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Mitologia em Português

31 de Dezembro, 2020

Actualização deste espaço

Para celebrar o final de 2020, e o início do ano de 2021, foi feita uma pequena actualização ao site. Essencialmente, a categoria de "outros mitos e lendas" terminou, mas foi substituída por diversas categorias individuais para vários países - como por exemplo Mitos e Lendas da China, Mitos e Lendas da Índia ou Mitos e Lendas de Espanha, entre muitas outras - como nos tinha sido sugerido há uns meses atrás. Surgiram até as categorias de Mitologia Europeia (para mitos e lendas comuns a vários países de Europa) e Mitologia Mundial (para mitos e lendas que ocorrem em várias culturas de todo o mundo). Infelizmente, ao mesmo tempo isto leva a que algumas publicações anteriores possam estar em categorias incorrectas ou incompletas, mas isso será corrigido progressivamente ao longo do tempo.

 

Também, acrescente-se que estamos a considerar fazer mais períodos temáticos. Por exemplo, a primeira semana deste ano será dedicada a histórias de Portugal que são bem conhecidas apenas na sua região local, de que a lenda de Santo Ovídio é um bom exemplo. Como sempre, quem tiver sugestões para uma publicação, ou ciclo de publicações sobre um determinado tema específico, poderá deixar um comentário e, se for possível, iremos concretizá-lo!

 

E, para terminar esta actualização de hoje... bom ano de 2021 para todos os que nos vão lendo!

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30 de Dezembro, 2020

"Elegíada", o texto mais triste do mundo?

Será Elegíada o texto mais triste do mundo? Certamente que esta pergunta não tem uma resposta fácil, até em virtude do facto da tristeza ser um critério bastante discutível e difícil de definir, mas quando há algumas semanas ouvimos falar de um texto que era categorizado por um crítico nacional como o mais triste de Portugal, ou o mais triste alguma vez composto em língua portuguesa, sabíamos que tinhamos de lhe dar uma olhadela. E foi o que fizemos, ao longo de mais de 400 páginas de um épico nacional que hoje é muito pouco lido. Conte-se a sua história.

Um dos textos mais tristes do mundo?

Viveu na segunda metade do século XVI um padre jesuíta que ficou conhecido por Pereira Brandão. Entre o pouco que sabemos da sua vida é conhecido que ele acompanhou o Rei Dom Sebastião à Batalha de Alcácer-Quibir. Sobreviveu ao grande desastre e, menos de 10 anos depois, escreveu um poema épico, a Elegíada, em que o herói é o próprio monarca D. Sebastião. Ou seja, escreveu provavelmente o único poema épico do mundo em que o herói não só não triunfa nos seus objectivos, como até acaba por morrer no campo de batalha. E desenganem-se aqueles que esperam, aqui, um poema de esperança para o futuro profetizado por Bandarra ou imortalizado nas lendas - o rei estava mesmo morto, não ia voltar, e a obra termina no ponto em que o reino de Portugal é informado desse assustador destino. Esse é um tom de tristeza que pauta repetidamente toda a obra, que até começa com os seguintes versos, bem exemplificativos do seu conteúdo geral:

Mortes, danos, castigos, mágoas canto,
Males que todo o mundo chora e sente,
Um nunca visto estrago, e o rouco pranto,
Nunca enxuto em portuguesa gente.
Armas, furor, e temeroso espanto,
Em que se abrasa a Líbia ardente,
Quando [D.] Sebastião passar queria
A restaurar o Rei da Barbaria.

 

Parece tão triste quanto interessante, não é? Ao contrário do épico escrito sobre Henrique de Borgonha, o tema desta Elegíada dificilmente poderia ser mais fascinante, ainda para mais se foi escrito por alguém que testemunhou os eventos que reporta na primeira pessoa. Contudo, se a obra até tem alguns momentos preciosos, o seu mérito poético é demasiado discutível. Mesmo naqueles instantes em que surge algo mais digno de nota, como o misterioso idoso que inspira o rei falando-lhe do glorioso passado de Portugal (seria ele Camões?), ou a viagem do monarca por Sintra, eles demasiado depressa se desvanecem... e isso é particularmente notável naquele que deveria ser o episódio da morte de Dom Sebastião, no penúltimo canto, que é tratado com uma ligeireza que não pôde deixar de nos fazer sentir algo como "O quê? Só isto? Morre o rei e é apenas isto que o poeta tem para nos apresentar?" Em suma, o seu tema até era bom, mas o poeta não foi capaz de o tratar da forma conveniente para um verdadeiro poema épico.

