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Mitologia em Português

30 de Novembro, 2020

Em busca do verdadeiro Dr. Bayard

Hoje, partimos em busca do verdadeiro Dr. Bayard. Há uns dias um dos nossos colegas estava com muita tosse. "Toma aí um rebuçado", foi-lhe dito, e então, ao olhar para o pequeno invólucro, surgiram-lhe duas grandes questões - quem foi esse criador dos rebuçados para a tosse?  E, talvez tão importante, será ele a principal figura masculina representada nos invólucros e caixas da marca? Em buscas de respostas contactámos a marca, que gentilmente nos cedeu alguma informação útil.

Um pacote de rebuçados Dr. Bayard

Começando pelo segundo ponto, o mais simples dos dois, foi-nos dito que "A figura original, tal como a assinatura original, estavam já presentes na lata metálica que o Dr. Bayard ofereceu a Álvaro Matias. Não temos maneira de confirmar se seria uma representação do criador ou [um desenho] meramente ilustrativo. Quanto às outras três figuras, foram criadas mais tarde aquando do processo de industrialização dos rebuçados, de maneira a representar um produto para toda a família."

Ou seja, em suma, a principal figura masculina representada nos invólucros e caixas da marca, de um homem de meia idade a tossir, dificilmente terá sido a do próprio médico, na medida em que seria invulgar, ou deveras estranho, que o criador da fórmula possuísse uma lata com o desenho da sua própria cara. Faz muito mais sentido que se trate de uma figura estilizada, a representar um homem a tossir, para simbolizar o que os rebuçados pretendiam combater.

 

Mas, afinal, quem foi esta figura tão misteriosa? A marca disse-nos que "Infelizmente, perdemos o paradeiro ao Dr. Bayard logo não temos mais informação sobre o primeiro nome ou algo mais." Explique-se. Segundo a história presente no respectivo site, Álvaro Matias conheceu este homem estrangeiro durante a Segunda Guerra Mundial e tornaram-se amigos. Quando a guerra terminou, e certamente como forma de agradecer essa amizade e apoio em tempos difíceis, foram deixadas por ele em Portugal "a receita destes rebuçados, [dentro de] umas latas pequenas e redondas, com o desenho de uma cara a tossir". Em seguida o médico foi-se embora, presume-se que para a sua terra-natal, e desaparece de toda a história. Mas quem seria ele, ou o que lhe aconteceu depois?

 

Será toda a história uma mera lenda? Dificilmente, porque a receita dos rebuçados existe e alguém terá de a ter criado, algo que as personagens puramente lendárias não têm capacidade para fazer. Mas então, quem foi o criador de toda a fórmula? Dele, segundo a informação do site, sabemos essencialmente que falava francês, que tinha mulher e filha, e que, supõe-se, tenha sido médico; mas não temos conhecimento é de algo muito importante, se o nome pelo qual ficou conhecido era mesmo o seu, um apelido, ou apenas uma espécie de alcunha adoptada pelo próprio para efeitos de marketing.

Descartámos logo a terceira hipótese, porque em nada ajudava na nossa busca. Depois, encontrámos diversos "Dr. Bayard", em prénom e em apelido. Talvez um dos mais promissores tenha sido Henri-Louis Bayard, de Medicina Geral, mas esse faleceu em 1852. Vários outros nasceram, ou morreram, cedo ou tarde demais para serem a figura que procuramos. Já um tal Otto Bayard viveu entre 1881 e 1957, nasceu e faleceu na Suíça, e teve pelo menos três filhas (doutoradas em Medicina, acrescente-se); sobre este, sabemos que até viajou por países europeus, mas não encontrámos qualquer registo de uma passagem por Portugal, sendo certamente possível que tenha passado por cá. Poderíamos procurar outras hipóteses - nomeadamente, contactar todos os Bayards de França, com a esperança de que algum deles tivesse um bisavô que viveu em Portugal - mas isso já ultrapassa as nossas especialidades. Deixamos essa hipótese para quem perceber mais destes temas modernos e a quiser explorar...

O fundador da Dr. Bayard

Mesmo que não tenhamos conseguido encontrar a verdadeira identidade deste importante criador estrangeiro, a história ainda não está completa. Se a fórmula original não parece ser portuguesa, o fundador da empresa, tal como a conhecemos hoje, foi Álvaro Matias, que pode ser visto com os netos na fotografia acima  (que nos foi gentilmente cedida pela empresa). A adaptação dessa fórmula, bem como a sua comercialização, é puramente nacional - e, essa sim, sabemos bem a quem se deveu, sem qualquer dúvida!

