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Mitologia em Português

07 de Setembro, 2020

Em busca do Castelo de Cascais

Hoje, decidimos partir em busca do Castelo de Cascais. Quem olhar para o brasão dessa vila portuguesa poderá aí encontrar, sem qualquer espécie de dificuldade, águas douradas (como se acreditava serem as do Tejo, desde os tempos dos Romanos) e um castelo vermelho:

Brasão da Vila de Cascais

Porém, quem depois for visitar esta vila depressa se deparará com um problema - se as águas douradas são puramente metafóricas, onde está o castelo a que também faz alusão este brasão? Perto da marina até pode ser encontrada uma fortaleza moderna, onde está uma das residências oficiais do Presidente da República, mas certamente que o complexo não se trata de uma construção medieval. Além disso, o panorama da região, captado num desenho da segunda metade do século XVI, mostra dois grandes recintos fechados, um com uma enorme torre e outro que se assemelha, esse sim, a um castelo medieval com uma muralha bem característica:

Panorâmica de Cascais no século XVI

A torre, na secção inferior desta imagem, estava colocada no local em que hoje existe a parte mais a sul da fortaleza, como revelaram vestígios arqueológicos. Mas o que aconteceu ao castelo? Pela sua localização nesta imagem é possível perceber que o castelo estava localizado perto da costa, entre o local dessa fortaleza e a chamada Praia da Ribeira. Existe, hoje, uma avenida que liga esses dois locais, mas não se percebem quaisquer vestígios evidentes de um castelo. A resposta a todo o problema provém do facto de as várias casas nessa rua serem todas elas relativamente recentes, do século XX, em que se foi demolindo o (pouco) que então ainda existia das muralhas medievais. Existem até fotografias que mostram essa demolição a tomar lugar, mas não podemos mostrá-las por cá face a direitos de autor dessas imagens.

Mas a busca pelo castelo ainda não fica por aqui. Seguindo então essa avenida num sentido descendente, em direcção à praia, quem também decidir partir em busca deste misterioso Castelo de Cascais poderá virar à esquerda na Rua Marques Leal Pancada, onde depressa encontrará uma esquina muito pouco vulgar:

E depois, um pouco mais acima, pode ser encontrada uma porta muito antiga, em que uma pequena lápide atesta a presença do que se poderia pensar já totalmente perdido:

Quem olhar para estes dois locais com muito cuidado e atenção aos detalhes poderá ainda encontrar, aqui e ali, pequenos vestígios do verdadeiro castelo medieval, que agora se encontra quase apenas resumido a estes dois locais individuais. É provável que uma parte muito significativa das suas muralhas tenha sido destruída aquando do Terramoto de Lisboa, mas sabemos que em inícios do século XX ainda podiam ser encontradas mais restos das muralhas medievais nas ruas próximas, e que elas, como já foi afirmado acima, foram sendo demolidas para a construção de novas casas, sem qualquer respeito pelo património dos nossos antepassados.

 

É este o Castelo de Cascais, o mesmo que pode ser visto no brasão da vila. Ou, se pretendermos ser mais precisos, é o pouco que ainda nos resta de um castelo medieval, que possivelmente foi destruído pelo famoso terramoto de 1755 e depois foi pilhado e demolido até ao seu estado actual. Resta saber até quando se irão manter estes dois vestígios de uma construção da Idade Média, já que só nos chegaram por um mero acaso e sucessivo acidente dos séculos...

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06 de Setembro, 2020

A lenda da Gruta de Camões

Quem for a Macau poderá, sem muita dificuldade, cruzar-se com um jardim que tomou o nome de Camões, onde existe um famoso espaço conhecido como a Gruta de Camões:

Se o espaço, que aqui pode ser visto quase ao centro da imagem, não é hoje uma verdadeira gruta, tem uma pequena lenda associada a ele - diz-se que, aquando da sua passagem por terras do oriente, o poeta Luís Vaz de Camões descansou nesta pequena gruta, onde até escreveu pelo menos um poema à sua amada Dinamene. Mas será isto verdade?

Camões num filme

Sabemos que Camões efectivamente viveu em Macau durante algum tempo, mas, como já apontado anteriormente, os eventos mais concretos da sua biografia são muito difíceis de discernir. É certamente possível que tenha encontrado este belo recanto e que tenha escrito algum poema por lá, mas já não podemos ter qualquer certeza real de que isso tenha tomado lugar.

E o que dizer de Dinamene? Naturalmente que se trata de um pseudónimo - Dinamene, ou Δυναμένη, era uma das Nereidas da Grécia Antiga - que a tradição oral associou a uma chinesa que, segundo um dos poemas que lhe foi dedicado, terá morrido entre as ondas do mar:

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste
Quem não deixara nunca de querer-te!
Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te,
Tão asinha esta vida desprezaste!

Como já pera sempre te apartaste
De quem tão longe estava de perder-te?
Puderam estas ondas defender-te
Que não visses quem tanto magoaste?

