder. Que pergunta lhe fariam, nessa situação? E, honestamente, acham que uma pessoa que supostamente comunica com os espíritos saberia dar-vos essa mesma resposta, sem ter de andar a espiolhar a vossa vida (e as vossas redes sociais)? A resposta a essa potencial experiência deu-a Houdini, quando fez algo de semelhante - mesmo com a ajuda de incontáveis espíritas, ele jamais conseguiu obter a resposta que procurava, que a mãe ficou de lhe dar após a morte, denotando uma falsidade do Espiritismo que também é muito fácil de ver na obra anónima recomendada acima, como em algumas das obras de Kardec (que não recomendamos, de todo, até pela perda de tempo que são).

Por isso não se deixem enganar, o Espiritismo nada tem de verdade, é tão falso quanto a previsão do futuro pelas cartas de tarot e as seitas que prometem as maiores curas de todos os problemas da vida em troca de "um sacrifício" (sempre monetário, claro está)!

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21 de Setembro, 2020

Apolo ou Hélio, quem era o deus grego do sol?

Afinal de contas, entre Apolo ou Hélio quem era o deus grego do sol? Ou, para voltar ao tema de há alguns dias, se escrevemos sobre Selene, e na altura nos referimos a ela como "a Lua", depois de pensarmos um pouco mais no tema... a Lua não era Ártemis, a Diana dos Romanos?

Apolo ou Hélio?

Em ambos os casos, a resposta não é simples. É muito fácil encontrar diversos mitos gregos em que nos é dito que o deus grego do sol, ou o próprio Sol em si mesmo, era Hélio - isso acontece no mito de Faetonte, no Rapto de Proserpina, e sabemos até que o Colosso de Rodes, que um dia guardou e entrada do porto dessa cidade grega, era inquestionavelmente este deus.

Mas, ao mesmo tempo, também é possível encontrar diversos mitos em que a mesma função solar era atribuída a Apolo - notavelmente, o facto de ele disparar flechas (como também o fazia a irmã, Ártemis) pode ser visto como uma metáfora para os próprios raios do sol - muitas vezes até sendo este deus designado por "Febo Apolo", do Grego φοῖβος (phoibos, "brilhante").

Face a esta dupla dificuldade, quem era o deus grego do sol, Apolo ou Hélio?

 

A resposta poderá surpreender alguns leitores, mas na verdade tanto Apolo como Hélio eram deuses do sol. O erro de se considerar que apenas poderia existir um único deus associado a esse astro - ou até mesmo à Lua - provém de um conhecimento incompleto dos mitos da Antiguidade, já que muitas vezes somos levados a acreditar, falsamente, que não só existia um único deus para cada coisa, como também essa figura divina se manteve completamente estável durante os séculos e séculos em que estes deuses foram venerados. Isso não é verdade!

Sol Invictus

Podemos até mostrar um grande exemplo deste problema. Quando, já no Império Romano, o culto a Sol Invictus se foi disseminando, ninguém duvida que essa se tratasse de uma divindade solar, até pelo seu nome. Mas, a acreditar-se que existia um único deus solar, será que os Romanos "expulsaram" um outro do seu panteão, para depois então adicionar este novo deus no seu lugar? A resposta é um óbvio não, até porque existiam pessoas que ainda veneravam o famoso Apolo de Delfos. Em vez disso, o que aconteceu foi que alguns cidadãos romanos veneravam uma dada figura que identificavam como o sol, e outros tinham para esse lugar um outro deus completamente distinto.

Falamos de Roma, sim, mas na Grécia o mesmo se passava. O deus grego do Sol em Rodes era, como não poderia deixar de ser, Hélio. Em Delfos certamente que seria Apolo, como é provável que também o fosse em Atenas, e assim por diante. Apolo, Hélio, Rá, Sol Invictus, eram quatro divindades solares de tempos da Antiguidade, veneradas por pessoas diferentes de locais distintos, e para quem cada uma delas representava aquele sol que vemos no céu. Não havia um só deus grego do sol, uma entidade única com essa tarefa, mas sim um conjunto de figuras divinas que para diferentes pessoas simbolizavam esse mesmo astro. Eu poderia dizer que o Sol era Apolo, o meu colega do lado podia dizer que era Hélio, um familiar distante já podia referir-se antes a Mitra (ou Mitras, se preferirem esse nome), sem que nos zangássemos verdadeiramente por isso. Era tudo uma questão de opinião, pura e simples, e nada mais - e não era apenas uma escolha entre Apolo ou Hélio, Hélio ou Apolo, mas entre vários outros deuses que também podiam simbolizar divindades solares!

