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Mitologia em Português

21 de Outubro, 2020

As Profecias de Nostradamus

Les Prophéties, ou o livro das Profecias de Nostradamus, é uma daquelas obras que muitos conhecem mas que também muito poucos lêem. E por uma excelente razão - mesmo que se queira acreditar que este autor do século XVI, Michel de Nostredame, verdadeiramente sabia o que ia acontecer no futuro, este é um texto verdadeiramente monótono, com quase 1000 quadras poéticas que poderão (ou não... nunca é claro!), até estar de alguma forma relacionadas entre si.

As Profecias de Nostradamus

Mas comece-se pelo princípio. O livro das Profecias de Nostradamus foi escrito, como o próprio autor deixa claro na sua introdução, como uma espécie de prenda a um dos seus filhos. Iria revelar-lhe, segundo nos diz no prefácio, o futuro até ao distante ano de 3797 (com uma certa ironia até podemos dizer que é bom saber que o mundo irá durar mais 1700 anos...), mas tinha de o fazer de uma forma muito oculta, até para evitar potenciais problemas. E assim, ao longo da sua obra podem ser encontradas quadras como as seguintes, que nos deveriam revelar eventos que supostamente iriam tomar lugar algures no enorme período de tempo que separa o tempo de vida deste autor dos anos finais do século XXXVIII:

Fogo tremente do centro da terra
Fará tremer em torno da Cidade nova;
Dois grandes rochedos farão guerra por muito tempo,
E depois a Aretusa tornará vermelho um novo rio.

O que quer isto dizer, fazem alguma ideia? É, segundo alguns leitores dos nossos dias, uma previsão do 11 de Setembro, não vos parece "extremamente óbvio e muito claro"? Não...? Ora, certamente que não (!), mas ao mesmo tempo é este tipo de conteúdo que pode ser encontrado nas Profecias de Nostradamus - versos sem um significado claro, quase sempre sem qualquer ligação lógica entre eles (mas parecem existir excepções), em que pode ser lido e revelado quase tudo o que quisermos.

 

De facto, quando escrevemos sobre as Trovas do Bandarra, uma das coisas que os utilizadores mais procuraram por cá foi uma frase como "previsões do Bandarra para 2021". De um modo semelhante, quem quiser procurar por algo como "previsões de Nostradamus para o ano de 2022" sairá igualmente frustrado - nenhum dos dois autores alguma vez apresenta aos seus leitores previsões concretas, claras, ou mesmo para um determinado ano, cabendo somente a quem lê estes versos a tarefa fantasiosa de ver significados reais onde assim o desejarem. Por isso, ler esta obra é uma pura perda de tempo, pelo menos até ao dia em que alguém consiga descortinar os significados não dos eventos que já tiveram lugar - isso é relativamente simples, basta sempre tentar ler nas quadras algo que se adapte minimamente ao que pretendemos - mas de todos aqueles que (supostamente) irão tomar lugar no futuro, dizendo-nos quando e onde é que algo vai acontecer. Até isso acontecer, perder tempo com obras como estas Profecias de Nostradamus é somente isso, uma grande perda de tempo e nada mais.

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20 de Outubro, 2020

A origem e o mito de Puck e Oberon

Quem já tiver lido, ou assistido, ao Sonho de uma Noite de Verão, de William Shakespeare, certamente que se terá interrogado sobre a origem das personagens do reino místico - Oberon, Puck, Titânia, etc. Têm uma mitologia parcialmente palpável, mas ao mesmo tempo pouco se fala de cada uma delas fora dessa peça de teatro específica. É como se surgissem para essa peça e desaparecessem pouco depois, mas tendo por detrás delas, estranhamente, muito mais do que nos é dito, um conjunto de histórias que apenas podem ser subentendidas através de alguns instantes dos diálogos e da trama. Mas, então, qual é a origem de Puck e Oberon? E, na verdade, que mitos têm associados?

