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Mitologia em Português

28 de Novembro, 2022

As lendas de Varaha e Narasimha

Na longa sequência de outras lendas dos avatares de Vishnu, contamos hoje aqui as de Varaha e Narasimha. Porém, mais do que as recontarmos com as nossas próprias palavras, como já aqui fizemos para outras (e.g. Matsya e Kurma), iremos fazer algo um pouco diferente - na Biblioteca Nacional de Portugal existe uma obra manuscrita de título Noticia Summaria do Gentilismo da Azia, de meados do século XVIII, que conta de uma forma relativamente breve muitos dos principais mitos da Índia. Entre eles contam-se, como é natural, os relativos a estes dois avatares, pelo que hoje contaremos as suas respectivas histórias com as mesmas palavras com que essa tal obra as resume, ligeiramente adaptadas para facilitar a leitura nos nossos dias:

 

Da terceira encarnação, a que chamam Varaha Avatar.

Na primeira época [do mundo] houve outro movimento na terra a cujo rigor ficou inclinação pelos lados e о mesmo artifice, em figura de um quadrúpede chamado Varaha, fixando os seus dentes nas extremidades da mesma terra, fez conservá-la firme daquele movimento.

 

Da quarta encarnaçâo a que chamam Narasimha Avatar.

Na dita primeira época [do mundo], um imperador chamado Iranne Caxiepo, filisteu muito poderoso, teve um filho chamado Pralahado : o dito imperador deu-se todo ao serviço de Shiva e conseguiu dele a felicidade de ser insensível, e de nenhum mortal, por mais ardiloso que fosse, o pudesse privar de vida humana. E como se achou nessa excelência, fulminou decretos e mandos no seu império, que pessoa alguma debaixo da pena capital adorasse a outros deuses mais que tão somente a Shiva, a quem ele dava о culto, em cuja determinaçao se praticou no dito império.
Porém, o seu filho Pralahado adorava unicamente ao omnipotente [Vishnu], e assim persistiu nessa adoração, não reconhecendo a outro algum por deus. Soube о imperador que só o seu filho preteria os seus decretos, e irado contra ele quis apurar a sua paixão, mandando-o lançar no fogo de vivas fogueiras, despenhar dos altissimos montes, e meter no mar profundo, de que ficou [sempre] vencedor este, por soccorro do omnipotente.
Por último, como a cólera do imperador não se abaixava, conduziu o filho à sua presença e perguntou-lhe onde estava o deus que ele adorava. Este respondeu que estava em toda a parte. Tornou a perguntar-lhe o mencionado imperador se estava também na coluna de pedra preta que aí estava, e disse о filho que sim, pois logo havia de mostrar о contrário, que a cabeça havia de mostrar fora dele, a qual proposição conviu o dito filho, sempre firme na omnipotência do deus, e pondo-se em oração, foi-se abrindo a dita coluna de pedra e aí foi visto Vishnu em figura humana, e arremetendo-se com furor contra о imperador, о deixou em pedaços e pegou do seu filho Pralahado e o pôs no trono imperial.

 

De um modo muito geral, estes dois resumos até captam os elementos mais essenciais das lendas de Varaha e Narasimha, mas (infelizmente) omitem alguns pormenores deliciosos que parecem unir as duas histórias. Na primeira delas, se o deus Vishnu tomou efectivamente a forma de um javali para salvar a terra de um conjunto enorme de terramotos que a assolavam, algumas versões atribuem essas calamidades a um deva chamado Hiranyaksha, que acabou morto por esta divindade, como mostrado ali na imagem.

Uma estátua de Narasimha

Algum tempo depois (que nisto dos multiversos é sempre difícil controlar datas...), quando Vishnu tomou a estranha forma de um homem-leão, fê-lo para destruir a figura a que o texto em português chama "Iranne Caxiepo". Ora bem, este Hiranyakashipu - como ele é chamado na versão original - era irmão do causador dos tais terramotos, e então, horrorizado com o destino do seu familiar, rezou e meditou durante anos, até que o deus Shiva lhe decidiu conceder um dom. Ainda descontente com o triste destino do irmão, este deva pediu então uma quase imortalidade* - não podia ser morto durante o dia ou durante a noite; nem por homem, nem por animal; nem no interior de algum lugar, nem no exterior; entre outras limitações. Depois, quando Narasimha saiu da tal coluna negra, agarrou este monarca num abraço letal, esperou pelo momento do pôr do sol, arrastou-o para a ombreira de uma porta e devorou-lhe as entranhas, matando-o, como também mostra a imagem acima.