 

Não faz então sentido falar-se simplesmente de um deus grego do sol, ou de um deus do sol nos tempos da Antiguidade. Existiam vários, de que Apolo e Hélio eram apenas dois, e cada pessoa era livre de os venerar como se fossem o sol - ou mesmo a lua, no caso particular de Selene e Ártemis - a seu belo prazer. É essa a melhor resposta que podemos dar a Apolo ou Hélio, quem era o deus grego do sol?, mas se alguém discordar dela pode, como sempre, deixar um comentário abaixo com a sua opinião pessoal, que certamente teremos todo o prazer em debater.

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19 de Setembro, 2020

O segredo da Pedra Amarela, em Sintra

A lenda da Pedra Amarela, em Sintra, é bastante conhecida, mas por detrás dela esconde-se igualmente um segredo lendário. Mas adiantamo-nos. Há algumas semanas passeávamos pela floresta, com todo o cuidado necessários nestes dias, quando nos levantaram uma questão - "porque tem a Pedra Amarela esse nome? Não é por causa do Campo Base?"

Naturalmente que não, tentámos explicar, referindo então sucintamente a famosa lenda sintrense - uma velha tinha ouvido uma profecia segundo a qual, caso se conseguisse derrubar uma gigantesca rocha atirando-lhe exclusivamente ovos, por baixo desse local seria encontrado um enorme tesouro. Claro que nunca o conseguiu fazer, mas é isto que diz a lenda da Pedra Amarela - também conhecida como "Penedo dos Ovos" - associada à Serra de Sintra. Mas que verdade se esconde por detrás de toda essa história?

Pedras amarelas em Yellowstone

Por todo o mundo existem locais com nomes semelhantes. Desde o Yellowstone estado-unidense (o tal parque em que viviam o Zé Colmeia e o Catatau), até à montanha Guri i Kuq no Kosovo, passando pela Wong Shek chinesa, entre vários outros locais, são muitos os sítios que adoptaram este nome nas línguas locais e que, em comum, parecem ter a presença de rochas de uma cor amarela. Desconhecemos se todos esses locais têm, também eles, lendas individuais que explicam a origem dessa cor, mas em caso positivo é apenas natural que tenham nascido dos habitantes locais se interrogarem sobre este mesmo tema.

 

E é isso que é particularmente curioso nesta lenda da Pedra Amarela. O local que obteve esse nome não está muito longe da povoação mais próxima, a Malveira da Serra [de Sintra], e sabemos - através de outras lendas, como a da Peninha, que ficará para um outro dia - que os habitantes tinham por hábito pastorear os seus rebanhos pelos montes e vales. Pelo menos um deles se terá interrogado sobre a cor amarela de determinadas rochas, criando, talvez para acalmar a grande curiosidade de um familiar mais jovem ou para o incentivar ao trabalho (e.g. "vai lá levar as cabras a pastar, e vê se encontras o tesouro!"), uma pequena história que acabou por se tornar lenda oral, chegando aos nossos dias. A simplicidade da trama, bem como um conjunto de características que remetem para a cultura popular - o tesouro de origem desconhecida, uma crença muito tácita no oculto, a necessidade de se usar ovos na tarefa, a ausência de um início ou final concretos, etc. - fazem notar que esta lenda parece ter nascido para explicar a cor pouco frequente da chamada Pedra Amarela.

 

Então, primeiro foi encontrada uma pedra com um tom amarelo, algures na floresta de Sintra. Depois nasceu a lenda, procurando explicar essa cor, então vista como pouco comum. Ao longo do tempo foi-se perdendo o rasto da pedra original, mas sabia-se mais ou menos onde ela tinha estado, o que contribuiu para popularizar o seu nome numa dada região. E, finalmente, permanece agora o nome e a lenda, mas sem que ambos já se consigam ligar de uma forma mais concreta. Assim, o nome da Pedra Amarela permanece, também se sabe mais ou menos onde é essa zona, conhece-se a lenda, mas... onde está a pedra de que ela nos fala? Aquela à qual, segundo a famosa história, a velha atirou os seus ovos, procurando revelar um grande tesouro? Será que, a ter existido, esse tesouro ainda lá está, entre os muitos segredos escondidos em Sintra? Gostaríamos de ir procurá-lo, mas a sua localização já há muito que foi esquecida, face ao grande peso dos séculos...