Puck, filho de Oberon

Segundo um pequeno panfleto do finais do século XVI, Robin Good-Fellow: His Mad Pranks, and Merry Jests, tanto Puck como Oberon têm a sua origem no folclore inglês, existindo até alguns poemas e cantigas que narram a relação entre ambos. E ela é relativamente simples, sendo possível resumir toda a história - que já de si não é muito longa - em meia dúzia de linhas:

 

Oberon era uma fada (do sexo masculino) que amava uma mulher mortal. Costumava visitá-la e "dançar" com ela durante a noite, até que a engravidou. Puck nasceu pouco depois, e enquanto era jovem fazia sempre muitas traquinices. Um dia, a mãe ia dar-lhe uma tareia enorme, e então ele decidiu fugir de casa. Pouco depois, o seu pai apareceu-lhe e contou-lhe que, como seu filho, tinha o poder de se transformar. Seguiram-se muitas aventuras, em que este jovem usou os seus poderes mágicos para ajudar vários injustiçados e punir alguns malvados, até que, finalmente, se juntou ao seu pai na floresta, onde ambos dançam todas as noites com o resto das fadas.

 

Um colega professor de teatro alertou-nos que, curiosamente, esta história até pode servir como uma pequena introdução ao Sonho de uma Noite de Verão, explicando de onde vêm as personagens e como se encontraram na floresta em que, depois, toma lugar a história de Shakespeare. E é verdade, mas também prova é que quando este dramaturgo inglês escreveu a sua peça, fê-lo num contexto em que a audiência já estava bem familiarizada com as personagens necessárias para que se entendesse a totalidade da trama. E sabiam-no porque, muito provavelmente, estas eram personagens famosas na sua época, mas que foram sendo esquecidas ao longo dos séculos, deixando a trama da peça agora parcialmente incompleta para nós.

 

Em forma de sumário, Robin Good-Fellow, hoje mais conhecido simplesmente como Puck, era filho de Oberon e são ambos entes da floresta, uma espécie de fadas, com poderes mágicos de transformação, e possivelmente muito bem conhecidos do folclore da época de William Shakespeare. Supõe-se, pelo contexto, que Titânia, enquanto rainha das fadas, venha do mesmo sistema de mitos, mas é um ponto que já não conseguimos atestar verdadeiramente, estando ela ausente das histórias que fomos consultando.

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18 de Outubro, 2020

A lenda de Kaguya e o Monte Fuji

A lenda de Kaguya vem-nos de terras do Japão. É conhecida sob vários nomes diferentes, mas damos-lhe este em particular pelo facto de, entre várias versões que encontrámos, a princesa com este nome e o início da sua história serem os seus grandes elementos constantes. Nesse sentido, contamos duas versões, cuja ligação ao famoso Monte Fuji depressa se tornará evidente:

O Monte Fuji, símbolo da lenda de Kaguya

Na primeira versão, um cortador de bambu estava a trabalhar quando encontrou uma mulher belíssima, a quem chamou Kaguya (i.e. "brilhante"), e que adoptou como se fosse sua filha. À medida que ela foi crescendo, tornou-se cada vez mais bela e acabou por atrair incontáveis pretendentes. Casou, e foi feliz até ao dia em que os seus pais falecerem. Depois, revelou a estranha verdade ao seu marido - ela não era um ser terreno, mas a divindade do Monte Fuji, que tinha sido enviada para trazer alguma felicidade ao casal de falecidos (para outro exemplo deste estranho tema, ver a Lenda de Momotaro), e que agora, cumprida a sua tarefa, tinha de ir embora. Antes de o fazer, deu-lhe uma pequena caixa memorial e disse-lhe que podia ser sempre encontrada no topo dessa montanha. Ele abriu a caixa, mas não a encontrou; foi ao topo do monte, mas também não a encontrou; então, em enorme desespero, atirou-se do local e juntou-se ao espírito da sua amada após a sua morte, onde continuam hoje como divindades do local.

 

A segunda versão começa de uma forma semelhante, mas à medida que Kaguya se vai tornando mais bela vai atraindo infindáveis pretendentes, que afasta propondo-lhes tarefas quase impossíveis de realizar. Isto, até que atrai a paixão do Imperador do Japão, com quem também se recusa a casar, mas trocam cartas. Depois, progressivamente, quando esta jovem se apercebe da lua cheia, vai chorando. Depressa se percebe o porquê - ela afirma que não é deste mundo, e que o momento do seu retorno a casa estava a chegar. E então, chegado o momento, escreve uma derradeira carta e dá um elixir da imortalidade ao homem que tanto a parecia amar, antes de viajar de volta para a Lua. E depois, o Imperador escreve-lhe uma nova carta, viaja para o cume do Monte Fuji - aqui considerado o local mais próximo da Lua - e queima a missiva (esperando que a sua nova mensagem chegue à amada), destruindo também o elixir da imortalidade (i.e. por não querer viver para sempre sem a poder ver).

