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Mitologia em Português

A lenda de Kiyohime e Anchin, presente num famoso manuscrito japonês chamado Dojoji Engi Emaki, deve ser mencionada por cá mais pela sua forma física do que pelo seu conteúdo simples, já que nos chegou num belíssimo manuscrito ilustrado, com dragões orientais à mistura e tudo.

A lenda de Kiyohime e Anchin

Conta-nos a lenda que a bela Kiyohime se apaixonou por um monge budista, de nome Anchin. Se este segundo também parecia gostar dela, depressa se relembrou dos seus votos religiosos - os monges budistas também têm um voto de castidade, como os cristãos - e decidiu então afastar-se da apaixonada, fugindo dela para longe. Porém, Kiyohime perseguiu-o por vários locais e acabou por transformar-se num dragão quando se preparava para cruzar um rio [recorde-se que os dragões chineses e japoneses estão frequentemente associados à água]. Anchin escondeu-se no interior de um sino de um templo. Desconhecendo a sua presença, a apaixonada circundou esse local várias vezes e cuspiu-lhe fogo durante horas, matando acidentalmente aquele que amava.

Toda a trama poderia ter ficado por aqui, mas uns dias depois os monges do mesmo templo tiveram um sonho muito estranho, em que as duas personagens principais de toda esta história lhes revelaram que numa vida passada tinham sido duas serpentes que se amavam, mas que agora precisavam de ajuda para obter o perdão divino. Assim, os monges fizeram o ritual budista apropriado para a ocasião e perdoaram os dois amantes das suas falhas passadas, fazendo-os ascender aos céus.

 

Toda esta lenda é relativamente simples, mas quem for visitar o seu manuscrito original japonês, algo que pode ser feito nesta página, verá que toda a história está ilustrada de uma forma muito bonita, com uma simplicidade que torna esta lenda de Kiyohime e Anchin muito apelativa, apesar de poder parecer um pouco estranha para os leitores ocidentais, em virtude da inusitada e inesperada transformação da apaixonada. Fora isso, quase que parece uma história infantil...

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Normalmente não abordaríamos temas como estes, mas hoje pareceu-nos importante escrever sobre Dr. Seuss, contra a censura dos nossos dias. Porque ela ainda existe, apesar de muitas pessoas preferirem olhar para o lado, assobiar e negar tudo. E explicamos o porquê. Anteontem, a empresa que publica os livros de Dr. Seuss - autor americano conhecido pela sua estranha imagética e versos para crianças - fez o seguinte comunicado, que aqui citamos no original inglês:

Dr. Seuss Enterprises, working with a panel of experts, including educators, reviewed our catalog of titles and made the decision last year to cease publication and licensing of the following titles:  And to Think That I Saw It on Mulberry Street, If I Ran the Zoo, McElligot’s Pool, On Beyond Zebra!, Scrambled Eggs Super!, and The Cat’s QuizzerThese books portray people in ways that are hurtful and wrong.

Estranhámos estas palavras. Dr. Seuss, mesmo para quem só o conheça de uns filmes recentes que já passaram várias vezes em Portugal, não é propriamente um autor ofensivo. Pelo contrário, talvez possamos dizê-lo autor de páginas completamente malucas - no bom sentido da palavra! - mas nunca encontrámos numa das suas obras algo que merecesse ser censurado. Portanto, decidimos adquirir cópias de cada um desses seis livros para crianças e ver o que contêm.

 

And to Think That I Saw It on Mulberry Street é um livro sobre um menino que ao passar na rua e ver uma carroça a ser puxada por um cavalo, imagina todo um conjunto de fantasias. Depois, no contexto de uma parada, ele imagina a seguinte ocorrência, em que duas personagens se juntam ao evento:

And to Think That I Saw It on Mulberry Street

O autor utiliza a palavra Chinaman - mesmo se tentarmos, de propósito, ser o mais ofensivos possível, poderia então vir a ser algo como "Chinoca" - como rima para Magician. Num livro publicado em 1937.

