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Mitologia em Português

Mitologia em Português

16 de Setembro, 2020

A não-lenda da Arranca-Pregos

Quem viver em Alcabideche, no concelho português de Cascais, poderá já ter visto, próximo de um cruzamento em terra-batida, um pequeno poço que está hoje totalmente coberto com uma espécie de laje de pedra. Os locais dizem tratar-se do Poço da Arranca-Pregos, mas a que se deve um nome tão singular?

Poço da Arranca-Pregos

Infelizmente, já ninguém nos soube dizer a sua história. Informaram-nos, isso sim, que existia na zona uma mulher que era conhecida por "Arranca-Pregos", e que este poço foi um dia parte da sua propriedade. Disseram-nos igualmente que, faz já cerca de 80 anos, ela podia ser vista, idosa e sozinha, na companhia dos seus cães e dos seus porcos. Uma pessoa até nos disse, com um misto de cepticismo e de estranha certeza, que alguns anos após a morte desta figura alguém foi a casa dela e no seu interior, apesar da pobreza aparente, encontrou grandes riquezas. Mas o porquê do nome, a razão pela qual a Arranca-Pregos era assim chamada, já ninguém sabe. Insistimos, uma e outra vez. Dizem-nos então que não sabem, não sabem mesmo, sempre a ouviram a ser tratada por esse nome, mas ela nunca falava com ninguém - ou, para sermos mais precisos, já não conseguimos encontrar ninguém que nos dissesse que tinha mesmo falado com ela.

 

É um pouco triste que já ninguém pareça saber porque a Arranca-Pregos tinha esse nome. Já ninguém se recorda sequer do nome com que essa mulher nasceu. E já ninguém se lembra de mais do que o que contámos acima. E assim, o Poço da Arranca-Pregos lá continua, na sua pedra semi-eterna, com o mesmo nome que um dia teve, mas sem que já ninguém saiba as verdadeiras razões por detrás da designação que agora tem...

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16 de Setembro, 2020

"Das Heresias", de Santo Agostinho

Este Das Heresias, de Santo Agostinho, conhecido no original latino como De haeresibus ad Quodvultdeum, é particularmente digno de nota pelo facto de nos apresentar, de uma forma muito sucinta, as ideias em que acreditavam cerca de 88 heresias cristãs. O trabalho de compilação dessa informação não é só deste autor - ele admite explicitamente que utilizou conteúdo das obras de Epifânio de Salamina e de Filástrio, entre outros - mas a sintetização da informação recolhida parece ser exclusiva dele, permitindo ao leitor saber bastante sobre as crenças heréticas de uma forma bastante sucinta, sem que tenha a necessidade de ler páginas intermináveis para saber, por exemplo, a origem do nome dos Luciferianos.

Santo Agostinho, autor desta obra

Era possivelmente esse o objectivo do amigo que convidou Santo Agostinho a escrever este Das Heresias - tinha uma intenção de saber, sucintamente, em que acreditavam os heréticos, e a verdade é que entre as muitas seitas constantes nesta obra se contam opiniões verdadeiramente fascinantes. Por exemplo, um tal "Retório" - de que nem Santo Agostinho tem a certeza do nome - dizia que todos os heréticos tinham a sua razão; outros diziam que a Virgem Maria tinha tido mais filhos após o nascimento de Jesus; um terceiro e quarto grupos veneravam Caim e Seth; outro dizia que o Espírito Santo era filho de Jesus Cristo; pelo menos um acreditava que as águas primordiais eram co-eternas com Deus; uma estranha heresia já dizia que as partes mais baixas do corpo humano (i.e. os órgãos sexuais?) tinham sido criados pelo Diabo; outros recusavam exclusivamente o Evangelho Segundo São João; enquanto que ainda outros veneravam a cobra do Jardim do Éden. Em suma, as opiniões presentes aqui são mais que muitas, cada qual com a sua leitura muito particular de leitura das ideias bíblicas.

 

Quais estariam certos? Quais estão errados? É tudo uma grande questão de opinião, na medida em que foram as ideias católicas que subsistiram e, por isso, os que as praticavam tiveram de demonizar todas as outras, fazendo-as parecer o mais absurdas possível. E é, na verdade, isso que este Das Heresias nos permite ver, a forma como os textos bíblicos podiam ser interpretados para defender um conjunto de ideias muito distintas, sempre ao abrigo da "opinião", aquela faca de dois gumes que o Cristianismo católico cedo tentou exterminar...

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