 

As semelhanças entre as duas versões é clara, mas o que não conseguimos descobrir foi se existe alguma relação real entre elas, ou se se tratam de meras coincidências. Uma versão aparece num texto do século X, outra num do século XII, sendo provável que o segundo autor estivesse familiarizado com a versão do primeiro, mas será que se tratavam de versões regionais, que alguns conheciam com uma trama e outros com outra? É certamente provável e possível, mas não absolutamente certo.

 

Deixando de lado esse problema, estas são duas faces de uma lenda que tenta explicar, de uma ou outra forma, a importância do Monte Fuji. Será pelo facto de imortalidade, que os Japoneses podem escrever como 不死 (fushi), ter uma relação de semelhança sonora com 富士 (fuji)? Será uma forma de explicar alguma característica particular da famosa montanha nipónica? Será, até, que tem algum fundo de verdade, num qualquer elemento entretanto esquecido? Ou será que toda a trama tem alguma relação com as lendas chinesas, em que um licor da imortalidade lunar é famoso? Não sabemos, mas esta lenda de Kaguya não deixa de ter uma certa beleza e de dar que pensar...

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16 de Outubro, 2020

O mito de Príapo em resumo

Falar sobre o mito de Príapo implica necessariamente uma espécie de auto-censura, na medida em que o principal atributo deste deus poderá ser considerado ofensivo para algumas das audiências dos nossos dias. Isto porque esta figura divina é muito fácil de reconhecer na maior parte das suas representações iconográficas, devido ao facto de ser sempre representado com um órgão sexual que faria inveja aos maiores actores pornográficos masculinos das sociedades de hoje.

O mito de Príapo, deus dos Romanos

Mas então, quem é este deus Príapo? Era um deus menor, filho de Afrodite e Dioniso (entre outras versões), associado essencialmente aos campos de cultivo, jardins e ás outras actividades ligadas a estes. Essa relação será fácil de explicar, dada a facilidade que o deus teria em fertilizar tudo o que se lhe cruzasse, muitas vezes sem qualquer respeito pela palavra "consentimento". E, na verdade, dois mitos associados a este deus até falam desse seu carácter violador!

Num deles, Príapo encontrou uma deusa a dormir num campo. Motivado pelo seu apetite sexual infindável, pensou em violá-la, e estava até prestes a fazê-lo quando um burro se pôs a zurrar, acordando-a e fazendo-a fugir, gerando igualmente um ódio eterno do deus por esse animal. Num outro, o deus quis violar a ninfa Lótis, e esta fugiu dele até que acabou por se transformar numa flor - é, naturalmente, mais um mito de Ovídio, e que até poderia não existir antes da escrita das suas Metamorfoses.

 

Outro aspecto interessante ligado ao deus Príapo é o facto do seu culto - se é correcto chamar-lhe isso - ter continuado muito após a queda de Roma. É muito provável que já não se conhecessem os seus antigos mitos, mas a singular forma como era utilizado nos campos - seja como um homem com um pénis enorme, ou apenas como um pénis parcialmente antropomórfico - continuou a ser utilizado com um carácter mágico, que se supunha proteger os campos das doenças, dos ataques das pestes e pássaros... quase como se de um antigo espantalho se tratasse!

 

Por fim, quem quiser mesmo saber mais sobre o deus Príapo na Mitologia Grega e Latina pode sempre ler uma colecção de poemas (pornográficos) que lhe é dedicada, a Carmina Priapea, em que esta figura divina tem sempre um papel muito principal. É uma colecção que nos deixa muito claro o verdadeiro carácter da figura original, bem como a forma como a sua própria sexualidade se ligava aos campos de cultivo que defendia...