 

Agora, não sabemos se esta Elegíada é o texto mais triste do mundo. Ou sequer se é o texto poético mais triste alguma vez composto em Portugal, mas se for colocado no seu contexto original entende-se o porquê de já ter recebido essa designação. É um poema emblemático de um momento muito particular da história portuguesa, do grande desespero de um povo, mas isso não faz dele, ainda assim, um bom poema épico. Explica-se, sem muita dificuldade, que seja essa falta de mérito poético que tenha levado ao seu esquecimento nos nossos dias. E quem desejar lê-lo faça-o como nós, mais pela breve curiosidade do que pela esperança de nele encontrar algo capaz de rivalizar com os Lusíadas de Camões.

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28 de Dezembro, 2020

A lenda do Doutor Fausto

A lenda do Doutor Fausto apareceu na Europa por volta do século XVI, mas o facto de ser relativamente recente não a torna menos interessante, bem pelo contrário. Na verdade, ainda hoje se debate a identidade deste "Fausto", se ele terá sido baseado numa figura real ou se é apenas uma mera lenda fantasiosa, com tantas outras histórias do sobrenatural que nos foram chegando ao longo dos séculos. Não sabemos. Por isso, recorde-se aqui a sua história, e que seja o leitor a decidir o que pensa de tudo isto.

A lenda do Doutor Fausto

O homem que ficou conhecido sob este nome estudou muito. Uma das versões da sua história que lemos diz que ele tinha "16 mestrados", num possível erro de tradução do alemão original, antes de se doutorar em Teologia. Porém, por muito que estudasse sempre sentiu que esse seu conhecimento lhe servia de pouco. Queria mais, queria o tipo de conhecimento que normalmente está vedado aos seres humanos. Então, recorrendo às artes mágicas e a uma renegação do Cristianismo, fez um pacto com uma entidade demoníaca, Mefistófeles, entregando-lhe a sua vida e vendendo-lhe a sua alma se este fizesse tudo o que lhe pedia durante alguns anos (24, segundo algumas versões). Até aqui a trama é relativamente estável, com algumas ligeiras diferenças, mas depois surgem dois possíveis caminhos.

 

Nas versões mais antigas, de que a Trágica História do Doutor Fausto será provavelmente a mais famosa nos nossos dias, os poderes concedidos por Mefistófeles parecem agradar ao Doutor Fausto, que se mostra repetidamente satisfeito ou temente do seu pacto, que no início até o conduz ao conhecimento que ambicionava, mas que depois o parece levar a diversas mesquinhices menores. Há momentos em que parece querer voltar atrás, e outros em que se sente impotente para alterar o seu destino. Por exemplo, quando diz que gostava de casar, o seu ajudante demoníaco diz que tal não é possível, porque o casamento é um acto divino e ele tinha renegado a tudo o que diz respeito a Deus; em vez disso, envolve-se sexualmente com Helena de Tróia e tem um filho dela, numa sequência com quase nenhuma importância na trama. No final, completamente incapaz de alterar o destino que já antevê há muito, é morto de uma forma horrenda, indo para o Inferno.

 

É igualmente notável a versão da famosa tragédia de Johann Wolfgang von Goethe, que possivelmente terá inspirado autores como Thomas Mann. Aqui, todo o conflito interno do Doutor Fausto é quase posto de parte, com Mefistófeles a tornar-se uma espécie de companheiro ajudante que vai permitindo e colaborando em tudo aquilo que o herói deseja. Há uma trama amorosa mais marcada, com a paixão do herói pela jovem virgem Gretchen, que acaba mal (e dificilmente não suscitará alguma tristeza no leitor). Porém, na segunda parte da obra o herói também se apaixona por Helena de Tróia, no meio de uma sequência - criada totalmente pelo autor - em que entram as mais diversas personagens mitológicas da Antiguidade. No final, a personagem principal morre e vai para o Céu, mas as razões para tal pouco lhe pertencem. Acaba por ser desapontante, porque esta figura - por oposição à da versão anterior - é que parece merecer ir para o Inferno...

 

O que retirar de toda esta lenda? Apesar de estas duas versões serem significativamente diferentes (seria uma delas católica, e a outra protestante, como um dia se perguntou Teófilo Braga?), apresentam um cerne comum, uma espécie de advertência face aos pactos com o Diabo, de que cá falámos recentemente. Nunca correm bem, levando (pelo menos) à horrenda destruição do Doutor Fausto na primeira versão, e ao doloroso final de Gretchen na segunda. Portanto, se alguém até estava a considerar tomar uma decisão como essa na sua vida, fica o aviso de que tende sempre a correr muito mal para todos os envolvidos; mas, com um sorriso difícil de negar, também convém admitir que são já muito poucos aqueles que ainda acreditam nestas coisas... estará, nos dias de hoje, Mefistófeles desempregado?

