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Mitologia em Português

16 de Setembro, 2020

A não-lenda da Arranca-Pregos

Esta não-lenda da Arranca-Pregos é, pelo menos para nós, um pouco triste. Quem viver em Alcabideche, no concelho português de Cascais, poderá já ter visto, próximo de um cruzamento em terra-batida, um pequeno poço que está hoje totalmente coberto com uma espécie de laje de pedra. Os locais dizem tratar-se do Poço da Arranca-Pregos, mas a que se deve um nome tão singular?

Poço da Arranca-Pregos

Infelizmente, já ninguém nos soube dizer a sua história. Informaram-nos, isso sim, que existia na zona uma mulher que era conhecida por "Arranca-Pregos", e que este poço foi um dia parte da sua propriedade. Disseram-nos igualmente que, faz já cerca de 80 anos, ela podia ser vista, idosa e sozinha, na companhia dos seus cães e dos seus porcos. Uma pessoa até nos disse, com um misto de cepticismo e de estranha certeza, que alguns anos após a morte desta figura alguém foi a casa dela e no seu interior, apesar da pobreza aparente, encontrou grandes riquezas. Mas o porquê do nome, a razão pela qual esta senhora era chamada assim, já ninguém sabe. Insistimos, uma e outra vez. Dizem-nos então que não sabem, não sabem mesmo, sempre a ouviram a ser tratada por esse nome, mas ela nunca falava com ninguém - ou, para sermos mais precisos, já não conseguimos encontrar ninguém que nos dissesse que tinha mesmo falado com ela.

 

É um pouco triste que já ninguém pareça saber porque a Arranca-Pregos tinha esse nome. Já ninguém se recorda sequer do nome com que essa mulher nasceu. E já ninguém se lembra de mais do que o que contámos acima. E assim, o Poço da Arranca-Pregos lá continua, na sua pedra semi-eterna, com o mesmo nome que um dia teve, mas sem que já ninguém saiba as verdadeiras razões por detrás da designação que agora tem...

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16 de Setembro, 2020

A lenda do Castelo de Faria

A lenda do Castelo de Faria, uma antiga localidade de Portugal hoje no concelho de Barcelos, é relativamente simples, mas mostra-nos, como muitas outras - relembrem-se até casos como o de Monsanto ou da Padeira de Aljubarrota - a antiga paixão dos Portugueses face à defesa do país contra os muitos invasores que se nos aproximaram ao longo dos séculos.

Lenda do Castelo de Faria

Primeiro, alguma história bem real. No tempo do rei Dom Fernando I, na segunda metade do século XIV, Castela tentou invadir Portugal. Foram conquistando terreno pelo norte do país, até que se depararam com o (pequeno) castelo de Faria, que já então tinha esse nome. Contudo, se até aqui os eventos parecem ser completamente factuais, o que se passou nessa altura já é composto por um misto de lenda e história, sendo difícil saber-se os limites reais de cada um desses dois polos.

Diz o povo que nessa altura Nuno Gonçalves de Faria, alcaide do castelo local, pegou no seu pequeno exército e tentou parar a invasão castelhana. Falhou a missão a que se propunha, sendo até nessa altura capturado pelos invasores. E então, de uma forma que só poderá ter sido muito inesperada, pediu aos seus captores que o levassem até às portas do castelo de que era alcaide, dizendo-lhes que pretendia aconselhar a rendição do local. Mas depois, escudado por esse subterfúgio, pediu foi ao seu próprio filho, Gonçalo Nunes de Faria, que jamais rendesse o local, devendo defendê-lo até à última gota do seu sangue - por essa imprudência foi logo morto no local, mas inspirado pela coragem deste seu pai, o filho defendeu o castelo com todas as suas forças, e este até jamais foi conquistado pelos invasores.

 

Hoje já quase nada resta do castelo de Faria medieval, aquele de que nos fala toda esta lenda e que pode ser visto na imagem ali em cima, mas os actos destes dois homens, pai e filho, ainda perduram na imaginação popular, ao ponto de ter sido colocada no local, em 1959, uma pequena placa a homenagear as acções honradas do alcaide, que muito contribuíram para a defesa nacional.

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16 de Setembro, 2020

"Das Heresias", de Santo Agostinho

Este Das Heresias, de Santo Agostinho, conhecido no original latino como De haeresibus ad Quodvultdeum, é particularmente digno de nota pelo facto de nos apresentar, de uma forma muito sucinta, as ideias em que acreditavam cerca de 88 heresias cristãs. O trabalho de compilação dessa informação não é só deste autor - ele admite explicitamente que utilizou conteúdo das obras de Epifânio de Salamina e de Filástrio, entre outros - mas a sintetização da informação recolhida parece ser exclusiva dele, permitindo ao leitor saber bastante sobre as crenças heréticas de uma forma bastante sucinta, sem que tenha a necessidade de ler páginas intermináveis para saber, por exemplo, a origem do nome dos Luciferianos.

Santo Agostinho, autor desta obra

Era possivelmente esse o objectivo do amigo que convidou Santo Agostinho a escrever este Das Heresias - tinha uma intenção de saber, sucintamente, em que acreditavam os heréticos, e a verdade é que entre as muitas seitas constantes nesta obra se contam opiniões verdadeiramente fascinantes. Por exemplo, um tal "Retório" - de que nem Santo Agostinho tem a certeza do nome - dizia que todos os heréticos tinham a sua razão; outros diziam que a Virgem Maria tinha tido mais filhos após o nascimento de Jesus; um terceiro e quarto grupos veneravam Caim e Seth; outro dizia que o Espírito Santo era filho de Jesus Cristo; pelo menos um acreditava que as águas primordiais eram co-eternas com Deus; uma estranha heresia já dizia que as partes mais baixas do corpo humano (i.e. os órgãos sexuais?) tinham sido criados pelo Diabo; outros recusavam exclusivamente o Evangelho Segundo São João; enquanto que ainda outros veneravam a cobra do Jardim do Éden. Em suma, as opiniões presentes aqui são mais que muitas, cada qual com a sua leitura muito particular de leitura das ideias bíblicas.

 

Quais estariam certos? Quais estão errados? É tudo uma grande questão de opinião, na medida em que foram as ideias católicas que subsistiram e, por isso, os que as praticavam tiveram de demonizar todas as outras, fazendo-as parecer o mais absurdas possível. E é, na verdade, isso que este Das Heresias nos permite ver, a forma como os textos bíblicos podiam ser interpretados para defender um conjunto de ideias muito distintas, sempre ao abrigo da "opinião", aquela faca de dois gumes que o Cristianismo católico cedo tentou exterminar...

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