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15 de Outubro, 2020

A lenda do Tanuki (e Bunbuku Chagama)

São, essencialmente, três as maiores figuras do folclore japonês. Já falámos do Kappa e da Kyubi no Kitsune, pelo que resta o Tanuki, que não é nada menos interessante que as anteriores. Pode, no entanto, é causar alguma estranheza numa audiência ocidental. Veja-se um exemplo:

À medida que este anúncio se aproxima do fim pode ser visto uma criatura com uns tomatinhos enormes, que até suscita um "Uau!" por parte da menina. Possivelmente, essa é a característica física mais notável do Tanuki, com uma das lendas que encontrámos a dizer que ele tem a capacidade de fazer crescer os seus tomatinhos até um total de doze (12) metros quadrados, e este seu estranho encanto a ser imortalizado em canções infantis do Japão:

Tan tan Tanuki no kintama wa
Kaze no nainoni, bura bura~~.

Porém, não é só isso que o caracteriza - também tem poderes mágicos, sendo capaz de se transformar e adoptar as mais diversas formas só para enganar as pessoas e causar repetidas confusões.

Agora, não existe uma só lenda do Tanuki, mas sim um conjunto muito variado de histórias em que ele intervém directamente. Contudo, neste caso em particular, existe é uma lenda específica que é a mais famosa de todas as que envolvem este estranho animal, a de Bunbuku Chagama. De facto, ainda hoje quem for ao templo de Morinji, na cidade japonesa de Tatebayashi, poderá encontrar lá algo muito especial:

Onde está Bunbuku Chagama, o Tanuki?

Quem olhar para esta imagem com atenção poderá ver que, do lado esquerdo, a chaleira tem um rabo e uma pequena cara. Diz então a lenda que um Tanuki se transformou numa chaleira e viveu neste templo durante algum tempo, até que alguém a tentou meter ao lume - como se faria com qualquer outra chaleira, não é? - e queimou o pobre animal, irritando-o bastante. Pouco depois, mas não antes de muitas confusões, os monges lá decidiram vender a estranha chaleira, e este Bunbuku Chagama foi viver para um circo, onde as suas brincadeiras foram muito apreciadas pelos muitos visitantes!

 

Esta pequena lenda de um Tanuki, que ficou conhecido como Bunbuku Chagama, em função da principal forma que aqui adoptou, apresenta-nos um conjunto de características da mesma criatura - o facto de adoptar outras formas, de ser brincalhão, mas - talvez até mais que tudo? - de querer que lhe dêem bastante atenção. Não é, aqui como em muitos outros possíveis exemplos, uma criatura maldosa, mas sim uma que gosta de se divertir às custas dos seres humanos que se vão cruzando com ele, algo que continua a fazer até aos nossos dias.

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13 de Outubro, 2020

Kitsune, a lenda da raposa de nove caudas

Esta lenda da raposa de nove caudas, muitas vezes conhecida como Kitsune, vem-nos de terras do Japão. Contudo, ela é hoje bem conhecida por todo o mundo devido à presença, directa e indirecta, desta singular criatura em várias séries manga e anime japonesas, como Naruto (onde é conhecida como Kurama, segundo nos foi dito), Pokémon ou Digimon, entre muitas, muitas outras vindas do país do sol nascente e baseadas na mitologia local. Mas então, que lenda, ou mito, se esconde por detrás de toda essa famosa figura e do seu significado?

Kitsune, a raposa das nove caudas

Se o nome desta raposa de 9 caudas costuma ser Kitsune, essa é uma palavra que não significa muito mais do que "raposa" na língua japonesa. E isso permite-nos compreender um factor muito importante na busca por esta potencial lenda - não existe um mito individual único desta criatura, que para alguns até é um espírito, mas sim um conjunto muito diverso de histórias, fruto da sua extensa presença no folclore japonês, que se estende até aos nossos dias de hoje. Por exemplo, veja-se este anúncio de televisão do país do sol nascente:

Agora, se na cultura ocidental pensamos nas raposas como animais matreiros, fruto de obras literárias como as Fábulas de Esopo ou a Canção de Reynard, no Japão elas têm características adicionais - são igualmente matreiras, sim, mas são-no também com uma infinidade de poderes místicos, nomeadamente o poder de se transformarem em seres humanos, por associação com Inari, deusa protectora dos arrozais (e que até monta uma delas). É até por isso que no vídeo acima a jovem tem orelhas e cauda - é uma raposa disfarçada, que se transformou em humana para seduzir ou enganar algum homem!