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26 de Dezembro, 2020

Santa Maria e o homem que queria ver o Céu

Esta história de Santa Maria e o homem que queria ver o Céu, ao ser contada, deve sê-lo expondo igualmente um problema significativo. Ela provém das Cantigas de Santa Maria, do século XIII da nossa era (e de que já cá apresentámos uma pequena tradução de uma das cantigas), mas existe, com contornos muito semelhantes, por toda a Europa. Mudam frequentemente as personagens principais (que até pode ser outro santo ou um falecido amigo deste homem, entre outras figuras), mas parece ser sempre retido o cerne da história e pelo menos parte do seu desfecho. Assim sendo, parafraseie-se brevemente a históra, antes de mais comentários:

Santa Maria e um homem que queria ver o Céu

Havia um homem que era muito devoto a Santa Maria. Rezava-lhe horas e horas a fio. Um dia a santa apareceu-lhe e, face à devoção que este tinha demonstrado, decidiu conceder-lhe um pedido. O homem não teve muito que pensar - pediu à mãe de Cristo que o deixasse ver como era o Céu. E esta assim o fez - levou-o ao Céu, onde ele pôde ver belíssimas árvores de fruto, pássaros com um cantar de beleza indescritível, e outras coisas miraculosas. Então, por um breve momento, o homem distraiu-se a ouvir o canto de um qualquer pássaro... e quando foi trazido de volta ao mundo do vivos, tinham passado centenas de anos!

 

Se a memória não nos engana, esta é a versão da história tal como ela aparece nas Cantigas de Santa Maria. Outras versões, como referido acima, alteram as circunstâncias que levaram este homem ao Reino dos Céus, mas por vezes adicionam um elemento delicioso - quando este homem volta ao local de onde partiu, regressa também a sua casa e vê que tudo está diferente, ao ponto de agora morar um completo desconhecido lá. Quanto mais inquire sobre o local, mais se apercebe da passagem do tempo - a pequena vila é agora uma cidade, o pároco local foi substituído por um bispo, etc. - e, após falar com muita gente, são verificados os registos religiosos e descobre-se que esse homem tinha desaparecido há mais de 200 anos!

 

Interessante, não é? Mas, afinal de contas, qual é o objectivo de toda esta história? É provável que, originalmente, esta tenha sido uma história cujo objectivo principal era o de explicar aos mais simples como funcionava a passagem do tempo no Céu, e.g. o canto dos pássaros no Céu é tão belo que as pessoas podem passar décadas a escutá-lo sem se aperceberem. Não temos a certeza se a ideia nasceu com as cantigas associadas a Afonso X de Castela, ou se toda esta trama de Santa Maria e o homem que queria ver o Céu até já as antecede, talvez até por via oral, mas ainda hoje existem versões dela em Portugal e Itália. Sabemos, contudo, é que o cerne da história - a ideia da subida aos céus, e o seu retorno passado centenas de anos - terá pelo menos 700 anos, o que atesta bem a sua popularidade até aos nossos dias.

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23 de Dezembro, 2020

Onde nasceu Jesus Cristo?

Na verdade, onde nasceu Jesus Cristo? A localização desse local parece ser um dos grandes mistérios do Cristianismo. Quem for ler o Novo Testamento depressa conseguirá concluir que esta famosa figura nasceu em Belém, na Judeia, mas informações mais precisas não parecem estar verdadeiramente disponíveis no texto. Será, por isso, que ele nasceu numa casa, num estábulo, numa caverna, ou até num qualquer outro local?

 

Quem conseguir recordar a trama de toda a história poderá lembrar-se que, aquando de uma sua viagem, Maria e José tentaram dormir numa espécie de pousada, mas foram informados de que não havia qualquer lugar livre - logo, torna-se improvável que ele tenha nascido numa casa, ou num qualquer local em que fossem alugados quartos. Mas, então, onde foi que este famoso evento teve lugar?

O texto latino diz-nos que este filho de Maria nasceu e foi colocado in praesepio, ou seja, numa manjedoura. Naturalmente que este é o nome dado a um local onde os animais comem, dando a sugestão de um nascimento num local indeterminado mas onde podiam até existir animais. Mas, ao mesmo tempo, isto não descarta a possibilidade de que ele tenha nascido noutro local e, posteriormente, tenha sido colocado numa manjedoura. As fontes, pura e simplesmente, não nos dão esta informação de forma clara, como já cá discutimos o ano passado.

Onde nasceu Jesus Cristo?

Depois, quando o episódio começou a ser representado na arte - acima, pode ser visto uma representação do século IV, possivelmente a mais antiga que nos chegou - deve ter surgido um problema. Se Jesus Cristo fosse apresentado somente numa manjedoura, como seria possível reconhecer de quem se tratava? É provável que, para facilitar esse reconhecimento, tenham sido adicionados à representação dois animais - um burro e uma vaca - dando um maior crédito à ideia de que se tratava de uma espécie de estábulo. Caso contrário, o que fariam os dois animais numa caverna? Mesmo que se queira acreditar que o burro era aquele que transportava Maria na longa viagem, e que por isso pernoitava próximo do casal, de onde apareceu toda a figura do bovino?