 

Se até existe esta ligação curiosa entre as duas lendas, devemos esclarecer que esta ponte entre elas não é verdadeiramente original. Ela parece ter sido adicionada a toda a história num período mais recente, possivelmente quando se estabeleceu uma espécie de cânone dos avatares de Vishnu, pelo que nas versões mais antigas Varaha veio ao mundo "apenas" para salvar o nosso mundo de enormes terramotos, enquanto que Narasimha sempre foi uma espécie de ligação entre os avatares do deus que eram animais e os que são, depois, já completamente humanos.

 

Para terminar, talvez mais algumas notas sobre o tal livro Noticia Summaria do Gentilismo da Azia. Por um lado, ele preserva-nos uma visão ocidental de algumas das principais lendas da Índia, juntamente com algumas belíssimas representações alusivas a elas, cujo número varia de edição para edição (encontrámos pelo menos três, uma delas pode ser encontrada nesta página...); mas, por outro, a forma como reconta algumas dessas histórias é demasiado sucinta, incompleta, difícil de seguir por quem ainda não as conhecer minimamente. É uma espécie de introdução ao tema para quem já não precisa dela, talvez mais focada para uma espécie de cristalização das crenças de uma região indiana em determinado período da sua história, do que em sumarizar, de forma contínua e bem perceptível para o leitor, as mesmas tramas. Portanto, talvez até seja um texto interessante para aprender um pouco mais sobre estes temas, mas não é indica para uma verdadeira introdução, mesmo que o título o pareça sugerir...

 

 

*- Porque não pediu ele uma imortalidade plena? Claro que é uma boa questão, mas neste caso a resposta é igualmente válida e aparece bem explícita nas lendas hindus - se foram várias as figuras que até tentaram pedir aos deuses uma imortalidade completa, estes rejeitam sempre concedê-la, propondo depois alternativas que, impreterivelmente, têm alguma falha e acabam por levar à destruição de quem as pediu.

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24 de Novembro, 2022

O caso esquecido de Robert Gardner

Esta estranha história de um tal Robert Gardner, de origem inglesa e que passou por Portugal no ano de 1552, foi uma a que encontrámos uma pequena alusão na obra Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa e que nos pareceu tão digna de nota que achámos que lhe deveríamos dedicar algumas linhas, até por se tratar de um evento que, apesar de ser pura realidade, hoje nos poderá parecer uma mera lenda e nada mais.

Robert Gardner e o caso da hóstia

Em Dezembro de 1552 o rei Dom João III estava a assistir a uma missa na Capela Real de Lisboa, juntamente com a sua corte, quando algo de muito invulgar aconteceu. No instante em que o padre ergueu a hóstia para a consagrar (e relembre-se que nesses outros tempos ele o fazia de costas para os crentes), Robert Gardner agarrou-a, atirou-a ao chão, pisou repetidamente o metafórico "corpo de Cristo" e derrubou também o cálice com o que viria a ser o "sangue de Cristo". Horrorizados, os crentes quiserem matá-lo logo ali, naquele local e no preciso momento das ocorrências, mas o rei insistiu que ele ainda deveria ser julgado para poder ser punido legalmente.

E isso veio a acontecer de forma bastante célere, e muito naturalmente que Robert Gardner foi depois condenado à morte, mas um aspecto importante do caso é o facto de este estrangeiro ter insistido, repetidamente, que não fez qualquer mal a Deus - isto, porque se até era cristão, a sua forma de crença - possivelmente a anglicana - não acreditava na transmutação mística que ainda hoje parecemos associar ao pináculo da nossa missa.