 

Podemos até dar aqui um exemplo de uma lenda japonesa bastante famosa e que inclui esta criatura. Segundo ela, um homem andava em busca de esposa quando encontrou uma mulher muito bonita num campo de cultivo. Ela disse-lhe que também andava em busca de um marido, ele aceitou com prazer essa espécie de oferta, casaram e tiveram um filho. Ele nasceu quando a cadela da família também teve um cachorrinho. Depois, esse cachorrinho nunca parava de ladrar quando estava perto desta misteriosa mulher... e então, um dia atacou-a e mordeu-lhe pelas costas! Assustada, a mulher tomou a sua forma real - a de uma raposa - e fugiu para um bosque próximo, mas segundo algumas versões continuou a visitar a sua antiga família pontualmente, fazendo até amor com o (ex-?)marido.

 

Seguindo todo este contexto, se existem outras criaturas a que nas terras do sol nascente são atribuídas características mágicas semelhantes - o Tanuki, o Gato, etc. - esta Kitsune tem uma característica muito sua, que é o facto de passar a ter mais caudas à medida que se vai tornando mais velha e poderosa (isto só acontece nas lendas, não é mesmo verdade, para quem estiver curioso e quiser ver uma raposa oriental). O seu limite é um total de nove - e este número em específico, porque este é considerado um que na cultura japonesa dá má sorte, indicando então que essa Kyuubi no Kitsune, ou raposa de nove caudas (a que alguns chamam até "kitsune celestial"), é capaz de estar no auge do seu poder místico - segundo alguns, após 1000 anos - e, por isso, pode causar infindáveis problemas a quem com ela se cruze.

Raposa de nove caudas ou Kitsune na mitologia ou lendas

É deste conjunto de características que as lendas associadas a uma raposa de nove caudas tomam proveito. Por isso, se estiverem a ver uma série japonesa, ou a ler algum livro vindo desse país, e algum herói se cruzar com este animal - ou, mais precisamente, com uma forma dele que até já tem nove caudas - saberão que se trata de uma figura muito poderosa. Infelizmente, não sabemos em que medida isto surge na história de Naruto (a sua influência nos Pokémons Vulpix e Ninetales, ou no Digimon Kyubimon, é evidente), mas caso algum leitor o saiba pode, como sempre, deixar uma mensagem ali nos comentários e explicá-lo, para que possamos todos ficar mais esclarecidos.

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12 de Outubro, 2020

Já conheces o segredo de Peter Pan?

A história de Peter Pan é bastante famosa nos dias de hoje, mas também esconde um grande segredo de que poucas vezes ouvimos falar. Se, tanto quanto nos foi possível apurar, a figura e as suas histórias não são baseadas em qualquer mito, lenda ou tradição oral - serão, portanto, somente uma criação do inglês J. M. Barrie nos primeiros anos do século XX - a forma como a história chegou aos nossos dias, em versões como a da Disney, está muito sanitizada, censurada, esquecendo "misteriosamente" alguns elementos mais estranhos da obra original.

O sinistro Peter Pan

Esta agora-famosa história é contada em duas obras da autoria exclusiva de J. M. Barrie, Peter Pan in Kensington Gardens e Peter and Wendy. Quem quiser conhecê-la por completo deverá ler ambas, mas quando o fizer acabará por encontrar faces muito sinistras da história que, naturalmente, parecem ir desaparecendo ou sendo amenizadas nas versões mais modernas.

 

Por exemplo, o primeiro desses livros conta as origens de toda esta figura. E quem é ele? Uma criança com menos de um ano de idade que fugiu de casa da mãe, esvoaçando, e que passou a viver escondido nos Kensington Gardens londrinos. Até aqui tudo bem, é apenas uma história de fantasia, mas mais à frente o herói começa a sentir falta da sua mãe e decide visitá-la. Encontra-a ainda a chorar, com a janela de casa ainda aberta, etc., e então decide fazer uma derradeira aventura e voltar mais tarde. Retornando depois, encontra a mãe no mesmo quarto, já feliz, com um novo filho nos braços - e, repita-se, até aqui tudo bem - mas tendo posto barras de ferro na janela do quarto, para que nada possa entrar ou sair. Nesse sentido, o herói sente que a mãe se esqueceu dele, tal como o leitor provavelmente já se terá esquecido que está a ler uma história para crianças.