 

Este problema levanta uma possibilidade intrigante, quando inquirimos sobre o local onde nasceu Jesus Cristo - será que ele não nasceu numa caverna que estava a ser reutilizada como estábulo? É uma possibilidade como qualquer outra, sendo apenas apoiada num conjunto de provas circunstanciais, como o facto de textos apócrifos mencionarem esse local, ou a Igreja da Natividade, em Belém, ter sido construída sobre uma caverna - e porque estaria uma manjedoura nesse local? Ou a caverna, como supomos nestas linhas, estava mesmo a ser usada como estábulo, ou Maria e José conseguiram obter, talvez por empréstimo, essa peça de mobília onde colocar o menino, como o Corão parece indicar, ao nos dizer que existia uma palmeira por perto - estaria ela imediatamente fora da caverna, levando o casal a entrar para descansar durante a noite? São apenas suposições...

Viajemos então ao local dos acontecimentos, de um forma completamente virtual. Quem olhar pelo local acima, presente na Basílica da Natividade, poderá aí ver aquele que poderá ser um dos locais mais sagrados do Cristianismo, o suposto local do famoso nascimento, onde um dia se acreditou que esteve a manjedoura. Mas será que foi mesmo este o local dos acontecimentos? Temos a certeza? Na verdade não sabemos, nem podemos ter a certeza. As fontes literárias que temos não nos são suficientes para o podermos afirmar - mas é o que a tradição do Cristianismo, a mesma que nos transmitiu muitas outras ideias relativas à mesma religião, como o do local em que esta figura veio a falecer e ressuscitar, nos diz, quer queiramos, quer não!

 

Pergunte-se, então e para concluir, onde nasceu Jesus Cristo... sabemos que, segundo as fontes literárias, foi na povoação de Belém, na Judeia. Sabemos, igualmente, que após o nascimento o recém-nascido foi colocado numa manjedoura. Mas, admita-se sem qualquer dificuldade, não sabemos é se ele nasceu numa caverna ou num estábulo, sendo essa primeira possibilidade mais aceitável e conhecida somente com base nas tradições mencionadas acima. E, por vezes, em situações como estas é importante saber admitir isto mesmo, que existem coisas que sabemos e coisas que, aparentemente, ficarão desconhecidas para o futuro e no segredo dos deuses...

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21 de Dezembro, 2020

A lenda do devoto a São José

Contamos esta lenda do devoto a São José porque as lendas associadas a este santo, marido de Santa Maria e pai (adoptivo) de Jesus, não abundam nas muitas histórias do Cristianismo. Podem ser encontradas, aqui e ali, algumas tramas em que ele até tem algum papel mais significativo, mas são muita poucas aquelas em que esta figura tem um papel principal. É por essa razão que achámos que deveríamos contar esta pequena história por cá:

São José e o seu filho

Há muito atrás existiu um homem que era muito devoto de São José. Rezava somente a este santo, sacrificava-lhe o que podia, dirigia-lhe todas as maiores preces, e outras coisas que tais, ignorando completamente Deus, Jesus, o Espírito Santo, Maria, ou qualquer outra figura santa.

Depois, um dia, faleceu. Encontrando-se às portas do Céu, São Pedro não queria deixá-lo entrar, porque dizia que, apesar da sua devoção e dos seus muitos bons actos, este homem se tinha sempre focado numa figura menor. E o homem estranhou tais palavras, mas pediu um pequeno favor a quem o interpelava - queria, por uma única vez, falar com o santo por quem tinha tanta devoção. Naturalmente que isso lhe foi permitido, e o santo ficou muitíssimo satisfeito por ver este seu devoto tão especial, mas quando tentou levar esse seu companheiro de todas as horas para o Céu foi impedido de o fazer. Não queriam, mesmo, deixar esse homem entrar! Então, São José disse apenas uma frase, em jeito de resposta - "Tudo bem, não o deixem entrar, mas se ele não entra eu vou-me embora, e levo a minha mulher e o meu filho comigo." Face a tais palavras, rapidamente o recém-chegado foi admitido no reino dos céus.

 

Dá para sorrir um pouco, mas mesmo nesse contexto de pequena brincadeira há que ter em mente que tudo isto faz algum sentido. É uma mera lenda, claro está, ninguém argumenta que tudo isto tenha mesmo acontecido, mas ainda hoje são muito poucos aqueles que têm qualquer devoção especial para com São José. Por isso, visto que o santo não deverá andar muito ocupado, quase que fica a questão - será que ele tem mais tempo livre para acudir a todos aqueles que pedem a sua ajuda? Faz todo o sentido, não é? Muitos rezam a Deus, a Jesus, a Maria, a Santo António, e a tantas outras figuras da história dos Cristianismos, mas... porque não rezar também a esta figura, que estará mais desocupada para nos atender?