 

If I Ran the Zoo é a história de um menino que vai ao Jardim Zoológico e decide que conseguiria fazer melhor do que o gestor actual do espaço. Tem a ideia de popular o espaço com toda a espécie de criaturas fantásticas, de que uma das mais giras - na nossa opinião - é um pequeno e querido veado com chifres gigantescos.

If I Ran the Zoo

Porém, na mesma história aparecem estas representações de alguns povos pelo mundo fora. Num livro publicado em 1950. Como seria possível distinguir os vários povos sem o recurso a estereótipos pictóricos é algo que desconhecemos por completo.

 

McElligot's Pool é sobre uma criança que ao pescar numa pequena poça de água, imagina que esta tem comunicação com um largo oceano, onde poderia até conseguir pescar toda a espécie de peixes completamente fantásticos.

McElligots Pool

Não encontrámos absolutamente nada de errado neste livro, publicado em 1947. Se tentássemos mesmo sentir-nos ofendidos por coisas menores, seguindo o contexto do livro anterior encontrámos três representações de povos pelo mundo fora que podem ser consideradas estereótipos.

 

Em On Beyond Zebra, um menino é chamado ao quadro na escola para desenhar as letras do alfabeto. Quando chega ao Z, para Zebra, decide continuar e criar todo um conjunto de novas letras para poder escrever realidades inimagináveis.

On Beyond Zebra

Novamente, não encontrámos nada de incorrecto neste livro, publicado em 1955, mas se o tentássemos fazer de forma muito absurda, poderíamos apontar que um árabe é representado como na imagem acima. Só isso.

 

Em Scrambled Eggs Super uma criança tenta fazer os derradeiros ovos mexidos. Para isso, em vez de usar ovos de galinha, ele decide encontrar as criaturas mais exóticas possíveis e obter os seus ovos. No final, acaba com uma cozinha cheia de ovos de todas as formas e feitios e faz uns ovos mexidos nunca vistos.

Scrambled Eggs Super

Novamente, não encontrámos nada de errado nesta obra, com excepção - e, novamente, frisando que tivemos de nos questionar bastante - das duas representações acima, de um esquimó e um turco. Num livro publicado em 1953.

 

Finalmente, em The Cat's Quizzer: Are You Smarter Than the Cat in the Hat?, este possivelmente já um pouco conhecido em Portugal por estar relacionado com O Gato do Chapéu (que existe em tradução portuguesa e em filme), são feitas N questões completamente estapafúrdias ao jovem leitor. Alguma delas são verdadeiramente fascinantes, como pode ser visto abaixo:

The Cat's Quizzer - Are You Smarter Than the Cat in the Hat

Publicado em 1976, também não fomos capazes de encontrar nada de particularmente ofensivo nesta obra. Algumas perguntas são um pouco parvinhas - e.g. naturalmente que as mulheres não podem ser reis, mas podem ser rainhas, e esse nome é-lhes dado mesmo quando são as maiores representantes de uma monarquia - mas isso não tem nada de errado. É suposto serem-no, como se subentende por todo o conteúdo da obra, até pelo facto de nem todas elas terem respostas no final, dando a entender que não são, na verdade, a sério. É só uma brincadeira!

 

Face ao conteúdo destes livros, e à possibilidade de eles serem vistos como hurtful and wrong, não podemos deixar de nos questionar se estaremos a criar uma geração capaz de se ofender por tudo e por nada. Por exemplo, há muitos anos existia um estereótipo no Brasil, e em diversos países do mundo, que dizia que as mulheres portuguesas tinham (sempre?) bigode - e ninguém se ofendia por isso! Ou, quando num filme vemos uma tourada a ter lugar numa praça de touros, associamo-la logo a Espanha - e ninguém se ofendia por isso! Mesmo no nosso país, quando se contam anedotas sobre os alentejanos, padres, alfacinhas ou estudantes de Coimbra, ninguém se ofendia por isso!