 

Na mesma história, Peter Pan conhece também uma menina de quatro anos, chamada Maimie Mannering, e têm algums aventuras juntos. Trocam dedais e beijos, até que o herói lhe pede para casar com ele. Ela rejeita, dizendo que iria ter saudades da mãe, mas continua a voltar aos jardins de tempos a tempos, deixando prendas ao antigo amado. E vai crescendo... mas o herói, esse, continua sempre com a idade que tinha originalmente - ou seja, acabaram de testemunhar uma história de amor entre um menino com menos de um ano (recordem-se, ele não envelhece!), e uma menina de quatro anos que, quando vai crescendo, mantém uma espécie de paixão por uma figura estranha que conheceu há anos e que se mantém igual ano após ano.

 

Poderíamos estar a tentar ver mal onde não o há, mas quem conhecer a história presente na segunda obra notará que estes temas se mantêm - Wendy terá cerca de 12 anos, o herói não envelhece (será que continua com um ano de idade?! Não é claro), eles têm aventuras juntos na Terra do Nunca, no final os restantes Meninos Perdidos acabam adoptados pela família Darling, mas a figura que dá o nome a estas histórias, essa, volta sozinha para o local de onde vinha e parece esquecer esta jovem. É novamente abandonada (quantas mais vezes o terá sido?!), e parece esquecer também esta companheira. Isto até que, muitos anos mais tarde, quando Wendy já é mais velha e tem uma filha, aparece subitamente e parece querer levar a menina em novas aventuras... quantas mais crianças terá ele levado consigo, e trazido depois de volta à medida que se tornam mais velhas?!

 

Quando os Irmãos Grimm censuraram muitas das histórias que recolheram, talvez tenham tido uma certa razão no que faziam. Há um conjunto de possíveis leituras muito inquietantes em algumas histórias infantis, um vector muito sinistro nestas histórias de Peter Pan, que se até podem levantar várias razões para debate nos mais velhos, poderão inquietar as crianças. A nós, sinceramente, levaram-nos a muitas questões - por exemplo, há um subtexto nestas obras que levanta a possibilidade de que quase todas as personagens estejam mortas... mas será que essa era uma das leituras pretendidas pelo autor? Fica a questão...

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09 de Outubro, 2020

O Mito de Tífon e Equidna

Contar o mito de Tífon e Equidna implica, talvez mais que tudo, ter de o inserir no contexto da Mitologia Grega em que ele ocorria originalmente. Explique-se então o seguinte - existem muitos mitos gregos e latinos que se foram perdendo ao longo dos séculos, e que apenas nos chegaram em breves referências aqui e ali. Entre eles contam-se um conjunto de histórias em que os deuses do Olimpo defrontam em combate figuras igualmente poderosas, como os Gigantes e os Titãs. E, se nos chegaram algumas referências a esses eventos, que vão desde os poemas de Hesíodo até à Gigantomaquia de Claudiano, é difícil reconstruir toda a sua trama de uma forma contínua. Por isso, o que contamos aqui hoje é parte de um desses grandes confrontos, mas focamo-nos em dois dos seus intervenienes, em vez das batalhas, em si mesmas.

Tífon

Tífon - também conhecido como Tífão ou Tifeu - tinha um corpo composto por infindáveis serpentes e a capacidade para voar. Terá sido o mais poderoso opositor que os deuses do Olimpo alguma vez defrontaram. E até os venceu temporariamente, forçando-os a fugir para o Egipto, mas ás tantas Zeus lá recuperou o controlo das suas famosas armas e, utilizando-as em seu favor, foi capaz de derrotar - mas não matar, tenha-se em atenção - este opositor, ocultando-o depois em algum lugar, que alguns autores dizem ter sido o Monte Etna. A melhor fonte para este mito, aqui apenas resumido, é a Dionisíaca de Nono.