Nem falar-te somente a dura Morte
Me deixou, que tão cedo o negro manto
Em teus olhos deitado consentiste!

Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte!
Que pena sentirei que valha tanto,
Que inda tenha por pouco viver triste?

Terá esta Dinamene existido? Terá mesmo falecido entre as ondas do mar? Terá até estado com Camões neste espaço da Gruta de Camões? Será que o amou tanto como ele parece tê-la amado nos seus versos? Por boas que sejam, estas são perguntas às quais a ausência mais concreta de uma biografia do poeta nos impedem respostas reais.

 

E é assim que nascem, ou que tendem a nascer, as lendas. Pegando-se num facto real - a presença de Luís de Camões em Macau - vão sendo acrescentados novos elementos à história, até que se torna difícil compreender onde acabam os factos históricos concretos e onde começa uma qualquer ficção menos credível. Mas, indiferente a tais problemas, lá continua em Macau a bela Gruta de Camões, no jardim que tomou o nome do poeta, a inspirar histórias como estas e muitas outras...

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03 de Setembro, 2020

O mito de Trofónio e Agamedes

Se existem pequenas adições à história aqui e ali, o mito de Trofónio e Agamedes é relativamente simples. Conta-se que essas duas figuras, frequentemente associadas como uma só, foram os arquitectos de diversos edifícios famosos por toda a Grécia, entre eles o Oráculo de Apolo em Delfos.

O deus Apolo

Segundo o mito, este famoso oráculo em Delfos foi então a última das construções que Trofónio e Agamedes fizeram. E, na verdade, o deus Apolo - visto na imagem acima - parece ter ficado tão contente com a sua criação que lhes decidiu conceder um desejo. Podiam pedir ao deus tudo o que quisessem, mas o seu desejo apenas se concretizaria após um período de sete dias. E então, decidiram pedir a Apolo algo que lhes parecia muito natural - queriam receber aquilo que os deuses considerassem o melhor para todos os seres humanos. O deus concedeu-lhes então esse desejo, e após uma semana de interregno ambos acabaram por falecer.

 

A ideia não é completamente nova e até surge em diversos outros mitos, sempre com a sugestão de que o melhor para todos os seres humanos é falecer no seu momento de maior glória. Sejam as personagens Trofónio e Agamedes, Cléobis e Bíton, ou até Creso e Sólon, a ideia geral é a mesma, que pode ser bem resumida nas próprias palavras que são atribuídas ao sábio Sólon - não contes nenhum homem como afortunado até ao dia da sua morte. Dá que pensar, que sucessivos mitos da Antiguidade nos transmitam essa mesma mensagem, mas que ela também esteja já muito esquecida nos nossos dias de hoje...

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02 de Setembro, 2020

"A Atlântida", de Jacint Verdaguer

A Atlântida, de Jacint Verdaguer, é um daqueles poemas que poucos conhecerão fora do seu país natal, até porque foi originalmente escrito em Catalão já em finais do século XIX. É um poema curioso, não tanto pela sua forma, ou mesmo pelo conteúdo directo dos seus versos, mas pela sua trama geral, que levou a esta referência que lhe fazemos aqui. 

Uma possível Atlântida

A trama começa então com um Cristóvão Colombo naufragado, a quem um misterioso asceta decide contar uma história de outros tempos, tentando distraí-lo do acidente por que passou. Conta-lhe então uma mistura de mitos da Antiguidade, em que a história platónica da destruição da Atlântida se associa à passagem de Hércules pelo território de Espanha e ao afastamento dos chamados "Pilares de Hércules". Para unir esses três grandes temas, o autor recorre não somente a mitos bem conhecidos da Antiguidade, mas também a diversas inovações que nascem somente da sua própria imaginação, o que até poderia ser interessante, não fosse o facto de elas suscitarem repetidamente um conjunto de questões que ficam sempre sem resposta.

 

Por exemplo, num dado instante do poema Hércules afasta os seus famosos pilares, formando o Mar Mediterrâneo pela primeira vez. Poderia parecer-nos uma ideia digna de ser longamente homenageada, mas é aqui tratado como um momento quase menor; ao mesmo tempo, a esse instante segue-se um em que diversas recém-formadas ilhas do Mediterrâneo discursam em voz individual. Num outro instante, a destruição da Atlântida - que, dado o nome do poema, nos poderia parecer o seu maior foco - vai sendo tratada aqui e ali, mas sem algum instante particularmente notável, digno de uma nota de maior.

 

A ideia por detrás da trama do poema é, sem qualquer dúvida, intrigante - na história de enquadramento, Cristóvão Colombo até se sente inspirado por ela para partir em busca de novas terras - mas o tratamento que lhe é dado raramente consegue cativar o leitor por mais que uns breves instantes. Em vez disso, as três histórias principais vão-se entrelaçando aqui e ali, mas sem que existam momentos dignos de maior nota. Por isso, talvez esta poema mereça ser lido por mera curiosidade cultural, e pouco mais.

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