 

Volte-se então às questões originais, para uma breve conclusão - não conseguimos descobrir, sem margem para dúvidas, quem foi o criador da fórmula dos rebuçados Dr. Bayard, mas das quatro figuras representadas no pacote do produto apenas uma delas é original, e ela dificilmente representará o criador do produto (tal como não representa o responsável português pela sua comercialização). Se foram quase incontáveis as pessoas que nos afirmaram, peremptoriamente, que a figura representada nos invólucros dos rebuçados era a do seu criador, esse é um grande mito dos nossos dias, que pelo menos pudemos desmistificar hoje mesmo...

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27 de Novembro, 2020

Toda a verdade sobre a Chave de Salomão

A Chave de Salomão, também conhecida como a Clavícula de Salomão, é outro daqueles famosos livros sobre magia negra, de que o Livro de São Cipriano é provavelmente o exemplo mais eminente na cultura portuguesa e brasileira. É até provável que já tenham ouvido falar de ambos, mesmo que até tenham muito pouco interesse nestes temas, mas... será esta obra verdade?

 

Desta vez, a resposta não pode ser mais do que um ressonante e completamente indubitável NÃO. Isto porque, mesmo que queiram acreditar que foi o famoso Rei Salomão a escrever toda a obra - como o seu prefácio dá a entender - ora a obra refere ideias que só nasceram na Idade Média (e.g. conceitos como os dos Gnomos, Silfos, Salamandras e Ondinas), ora diz que um dado procedimento mágico deve ser feito no Dia de São João Baptista, ora emprega Latim e Hebraico com múltiplas falhas, e outros tantos problemas que seriam difíceis de resumir nestas linhas. Portanto, não, não foi escrito por Salomão, e será, no mínimo dos mínimos, uma produção medieval posterior a Pedro de Abano (século XIII).

Um belo desenho da Chave de Salomão

Mas de que fala esta Chave de Salomão? Essencialmente, é uma obra literária, uma espécie de grimório, que ensina os leitores a usarem pentáculos como o representado acima para fazerem as suas magias. E se, à primeira vista, isto poderá até parecer muito simples, existe toda uma ciência por detrás do processo. Não dizemos que seja uma ciência real, claro está, mas se for lido com um espírito crítico acaba por ser uma obra interessante para a interpretação de recursos semelhantes. Vejamos um pequeno exemplo mais concreto:

Outro belo exemplo da Chave de Salomão

Este desenho, em particular, deveria ser usado por todos aqueles que quisessem ter uma relação amorosa secreta com alguém. O que a Chave de Salomão explica é, em parte, o sentido dos desenhos que podem ser encontrados dentro do círculo interior, que depois são complementados, entre os dois círculos, com um versículo retirado da Bíblia que pareça relevante para a situação - aqui foi escolhido "Deus/Elohim disse: crescei, multiplicai-vos e enchei a terra", provavelmente numa espécie de ironia satírica - i.e. se é para se cumprir este preceito divino, que se tenha sexo mesmo que seja secretamente!

 

Mas o conteúdo de toda esta obra não é apenas este. Também preserva, aqui e ali, feitiços mágicos mais simples. Por exemplo, suponha-se que têm um inimigo e querem, vá-se lá saber porquê, que ele tenha muitos pesadelos. Devem - segundo esta obra - obter o cérebro de um gato, misturá-lo bem com o sangue de um morcego e embrulhar essa substância num papel em que devem escrever, com o mesmo sangue do morcego, uma oração de duas linhas em Latim.

Ou, se preferirem um exemplo menos violento, e quem necessita de conhecimentos de Latim, para ouvirem uma música bonita deveriam reproduzir um determinado selo (como os já mostrados acima) e recitar as seguintes palavras (sem um sentido real, se alguém tiver curiosidade sobre isso) - Ador, Elepoth, Cheluth, Migareth, Cubot, Sylma, Sirath, Fernechel, Rottomaron, Surcollen, Agra, Seron.

Mais um exemplo retirado da Chave de Salomão

Mas será que alguma destas coisas funciona mesmo? Na imagem acima podem ver mais um exemplo de um pentáculo provindo desta fonte literária. É fácil constatar que é muito diferente dos dois representados acima. E porquê, poderiam perguntar? Pura e simplesmente porque foi retirado de uma edição diferente da consultada para as duas imagens anteriores, apesar de, supostamente, ter o mesmo objectivo mágico que a segunda imagem acima, e nem sequer apresentar qualquer citação bíblica no seu interior (como, recorde-se, o autor da obra dizia que se deveria fazer).