Equidna

Equidna era uma figura semelhante mas feminina, com um corpo que era um misto de serpente e de mulher, e que parece ter sido muito pouco representada na arte (até só encontrámos dois exemplos da Antiguidade - a escultura acima é já do século XVI). Uma versão muito ténue diz-nos que ela foi morta por Argos, mas não explica em que circunstâncias isso aconteceu, e pouco mais ainda sabemos sobre ela.

 

Então, mas porque unimos os mitos de Tífon e Equidna num só? Na verdade, porque eles partilham de uma característica única na Mitologia Grega - segundo Hesíodo (entre outras fontes mais secundárias), estes dois monstros amavam-se muito e até tiveram vários filhos! Entre essas figuras, nascidas do estranho amor deste casal, contavam-se Orto (i.e. o cão de Gerião), Cérbero (o cão de guarda dos Infernos, com três cabeças), a Hidra de Lerna, e a Esfinge (que defrontará Édipo numa famosa história), entre várias outras. São, por isso, um casal monstruoso que teve filhos igualmente monstruosos, sendo essa a principal razão pela qual estas duas figuras se encontram tão unidas, como uma só - se os seus mitos originais já não nos chegaram de uma forma mais completa, o que até poderia contribuir para os individualizar mais, são muitas as aventuras que ainda conhecemos em que os seus filhos têm um papel significativo - e essas sim, que ainda podemos ler, de uma forma bem mais completa, entre a literatura dos Gregos e dos Romanos que chegou aos nossos dias.

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08 de Outubro, 2020

O "Picatrix" e a ciência dos talismãs

Se o Picatrix é muito mencionado no contexto da magia da Idade Média, há que esclarecer que ele não é um livro de magia. Não contém feitiços (ou algo que se assemelhe a isso), mas é, talvez mais que tudo, um livro sobre talismãs, um pouco à semelhança da Chave de Salomão. E à primeira vista isso até poderá parecer simples - hoje, tendemos a ver esses acessórios mágicos como meras peças de bijuteria com um determinado símbolo gravado - mas, na verdade, parece existir toda uma ciência por detrás da sua construção.

Uma página do Picatrix

Não basta - como parecem indicar uns determinados anúncios que passam na CMTV - pegar numa pulseira, adicionar-lhe um trevo para boa sorte, um elefante para ter prosperidade, um coração para obter amor eterno, ou mesmo uma "mão de Fátima" para afastar o mau olhado. Em vez disso, segundo este Picatrix, é necessário que ele seja construído com base numa ciência muito específica, que implica o estudo de conceitos complexos de Astrologia e o uso de símbolos misteriosos (como os que são mostrados no canto superior direito da imagem acima). Interrogamo-nos se a Maya, a Maria Helena e as outras tantas astrólogas da televisão também dominam estes temas, ou se algum telespectador já as contactou para pedir, por exemplo, um talismã que afaste as baratas lá de casa (que, frise-se, é mesmo um dos talismãs que este livro ensina a construir)...

 

Deixando as brincadeiras de lado, este Picatrix é certamente um livro interessante para quem acredite nestas coisas e queira aprender a fazer, de forma devida, os seus próprios talismãs. Se um qualquer leitor estiver nessa posição tão invulgar, é provável que este livro até lhe interesse. Porém, para todos os outros, ele tem um grande problema - é uma obra enfadonha, que mistura constantemente ideias e conceitos de Filosofia, Astrologia, Misticismo, e uma pequenina migalha de Magia (mas, infelizmente, não contém nada de mitos ou lendas). Mesmo que se pretenda lê-la a simples título de curiosidade, é muito provável que o leitor acabe por encontrar nela nada mais do que isso, uma obra aborrecida com um tema que, agora, provavelmente apenas interessa a muito poucos.

 

Resta uma pergunta - será que os talismãs funcionam? Será que a ciência por detrás da sua construção é algo de real? Quem for ler este livro depressa descobrirá que todo o conceito dos talismãs assenta, imperativamente, na ideia da Astrologia e de que os astros celestes têm um impacto significativo nas nossas vidas. Ainda hoje há pessoas que acreditam nisso, e outras a quem toda essa ideia parece nada mais que um enorme absurdo. Por isso, se estiverem no primeiro grupo, é provável que também acreditem que os talismãs funcionam mesmo e nos podem trazer os maiores benefícios ás nossas vidas; caso contrário, se não acreditam em nada dessas coisas, esta será uma ciência tão verdadeira e útil como a da Astrologia, e o Picatrix terá sido aqui mencionado como uma mera curiosidade, e nada mais, de um tempo que já passou há muito...