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18 de Dezembro, 2020

Sobre a lenda de São Jorge e o Dragão

A lenda de São Jorge e o Dragão tem um papel muito curioso na sociedade ocidental, na medida em que este é um dos santos que é mais fácil de identificar - apresenta-se quase sempre como um cavaleiro prestes a defrontar um dragão em combate - mas, ao mesmo tempo, também um de aqueles em relação aos quais temos menos informação digna de crédito.

São Jorge e o dragão

Parecemos saber que São Jorge era, originalmente, um tal Jorge da Capadócia. Ou que foi um mártir. E é até possível que tenha sido um cavaleiro romano que se converteu ao Cristianismo, relembrando-nos histórias como a de São Martinho. Mas, mais que tudo, pelas histórias da Idade Média - deixe-se claro que toda esta informação não vem da Antiguidade, só nos surgindo na literatura mais de 500 anos após a suposta morte do santo - é-nos dado a conhecer que o seu principal feito é o de ter combatido e derrotado um dragão.

"Mas... os dragões não existem", poderia responder um qualquer leitor. É verdade, até porque nunca vimos um pessoalmente. Nesse sentido, quem for ler a Lenda Dourada, uma obra medieval sobre os supostos feitos dos santos, poderá aperceber-se de algo de estranho em toda a história. Muito sucintamente, nesse relato - possivelmente o mais antigo que temos (?) - o herói vai a uma cidade que é assolada por um monstruoso dragão (e que vomitava o seu veneno nas águas locais, envenenando os habitantes), e a quem os locais se preparavam para sacrificar a filha do rei. Ele salva então a princesa, derrota o monstro e converte a população ao Cristianismo, numa tripla vitória que faria inveja a muitos outros grandes santos da Antiguidade.

 

Será a história verdade, ou uma das muitas aventuras de cavalaria compostas na Idade Média, com as quais esta tem semelhanças inegáveis? Será a lenda de São Jorge e o Dragão apenas uma transposição cristã do mito de Perseu, ou de uma outra história semelhante a essa? Não sabemos (!), ou não podemos ter uma certeza completa, mas o que sabemos é que este santo representa um ideal de cavalaria que se tornou muito popular na Idade Média. Talvez seja por isso que ele acabou por se tornar padroeiro dos cavaleiros, dos soldados, de muitas outras coisas, e até um dos grandes santos padroeiros de Portugal. E isso nada tem de errado, mas há que deixar muito claro que quaisquer elementos biográficos associados à sua vida devem ser recebidos com um grande cepticismo, até porque só foram postos por escrito meio milénio após o suposto falecimento, ou martírio, do homem por detrás do santo. Mas isso raramente nos é dito, naquelas muitas vezes em que o vemos a combater o seu já-famoso opositor, que agora toma as mais diversas formas em cada nova representação...

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16 de Dezembro, 2020

O mito de Aquiles (em 10 curiosidades)

Quando se fala do mito de Aquiles, o segundo maior do heróis da Mitologia Grega, é irrealista querer acreditar que se pode contar toda a sua história de uma só assentada, porque são muitos e grandes os episódios individuais que a compõem. Assim, para a publicação de hoje tentamos uma espécie de pequeno desafio, que passa por resumir as principais aventuras deste herói em 10 curiosidades. Vamos a isso?

O mito de Aquiles, em luta contra Mémnon

1- Aquiles era um semideus, mas não era imortal

Já cá falámos do mito do casamento de Peleu com Tétis. O primeiro era humano, enquanto que a segunda era uma figura divina. Um seu filho seria mortal, como atestam mitos como o de Perseu, mas as diversas versões que temos afirmam que esta mãe tentou tornar o seu filho imortal. É possível que o tenha banhado no Estige, ou que tenha conduzido um outro procedimento com essa finalidade, mas as fontes literárias que temos afirmam, sem qualquer dúvida, que qualquer que tenha sido a tentativa de Tétis, ela não obteve um sucesso completo. Aquiles tornou-se forte, quase invencível, mas acabou por não ter um corpo imortal.

 

2- Aquiles não foi criado pelos pais

Após o seu nascimento, Tétis entregou Aquiles ao pai, Peleu. Porém, por alguma razão menos clara este nunca foi uma figura paterna muito presente. Em vez disso, entregou-o ao centauro Quíron, figura que ensinou as várias artes ao jovem herói. Sabemos, pelo menos, que o ensinou a combater e a tocar instrumentos musicais; é provável que o pai o tenha visitado pelo menos uma vez, como nos relata a Argonáutica Órfica, mas salvo essa passagem dos Argonautas não temos quaisquer razões para acreditar que o pai, ou a mãe, do herói tenham estado muito presentes na sua juventude.

 

3- Aquiles viveu disfarçado como uma mulher

Numa dada altura Tétis recebeu um oráculo que dizia que o seu filho iria ser levado para combater em Tróia, e que esse convite acabaria por levar à sua morte. Infeliz, como qualquer mãe ficaria em circunstâncias semelhantes, urdiu o plano de o esconder na corte do rei Licomedes, em que o herói adoptou o nome de Pirra. E ele viveu assim durante algum tempo, feliz e contente, engravidando até uma filha do monarca, Deidamia, de quem teve um filho, que ficou conhecido pelos nomes de Neoptólemo ou Pirro.