 

Parece-nos muito preocupante que alguém seja capaz de olhar para as obras de Dr. Seuss e encontre nelas razão para censura. Quem o faz, ainda para mais em obras infantis de conteúdo frequentemente jocoso, certamente que nunca leu obras mesmo ofensivas. O público tem, ou pelo menos deveria ter, a oportunidade de decidir por si mesmo, o que pretende ler. Deveria, igualmente, ter a capacidade para compreender que as obras literárias foram escritas num dado contexto histórico e cultural, que não se deve tentar negar. Um texto escrito no século II a.C. não deve ser julgado pela mesma bitola de um texto do século XV, ou um do ano de 1955. Juntar tudo no mesmo saco e, depois, aplicar a mesma visão a todos eles é de loucos. Por isso, tivemos de escrever este texto sobre Dr. Seuss, contra a censura dos nossos dias, já que a situação nos parece absurda demais. Estes livros não têm nada de verdadeiramente errado, nem se deve julgar que sim, e quem quiser pensar o contrário, deixamos-lhe apenas o convite para que leia as obras completas do Marquês de Sade e ganhe uma nova perspectiva das suas próprias opiniões.

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Para a maior parte dos leitores, a bela história de Heidi foi conhecida através de um desenho animado que deu em Portugal há uns poucos anos. Dele se diz que não tinha nada de violência, que era uma história bonita, de outros tempos (por contraste com séries recentes, como o Dragon Ball). Recorde-se o genérico desta série de televisão:

Agora, o que pouca gente parece saber é que a história de Heidi, imortalizada nesse desenho animado de origem japonesa, provém de uma obra literária suíça de finais do século XIX, que até se tornou muito popular no país do sol nascente (razão pela qual foi feita a série animada, popular na Europa mas de autoria asiática). Da autoria de Johanna Spyri, em 1880 foi publicada um livro em que esta famosa menina, na altura ainda com 4-5 anos, foi levada por uma familiar para viver com o avô, no topo de uma montanha dos Alpes Suíços. Nessa primeira aventura, ela é depois levada para a cidade, para se tornar companheira de Clara, uma menina quase da mesma idade que está numa cadeira de rodas. Existem algumas aventuras por lá, umas mais divertidas que outras, mas essa primeira obra termina com o regresso da heroína a casa e ao avô. Na segunda obra - e última "oficial" - datada de 1881, a heroína usa então o que foi aprendendo na cidade para novas aventuras nos Alpes, sendo inclusivé visitada por Clara.

Heidi e Pedro

É então verdade que a história de Heidi, nesta sua versão literária original, não tem qualquer violência? Tem-no brevemente e num único episódio da segunda obra, por parte de Pedro (um jovem que também vivia nos Alpes), mas apenas e somente para ensinar uma lição muito presente em toda a obra. E, nesse sentido, é uma obra bonita, tanto para crianças como para adultos, mas com uma base cristã muito marcada. É importante frisar esse último ponto, porque se a obra é bastante bonita - e ninguém irá alguma vez negar isso, pensamos nós - tem também um problema significativo de irrealismo, de tentar justificar que as coisas menos boas podem acontecer, sim, mas acontecem sempre para que um bem maior possa ser derivado delas, o que nem sempre é verdade na nossa vida real. Salvo essa fraqueza, que não é tanto da obra mas quase filosófica, as aventuras de Heidi, da autoria de Johanna Spyri, são dois textos, normalmente até já condensados num único livro, que não podemos deixar de recomendar não só aos adultos e crianças, mas especificamente àqueles adultos que querem ler alguma coisa com e para as suas crianças. Fica o convite!

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Catecismo Budista, de Henry S. Olcott

Este Catecismo Budista, de Henry S. Olcott, chegou-nos às mãos na sequência da nossa busca pela Teosofia, de que cá falámos há alguns dias atrás, e de que este autor até foi um dos fundadores. Mas este texto em particular não é sobre esses outros temas, mas somente sobre o Budismo; o que se tenta fazer nas suas linhas é ensinar o leitor, sob a forma de um esquema constante de mais de 160 perguntas-e-respostas, sobre as doutrinas dessa religião. Ela é relativamente simples, e aparentemente pode ser hoje comprada em qualquer livraria (ou obtida online gratuitamente, no seu original inglês), mas a título de curiosidade podemos aqui deixar algumas das suas perguntas mais interessantes e esclarecedoras, para um contexto nacional, provindas deste Catecismo Budista:

3- Era Buda um deus?
Não.

