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Mitologia em Português

29 de Junho, 2021

A lenda da Moura Salúquia

A lenda da Moura Salúquia é certamente bem conhecida em terras de Moura, no distrito português de Beja, mas para quem ainda não a conhecer achámos que a poderíamos recordar aqui hoje.

A lenda da Moura Salúquia

O brasão da vila de Moura - que hoje já é cidade - apresenta-nos essencialmente uma torre e uma figura feminina como que deitada em frente dessa fortificação. Reza então a história que esta mulher, uma moura de nome Salúquia (e filha do governador da cidade), viveu nesta terra em tempos da Reconquista Cristã, tendo-se apaixonado por um homem chamado Bráfama (ou Farbame?), da povoação de Aroche (a cerca de 50 Km de distância, para quem tiver essa curiosidade). Um dia os Cristãos mataram-no, tomaram as roupas deste amado e da sua comitiva, e dirigiram-se para a povoação que hoje é Moura. Salúquia, vendo-os à distância, pensou tratar-se de Bráfama e ordenou que se abrissem as portas da cidade. Face a essa inatenção, os combatentes cristãos entraram facilmente na povoação e conseguiram conquistá-la sem qualquer dificuldade. Então, notando o que tinha causado, em plena infelicidade esta moura subiu à torre do castelo e suicidou-se; a memória da bela moura, suicidária por amor, perdurou na cultura local, e então a povoação mudou o seu nome islâmico, que parece ter sido Al-Manijah, para o actual.

 

Mas então... porque recebeu a povoação o nome de "Moura", e não Salúquia? Visto que, face ao contexto de toda esta lenda, se pode depreender que o nome foi alterado por Cristãos, é provável que o nome original se tenha perdido progressivamente ao longo do tempo, ou que o nomeador desconhecesse o nome da falecida, mas pretendesse homenageá-la pelo precioso "auxílio" que deu à conquista do local. Esta segunda hipótese é certamente possível, a acreditar-se nos eventos que comportam esta lenda da Moura Salúquia, que continua a viver nos nossos dias na memória dos habitantes da cidade!

Ao mesmo tempo, é curiosa a apresentação desta personagem principal como uma islâmica que também amou um praticante da mesma religião. Em muitas outras lendas de Mouros e Cristãos, é muito mais comum que se apaixonem por cavaleiros da outra religião, acabando até por trair a sua cidade por amor. Aqui, a povoação é traída, sim, mas de forma quase acidental por Salúquia, e ela depressa se prontifica a pagar o preço da sua acção (algumas versões até acrescentam que tudo isto teve lugar no dia em que ela pensava ir casar-se, o que ainda enfatiza mais o seu sofrimento). Recordando Fernando Pessa, quase que apetece brincar-se um pouco e dizer "E esta, hein?!"

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