 

São problemas como estes, bem como as falhas já apresentadas acima, que tornam muito difícil que se possa acreditar nos conteúdos desta obra, a Chave de Salomão. Se a ciência que prega fosse verdadeira, seria de supor que respeitasse um conjunto de regras, mas elas são aqui, numa mesmíssima obra, estabelecidas e constantemente quebradas. Seria como se a Matemática pregasse que ás vezes 2+2=4, e outras nos dissesse que 2+2=5-1=3, o que faria muito pouco sentido. Portanto, se até existem obras fiéis sobre estes temas, esta - nas suas muitas edições distintas, deixe-se isso claro - não merece qualquer crédito real, excepto por nos permitir interpretar, de uma forma imperfeita, vários dos desenhos que sejam semelhantes aos já apresentados acima.

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27 de Novembro, 2020

O mito de Tétis

Contar o mito grego de Tétis implica, antes de mais, explicar que existiam duas figuras com este nome na Mitologia Grega. Uma é naturalmente muito mais famosa que a outra, como veremos abaixo, mas falar de uma delas implica, quase obrigatoriamente, fazer pelo menos uma breve alusão à outra, sob pena de se acabar por confundir alguns leitores mais distraídos, como aqueles que, por acidente, fazem das duas Atalantas uma só.

 

Então, a primeira das duas figuras, Τηθύς, que é como quem diz Tethys, era uma titã filha de Urano e Gaia, mas também esposa de Oceano e mãe dos rios e das Oceânides. A sua influência nos mitos e nas lendas da Grécia é muito ténue, sendo quase exclusivamente um conceito sem um corpo real, mais do que uma entidade divina com participação activa e significativa em qualquer história.

 

A segunda, Θέτις ou Thétis, é descendente da anterior e muito mais famosa, até por ter sido a mãe de um dos mais famosos heróis gregos. Mas já lá iremos... Conta-nos este mito que um dado dia, entre as muitas aventuras amorosas de Zeus, ele recebeu uma profecia - se alguma vez ele tivesse um filho de Tétis, esse filho acabaria por ser tão proeminente que iria destronar o próprio pai. Naturalmente que o monarca dos deuses não queria isso, e então desta vez (compare-se com o nascimento de Atena) decidiu resolver o problema casando esta figura com um homem mortal, Peleu. E tudo se resolveria, não fosse o facto da potencial noiva não ter aceite esse casamento.

O mito de Tétis e Peleu

Conta-se então que, com o conselho do deus Proteu (cujas semelhanças com esta figura são dignas de nota), Peleu se aproximou dela durante a noite, enquanto esta dormia, e tentou vencê-la num combate de luta greco-romana, defrontando-a até que aceitasse casar com ele. O episódio mitológico, que foi bastante popular na arte grega - ver, por exemplo, a imagem acima, em que o herói mortal parece abraçar esta nereida, enquanto que ela se transforma numa espécie de leão - presumivelmente passava pela figura feminina a adoptar as mais diversas formas, enquanto que o seu futuro marido pura e simplesmente não a largava. Então, vencida pelo cansaço, lá aceitou o casamento que lhe tinha sido proposto, e foi nesse grande evento que tomou lugar o famoso episódio da maçã de ouro, que acabou por levar à famosa Guerra de Tróia.

O casamento de Peleu e Tétis

Mas a história ainda não fica por aqui. Tétis engravidou e deu à luz Aquiles. Quando tentou tornar o filho imortal, falhou esse processo (as razões variam mediante as versões do mito) e decidiu abandonar o marido. Entregue depois ao pai, Peleu, que se tornou um espécie de pai solteiro e significativamente ausente, Aquiles foi crescendo, até que se juntou ao contingente dos Gregos para a Guerra de Tróia. Depois, o famoso herói até interagiu diversas vezes com a própria mãe, como pode ser visto na Ilíada, e quando este acaba por morrer, aquela que o deu à luz organiza um grande funeral e, talvez pela tristeza de ter perdido o seu único filho, ausenta-se. Nunca mais torna a aparecer significativamente na Mitologia Grega.