 

Mas toda esta história de Robert Gardner ainda não fica por aqui - diz-se ainda que Dom João III ficou tão perturbado com toda esta ocorrência que não mais se esqueceu dela até ao fim da sua vida. Anos mais tarde, Francisco de Holanda, na obra já nomeada acima, deu depois a ideia de se construir uma renovada capela no local, como que para pedir desculpa a Deus face ao que aí se tinha passado... mas tudo isto está hoje quase esquecido, por muita importância que até possa ter tido nesses outros tempos, mas não pode deixar de nos levar a perguntar o que aconteceria se alguém repetisse a façanha nos nossos dias de hoje*...

 

 

*- Relembre-se que esse tipo de violações da hóstia eram relativamente comuns em outros tempos, como a famosa história do Santíssimo Milagre de Santarém também atesta, mas ao longo do tempo foram-se tornando cada vez menos comuns, talvez pela perda progressiva da crença nos poderes místicos de uma hóstia consagrada.

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21 de Novembro, 2022

Quem foi o dragão do País de Gales?

Começou ontem o Campeonato Mundial de Futebol, e entre as bandeiras dos países participantes conta-se a do País de Gales. Se muitas das outras até têm alguns elementos que remetem para as culturas locais (relembre-se, por exemplo, a simbologia da nossa bandeira portuguesa), já esta tem um claríssimo elemento mitológico, um dragão vermelho, mesmo no seu centro. O que, para qualquer pessoa com um mínimo de curiosidade ou de cultura geral, não pode senão levar a que se pergunte que estranha criatura é esta, ou que importância terá tido na cultura galesa para ter sido homenageada de uma forma tão notável na bandeira do seu país.

País de Gales e o seu dragão vermelho

Infelizmente, o tempo parece ter feito esquecer aquela que poderá ter sido a verdadeira origem do dragão do País de Gales - terá sido um símbolo de um antigo exército romano, como dizem alguns? - mas na Historia Regum Britanniae, um texto medieval que é um misto de lendas e histórias locais, existe aquela que parece ser a mais antiga, e igualmente mais significativa, referência a este dragão vermelho. No decorrer das muitas aventuras que nos reconta, é em dada altura dito que Ambrósio Aureliano, um líder guerreiro dos anglo-saxões (e, para alguns, igualmente tio do super-famoso Rei Artur), pediu a Vortigern, rei dos bretões, que desenterrasse dois dragões de um local próximo de um castelo. Um deles era vermelho, o outro branco, como pode ser visto na pintura ali em cima. As duas criaturas depressa se envolveram num combate assustadora, em que o segundo saiu vitorioso por diversas vezes, mas o primeiro acabou por conquistar a derradeira vitória*...

 

E o que tem tudo isto a ver com a bandeira do País de Gales e o seu próprio dragão vermelho? O estranho episódio é, mesmo na obra literária em questão, interpretado como uma metáfora para os antigos combates entre os anglo-saxões e os bretões celtas, com o sentido de que os primeiros iriam ganhar diversas batalhas mas os segundos, os habitantes nativos deste país, no final iriam ganhar toda a guerra e conquistar para si mesmos a terra que lhes pertencia... e o resto é história, como se costuma dizer, com o monstro simbólico da lenda a se tornar, ao longo dos séculos, um dos grandes símbolos da nação galesa.

 

*- E quanto ao dragão branco, para quem tiver ficado com essa derradeira curiosidade, após a derrota que sofreu nesta pequena guerra parece ter desaparecido, para não mais voltar a ser visto...

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20 de Novembro, 2022

Sobre a série "Revelações Pré-Históricas"

Há alguns dias foi lançada a série Revelações Pré-Históricas, conhecida no seu original inglês como Ancient Apocalypse. É relativamente curta, com um total de apenas oito episódios de mais ou menos 30 minutos cada, mas se à primeira vista se parece assemelhar a uma espécie de cópia de Ancient Aliens - e algumas das menções no próprio programa até parecem brincar com essa possível relação - as duas séries são bastante diferentes, no sentido de que esta não só levanta explicações mais terrenas para muitos dos problemas já apresentados na outra, como em alguns casos até aborda, em favor do espectador, as próprias teorias contrárias às de Graham Hancock, que aqui serve de apresentador para as próprias pesquisas que foi conduzindo.