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17 de Setembro, 2020

A verdadeira lenda de Mulan

A figura de Mulan é conhecida na sociedade ocidental essencialmente devido a um filme da Disney que foi feito há alguns anos e sofreu um remake recentemente. Mas o que talvez muita gente ainda não saiba é que a trama dos filmes, de um modo geral, se baseia numa lenda chinesa. Por isso pergunte-se, o que diz a verdadeira lenda de Mulan?

Verdadeira lenda de Mulan

Esta figura, conhecida na China como 花木蘭 (ou Hua Mulan), aparece pela primeira vez num poema do século IV-VI d.C. que hoje toma o nome de Balada de Mulan. É um poema muitíssimo simples, cuja trama até pode ser resumida em meia dúzia de linhas - o pai de Mulan é convocado para a guerra, mas não tem filhos do sexo masculino que possam tomar o seu lugar. Então, esta personagem feminina compra o que necessita, junta-se às batalhas vindouras e luta durante 10 anos. Quando lhe oferecem uma recompensa pelos seus bons serviços, limita-se a dizer que apenas pretende um transporte rápido para casa. Voltando então a casa passado 12 anos, os seus companheiros notam pela primeira vez uma verdade que lhes estava oculta até então - Mulan era uma mulher! E assim, o poema termina com uma sequência que até faz pensar - "quando dois coelhos [de sexos opostos] correm lado a lado, quem sabe distinguir as suas formas?"

 

É esta a verdadeira lenda de Mulan, sobre a qual posteriormente serão construídas novas histórias e adicionados novos elementos. Por exemplo, nesta versão original nunca é dito o porquê da heroína se juntar à guerra, sendo apenas revelado que, na ausência de um irmão mais velho do sexo masculino, ela pretendia ocupar o lugar do seu pai. Depreende-se, muito vagamente, que de alguma forma ele estivesse incapaz de combater, mas o poema nunca diz isso. E o que as tramas posteriores fazem é tomar sugestões como estas e amplificá-las, sugerindo, por exemplo, que ela se possa ter apaixonado por alguém, ou que tenha tido algumas dificuldades iniciais em tornar-se guerreira, um conjunto de características que não aparecem, na verdade, nesta primeira e inicial versão de toda a história.

 

A verdadeira lenda de Mulan é, assim, pura e simplesmente a de uma jovem que decide ocupar o lugar do seu pai numa guerra, e que o faz durante mais de uma década sem que o seu verdadeiro sexo de nascença seja descoberto. Tudo o resto são adições posteriores a uma lenda original dos primeiros séculos da nossa era, que nunca dizia - como já referido acima - que ela se tivesse apaixonado por algum dos seus companheiros, ou tivesse tido dificuldades na guerra...

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16 de Setembro, 2020

A não-lenda da Arranca-Pregos

Quem viver em Alcabideche, no concelho português de Cascais, poderá já ter visto, próximo de um cruzamento em terra-batida, um pequeno poço que está hoje totalmente coberto com uma espécie de laje de pedra. Os locais dizem tratar-se do Poço da Arranca-Pregos, mas a que se deve um nome tão singular?

Poço da Arranca-Pregos

Infelizmente, já ninguém nos soube dizer a sua história. Informaram-nos, isso sim, que existia na zona uma mulher que era conhecida por "Arranca-Pregos", e que este poço foi um dia parte da sua propriedade. Disseram-nos igualmente que, faz já cerca de 80 anos, ela podia ser vista, idosa e sozinha, na companhia dos seus cães e dos seus porcos. Uma pessoa até nos disse, com um misto de cepticismo e de estranha certeza, que alguns anos após a morte desta figura alguém foi a casa dela e no seu interior, apesar da pobreza aparente, encontrou grandes riquezas. Mas o porquê do nome, a razão pela qual a Arranca-Pregos era assim chamada, já ninguém sabe. Insistimos, uma e outra vez. Dizem-nos então que não sabem, não sabem mesmo, sempre a ouviram a ser tratada por esse nome, mas ela nunca falava com ninguém - ou, para sermos mais precisos, já não conseguimos encontrar ninguém que nos dissesse que tinha mesmo falado com ela.

 

É um pouco triste que já ninguém pareça saber porque a Arranca-Pregos tinha esse nome. Já ninguém se recorda sequer do nome com que essa mulher nasceu. E já ninguém se lembra de mais do que o que contámos acima. E assim, o Poço da Arranca-Pregos lá continua, na sua pedra semi-eterna, com o mesmo nome que um dia teve, mas sem que já ninguém saiba as verdadeiras razões por detrás da designação que agora tem...

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