 

O que podemos acrescentar a este mito de Tétis? É difícil dizer algo mais, porque a maior parte das obras literárias que nos chegaram tratam esta figura feminina como uma mãe de seu filho, mais do que uma entidade divina completamente independente. Os caminhos dos dois cruzam-se repetidas vezes (e primam pela grande ausência do pai, que o parece ter visitado uma única vez) e, como tal, parecem também cessar o seu percurso mitológico ao mesmo tempo. Quando Aquiles desaparece, também a sua mãe o faz, quase que a dizer que ela existiu, nas histórias a que agora temos acesso, somente para poder dar à luz aquele que se tornaria o segundo maior dos heróis da Grécia Antiga.

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25 de Novembro, 2020

"O Julgamento das vaginas", de autoria desconhecida

Relativamente a este texto, O julgamento das vaginas (sim, é o título original), conforme cá dissemos quando falámos de O cavaleiro que fazia falar as vaginas [e os rabos], existem um conjunto de textos medievais que gozam com muitos dos ideais literários da época. Esta outra produção literária, de autoria desconhecida, é outra fabliau francesa que mantém essa ideia, apresentando-nos não só uma situação muito caricata, mas também um desenrolar de toda a acção igualmente caricato, quase sempre com alguma malandrice. Vejamos:

Um porqueiro medieval

O julgamento das vaginas tem cerca de 166 versos, em que nos apresenta a estranha história de três irmãs que estão muito apaixonadas por um mesmo homem. Todas elas queriam casar com ele, mas só uma o poderia fazer, como é mais que natural. Então, aproximaram-se de um tio, apresentaram-lhe todo o problema por que passavam, e ele prometeu o marido - bem como uma recompensa monetária substancial - àquela que conseguisse responder a uma pequena questão - "Quem nasceu primeiro, a tua vagina ou tu?"

A primeira irmã, confrontada com o problema, respondeu: "A minha vagina é mais velha que eu, porque ela tem uma barba e eu não."

A segunda irmã retorquiu depois: "Sou mais velha, bastante mais, porque ela ainda não tem dentes, mas eu sim."

Já a terceira replicou: "A minha é mais nova, porque eu já deixei de mamar há muito tempo, mas ela está sempre de boca aberta, com sede, e por isso, nessa sua tenra idade, precisa de mamar."

Foi a última dessas três irmãs que acabou por ganhar o prémio, o marido e o dinheiro, mas o autor do poema, cuja identidade já não nos chegou, deixa uma questão adicional para contemplação por parte do ouvinte ou leitor - "Será que o veredicto foi o correcto?"

 

Não sabemos. É uma questão discutível, até porque desconhecemos, na verdade, como foi escolhido o vencedor. Todas as três arguentes têm uma certa razão, mas como pode ter uma mais, ou menos, razão que as restantes já é mais difícil de se compreender. O que nos é fácil perceber, no entanto, é que estes são bons exemplos de um conjunto de piadas, de âmbito sexual, que já existiam na Idade Média, e que também ocorrem em muitos outros exemplos da fabliau medieval. E passaram-se os séculos, sim, mas pequenas brincadeiras como estas ainda fazem rir os mais velhos, tal como na altura em que foram compostas, por ainda preservarem um conjunto de ideias ridículas - algumas mais realistas que outras, claro está - que se mantêm tão actuais como no dia em que primeiro foram postas por escrito. E, por isso, continuamos a rir com elas...

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23 de Novembro, 2020

Qual é a origem do Capuchinho Vermelho?

De entre os contos infantis conhecidos nos nossos dias é provável que poucos sejam tão fascinantes como o do Capuchinho Vermelho (também conhecido como "Chapeuzinho Vermelho" no Brasil). E é motivo de fascínio não pela sua agora-famosa aventura com o lobo, em si mesma, mas por toda uma história que existe por detrás da heroína. Ao longo dos séculos é possível encontrar as mais diversas versões da sua narrativa, cada uma delas mais estranha que a outra - ora uma versão em que a menina se despe para o lobo, numa estranha sessão de striptease; ora outra em que avó e neta são comidas (e não são salvas por ninguém...); uma em que o capucho tem poderes mágicos; uma em que o lobo é queimado vivo; juntamente com versões em que outros animais também entram na história; há alterações de todas as formas e feitios, mantendo-se, quase exclusivamente, o cruzamento desta jovem com um lobo. Mas, afinal, de onde vem toda esta trama? Qual é, na verdade, a origem do Capuchinho Vermelho?

