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Mitologia em Português

21 de Maio, 2021

A lenda de Fílis e Aristóteles cavalgado

Apesar do seu nome, há que deixar claro que a lenda de Fílis e Aristóteles cavalgado tem uma origem medieval, existindo numa forma escrita pelo menos desde inícios do século XIII. Não temos forma de saber quando foi criada, mas também não conseguimos encontrar qualquer prova real de que já existisse nos tempos da Antiguidade. Assim, quase certamente que se trata de uma invenção medieval, destinada a demonstrar de uma forma muito misógina o carácter nefasto das mulheres, como acontece em muitas outras histórias da época (ainda recentemente aqui apresentámos outro exemplo), mas que merece ser recontada por cá face à sua popularidade no medievo europeu e sua ligação evidente com os temas da Grécia Antiga:

A lenda de Fílis e Aristóteles cavalgado

Alexandre Magno era aluno de Aristóteles, mas Fílis - cuja identidade precisa nem sempre é muito clara - queria afastá-los. Assim, fez com que o famoso filósofo se apaixonasse por ela, pedindo-lhe depois uma prova do seu amor. Completamente apaixonado, este dispôs-se a fazer tudo o que a amada lhe pedisse, e então esta quis cavalgá-lo, num sentido que parece ter sido puramente literal. Ele aceitou o estranho pedido, e face ao ridículo de toda esta situação, de ver Fílis e Aristóteles cavalgado (atente-se à presença do jovem no interior de um castelo, na imagem acima), a personagem feminina foi capaz de mostrar a Alexandre Magno que... bem, a moral de toda a história parece divergir mediante a versão, mas tipicamente é comunicado que o poder da Filosofia nada conseguia contra os esquemas malévolos e manipuladores das mulheres, tão constantes em muitas outras obras e lendas da Idade Média. Por isso, dizia esta malévola figura ao jovem, estudar Filosofia era completamente inútil!

 

Claro que este já não é o Aristóteles da Antiguidade, aquele famoso autor de obras filosóficas, mas em pelo menos uma das versões que consultámos ele até acaba por dar a volta a toda esta estranha situação, aproveitando para ensinar a Alexandre Magno que a Filosofia também passava por se saber escolher os actos da nossa vida, pesando-os pelas consequências, neste caso aceitando ridicularizar-se somente para poder aproveitar os encantos do corpo de Fílis.

 

Na verdade, toda esta ideia de reutilizar temas e personagens da Antiguidade em novos contextos é uma característica relativamente comum da literatura medieval. Basta ter-se em conta, por exemplo, as adaptações aos Ciclos Troiano e Tebano feitas nessa época, ou a forma como obras como Orlando Enamorado ou o Livro do Armeiro-Mor pegaram em mitos antigos e os readaptaram para novas audiências. Nesse sentido, as figuras desta lenda de Fílis e Aristóteles cavalgado são como que meros fantasmas de outros tempos, cujos nomes subsistem mas cujo espírito original já há muito tinha sido perdido. Bastaria substituir-se os nomes das personagens por outros com o mesmo espírito e tudo o resto poderia ser mantido nesta história. Mas, ainda assim, numa dada altura esta lenda foi famosa por toda a Europa, e até chega a aparecer em alguns manuscritos nacionais...

 

[P.S.- Na semana que vem iremos cá apresentar três famosos mitos do continente americano.]

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