Uma apresentação da série Revelações Pré-Históricas

Então, quais são estas Revelações Pré-Históricas? Em cada um dos oito episódios o apresentador foca-se num local pelo mundo fora que, na sua opinião, ainda nos esconde alguns segredos preciosos. À medida que a série avança, vai lançando a ideia de que existe um traço horizontal entre esses mistérios; em outras séries talvez se apresentasse constantemente a ideia de que os extraterrestres são os culpados, mas aqui é defendida uma teoria que diz que há cerca de 12000 anos atrás - mais século, menos século - o nosso planeta sofreu uma enorme catástrofe natural e os sobreviventes da época sentiram a necessidade de nos deixar um aviso para este nosso futuro. O conteúdo desse aviso ficará reservado para quem for ver a série, até porque tudo se parece compor apenas no último episódio.

 

Mas, visto este ainda ser um espaço sobre Mitologia, e acrescentando-se a informação de que não fomos pagos para fazer qualquer publicidade, onde entra esse tema nestas Revelações Pré-Históricas? Essencialmente, o apresentador vai demonstrando a existência de mitos, apresentados sob a forma de sequências animadas, em civilizações distantes, e cujas tramas nos preservam ideias muito idênticas. Fala-se do dilúvio universal, de Oannes e Quetzalcoatl, até mesmo da Atlântida, para demonstrar a ideia de que todas essas diversas culturas parecem ter sido afectadas por uma catástrofe natural e reagiram de formas diferentes aos problemas que esta lhes levantou. Não é fácil discernir até que ponto o seu autor terá razão - caso contrário, estas não seriam apenas teorias, mas verdadeiras certezas incontestadas... - mas tudo isto parece fazer algum sentido e permite, no mínimo dos mínimos, conseguir-se explicar o porquê da existência de ideias tão semelhantes em culturas totalmente diferentes.

Vale, portanto, a pena ver esta série das Revelações Pré-Históricas? Ela parece ser apropriada não só para quem tem interesse em mistérios históricos, mas igualmente para quem gosta de viajar. Cada um dos episódios vai sendo mostrado com belíssimas imagens panorâmicas dos locais que o apresentador vai visitando, mas também foi construída com base numa trama condutora, fazendo com que o tema de cada episódio seja em parte prosseguido no seguinte, em vez de eles se focarem em temas completamente distintos, como acontece em muitas outras séries do mesmo género. Acredite-se, ou não, nas teorias que aqui vão sendo apresentadas, pelo menos no decurso da série vão-se aprendendo algumas coisas novas e conhecendo novos locais, com pelo menos um deles, na Turquia, a ser aqui apresentado sem que alguma vez tenha sido filmado antes...

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17 de Novembro, 2022

A História do Livro de Mórmon

Contar-se a história do Livro de Mórmon já cá estava como que prometido há algum tempo. É o livro sagrado dos Mórmones - ou da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, como parecem ser mais conhecidos em Portugal - mas o que tem especial interesse para as linhas de hoje não é tanto o conteúdo da própria obra, mas uma célebre história que se esconde por detrás dela. Se é um puro mito, uma lenda, ou algo de completamente real é algo que deixamos ao critério dos leitores, depois de conhecerem as linhas deste relato, que parecem ser bastante famosas na América do Norte mas nem tanto em países europeus como o nosso.

Joseph Smith e a história do Livro de Mórmon

Em inícios do século XIX viveu nos Estados Unidos da América um homem de nome Joseph Smith. Contar toda a sua história é uma tarefa complicada e ultrapassa os nossos objectivos de hoje, mas segundo o próprio, quando tinha 17 anos de idade um anjo de nome "Moroni" apareceu-lhe e revelou-lhe que numa colina próxima estavam escondidos antigos textos religiosos gravados em folhas de ouro. Após algumas peripécias, a 22 de Setembro de 1827 foi-lhe permitido que levasse esses textos para casa, mas eles estavam escritos em "Egípcio Reformado", língua que Smith só conseguiu traduzir com o auxílio de um misterioso processo chamado "Urim e Tumim". Como tudo isso se processou parece variar mediante as versões, mas o essencial a reter é que o chamado Livro de Mórmon é, supostamente, um texto escrito pelo profeta Mórmon, por volta de 600 anos antes da vinda de Jesus Cristo, e que alguns acreditam que apenas foi trazido para os dias de hoje pela tradução de Joseph Smith.