A origem do Capuchinho Vermelho

Responder a essa questão implicou muita investigação e uma viagem até ao século XI da nossa era, em que Egberto de Liège escreveu a sua obra Fecunda Ratis, uma espécie de metafórica barca repleta de conhecimento linguístico. É, na verdade, um manual de exercícios de Latim, com um grau crescente de complexidade; começa por simples frases, depois conjuntos de dois versos, seguidos por pequenas histórias e algumas um pouco mais difíceis de ler. E entre essas últimas surge a seguinte sequência, que aqui traduzimos integralmente para Português:

[Título:] Sobre a menina salva dos filhotes de um lobo

O que vos conto, as pessoas do campo podem contar juntamente comigo, porque não é tão miraculoso que seja difícil de acreditar.
Um certo homem retirou uma menina da fonte sagrada e deu-lhe uma túnica de lã vermelha, nesse dia de Pentecostes em que foi baptizada. A menina, agora [já] com cinco anos de idade, saiu ao amanhecer, a pé e sem sentir o perigo. Um lobo atacou-a, levou-a para o seu antro na floresta, e deu-a aos seus filhotes para que ela fosse comida. Eles aproximaram-se logo dela e, como não a podiam magoar, começaram, livres de qualquer ferocidade, a acariciar-lhe a cabeça. "Não danifiquem esta túnica, ratinhos", disse a menina, "que o meu padrinho me deu quando me retirou da fonte."
[Moral?] Deus, criador de tudo, pacifica as almas selvagens.

Será esta a verdadeira origem do Capuchinho Vermelho? O seu autor parece dar a entender que esta era uma história bem conhecida no seu tempo, e há um elemento indisputavelmente religioso na sua trama (e.g. até surge entre outras histórias com conteúdos cristãos), com a túnica que a heroína recebeu a apresentar-se como uma prenda dada aquando do seu baptismo. O texto latino chama-lhe uma tunica, uma peça de roupa que normalmente não teria um capucho, mas se quisermos acreditar que esta história foi evoluindo com o tempo, acabando até por perder parte do seu elemento religioso, é certamente possível que represente uma forma muito embrionária de uma trama que, a longo prazo, até poderá ter tido a sua sequela, ou uma espécie de versão satírica, num relato como o que conhecemos nos nossos dias.

 

Atenção, isto não quer dizer que, sem qualquer dúvida, a história do Capuchinho Vermelho nasceu no século XI da nossa era. Afirmá-lo de uma forma tão simplista seria mentir. Podemos dizer, isso sim, é que existem várias narrativas muito semelhantes por toda a Europa, contadas oralmente e publicadas em livros ao longo dos séculos, e a apresentada aqui parece ser a mais antiga que une uma menina com uma peça de roupa vermelha a um lobo. Mas será isso suficiente para nos fazer aceitar que a breve trama que reproduzimos acima levou, com o passar dos séculos, a um conjunto sucessivo de versões que acabaram imortalizadas num conto de Charles Perrault, muito famoso e constantemente repetido nos nossos dias? Será que há uma relação real entre as duas histórias? Isso já é algo que não conseguimos provar sem margem para dúvidas, pelo que uma possível resposta, de natureza completamente pessoal, terá de ficar para quem ler estas linhas...

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20 de Novembro, 2020

O mito de Salmoneu

O mito de Salmoneu é, entre os Gregos, o de uma figura que até poderá parecer relativamente simples, mas nem por isso menos digna de nota, face aos estranhos actos que perpetrou na sua vida.

Os cavalos de Salmoneu?

Conta-se então que Salmoneu foi irmão de Sísifo e rei da Élida, uma região da Grécia. Inicialmente muito amado pelos seus súbditos, acabou por, numa espécie de estranha loucura, passar a considerar-se como a face terrena de Zeus. Pensou, por razões que não são fáceis de compreender, que até era o próprio deus do Olimpo, e começou então a pedir que o venerassem como tal.

Se esta ideia ainda não parecer suficientemente estranha, Salmoneu decidiu então que seria ainda mais venerado pela população se conseguisse imitar parte dos poderes de Zeus. Assim, recorrendo a um subterfúgio, começou a imitar o som da trovada de forma um tanto ou quanto estranha - pegando na sua quadriga, ligou-lhe todo um conjunto de objectos para que esta, ao produzir o seu movimento natural, o fizesse sempre acompanhada com o som que desejava. Isso convenceu, na verdade, algumas pessoas de que ele era verdadeiramente o deus Zeus vindo à terra. Mas esse monarca dos deuses, como não podia permitir uma situação tão absurda e insultuosa para o seu carácter, depressa resolveu todo o caso - atirando um dos seus (verdadeiros) raios ao rei, fulminou-o, fazendo-o abandonar o mundo dos vivos!