5- Era Buda o seu nome?
Não, Buda é o nome da sua condição ou estado mental.

7- Qual era então o verdadeiro nome do Buda?
Sidarta era o seu nome real, e Gautama, ou Gotama, o seu nome de família.

12- Quando nasceu este príncipe Sidarta?
623 anos antes da Era Cristã.

23- O que levou a deixar tudo aquilo que os Homens adoram tanto, e ir viver para a selva?
Um Deva [i.e. uma espécie de entidade divina, que poderíamos equiparar a um anjo na cultura ocidental] apareceu-lhe quando ele estava na sua carruagem, sob quatro formas diferentes em quatro ocasiões distintas.

53- Podes dizer-me, numa só palavra, qual é o segredo da angústia humana?
Ignorância.

54- E a cura?
Afastar a ignorância e tornar-se sábio.

55- Porque é que a ignorância causa o sofrimento?
Porque nos faz prezar o que não devíamos, sofrer pelo que não merece, considerar real o que é ilusão, e passar as nossas vidas em busca de coisas inúteis, deixando de lado o que na verdade é mais importante.

57- Qual é a luz que pode afastar esta ignorância, e todos os sofrimentos?
O conhecimento das Quatro Nobres Verdades [podemos falar delas no futuro, se alguém assim o desejar], como o Buda lhes chamou.

62- Como podemos atingir essa conquista?
Seguindo o Nobre Caminho Óctuplo [também podemos falar deste tema no futuro, se alguém assim o desejar].

65- E quando esta salvação é atingida, o que acontece?
O Nirvana.

81- Podes repetir o resumo de um só verso que o Buda fez da sua religião?
"Cessar todo o pecado; chegar à virtude; limpar o nosso próprio coração; esta é a religião dos Budas."

100- Se quisesses representar todo o espírito da doutrina de Buda numa só palavra, qual escolherias?
Justiça.

 

Talvez estas breves citações deste Catecismo Budista, de Henry S. Olcott, possam esclarecer alguns leitores sobre as bases de tudo aquilo em que os Budistas acreditam, em particular que o Buda não é um deus (nem gordo, como muitas vezes o imaginamos), e que, na sua essência, a sua doutrina é relativamente simples, apesar de também dar muito espaço para o proverbial pano para mangas.

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O nome de Luisa Sigea é, hoje em dia, uma espécie de memória distante. Acabou por dar, pelo menos, nome a um colégio em Portugal, mas serão já muito poucos os que ainda pensam nela como uma famosa estudiosa de outros tempos, ou a professora de Latim da infanta Dona Maria de Portugal. Assim, hoje recordamo-la em parte nestas linhas, mas por razões muito pouco comuns e inesperadas.

Luísa Sigea

Entre as obras da autoria de Luisa Sigea contam-se um belo poema sobre Sintra e um texto Duarum Virginum Colloquium de vita aulica et privata, um diálogo entre duas jovens sobre a vida pública e privada feminina, publicado em Lisboa em meados do século XVI. Não tivemos acesso a essa obra, nem parece existir hoje traduzida para Português, mas cerca de um século depois ela parece ter inspirado uma outra, de título De Arcanis Amoris et Veneris, apocrifamente associada à mesma autora, numa espécie de pseudo-sequela da obra que é verdadeiramente dela, em que duas jovens - a mais nova das quais tem apenas 15 anos, e a mais velha cerca de 26 - se parecem envolver numa relação lésbica e discutem vários temas dentro da intimidade e da sexualidade feminina.

Essa segunda obra, de falsa autoria atribuída a Luísa Sigea na sequência de uma que ela indubitavelmente escreveu, é provavelmente o primeiro livro pornográfico famoso em Latim. Se existe um erotismo subjacente em muitas obras latinas da Antiguidade, desde a Arte de Amar ovidiana ou a famosa obra de Petrónio até a alguns dos poemas de Catulo, o que este novo texto tem de diferente é o facto de abordar de uma forma incrivelmente directa, muito nua e crua, toda a temática da sexualidade feminina, desde o prazer que uma mulher pode sentir com outra, até à forma como a virgindade deve ser perdida, passando por breves discussões sobre as palavras gregas e latinas para designar os órgãos sexuais, ou a forma como uma mulher se deve comportar na cama com os homens da sua vida.

