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Mitologia em Português

20 de Julho, 2022

Santa Vilgeforte, uma santa transexual?

O tema de Santa Vilgeforte surgiu-nos há alguns dias atrás, enquanto discutíamos algumas estranhas lendas dos santos. Nesse contexto, pode-se falar de São Guinefort, de São Cristóvão Cinocéfalo, de Barlaão e Josafá, até mesmo de algumas histórias como as de Santa Iria, mas a de hoje ultrapassa todas as outras na sua estranheza. Basta até olhar para uma representação de toda esta figura, também conhecida entre nós como Santa Liberata, e muito depressa se constata que ela não pode deixar de causar uma enorme estranheza em quem a vê:

A estranha Santa Vilgeforte

Santa Vilgeforte é claramente uma mulher e do sexo feminino - basta constatar o seu vestido e os seus seios - mas apresenta-se com barba e prestes a morrer crucificada. É essa barba o seu elemento mais famoso, a forma mais fácil de a identificar, mas com o passar dos séculos foram-lhe também associados dois outros, nomeadamente sapatos preciosos (um dos quais a cair ao chão), e um violinista. Mas de onde vêm todos estes estranhos elementos? É de toda essa estranha história que aqui falamos hoje!

 

Não sabemos se é suposto ela ter nascido Vilgeforte ou Liberata, nem sequer onde ela terá vindo a este mundo (pelo menos uma versão faz dela filha de um rei de Portugal!), mas as lendas dizem que era, originalmente, uma mulher muito atraente que dedicou a sua virgindade a Deus. Depois, e como é habitual nestes casos, a sua beleza atraiu o filho de um nobre, que por ela nutria um grande amor, naturalmente não correspondido. Mas, como os tempos eram outros, ela ia ser forçada a casar com esse homem, até que pediu a Deus que a salvasse, que lhe retirasse a beleza que tantos problemas lhe estava a causar. E assim foi feito - nasceu uma (supostamente horrenda) barba na cara desta jovem, o que muito irritou o seu anterior apaixonado, levando-a ao cancelamento do casamento e à sua crucificação.

Os mais atentos poderão notar que este cerne da lenda de Santa Vilgeforte não explica nem o sapato de ouro, nem o violinista. Sobre esses elementos, a história foi sofrendo bastantes alterações ao longo dos séculos, mas numa das versões mais populares diz-se que com o passar do tempo foram feitas imagens desta santa, então já há muito falecida, e que um dado dia um crente - que era violinista - se aproximou dela e lhe pediu ajuda. A imagem da santa, compadecida, atirou-lhe um dos seus preciosos sapatos, como pode ser constatado na imagem ali de cima, provavelmente para que este o pudesse vender e comprar algo para comer.

 

Toda esta lenda poderia ficar por aqui, mas a estranheza da sua conjugação de elementos - uma mulher crucificada e com barba; os sapatos de ouro; o violinista; etc. - tem obrigatoriamente de nos levar a uma outra história medieval.

A Santa Face de Luca

Há muito que se sabe que esta santa nasceu não de uma mulher real, mas de uma representação de Jesus Cristo na cidade italiana da Lucca, que é hoje conhecida como a "Santa Face de Lucca". Como é fácil constatar nesta segunda imagem que aqui apresentamos, este Cristo está completamente vestido (para os menos atentos, na igreja católica ele tende a ser representado quase nu), tem barba, e na gravura até pode ser visto acompanhado por um violinista e um sapato (presume-se que seja precioso). Muito mais podia ser dito sobre essa representação - por exemplo, a tradição diz que ela foi feita por Nicodemos, tal como o nosso Bom Jesus de Matosinhos - mas para hoje e para esta lenda de Santa Vilgeforte basta-nos apontar as evidentes semelhanças entre estas representações de figuras supostamente distintas.

 

O que aconteceu, então? Como foi tudo isto possível? Hoje, acredita-se que alguém levou uma representação da Santa Face de Lucca para outros locais, e que a sua proveniência original foi sendo esquecida ao longo do tempo. Nesse seguimento surgiu a necessidade de tentar explicar uma representação que, fora do seu contexto original, parecia agora mostrar uma mulher barbuda crucificada... o que levou ao nascimento, puramente lendário, da figura que veio a ficar conhecida como Santa Vilgeforte ou Santa Liberata, e que hoje, descoberta toda esta falsidade, já não parece ser encontrada em nenhuma igreja!

 

Mas... mais uma vez, toda esta história de Santa Vilgeforte - ou Santa Liberata, se preferirem - ainda não fica por aqui, existem mais duas curiosidades que lhe podemos associar. A primeira diz que esta santa é uma espécie de padroeira, não oficial, das mulheres maltratadas pelos maridos - seria, sem qualquer dúvida, uma figura muito útil para a violência doméstica dos nossos dias, mas toda a ideia parece vir, em exclusivo, do seu nome de Liberata (que significa "libertada" em latim), sugerindo que tal como esta jovem foi salva de um mau casamento, também quem a venere será protegida ou libertada no seu. Se alguém quiser tentar invocá-la, reproduzimos abaixo uma oração desta santa que aparece na obra The Female Crucifix: Images of St. Wilgefortis since the Middle Ages, de Ilse Friesen, que também é uma boa introdução a todo este tema:

Hail, holy servant of Christ, Wilgefortis, you loved Christ with all your soul; as you spurned marriage to the king of Sicily, you kept faith to the crucified Lord. You suffered the torments of imprisonment by order of your father; a beard grew on your face, a gift you obtained from Christ because you wished to be His; you confounded those who wished you to marry. When your impious father saw you thus deformed, he raised you up on the cross, where you quickly in your virtue gave back your pleasing soul, commended to Christ. Therefore, we reflect on your memory with devout praise, O virgin; O blessed Wilgefortis, we request you to pray for us.

 

A segunda - se é mesmo verdade, ou um puro rumor, ainda não conseguimos descobrir - diz que alguns membros das comunidades ditas "LGBTQ+" vêem nesta figura uma sua santa, pelo facto de ela ser claramente mulher mas também ter barba. O que até poderia fazer algum sentido, claro, não fosse o facto da barba desta figura se tratar de um mero instrumento para a tornar menos bela - assim dizem as lendas - e de a sua existência ser tão puramente ficcional como as de Santa Ninfa ou São Zeus...

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