 

O sentido de todo o mito é muito simples, e como em diversos casos que cá foram falados ao longo dos anos a sua lição é simples - o ser humano não deverá tentar desafiar os deuses, porque estes lhe são superiores em tudo. Quem o faz - ou, para se ser mais preciso, quem o tenta fazer - acaba sempre punido, como aconteceu com a figura principal deste mito de Salmoneu.

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18 de Novembro, 2020

"Histórias Proveitosas", de Gonçalo Trancoso

As Histórias Proveitosas, mais conhecidas pelo seu nome alternativo de Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, são uma obra de Gonçalo Fernandes Trancoso que contém alguns contos escritos durante uma altura de peste do século XVI. Se a ideia e o contexto não são novos - de facto, até já cá falámos deles anteriormente - neste caso específico são dignos de nota pelo facto de esta se tratar da mais antiga obra nacional com este género ficcional. Desconhecemos as fontes completas do autor - em alguns casos até nos informa delas, mas essas são excepções mais do que regras - mas o seu objectivo é claro, até face aos nomes dados a esta sua obra.

Contos e Histórias de Proveito e Exemplo

Essencialmente, Gonçalo Trancoso pretendia contar um conjunto de histórias que pudessem tanto deleitar como instruir. Não são, no seu geral, muito fantasiosas, mas sofrem de um estranho problema - em vez de, como é comum hoje em dia, apresentarem uma moral no final, por vezes apresentam morais parciais ao longo da trama, o que quebra o seu ritmo... e acaba por ser pena, porque várias sequências da obra são interessantes, ainda para os nossos dias, e dão que pensar.

 

Por exemplo, a primeira de todas apresenta-nos "um exemplo que disse um Padre da Companhia, que ensinava no Colégio de Santo Antão, em Lisboa" e fala-nos de um ladrão e um ermitão. O primeiro pede repetidamente ao segundo que reze por ele, para que Deus o ajude a sair da sua vida de crime, mas volta sempre aos seus maus actos. Às tantas, o ermitão lá lhe demonstra um problema notável em toda a situação - as suas rezas, por si mesmas, nada podiam, excepto se o ladrão também quisesse trabalhar para emendar a sua conduta reprovável. A moral a retirar é clara, mas este é um dos exemplos em que ela ficou reservada para o final, em vez de interromper a sequência dos eventos, o que tende a acontecer nos relatos mais longos.

 

Face a um problema como este, quase que apetece dizer que a obra tem muito espaço possível para melhorar. E tem (!), mas devemos é ter em conta que se tratou da primeira compilação de contos em Portugal. Por isso, talvez não se pretendam perfeitas, estas Histórias Proveitosas de Gonçalo Trancoso, mas com um certo charme, de um novo autor - é provável que tenha escrito mais uma ou duas obras, se não estiver a ser confundido com um homónimo - que então pretendia explorar os limites de um novo género.

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16 de Novembro, 2020

A verdadeira história da Pequena Sereia

A verdadeira história da Pequena Sereia é um pouco mais complexa do que algumas de que cá falámos no passado. Se, por exemplo, na história da Cinderela foram removidos alguns elementos mais cruéis, ou na da Bela e o Monstro a moral da história foi significativamente alterada, já neste caso existe um elemento horrendo na trama, bem como três finais distintos. Mas já lá iremos, convém apresentar brevemente esta história - como bem se sabe, a Pequena Sereia é um conto da autoria de Hans Christian Andersen, mas que teve algumas influências de autores anteriores, e que hoje nos é famosa devido a uma versão da Disney.

A Pequena Sereia no mar

Nesse sentido, o conto original tem bastantes semelhanças com essa versão americana. Não há nada muito significativamente diferente até que a Pequena Sereia - que aqui não tem outro nome senão este - pede à sua avó que lhe ensine mais sobre os seres humanos. E é nesse momento que surge um dado estranho - é dito a esta jovem sereia, na altura com 15 anos, que os seres humanos viviam pouco tempo, mas que após a morte eram levados para o Céu e tinham uma vida eterna (por oposição aos seres marinhos de que elas faziam parte, que viviam 300 anos mas depois se tornavam em espuma do mar). Traumatizada, não pode deixar de perguntar à avó se havia alguma alternativa... e sim, havia, ela podia obter uma alma se conseguisse casar com um ser humano que a amasse "mais que ao pai e mãe"! Fazendo então um pacto com uma bruxa do mar, a heroína obtém pernas - em troca, perde a voz e consente morrer se não conseguir obter o amor que procurava - e vai para o mundo dos humanos. Tenta casar com o Príncipe que um dia salvou de um naufrágio, por quem ela estava totalmente apaixonada, mas... ele acaba por casar com outra mulher, com quem vem a confundir a sua salvadora.