 

Agora, como é muito sabido nos nossos dias de hoje, sex sells. Um livro com esse tema, numa altura em que ele ainda era uma enorme raridade e um tema tabu, não poderia senão tornar-se popular... e estando ele (falsamente) associado ao nome de Luisa Sigea, fê-lo igualmente ascender em popularidade - na verdade, hoje é até difícil encontrar referências ao nome desta figura sem que juntamente a elas se encontre menções a essa obra completamente apócrifa, da autoria de Nicolas Chorier e de conteúdo plenamente pornográfico. Não sabemos até que ponto isso será bom, mas pelo menos trouxe o nome da sábia autora de volta às luzes da ribalta, no século seguinte àquele em que viveu, e até aos nossos dias!

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Quem foi Frankenstein? Para alguns leitores, a resposta até poderá parecer mais que óbvia - é um monstro da ficção, ou o próprio doutor que o criou, numa história hoje conhecida em diversos filmes mas, originalmente, de um livro da autoria de Mary Shelley, autora inglesa de inícios do século XIX. Se fosse só esta a resposta nem estaríamos a perder tempo a escrever estas linhas, mas o que menos gente saberá é que existe uma história bem real por detrás de toda essa obra ficcional. Mas já lá iremos.

 

Quem for ler Frakenstein, ou Um Prometeu Moderno, da autoria de Mary Shelley, encontrará na obra uma história significativamente diferente da presente em tantos filmes do nosso dia. É, essencialmente, a história de um homem - o Dr. Frankenstein - que se tendo aplicado ao estudo intenso de autores como Paracelso e Cornélio Agrippa, foi capaz de criar vida - o processo não é retratado no livro (ele não a criou com pedaços de corpos, ou com electricidade, como vemos em tantos filmes), mas o mais significativo é que ele depressa começou a lamentar esse seu estudo e aquele que foi, sem qualquer dúvida, a sua grande criação. As razões para esse arrependimento são contadas na obra, para quem a quiser ler; por agora, voltemos no tempo um pouco mais.

 

Mary Shelley viajou pela Alemanha, e algum tempo antes de escrever este livro passou por um local perto da cidade de Gernsheim e que ainda hoje é conhecido como o Castelo de Frankenstein.

Quem foi Frankenstein?

Frankenstein, que significa algo como "a pedra dos Francos" (possivelmente em honra dos povos bárbaros que um dia aí viveram), acabou por dar o nome ao doutor que criou vida na agora-famosa obra inglesa. Mas toda a história ainda não fica por aqui. Reza uma lenda desse castelo que aí nasceu no século XVII um tal Johann Konrad Dippel, que mais tarde se dedicou ao estudo das artes da Alquimia, e entre as suas criações constava um suposto elixir da vida que era feito através da destilação de ossos. Não sabemos se funcionava mesmo - supõe-se que não... - mas é possível que ele até tenha tentado criar vida com as suas próprias mãos, um dos grandes desejos e objectivos da Alquimia.

Não sabemos se Mary Shelley conhecia toda esta lenda local, mas estando ela familiarizada com o nome alemão que viria a dar ao herói da sua história, é muito provável que sim... e que, depois, a trama da sua novela tenha surgido de uma questão implícita, i.e. o que aconteceria se Dippel tivesse verdadeiramente conseguido criar vida? Daí vem até o subtítulo da obra, com a referência a Prometeu a se dever ao facto de este titã ter criado a humanidade, segundo alguns mitos gregos.