 

Mas será isto verdade? Terá sido esta, de facto, a origem do Livro de Mórmon? Por um lado, parecem ter existido testemunhas na época que afirmaram terem visto as folhas de ouro, Urim e Tumim, e Joseph Smith a conduzir o seu estranho processo de tradução, que pode ser visto representado na imagem ali em cima. Por outro, quem for ler o texto - supostamente traduzido - com atenção poderá ver que ele contém algumas passagens muito semelhantes a textos conhecidos à data nos EUA e que o antecedem sem margem para dúvidas.

 

Além disso, o reencontro de um texto religioso antigo através de placas de bronze ou ouro não é propriamente uma grande novidade - até já aqui contámos um caso semelhante, o de Acusilau de Argos, que passou por uma experiência semelhante. Existem várias outras em culturas por todo o mundo - relembre-se ainda o estranho caso das Pedras Dropa - e em comum todas essas histórias parecem ter o facto da fonte original já não estar disponível para consulta directa. Isto é particularmente curioso no caso dos crentes deste Livro de Mórmon, porque eles são óptimos a guardar registos - muitos dos manuscritos de Joseph Smith ainda nos chegaram, como atesta este artigo da própria igreja em Inglês - mas neste caso específico, dizem-nos que as tais "placas de ouro" foram entregues novamente ao anjo Moroni ou deixadas numa caverna misteriosa (que, por mero acaso, até já tinha muitos outros textos no seu interior).

 

Por isso, será esta história da origem do Livro de Mórmon verdade, uma lenda, ou puro mito? Os leitores que decidam, em função das provas (simplificadas) que apresentámos aqui.

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14 de Novembro, 2022

O mito grego de Penteu

O mito de Penteu é um que nos é hoje particularmente famoso pela forma como foi representado na tragédia euripidiana As Bacantes. Claro que também nos é conhecido através de uma das obras de Ovídio e de fontes mais tardias, mas parece ser pelas linhas do antigo autor grego que a história em questão se foi tornando particularmente conhecida ao longo dos séculos. Portanto, iremos aqui recordá-la nas linhas que se seguem.

O mito de Penteu, da Grécia Antiga

Penteu era um monarca da cidade de Tebas, aquela tal que se dizia ter sete portas. Um dia, foi visitado pelo deus Baco e seu séquito, mas recusou-se a aceitá-lo como uma divindade, proibindo até o seu culto na região. Ofendido com essas acções, o deus deu-lhe vários avisos, que não foram ouvidos, e causou a loucura de algumas da familiares do monarca, que se encontravam entre as Bacantes, antes de o conduzir pelos campos, supostamente para lhe mostrar alguns dos horrendos rituais secretos que elas se encontravam a conduzir. Mas, ao mesmo tempo, o deus do vinho e da vinha induziu uma ilusão nas praticantes do seu ritual - fê-las ver no rei uma espécie de animal selvagem (talvez um javali), que elas depressa trucidaram, despedaçando-o brutalmente e separando-o em vários pedaços de homem. E, depois, fê-las reconhecer a realidade por detrás do horrendo acto que tinham praticado. Face à ocorrência, a divindade de Baco - também conhecido como Dioniso - não mais foi duvidada e os seus ritos foram reinstituídos.

 

As diversas versões desta história parecem distinguir-se pelos vários avisos que Penteu recebeu face à divindade de Baco, como o de um viajante que viu os companheiros tornarem-se golfinhos. Poderiam adicionar-se muitos mais episódios a esse aviso, mas a mensagem geral é muito clara - o monarca até poderia ter recebido todos os avisos deste mundo e sempre se recusaria a ouvi-los. É por isso que acaba por ser punido, por essa sua incapacidade de aceitar, no seu coração, a nova divindade.