Depois, um dado dia Ulisses, que buscava Aquiles, visitou a corte de Licomedes. Procurando descobrir se o herói estava escondido no local, apresentou à corte do monarca várias jóias e equipamento guerreiro. As jovens aproximaram-se rapidamente das primeiras, mas Pirra decidiu antes admirar as espadas e os escudos - assim, o herói que deu o nome à Odisseia foi capaz de o desmascarar, para surpresa de (quase) todos os presentes, levando-o para Tróia.

 

4- Aquiles teve várias aventuras pouco conhecidas

Se aqui apenas pretendemos contar as suas aventuras mais famosas, neste ponto há que frisar que o herói também teve muitas outras, antes de se associar à Guerra de Tróia. A mais intrigante de todas elas talvez seja o seu confronto de Télefo, que um dia aqui recordámos nas palavras de Luís de Camões, em que Aquiles feriu esse rei, acabando depois por curá-lo com um novo golpe da sua própria lança. Uma outra apresentava o contigente dos Gregos a destruir várias cidades, por pensarem, erradamente, que elas eram o reino de Príamo. Que mais aventuras terá o nosso herói tido nessa altura? Muitas delas perderam-se ao longo dos séculos...

 

5- Aquiles esteve para casar... várias vezes!

Por volta desta altura, bem como em alguns episódios futuros, Aquiles esteve para casar mais do que uma vez. Foi-lhe prometida a mão de Ifigénia, e pelo menos algumas fontes literárias afirmam que também lhe foi prometida a mão de Polixena. Não sabemos porque não casou com Deidamia, mas é provável que essa potencial união tenha sido deixada para um regresso do herói de Tróia, que nunca tomou lugar.

 

6- Aquiles também era bissexual

Já em tempos da Guerra de Tróia, quem conhecer o relato da Ilíada, facilmente se aperceberá de que existia "algo" entre Aquiles e Pátroclo. Não é totalmente claro, nessa fonte literária, se a relação entre ambos era de uma grande amizade ou de algo mais romântico (e sexual), mas um outro episódio, hoje quase totalmente perdido e muito menos conhecido, deixa mais claro que este herói era mesmo bissexual. É-nos então contado que um dia o herói viu Troilo, um jovem filho do rei Príamo de Tróia, e se apaixonou por ele, mas que, incapaz de consumar a sua paixão, acabou por matá-lo. Já não temos um conhecimento totalmente directo desse episódio dos mitos gregos, mas pelo menos sabemos que o herói tinha paixão por ambos os sexos.

Aquiles e Ulisses

7- Aquiles também teve uma dispusta com Ulisses

Se a querela entre Aquiles e Agamémnon nos é muito famosa da Ilíada, um breve instante da Odisseia também revela que o mesmo herói também teve uma disputa com Ulisses, relativamente à forma como a cidade de Tróia podia ser conquistada. Já cá falámos desse episódio anteriormente, mas essencialmente o primeiro defendia um recurso às armas, enquanto que o segundo advogava o uso de estratagemas. Recorde-se, nesse contexto, que se até não sabemos quem ganhou essa disputa, foi o estratagema do Cavalo de Tróia que acabou por levar à conquista da cidade.

 

8- Aquiles defrontou muitos outros adversários poderosos

O relato da Ilíada, possivelmente o mais famoso que nos chegou, faz do combate entre Aquiles e Heitor o pináculo de toda a trama. Porém, quando o herói acabou por derrotar esse grande filho de Príamo, esse não foi o final das suas aventuras guerreiras. Posteriormente, viria também a defrontar em combate Pentesileia e Mémnon, adversários igualmente poderosos e que vieram de terras distantes para proteger a cidade de Tróia. Venceu-os a todos, mas não sem antes aprender, com esse derradeiro opositor africano e filho da Aurora, que até os filhos das deusas podiam morrer.

O Calcanhar de Aquiles

9- Não sabemos como Aquiles morreu

Por muito famosa que agora seja a expressão Calcanhar de Aquiles, nas fontes literárias mais antigas não existem quaisquer provas directas de que a famosa flecha tenha morto este herói. Tirou-lhe a sua famosa velocidade - recorde-se até os "pés velozes" que muito o caracterizavam nos Poemas Homéricos - mas não é certo que o tenha morto, apesar de algumas fontes mais tardias mencionarem que a flecha estava envenenada.

