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Mitologia em Português

08 de Dezembro, 2020

As fábulas de Mkhitar Gosh e Vardan de Aygek

Dadas as semelhanças dos temas, hoje apresentamos aqui as fábulas de Mkhitar Gosh e Vardan de Aygek. Foram ambos autores da Arménia que viveram nos séculos XII e XIII da nossa era, e entre os seus trabalhos contam-se dois livros com estas pequenas histórias. Agora, se este género literário é relativamente simples, a forma como estes dois autores reaproveitaram as regras que tinham de seguir é digna de nota.

O cordeiro e o lobo

As fábulas de Vardan de Aygek, também conhecidas como O Livro da Raposa (pelo facto de muitas das suas histórias terem como personagem esse animal), tratam-se, na sua grande maioria, de histórias de animais, algumas mais famosas que outras - se terão sido interpolações na colecção original, tramas perdidas do tempo da Antiguidade, ou algo completamente diferente, já não sabemos... mas pelo menos algumas delas são bem conhecidas de quem já tenha lido este género literário. Porém, entre as já-famosas histórias de animais, contam-se também algumas indubitavelmente novas, e até um conjunto em que os seres humanos têm o papel principal. Entre este último grupo conta-se, por exemplo, a fábula da mulher orgulhosa, que podemos parafrasear aqui:

Um filho chega a casa e vê a sua mãe - grande, gorda, e de pele muito branca - a rezar, totalmente nua, enquanto chora copiosamente. Achando que esta teria ficado louca, pergunta-lhe o que está a fazer. "Ouvi dizer que os Serafins e os Querubins se apresentam assim [i.e. nus], e rezam assim, perante a Divindade; queria imitá-los, enquanto dirijo a minha prece à Divindade." Face a essa resposta, o filho, incrédulo, não pôde deixar de perguntar "E então, o teu corpo é mais parecido com o dos Serafins, ou dos Querubins?"

 

Esta pequena trama da autoria de Vardan de Aygek, que quase se assemelha a uma piada, é seguida por uma moral - "quando alguém se enche de orgulho, gaba-se e tenta sempre elevar-se acima do que lhe é próprio." Presume-se, nesse sentido, que o autor pretendesse criticar quem toma essa postura na sua vida, mas é curioso que cada uma das historietas presentes nesta compilação - e contrariamente ao que acontecia na Antiguidade e nas criações atribuídas a Esopo - tenha agora uma moral totalmente explícita, talvez para evitar o problema, muito significativo neste género, de se ter de discutir qual é a verdadeira moral por detrás da "lebre e a tartaruga".

 

Também as fábulas de Mkhitar Gosh apresentam morais explícitas, mas na sua compilação parecem ser as lições, mais do que as próprias histórias, o que mais importa. Nesse sentido, parafraseamos então um exemplo emblemático:

Um elefante quis que a sua cria aprendesse Filosofia, e entregou-a a Platão para tal. Mas, depois, o jovem elefante não conseguia entrar na sala de lições, nem ler um livro, nem tocar com a sua cabeça no chão. Então, Platão levou-o de volta ao seu pai, dizendo-lhe que este não tinha qualquer vocação para aquilo a que se tinham proposto.

[E a lição é:] Cada pessoa deve escolher fazer algo apropriado para si mesma.

 

Estamos, naturalmente, a parafrasear o conteúdo original, mas as muitas histórias de árvores, vegetais, animais e até seres humanos, presentes nesta compilação de Mkhitar Gosh são, de um modo geral (e talvez salvo uma única excepção), tão simples quanto isto. Podem quase sempre ser lidas em menos de um minuto. Presume-se, portanto, que a intenção seja a reflexão por parte do leitor, mais do que uma possível diversão na leitura de uma história ficcional.

 

Para terminar, o que dizer sobre estas fábulas de Mkhitar Gosh e Vardan de Aygek? Cada uma destas duas compilações tem os seus pontos fortes e fracos, mas quem os quiser averiguar na primeira pessoa depressa se deparará com um problema - ambas as obras são bastante difíceis de encontrar. As fábulas do primeiro autor estão traduzidas para Inglês, as do segundo apenas existem numa tradução francesa parcial (e em Inglês, mas numa obra que ainda não foi publicada), mas presume-se que não se possa entrar numa qualquer livraria, mesmo online, e adquirir alguma delas sem dificuldade. O que é pena, porque as lições que os textos desta natureza têm para nos transmitir raramente passam de moda, e são tão importantes hoje como no dia em que foram escritos...

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