 

E é aqui que toda a trama se complica. Na primeira de todas as versões, a Pequena Sereia, não tendo conseguido casar com o Príncipe, pura e simplesmente morre, feita em espuma do mar. Na segunda, ela recusa matar o antigo amado (o que lhe permitira voltar a ser sereia novamente), e depois transforma-se numa nova espécie de ser, semelhante a um Silfo, que supostamente poderia vir a obter a imortalidade se fizesse boas acções durante 300 anos. Já na terceira versão, a mais comum nas edições dos nossos dias, após esta transformação a antiga habitante dos mares ascende aos céus sob a forma de um pseudo-silfo, dá um derradeiro beijo na testa do Príncipe, e surge então uma estranha moral da história, em que as crianças são advertidas de que um dia é adicionado aos 300 anos do (imerecido) "castigo" destas criaturas cada vez que elas se portam mal.

 

O que dizer de todas estas versões? Procuram transformar algo completamente trágico num final que apenas podemos classificar como "menos mau", mas em qualquer um dos casos não é propriamente o que esperaríamos encontrar num conto para um público infantil. Esta é, sem qualquer dúvida, uma história atípica nesse sentido, já que aborda tacitamente até considerações teológicas (i.e. acreditava-se que apenas os seres humanos tinham alma, e nesse sentido os animais de estimação, ou quaisquer outros seres, nunca poderiam vir a partilhar da alegria eterna dos Céus), naturalmente incomuns em histórias para crianças. A necessidade que a Disney sentiu de a normalizar, de tornar esta apenas mais uma história de amor entre um príncipe (humano) e uma princesa (dos oceanos), é aqui bem compreensível - toda a história, e o seu final, funcionariam bem num filme para os mais velhos, mas destoam no panorama das aventuras infantis.

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15 de Novembro, 2020

Como se faz um pacto com o Diabo?

Como se faz um pacto com o Diabo, ou como fazer um pacto com uma figura como Satanás? A ideia é muito comum na cultura popular dos nossos dias, com as personagens de um qualquer livro ou série de televisão normalmente a assinarem uma espécie de contrato com o seu próprio sangue, mas nunca é contado, ou mesmo mostrado, à audiência no que consiste esse pacto chamado faustiano, de uma forma mais precisa. Poderia pensar-se que não se sabe a resposta, que é apenas uma ideia ficcional que nunca foi muito elaborada, mas quando é dito que figuras heréticas tão eminentes como Lutero, Calvino ou o famoso Doutor Fausto fizeram pactos dessa natureza, o que pensar?

Ter uma resposta a questões como estas nem sempre é fácil. Não porque as respostas não existam, mas porque normalmente estão em manuscritos que, ainda hoje, se encontram vedados ao público ou catalogados de forma deliberadamente incorrecta. Nesse sentido, para a publicação de hoje foi-nos feito um pedido menos vulgar - podíamos publicar este tema e explicar como se faz um pacto com o Diabo, sim, mas com a importante ressalva de que não podemos divulgar a origem do documento apresentado abaixo. Ele está em Latim numa biblioteca portuguesa, mas mais não podemos dizer. Segue-se uma breve tradução das linhas originais, explicando como fazer um pacto com o Diabo:

Como se faz um pacto com o Diabo?

Renuncio-te, Deus-Pai, que me fez. Renuncio-te, Espírito Santo, que me abençoou. Renuncio-te, Jesus Cristo, que [duas ou três palavras estão rasuradas e ilegíveis]. Nunca vos irei adorar ou servir depois deste dia, e juro-me completamente a Lúcifer, senhor do negro abismo. E juro-me às suas regras, e ele deverá servir-me e fazer-me o que eu lhe pedir. Em troca, dar-lhe-ei o meu próprio sangue como seguro e juramento. Isto garante que serei dele em corpo e alma para toda a eternidade, se ele fizer o que eu lhe peço ou ordeno. Assim, assino com a minha própria mão e com o meu próprio sangue. Isto está certo e verdadeiro em todas as formas possíveis.