 

10- A morte de Aquiles não terminou a sua aventura

Após a morte deste herói ele ainda interviu, ainda que de forma mais indirecta, em alguns episódios. Sabemos que Tétis lhe conduziu um enorme funeral, talvez até o maior de toda a Mitologia Grega, e que os seus restos mortais foram associados aos de Pátroclo. Sabemos que Ulisses e Ájax disputaram as armas do herói, e que o seu filho, Neoptólemo, também combateu em Tróia. E sabemos, além disso, que após a conquista de Tróia o fantasma de Aquiles se dirigiu aos seus antigos companheiros, exigindo o sacrifício de Políxena no seu túmulo, talvez em virtude do episódio que unia ambos a Troilo.

Mas essas já são histórias para outro dia... por hoje, aqui fica o mito de Aquiles em 10 curiosidades ligadas ao famoso herói.

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14 de Dezembro, 2020

Uma história de antepassados chineses

Esta é uma curiosa história de antepassados chineses, mas que sofre de um grande problema, que é o facto de já não nos recordarmos de possíveis nomes envolvidos. Por isso, importa começar por contar uma outra história por detrás desta.

Há alguns anos estava a conversar com uma colega chinesa que trabalhava na área do imobiliário, e que contou que na sua cultura existia uma espécie de veneração pelos antepassados, o que levava a que os Chineses preferissem, ao comprar casa em Portugal, recintos completamente novos, em vez de aqueles que têm já alguma história. Isto porque, segundo ela, eles acreditam bastante que esses locais mais antigos podem ter por lá uma espécie de espírito das pessoas que já falecerem. Perguntei-lhe, na altura, se ela também acreditava nisso, ao que me disse, sem elaborar, "mais ou menos". E depois contou-me uma história semelhante a esta:

Alguns antepassados chineses

Um homem estava a dormir quando começou a ouvir uma voz fantasmagórica a seu lado. Insistentemente, essa voz disse-lhe que era o espírito do seu falecido pai e que ele tinha de ir cumprir um dado objectivo, aquele que tinha sido um dos grandes objectivos de seu pai, mas que este não tinha conseguido atingir antes de morrer. Compreensivelmente, o homem depressa se dispôs a ir cumprir esse objectivo. Vestiu-se, saiu de casa, e ia a caminho quando... de repente, ao seu ouvido, começou a ouvir uma segunda voz - era o seu avô, que também tinha um objectivo (diferente) para lhe dar! Pela lei de antiguidade, ele decidiu então cumprir primeiro o novo objectivo, mas... depressa lhe surgiu uma terceira voz, a do bisavô. Mais um novo objectivo estabelecido, que deveria tomar a primazia. E depois um outro, de um antepassado ainda mais distante... e outro, e outro, até que o homem foi levado à mais completa loucura.

 

Esta história mostra-nos, portanto, uma espécie de veneração que devemos aos nossos antepassados, mas também a importância de não deixarmos esse dever interferir nas nossas próprias vidas. Ou, pelo menos, assim o pensava. Mas, para esta colega, a moral era outra, e demonstrava que devemos fazer, o mais depressa possível, tudo o que podemos pelos nossos antecessores, sob pena de aquilo que lhes devemos acabar por nos consumir, como nesta pequena história. Talvez, mais do que uma questão de opinião, esta deva ser uma oportunidade para pensar na forma como as mesmas histórias podem ser lidas de forma diferente entre culturas, não existindo uma forma certa ou uma errada, mas sim múltiplas interpretações possíveis para uma única trama.

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12 de Dezembro, 2020

O mito das fake news (ou notícias falsas)

Hoje, falamos também de um mito que é bem actual nos nossos dias, o das fake news, ou notícias falsas. A ideia não é de todo nova - já nos tempos da Antiguidade se dizia que Nero deitou fogo a Roma enquanto cantava sobre a destruição de Tróia, que Calígula fez do seu cavalo Incitatus cônsul, e que Jesus Cristo tinha nascido de uma relação extra-conjugal de Maria com um tal Pandera, entre infindáveis outros possíveis exemplos - mas parece continuar hoje tão actual como nesses tempos. Por isso, importa perguntar-se qual é, na verdade, a origem de todo este conceito...

As fake news e o fogo de Roma

Essencialmente, uma notícia tem, como o próprio nome dá a entender, o objectivo de noticiar ou informar de algo. Visto desse prisma o conceito é extremamente simples, mas o seu grande problema passa pelo momento em que se teve de começar a decidir o que noticiar. Vamos a um exemplo muitíssimo curioso que nos foi passado há já vários meses:

Um exemplo do mito das fake news (ou notícias falsas)

Segundo o escritor desta notícia, surgiu nas redes sociais uma publicação que mostrava imagens de alimentos num caixote do lixo e depois afirmava que Isabel Jonet e respectivos companheiros se apropriam de algumas doações ao Banco Alimentar. Neste breve resumo é logo associado um pequeno símbolo a afirmar que estas são afirmações falsas, puramente difamatórias. Mas depois, quem for mesmo ler o artigo completo, apercebe-se de algo muito curioso, que é o facto de ele somente desprovar a proveniência das imagens - e não dizer absolutamente nada sobre o outra metade da questão. Trocando por miúdos, fazendo uso do facto de pouca gente ler o artigo completa, esta notícia vende a ideia de que nem Isabel Jonet, nem os companheiros, se apropriam de absolutamente nada. Ou seja, um site de verificação de notícias fez mau trabalho jornalístico com a intenção de vender ao público uma ideia que lhes parece digna de defesa - ou seja, o Polígrafo publica fake news, ou notícias falsas, de uma forma encapotada.

