Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Mitologia em Português

Este Das Heresias, de Santo Agostinho, conhecido no original latino como De haeresibus ad Quodvultdeum, é particularmente digno de nota pelo facto de nos apresentar, de uma forma muito sucinta, as ideias em que acreditavam cerca de 88 heresias cristãs. O trabalho de compilação dessa informação não é só deste autor - ele admite explicitamente que utilizou conteúdo das obras de Epifânio de Salamina e de Filástrio, entre outros - mas a sintetização da informação recolhida parece ser exclusiva dele, permitindo ao leitor saber bastante sobre as crenças heréticas de uma forma bastante sucinta, sem que tenha a necessidade de ler páginas intermináveis para saber, por exemplo, a origem do nome dos Luciferianos.

Santo Agostinho, autor desta obra

Era possivelmente esse o objectivo do amigo que convidou Santo Agostinho a escrever este Das Heresias - tinha uma intenção de saber, sucintamente, em que acreditavam os heréticos, e a verdade é que entre as muitas seitas constantes nesta obra se contam opiniões verdadeiramente fascinantes. Por exemplo, um tal "Retório" - de que nem Santo Agostinho tem a certeza do nome - dizia que todos os heréticos tinham a sua razão; outros diziam que a Virgem Maria tinha tido mais filhos após o nascimento de Jesus; um terceiro e quarto grupos veneravam Caim e Seth; outro dizia que o Espírito Santo era filho de Jesus Cristo; pelo menos um acreditava que as águas primordiais eram co-eternas com Deus; uma estranha heresia já dizia que as partes mais baixas do corpo humano (i.e. os órgãos sexuais?) tinham sido criados pelo Diabo; outros recusavam exclusivamente o Evangelho Segundo São João; enquanto que ainda outros veneravam a cobra do Jardim do Éden. Em suma, as opiniões presentes aqui são mais que muitas, cada qual com a sua leitura muito particular de leitura das ideias bíblicas.

 

Quais estariam certos? Quais estão errados? É tudo uma grande questão de opinião, na medida em que foram as ideias católicas que subsistiram e, por isso, os que as praticavam tiveram de demonizar todas as outras, fazendo-as parecer o mais absurdas possível. E é, na verdade, isso que este Das Heresias nos permite ver, a forma como os textos bíblicos podiam ser interpretados para defender um conjunto de ideias muito distintas, sempre ao abrigo da "opinião", aquela faca de dois gumes que o Cristianismo católico cedo tentou exterminar...

Gostas de mitos, lendas, livros pouco conhecidos e curiosidades? Podes receber as nossas publicações futuras por e-mail!

Exemplos de Jatakas

As Jatakas, ou Histórias Jataka, de autoria desconhecida, são uma compilação de histórias provindas da Índia. No entanto, por comparação com um texto como o Panchatantra, apresentam uma característica muito curiosa, na medida em que as diversas histórias são todas incluídas em relatos sobre a vida de Buda. Passamos a explicar.

Segundo as crenças budistas a nossa vida é composta por um conjunto repetido de existências, cada uma delas supostamente um pouco melhor que a anterior. Nesse sentido, se o Buda atingiu o Nirvana enquanto vivia como Sidarta Gautama, isso supõe igualmente um conjunto de existências anteriores, em que aquele a que viriam a chamar "O Buda" passou por todo um conjunto de aventuras. O que os Jatakas fazem é ligar essas aventuras anteriores à figura do Buda existente num tempo que lhe era o presente, seguindo um padrão previsível - surge uma qualquer questão ou problem no tempo presente, e o Buda refere-se à forma como causou, ou resolveu, uma situação semelhante numa vida anterior.

 

Sabemos que as histórias existiam antes dessa sua associação ao Buda, possivelmente até em forma oral, porque elas existem em outras compilações anteriores, mas isso não as torna menos interessantes. Bem pelo contrário, a presença desse contexto permite, de alguma forma, apresentar um conjunto de comentários que até enriquecem as histórias originais, tornando mais fácil compreendê-las e explorar melhor os diversos elementos particulares dos seus enredos.

 

Mas será que vale a pena ler estas Jatakas? Para os leitores ocidentais, podemos resumi-las como mais de 500 histórias semelhantes a fábulas, mas com a adição dos pequenos comentários a cada uma delas já referidos acima. E se essa ideia basilar vos intriga, sim, talvez devam efectivamente lê-las.

Gostas de mitos, lendas, livros pouco conhecidos e curiosidades? Podes receber as nossas publicações futuras por e-mail!