 

Supostamente, esta fórmula deveria ser escrita e depois, como o seu próprio texto indica, assinada em sangue. Mas esse elemento não bastaria, já que só surtia efeito na presença de uma testemunha muito especial - o próprio Diabo (ou Satanás, ou Lúcifer, ou como preferirem chamar a essa entidade...) tinha de estar presente e ver a pessoa a assinar com os seus próprios olhos, sob pena de todo o procedimento não ter qualquer valor real. Agora, em que circunstâncias é que aconteceria se juntarem todos esses estranhos factores num mesmo local e à mesma hora é algo que já desconhecemos, por nos parecer impossível... Porém, este breve exemplo prova é que existiu, em outros tempos, pelo menos uma fórmula explícita de alguém fazer um pacto com o Diabo, mesmo que todo o procedimento não tenha - hoje, como na altura em que foi escrito - qualquer efeito real. É uma mera curiosidade, e absolutamente nada mais.

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13 de Novembro, 2020

Sobre a "Kalevala"

A Kalevala, apesar de ter sido apenas compilada no século XIX por Elias Lönnrot, é o poema épico nacional da Finlândia (como o de Portugal é os Lusíadas). Mas o facto da obra ser tão recente é um pouco enganador, porque nos pode fazer pensar que o próprio poema o é, o que seria completamente falso - não só ele parece preservar um conjunto de mitos finlandeses de outros tempos, como também tem um conjunto de características que nos remetem para uma transmissão oral, nomeadamente o uso quase constante de fórmulas. É, por isso, uma compilação recente, mas de um conjunto de poemas, talvez até originalmente dispersos, que terão mais de 200 anos, mas que só mais recentemente foram sintetizados numa só obra escrita, na qual a influência directa de Elias Lönnrot nem é muito clara.

Uma imagem da Kalevala

Mas então, qual é a história da Kalevala? Começando pelo fim (mas de uma forma que não estraga a leitura da obra), o épico termina com a introdução do Cristianismo em terras da Finlândia, numa sequência em que um herói místico de todo o poema, Väinämöinen, decide abandonar essas terras. Nesse instante, ele refere os três grandes benefícios que tinha trazido ao seu povo - o Sampo, a harpa, e a luz do Sol e da Lua. São essas aventuras que o épico nos relata, desde a criação do mundo, mas de uma forma em cada um dos cinquenta cantos são, essencialmente, fechados sobre si mesmos, na medida em que podem ser lidos quase independentemente. Um canto pode contar-nos como Väinämöinen criou a harpa, e as primeiras canções que ele trouxe ao mundo, e o seguinte pode já referir uma aventura completamente distinta, como o da virgem Marjatta, que engravidou ao comer um arando. Mas, se forem lidos em ordem, ainda se tornam mais interessantes, porque assim cada elemento da trama surge num contexto fácil de compreender.

 

É, assim, a história da Kalevala, um conjunto de acontecimentos significativos para o povo da Finlândia, num conjunto de aventuras que se entrecruzam repetidamente, e em que as palavras da magia, que muito populam esta obra, são tão reais como a busca por animais míticos, os poderes do misterioso Sambo, ou um conjunto de conselhos que devem ser dados às mulheres e aos homens no momento do seu casamento. É quase imprevisível o que se vai encontrar num novo canto, após terminado o seu anterior, o que torna esta obra inesperadamente bela.

 

Infelizmente, a Kalevala não é uma obra que seja muito lida entre aqueles que falam português. O mesmo costuma acontecer com outros épicos nacionais - como o Kebra Nagast ou o Cantar de Mio Cid, entre outros de que já cá falámos antes - talvez porque parece existir uma ideia, muito errada, de que obras como estas só devem ser lidas no seu país de origem. É, até por definição, natural que homenageiem os feitos do seu povo, sejam eles históricos ou puramente míticos, mas isso não os torna menos interessantes, enquanto obras literárias. Pelo contrário, permitem-nos um olhar privilegiado sobre uma cultura que nos é alheia, mas também nos permitem aprender muito mais sobre nós mesmos e a nossa cultura. E, por isso, esta obra vinda de terras da Finlândia, como tantos outros épicos nacionais, merece ser lida, mesmo porque aqueles que nunca consideraram fazê-lo, até porque serão esses os que mais poderão ser surpreendidos com a sua trama constantemente inesperada...

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