 

Porque o faz? Porque uma notícia só é considerada falsa - seja hoje, como já o era nos tempos da Antiguidade - se não servir os nossos propósitos. Se, por exemplo, antes de um período de eleições um determinado candidato começa a subir muito nas sondagens, depressa são publicadas N notícias que tentam alterar esse ímpeto - assim, surgem notícias a dizer, por exemplo, que ele violou crianças em tempos de escola, que deitava fogo a animais na adolescência, e todo um conjunto de falsidades - enquanto que, ao mesmo tempo, o candidato que se pretende fazer subir nas sondagens é trazido à ribalta como dando de comer a quem tem fome e outras coisas que tais.

 

Na notícia acima, por exemplo, o mau trabalho jornalístico foi feito de forma muitíssimo propositada e publicado numa altura em que as pessoas poderiam vir a pensar o contrário. E nunca seria declarado como fake news, ou notícias falsas, porque cumpre plenamente o objectivo de quem decidiu publicar aquelas linhas, que foi o de isentar "Isabel Jonet e respectivos companheiros" de todo e qualquer roubo. De facto, nem lhes importa se esses factos são verdadeiros ou não, mas sim que tenham encontrado uma forma - dissimulada - para promover uma dada ideia. E isso até já vem de tempos da Antiguidade - apesar de não se ter qualquer certeza sobre os fogos de Roma, os Cristãos diziam que foi Nero, e os anti-cristãos diziam que foram eles. Como os primeiros acabaram por ganhar o confronto, a história acabou por declarar que o culpado foi Nero - não porque o tenha sido, mas porque é uma informação conveniente.

 

Nesse seguimento, a existência de fake news é um puro mito, porque nos vende a ideia de que algumas notícias são falsas e outras verdadeiras com base no factor discriminatório das intenções do editor. Pouco importa a verdade - ou falsidade - das informações que contém, desde que leve o leitor a pensar o que se pretende que ele pense. E isso é muitíssimo perigoso, porque está a criar um mundo em que pensamos e agimos quase exclusivamente como os outros querem que o façamos. Se, por exemplo, há 10 anos atrás nos viessem dizer que para irmos almoçar fora a um domingo tínhamos de levar um dado documento, certamente que nos iríamos rir e fazer alguma piada relativa ao Estado Novo. Parecer-nos-ia tão absurdo que o consideraríamos impensável. Mas, agora, tendo repetidamente vendido ao público uma narrativa em que essa privação de direitos é para seu bem, já toda a gente o aceita sem pensar - e, na verdade, até critica quem não o faz, tornando-se uma espécie de agente da PIDE dos nossos dias.

 

Pense-se, então e no contexto do Covid-19, no seguinte. Surge uma primeira notícia, que diz que a vacina não tem qualquer efeito secundário; surge uma segunda, que diz que ela tem efeitos secundários. Para bem do processo de vacinação, depressa surgiria uma notícia que afirma que a segunda destas é falsa, completamente falsa, porque caso contrário as pessoas poderiam ser levadas a não se vacinarem. Afirme-se, novamente, que a presença ou ausência de efeitos secundários é irrelevante - importa é vender-se, seja como for, uma ideia estipulada pelo editor, mesmo que ela não seja verdade. E, nesse seguimento, uma qualquer notícia só se torna fake news se for contrária ao objectivo a que esse tal editor se propõe. Ou seja, trocando por miúdos, as notícias falsas só existem quando não servem o nosso objectivo; não são notícias falsas, mas sim - talvez até seja mais correcto chamar-lhes mesmo isso - notícias inconvenientes.

 

Se já cá falámos da censura no Sapo Blogs, e de como ela se baseia em critérios editoriais vagos e que só são aplicados a alguns, tudo isso funciona no mesmo sentido - os editores pretendem vender algumas ideias e, nesse seguimento, promovem ou ocultam publicações mediante elas se conduzam - ou não - para o sentido desejado. Se também o pudessem fazer, declarariam as primeiras como completamente verdadeiras, e as segundas da maior falsidade do universo. Isto, não porque sejam verdade ou mentira, mas porque lhes serve um dado propósito. E é nisso que consiste todo este grande mito das notícias falsas - por muito que lhes seja dado esse nome depreciativo, elas só são apelidadas de "falsas" se não cumprirem os nossos objectivos individuais... quando, em alternativa, se deveria era perguntar quem as escreveu e, mais importante que tudo o resto, com que objectivo!

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