 

Por isso, quem foi Frankenstein? O nome é alemão, mas não parece designar nenhum ser humano do passado em concreto; já a história escrita por Mary Shelley, que ainda hoje é muito conhecida sob esse mesmo nome, poderá ter-se baseado num caso bem real, o de Johann Konrad Dippel, que tal como o doutor da história terá tentado criar vida humana com as suas próprias mãos. A semelhança é demasiado próxima para ser ignorada, sendo por isso provável que a autora se tenha baseado no rumor de uma trama que alguns consideravam real; desconhecemos se o era, mas pelo menos havia uma lenda que apontava nesse sentido - e como qualquer boa lenda, oscila entre a verdade e a mentira...

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O caminho que nos levou a ler Ísis sem Véu, de Helena Blavatsky, no seu original Isis Unveiled, tem o seu quê de interessante. Há algumas semanas atrás recebemos, através de uma newsletter de um espaço nacional, um convite para participar num curso sobre Teosofia. Isto pouco ou nada teria digno de nota, não fosse a forma como os dois formadores se apresentavam, referindo na sequência da sua breve formação académica o seguinte:

Após um percurso profissional, respectivamente na área da distribuição e no sector financeiro, iniciaram os seus estudos teosóficos no ano de 1996, tendo concluído um período de formação de sete anos (curso quinquenal mais dois anos de especialização). Desde então, exercem a função de docentes de curso de Teosofia em determinados espaços, assim como de oradores em conferências e outras invervenções de carácter público tendo em vista o aprofundamente espiritual.

A ideia fascinou-nos, porque conjura uma sugestão de dois seres quase monásticos, fechados numa caverna misteriosa durante cinco (mais dois!) longos anos, e que agora leccionam o que foram aprendendo em locais públicos mas tão secretos que mencioná-los pelo nome levaria, provavelmente, a uma destruição colectiva de todo o universo. Brincamos um pouco com a situação, claro, mas ela fascinou-nos tanto que decidimos ler algo de Helena Blavatsky, uma das fundadoras da Teosofia, através da sua primeira obra mais significativa, Ísis sem Véu.

Helena Blavatsky, autora de Ísis sem Véu

A uma primeira vista, a autora dá a sensação de ter sido uma pessoa verdadeiramente culta - o que dizer de alguém que, num só parágrafo, cita obras como o Popol Vuh lado a lado com os textos platónicos e as Vedas indianas? Isso é notável logo nas primeiras páginas, mas depois, à medida que se vai lendo a obra, começa-se a notar dois problemas muito significativos nesta Ísis sem Véu - "já vimos isto em algum lado", justificando as acusações de plágio de que Blavatsky foi alvo; e o facto de ser quase impossível seguir a sequência da obra, porque nem parece existir uma linha condutora real na mesma. Em vez disso, é como se alguém pegasse em centenas de pequenos temas e os colocasse, de forma completamente desorganizada, uns após os outros. Num momento fala de cores astrais (?), no seguinte de fantasmas, depois avança para Epicuro, Hermes Trimegisto e outros temas que tais, sem que exista alguma ligação real entre todos eles, apesar de serem colocados em parágrafos contíguos.

De um ponto de vistal imparcial, há que deixar claro que, aqui e ali, a autora até levanta alguns pontos muito interessantes. Conceda-se isso, sem qualquer dúvida, mas fazê-lo implica igualmente admitir que eles estão tão ocultos entre temas pouco ou nada relacionados, informações plenamente incorrectas, e até fantasias sem suporte real em quaisquer provas, que se torna difícil saber em que se pode mesmo acreditar, e.g. se o Espiritismo é tão digno de crédito como a Atlântida, ou se tudo isto se trata somente de mais uma grande fantasia como a das Leis do Sol.

 

Em suma, não recomendamos, de todo, esta Ísis sem Véu, de Helena Blavatsky. Se a nossa opinião relativamente à Teosofia ainda é muito reservada e ficará para uma oportunidade futura, este livro apresenta apenas o que um crítico inglês definiu, muito justamente, como "a hodge-podge of absurdities, pseudo-science, mythology and folk-lore, arranged in helter-skelter fashion, with an utter disregard of logical sequence". É uma obra perfeita para ser citada de forma completamente descontextualizada, porque diz demasiado e prova pouquíssimo, mas pouco mais que isso.

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