É uma ideia interessante, porque este Baco / Dioniso / Zagreu é um dos poucos deuses da Grécia Antiga que não nasceram como completamente divinos, mas como que foram conquistando esse lugar no Monte Olimpo ao longo das suas aventuras. Existem outros casos (o de Hércules é provavelmente o mais famoso), que abrem a possibilidade de ter existido um tempo em que este deus, como alguns outros, ainda não fazia parte do panteão grego; lembre-se, por exemplo, o seu "papel" nos Poemas Homéricos, bem como outras provas que parecem indicar essa realidade, e depressa se poderá compreender o cepticismo de Penteu, e de outras figuras, face à introdução de novos deuses entre aqueles em que os locais acreditavam antes...

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10 de Novembro, 2022

Friar Rush, um diabo tornado homem

Friar Rush é o nome inglês de uma personagem ficcional que nos é conhecida desde pelo menos os finais do século XV. Originalmente Broder Rusche nos países germânicos (entre outros nomes possíveis), esta é uma curiosa história que merece ser recordada por cá, dado estar quase esquecida mas não deixar de ser invulgar.

Capa da história de Friar Rush

Recontando então brevemente a história deste Friar Rush, ele era um diabo que reencarnou num corpo humano e se fez introduzir num mosteiro da época. No seu interior causou depois muitos problemas - talvez o mais curioso seja o de originar a morte de um cozinheiro num caldeirão de água a ferver - até que lá foi descoberto e expulso do local. As aventuras que depois se seguem parecem variar de versão para versão, mas na que lemos, a ilustrada acima, depois Rush vai viver com um agricultor (cujas infidelidades da esposa acaba por revelar), e finalmente acaba por possuir a filha de um poderoso homem; é exorcisado e expulso mais uma vez, para - aparentemente - não mais tornar a ser visto.

 

Em suma, a narrativa de Friar Rush, para quem ainda desejar lê-la, é muito curiosa pela forma como joga com o tema de fazer do seu (anti-)herói uma personagem demoníaca mas cujos actos nem sempre podem ser lidos ou interpretados como puramente maus. Ele não é uma personagem malvada, que só comete erros e faz males, mas uma que também acaba por realizar diversos actos menos negativos que podem, até certo ponto, confundir o leitor, como quando ele revela as diversas infidelidades da esposa de um agricultor. Se, por um lado, ele não é um demónio bondoso (como o apresentando em algumas histórias do México), também não é puramente mau (como o famoso interveniente da história de Fausto), parecendo que a história foi até criada para jogar com esses dois pólos de expectativas. Porém, como no conto, bem mais recente, de Roberto o Diabo, a ideia por detrás de toda esta história parece ter sido um pouco mal aproveitada, já que também permitiria um conjunto de aventuras adicionais que, infelizmente, as obras da época raramente tendem a aproveitar...

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08 de Novembro, 2022

As Questões de Bartolomeu

As Questões de Bartolomeu contam-se entre muitos textos cristãos do início da nossa era que se foram perdendo ao longo do tempo. Isso aconteceu por terem sido designados como apócrifos, "não oficiais", ou seja, como textos que se acreditava que não foram inspirados pela verdadeira fé cristã, mas apenas inventados pelos seres humanos, como sabemos que aconteceu com os novelescos Actos de Paulo e Tecla. É difícil saber até que ponto tudo isso será verdade - quer dizer, o que distingue um Evangelho de Mateus de um Evangelho de André? - mas, pelo menos, era assim que se pensava nos tempos da Antiguidade. E então, entre textos atribuídos aos outros apóstolos de Jesus, contava-se este, que até poderá ser o mesmo, ou apenas um segmento fragmentário, de um Evangelho de Bartolomeu.

O suposto autor destas Questões de Bartolomeu

O que têm então estas Questões de Bartolomeu de digno de nota? Existem delas diversas versões, mas naquela a que tivemos acesso, uma versão grega da composição original, este apóstolo encontra-se com Jesus e com os restantes após o episódio da ressurreição e decidem colocar ao Filho de Deus diversas questões. Esse formato de questão/resposta é relativamente comum em textos gnósticos, mas o que este caso tem de notável é a própria natureza das perguntas que aqui são colocadas, que parecem ser muito mais "picantes" do que as apresentadas em outros textos da mesma natureza.