Um animal estranho

Gan Bao foi um autor chinês do século IV da nossa era. O que o torna digno de nota para estas linhas é uma obra que compilou e cujo título original pode ser traduzido como Em Busca do Sobrenatural, em que reporta muitos dos eventos ditos sobrenaturais que foram tomando lugar em terras da China ao longo dos anos. Agora, se essa ideia até nos poderá parecer interessante, a forma muito sucinta como o autor vai relatando a maior parte das ocorrências - mas frise-se que existem excepções, momentos em que ele até conta pequenas histórias com princípio, meio e fim - torna toda a obra muito maçuda. Por isso, nada como ver três pequenos exemplos do conteúdo da obra:

Além dos Mares do Sul existem sereios, que vivem na água e parecem peixes, mas eles sabem coser e tecer, e quando choram as suas lágrimas transformam-se em pérolas.

 

Uma dama que pertencia a Fu Han deu à luz um dragão, uma menina e uma pomba. O Comentário às Mudanças de Ching Fang diz "Quando alguém dá à luz alguma coisa nunca antes vista pelo Homem irão existir disputas no império."

 

Yu Tang foi caçar à noite, encontrou um enorme veado e acertou-lhe com uma flecha. O veado falou com voz humana, dizendo "Yu Tang, tu mataste-me!" Quando o próximo dia nasceu ele encontrou o veado e levou-o para casa. Quando chegou, Tang morreu imediatamente.

 

Pequenas sequências como estas até nos permitem saber mais sobre a cultura chinesa da época, e sem dúvida que nos deixam muitíssimas perguntas engraçadas/estranhas por responder, mas... será que os leitores dos nossos dias acham piada a ler "curiosidades" desta natureza durante mais de 200 páginas? Normalmente a resposta tende a ser negativa, acabando esta Em Busca do Sobrenatural, de Gan Bao, por ser uma obra melhor consumida em quantidades moderadas e por uma audiência muito específica.

Gostas de mitos, lendas, livros pouco conhecidos e curiosidades? Podes receber as nossas publicações futuras por e-mail!

Texto numa pirâmide

Na imagem acima pode ser visto um fragmento da parede de uma Pirâmide do Egipto. Na parte inferior está um bela representação do submundo, com dois deuses a serem transportados na barca em que era feita essa derradeira viagem, segundo os mitos do Egipto. E claro que é uma representação bastante bonita, mas os mais interessados poderão igualmente aperceber-se de que existe aí bastante texto sob a forma de hieróglifos - e, como nós, poderão até ter a curiosidade de se perguntar o que aí está escrito, que palavras acompanham estes desenhos...

 

Como exemplo, decidimos explorar as Pirâmides de Saqqara (ou "Sacara") através de uma obra que nos foi oferecida recentemente, The Pyramid Texts, de Samuel A. B. Mercer. Através dos seus vários volumes, o autor não só traduz estes textos como tece vários comentários e possíveis interpretações dos mesmos. E então, o que dizem esses textos, neste exemplo em particular?

 

Bem... muitas, muitas coisas. De um modo muito geral podem ser resumidos como textos de carácter religioso, mas existem neles sequências mitológicas (que, infelizmente, nunca nos parecem contar nenhuma história de forma completa e contínua...), breves rituais, poemas, referências históricas, elementos cosmológicos, entre outras coisas. Nesse contexto, as imagens como aquela partilhada acima parecem representar uma sequência igualmente presente no texto. Não temos forma de averiguar se isso acontece sempre, mas pelo menos conseguimos ver que acontece em alguns exemplos particulares. Acima, por exemplo, faria todo o sentido que o texto relate parte de uma viagem celestial, em que dois deuses - possivelmente Rá (veja-se o sol e a serpente) e Quenúbis (ou Quenum, com cabeça de carneiro) - tinham um papel principal.

 

De um modo geral, faz sentido que textos como estes estivessem gravados nas pirâmides. Tratando-se de enormes túmulos, a representação de - por exemplo - viagens no submundo, ou das muitas belezas que existiam após esta vida, apresenta-se como contextualmente digna, tal como nos nossos dias são por vezes colocados versos da Bíblia, ou crucifixos, nos túmulos dos falecidos. Quem quiser saber mais pode sempre consultar os diversos livros, ou projectos online, que hoje existem relativos a este tema...

Gostas de mitos, lendas, livros pouco conhecidos e curiosidades? Podes receber as nossas publicações futuras por e-mail!