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06 de Outubro, 2020

Duas lendas da Dama dos Pés de Cabra

Existem, em Portugal, pelo menos duas lendas associadas a uma Dama dos Pés de Cabra. Uma é mais famosa que a outra - na verdade, até foi preservada por Alexandre Herculano - mas achámos que se íamos recordar uma delas também o poderíamos fazer para a outra.

O Castelo de Marialva

A primeira lenda de uma Dama dos Pés de Cabra vem da Beira Alta, de uma vila chamada Marialva, e fala-nos de uma mulher que viria a dar o nome a esse local. Ela vivia num pequeno castelo, e a sua beleza sempre atraiu uma infinidade de pretendentes, mas a cada um deles ela repetia sempre a mesma coisa - "Só caso com quem me trouxer uns sapatos que me sirvam."

Um dado cavaleiro, querendo então casar com ela, contactou um sapateiro local... mas como podia este fazer sapatos para alguém cujos pés nunca viu? Com ajuda externa de uma aia da desejada, decidiu espalhar farinha no quarto da jovem; depois, quando esta acordou pela manhã, saiu da cama e a forma dos seus pés ficou marcada no chão, possibilitando a criação de um sapato com essa forma.

Depois, o cavaleiro ofereceu esses estranhos sapatos à sua amada Maria Alva... mas esta, horrorizada pelo facto das pessoas já conhecerem o seu segredo, atirou-se da torre do castelo e desapareceu misteriosamente!

Pés de Cabra

Já a segunda lenda de uma Dama dos Pés de Cabra é muito mais famosa, pelo que apenas será aqui apresentada de uma forma muito breve. Segundo ela, enquanto um nobre caçava pela floresta encontrou uma mulher lindíssima e apaixonou-se instantaneamente. Querendo casar com ela, pediu-a automaticamente em casamento, e ela aceitou-o com uma única condição - que o futuro marido jamais voltasse a fazer o sinal da cruz.

Casaram e tiveram filhos. Anos mais tarde, enquanto estavam a jantar, um dos cães do casal matou o outro, em disputa por um pedaço de javali. Chocado com toda a situação, o nobre bateu três vezes num pedaço de madeira e fez o sinal da cruz. Nesse momento ouviu-se então um grito horrendo e a estranha esposa desapareceu... e se se seguiram outras aventuras, ela nunca mais voltou aos braços do seu marido!

 

O que podemos acrescentar sobre estas duas lendas da Dama dos Pés de Cabra? Se no primeiro caso Maria Alva tinha pés de cabra, esse facto é tratado apenas como um defeito genético, sem nada de sobrenatural. Já no segundo caso, que até é o de uma lenda medieval, tudo é diferente - essa Dama dos Pés de Cabra, que prima pela ausência de um nome mais real, é efectivamente uma criatura das trevas, o Diabo ou um dos seus demónios, sem qualquer dúvida. Por isso, apesar de serem lendas que partilham um mesmo nome, elas são muito diferentes, referindo-se quase certamente a figuras distintas com uma única característica que as une.

 

Se existiam outras mulheres e histórias semelhantes nas lendas da Idade Média (recorde-se, por exemplo, o mito de Melusina), porque têm estas duas figuras pés de cabra? Não é fácil explicá-lo horizontalmente, mas, muitas vezes, as figuras medievais com pés de cabra são transformações do Diabo ou alguma outra figura demoníaca, como os eventos da segunda lenda facilmente nos mostram. A ideia geral vem até de tempos da Antiguidade - o Diabo tem pés de cabra por relação com o deus Pã, os Sátiros e os Faunos, que habitavam nas florestas e também tinham essa forma grotesca - e continua a ser reutilizada até aos nossos dias, em que figuras demoníacas como Baphomet continuam a ser representadas com diversas características caprinas. Mas, pelo menos em relação a Maria Alva, sabemos que essa característica não se devia ao oculto, mas a um mero defeito congénito, cuja razão de presença em toda a história já não nos parece ter chegado...

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