Por exemplo, é perguntado a Jesus o que fez durante os três dias que precederam a ressurreição - e surge um segmento textual em que as próprias forças das trevas testemunham a "Descida aos Infernos" na primeira pessoa; depois, tenta-se saber como é que Maria concebeu Jesus - uma revelação que, segundo o Filho, destruiria todo o mundo; os apóstolos pedem para ver os Infernos e aquele grande opositor da humanidade - e até falam com ele (!); e surge uma pequena discussão sobre os pecados que eram vistos como os mais importantes (provavelmente a sequência menos interessante).

 

Mas, no meio de estes episódios das Questões de Bartolomeu vai-se ficando sempre com a ideia de que o seu autor sabia ou conhecia mais do que aquilo que nos vai comunicando. A inquirição sobre a concepção de Jesus é o perfeito exemplo disso mesmo - quando Maria se prepara para revelar mais do que podia, começam a sair línguas de fogo da sua boca, prestes a destruir todo o mundo. Jesus ordena-lhe imediatamente que pare, que não conte nada mais, mas de onde terá surgido uma ideia como essa? Se a, hoje pouco conhecida, Descida aos Infernos nos é conhecida do Evangelho de Nicodemos, terá existido um texto em que a mãe de Jesus também contava aquilo que aqui se vê impossibilitada de revelar? É provável que sim, mas as provas existentes impedem-nos de o concluir com absolutas certezas.

 

Ainda assim, estas Questões de Bartolomeu são importantes, por nos preservarem um conjunto de ideias e questões católicas cujas respostas foram sendo esquecidas - ou alteradas - ao longo dos séculos, mas que nesses outros tempos dos inícios do Cristianismo até tinham respostas significativas à altura. Em muitos casos eram respostas que hoje até nos poderiam chocar, mas que então tinham a capacidade de responder a muitas questões bíblicas que continuam a ser perguntadas hoje em dia. E talvez seja essa a grande beleza de textos como estes, essa possibilidade de conseguir responder a questões que em muitos casos o leitor até poderia ainda nem saber que tinha. Por isso, apesar de pequeno nas suas formas actuais, esta não deixou de ser uma obra aqui digna de nota.

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06 de Novembro, 2022

Maria Pacheca, uma transexual do século XVI

Visto que os temas da transexualidade andam hoje em dia muito na baila, decidemos falar de Maria Pacheca, provavelmente um dos mais famosos casos de Portugal. Pelo contexto, podemos depreender que o caso dela se passou em meados do século XVI, mas parece que tudo o que nos chegou sobre esta figura é o relatado por Amato Lusitano, médico que nasceu e faleceu nesse mesmo século. Recordamos aqui as breves linhas sobre o caso, tal como aparecem em Amato Lusitano e as problemáticas sexuais, de Isilda Teixeira Rodrigues:

A igreja da Esgueira, onde viveu esta Maria Pacheca

Em Portugal, na freguesia da Esgueira, a nove léguas de Coimbra, cidade ilustre, havia uma rapariga, fidalga, cujo nome, se não me engano era Maria Pacheca. Chegada à idade em que as mulheres costumam ter pela primeira vez a menstruação, em vez desta, principiou a aparecer-lhe e a desenvolver-se um pénis que até esse tempo estivera interiormente oculto. Desta forma transitou de mulher ao sexo masculino, vestiu fato de homem e foi baptizada, com o nome de Manuel. Foi à Índia, tornou-se famoso e rico, e, ao voltar à pátria, casou. Ignoro, porém, se teve descendência. Todavia estamos cônscios de que ficou sempre imberbe.

 

Pouco ou nada mais se parece hoje saber sobre esta Maria Pacheca - ou Manuel Pacheco, se assim o preferirem - mas o que o relato tem de mais notável é provavelmente o facto de referir, aqui e ali, um construto sexual relativamente simples e que continua a fazer sentido até aos nossos dias de hoje - se tem pénis é homem, tal como se tende a considerar como homens aqueles que têm barba. Isso leva a um certo feiticismo corporal, que também se mantém nos dias de hoje, e a casos como os de Santa Vilgeforte, de que cá falámos anteriormente, e em que pela presença de um (suposto) vestido uma representação de Jesus Cristo passou a ser vista como apenas podendo pertencer ao sexo feminino.