Um vitral que mostra este bispo e santo

Sidónio Apolinário foi um autor cristão do século V, de nacionalidade francesa (nasceu em Lugduno, hoje Lyons). Chegou a santo, e por razões como essa seria fácil presumir que os seus trabalhos fossem de natureza religiosa. Porém, de uma forma um tanto ou quanto inesperada, os seus poemas - ou Carmina - contêm bastantes referências mitológicas (e algumas históricas, acrescente-se), apesar de serem significativamente limitadas - o autor refere os mesmos mitos uma e outra vez, até de formas semelhantes. Por exemplo, numa dada altura ele resume o mito de Hércules da seguinte forma:

 

Não irei aqui embelezar os trabalhos de Hércules, a quem o javali, o leão, o Gigante, a Amazona, o visitante, o touro, Erix, os pássaros, Lico, o ladrão, Nesso, o Líbio, os jugos, as maçãs, a virgem, a serpente, o Monte Eta, os cavalos da Trácia, as vacas da Ibéria, o rio lutador, o cão de três formas e o carregamento do céu deram a fama.

 

Claro que quem conhecer os mitos do famoso herói saberá reconhecer estas referências, e ver até um certo charme nelas, mas quando um mesmo autor se refere ao herói de forma muito semelhante em vários outros poemas, a novidade e beleza do original depressa se perde. Mas, por outro lado, a obra também tem alguns momentos mais notáveis, como quando na sexta composição nos descreve o nascimento da deusa Atena.

 

É um obra interessante? Dificilmente; talvez seja mais correcto dizer-se que tem alguns momentos interessantes, aqui e ali, mas que o uso que Sidónio Apolinário faz dos mitos da Antiguidade já não é o mesmo dos autores dos séculos anteriores, na medida que os temas que tinha acessíveis poderão parecer, a um leitor mais informado, significativamente limitados e, por isso, um tanto ou quanto repetitivos.

Gostas de mitos, lendas, livros pouco conhecidos e curiosidades? Podes receber as nossas publicações futuras por e-mail!

Mas como nem só de Filosofia e de pensamentos profundos podemos viver, fica também aqui um curioso epigrama de Filodemo:

 

Apaixonei-me por uma Demo de Pafos - nada de surpreendente. E, depois, por uma Demo de Samos - também nada de especial. E por uma Demo de Hisias - já não tem muita piada... - e ainda por uma Demo de Argos. Devem ter sido as próprias Moiras que me chamaram Filodemo, para que esta paixão ardente por uma mulher chamada Demo tomasse repetidamente conta de mim.

 

O autor goza aqui com o seu próprio nome - Filodemo poderá significar algo como "amante de Demo" - o que, no contexto de muitos "nomes falantes" da Antiguidade, tem uma certa piada...

Gostas de mitos, lendas, livros pouco conhecidos e curiosidades? Podes receber as nossas publicações futuras por e-mail!

Falar do Panchatantra implica igualmente inseri-lo num contexto. Na cultura ocidental há um livro que teve e tem um impacto profundo na forma como são vistos os vários animais, e esse livro é o das muitas fábulas atribuídas a um Esopo. Porém, existem muitas outras obras semelhantes por todo o mundo, e uma das mais significativas e populares é um texto provindo de terras da Índia e compilado há mais de 2000 anos chamado Panchatantra.

Uma história contida nesta obra

Essencialmente é uma colecção de histórias morais, em que intervêm animais e personagens humanas. Porém, de entre as muitas coisas que as distinguem das fábulas de Esopo, um elemento muito significativo é o facto dos seus cinco livros conterem uma história principal cada, na qual depois vão surgindo as mais diversas histórias secundárias, por vezes até com sub-relatos que surgem no interior de outros. Em todos os casos, surgem num determinado contexto e pretendem ensinar ao leitor uma qualquer lição relevante para a trama. Esse aspecto até torna o texto mais interessante, na medida em que não se está somente a ler um conjunto de fábulas separadas, mas sim uma história contínua em que elas vão surgindo de uma forma bastante natural.

 

E de que falam estas fábulas? Dos homens, dos animais, e dos muitos desafios que nós próprios podemos ir encontrando nas nossas vidas. São hoje quase tão actuais como na altura em que foram transcritas da sua forma oral, existindo algumas que necessitam de algum conhecimento básico da cultura hindu, como no caso da fábula do "Alfaiate e da Princesa", em que o primeiro se disfarça do deus Vishnu para se mostrar merecedor do amor da segunda.

 

Para terminar, que tal uma outra curiosidade? Apesar do conteúdo de algumas das fábulas não ser apropriado para crianças, também existem múltiplas edições do Panchatantra especificamente para crianças, tal como acontece com as fábulas de Esopo, e que podem ser facilmente encontradas numa pesquisa online. Mas, este não é um livro só para crianças - tanto elas, como os adultos seus pais, têm muito para aprender com a leitura destas fábulas, e fica então aqui essa sugestão de leitura, a que voltaremos daqui a alguns dias.

Gostas de mitos, lendas, livros pouco conhecidos e curiosidades? Podes receber as nossas publicações futuras por e-mail!