 

Mas a história desta Maria Pacheca não fica por aqui. Como Isilda Teixeira Rodrigues dá a pensar no seu artigo, se tudo isto foi real - e não temos provas reais que o neguem, já que Amato Lusitano parece ter considerado o caso credível - é provável que a mulher que se tornou Manuel Pacheco tenha vivido alguns tempos bastante confusos após a sua transformação. Poderá ter sido isso que levou à sua ida para o além-mar, em busca de novas aventuras e de novas pessoas, porque nas terras em que sempre viveu teria alguma dificuldade em seguir a sua vida como antes, numa outra espécie de tradição que, até certo ponto, também ainda se mantém muito nos nossos dias de hoje. Terá, um dia, tido filhos da pessoa com quem veio a casar...? É um daqueles muitos segredos da História que, provavelmente, nunca se conseguirão desvendar...

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02 de Novembro, 2022

"History: Fiction or Science?", de Anatoly Fomenko

Este History: Fiction or Science?, de Anatoly Fomenko, é provavelmente um dos livros mais estranhos que já passaram por estas linhas. Isto porque se, normalmente, os livros que tendemos a abordar por cá se destacam ora pela positiva, ora pela sua importância cultural, já este - ou, melhor dizendo, esta compilação em sete volumes - acaba por ser digno de nota em função da estranha tese que defende. E é uma tese tão exorbitante que não pudémos deixar de sentir que tínhamos mesmo de ler esta obra. Não foi fácil encontrá-la, e naturalmente que não queríamos gastar dinheiro a comprar toda a colecção, pelo que nos resumimos ao primeiro volume, em que toda a tese do seu autor é apresentada e resumida... e é, verdadeiramente, algo difícil de definir, pela ideia que apresenta ao leitor.

History: Fiction or Science? , de Anatoly Fomenko

Resumidamente, neste History: Fiction or Science? Anatoly Fomenko defende que as cronologias ocidentais estão incorrectas porque sofreram uma espécie de adição de anos durante a Idade Média. E não é apenas algo como o que se passou em Outubro de 1582, mas sim algo muito mais prolongado e complicado. A ser verdade, esta teoria mudaria toda a sociedade e história ocidental tal como a conhecemos, faria cair por terra incontáveis moinhos de vento que temos hoje nos nossos livros de histórias, e... depois, começa-se a ler toda a sequência de livros e começam a aparecer em toda a ideia um conjunto de falhas que até os não-especialistas poderão, em alguns casos, não ter qualquer espécie de dificuldade em reconhecer.

 

Por exemplo, uma das ideias mais estranhas aqui defendidas por Anatoly Fomenko diz que na Idade Média e no Renascimento alguns autores da Antiguidade, como Cícero, eram representados com vestes da época por terem vivido numa época recente. Mas, na verdade, essa é apenas uma convenção iconográfica da altura, como pode ser visto, sem nenhuma dificuldade, em quadros onde cenas bíblicas foram representadas com a presença do seu patrocinador, que, muito naturalmente, não pode ter vivido no tempo dos profectas e de Jesus Cristo.

Outro exemplo, numa dada altura este autor de History: Fiction or Science? argumenta que quando uma data é lida como "xij" em vez de "xii" - ou seja, quando os Romanos usavam um J em vez de um I - isso correspondia a uma data completamente diferente, o que terá levado a muitos erros cronológicos... o que até poderia ser verdade, claro, não fosse o facto de existirem diversos exemplos nos quais os dois caracteres coexistem e pelo contexto se pode depreender que significam precisamente o mesmo!

 

Claro que até podíamos aqui dar muitos mais exemplos, mas a grande lição a reter das linhas de hoje é simples - a não ser que pretendam perder tempo com uma obra bastante estranha e de pouco interesse real, esta é bastante digna de ser evitada. Não é má, mas numa tentativa de defender uma tese demasiado grandiosa, encontra-se repleta de erros basilares crassos. E, talvez por isso, merece ser mencionada pela estranha tese que procura defender e pouco mais...

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