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Mitologia em Português

26 de Maio, 2022

A lenda do Oceano de Leite

A lenda do Oceano de Leite não é simples. Tanto não o é que, apesar de já cá termos aludido a ela antes por diversas vezes (ver, por exemplo, o artigo sobre os avatares de Vishnu), só uma pesquisa intensiva tornou possível chegar-se à versão mais completa de toda esta história... o que nos pareceu importante, já que é muitíssimo conhecida na Índia, onde até chega a aparecer representada na pedra em diversos templos, mas em terras europeias não se pode dizer que seja famosa. Assim, iremos aqui contá-la através dos seus três momentos principais, para que potenciais leitores possam conhecer melhor este episódio que no original toma o nome de Samudra-manthana (समुद्रमन्थन).

Airavata, elefante de Indra

Os deuses perdem a imortalidade

Um dia, quando Indra, rei dos céus, passeava com o seu elefante Airavata (visto na imagem acima com as suas várias cabeças), encontrou um sábio. Este ofereceu-lhe uma flor com grande valor simbólico, colocando-a perto da face do elefante. As várias versões divergem no que aconteceu a seguir - nomeadamente, se o animal o fez de propósito, ou se por mero acidente, quando procurava afastar uma abelha - mas todas elas concordam que este elefante atirou a flor ao chão, ofendendo grandemente o sábio que a tinha oferecido. Este, incrédulo com o que viu passar-se à sua frente, e talvez até numa grande fúria, amaldiçoou todos os deuses - ou Devas, se preferirem o título original - condenado-os a perder todos os seus poderes, entre eles o da imortalidade. Assim, face a esta ocorrência, os deuses foram perdendo muitas das suas batalhas com os seus opositores, os Asuras, até que decidiram que não tinham nenhuma outra alternativa senão propor algo completamente inesperado.

O Batimento do Oceano de Leite

O Batimento do Oceano de Leite

Para não perderem os seus poderes, os deuses decidiram então juntar-se com esses seus opositores, os Asuras, para recuperarem o que tinham perdido, prometendo-lhes como recompensa uma imortalidade que estes nunca tinham tido até então. Pegaram na enorme cobra Shesha das mil cabeças, aproximaram-se do monte Madara e usaram esse réptil primordial para bater um oceano de leite que existia nessa altura, cada grupo de um lado diferente, como mostra a imagem acima... mas, quando o monte se começou a afundar, o deus Vishnu tomou a forma de Kurma, a tartaruga, e serviu de apoio a essa espécie de "poste", para que os dois grupos conseguissem continuar o seu trabalho.

Um outro episódio que teve lugar durante o processo, e que parece ser de alguma importância, é o facto de de Shesha, provavelmente descontente com o que estavam a fazer com o seu corpo, ter começado a vomitar veneno sem fim. Para impedir que este envenenasse tudo o que existe, um deus - alguns dizem que foi Vishnu, outros que foi Shiva - tomou todo esse veneno na sua boca; não morreu, como é óbvio, mas guardou-o durante tanto tempo na garganta que acabou por adoptar a cor azul, cor desse veneno,

Mas particularmente importante é o que foi acontecendo durante este batimento do oceano ou mar de leite. À medida que Devas e Asuras foram realizando o estranho processo, este estranho curso de leite foi atirando cá para fora muitas coisas. Descrevê-las a todas ultrapassa o carácter introdutório das linhas de hoje, mas podemos resumi-lo dizendo que além da Amrita, o tal licor da imortalidade que ambos os grupos tanto queriam obter, daí surgiram igualmente vários deuses e deusas, criaturas inimagináveis e tesouros incríveis.

Mohini, avatar feminino de Vishnu

Como os deuses obtiveram a Amrita

À medida que os deuses e estes seus opositores foram batendo o oceano de leite, a Amrita, esse licor da imortalidade, saltou cá para fora e foi rapidamente apanhado pelos Asuras. Porém, e apesar da sua anterior promessa, os Devas não queriam que estes seus inimigos se tornassem imortais, sob pena de virem a causar infindáveis problemas (recorde-se, por exemplo, o caso de Raktabija). Então, o deus Vishnu tomou a forma da belíssima Mohini - um avatar feminino (o conceito já foi explicado aqui), que não é contado entre os seus dez principais - e seduziu aqueles que tinham em sua posse o famoso licor, obtendo-o e partilhando-o somente com os deuses, que assim recuperaram todos os seus poderes e a sua anterior imortalidade!

 

Mais sobre esta lenda

Não encontrámos qualquer lenda que relate o que depois aconteceu a este oceano ou mar de leite. É, por razões um tanto ou quanto óbvias, provável que se tenha transformado numa espécie de queijo primordial, mas ele parece desaparecer dos relatos mitológicos após esta curiosa ocorrência aqui narrada hoje. Os deuses, como já referido, obtiveram tudo aquilo que tinham perdido, e a sua guerra eterna contra os Asuras - normalmente traduzidos como "demónios" na cultura ocidental - continuou como até então, apesar do breve interregno de hostilidades.

 

Esta é, sem qualquer dúvida, uma importante e famosa lenda que diz muito sobre as crenças do Hinduísmo e os curiosos limites dos seus deuses. Um elemento importante a reter é o facto de um sábio poder obter um estatuto tão poderoso que até consegue rivalizar com os próprios deuses, conseguindo amaldiçoá-los - o caso relatado aqui não é único, existindo muitas outras lendas em que outros seres humanos e figuras semidivinas, enaltecidos por práticas meditativas, causaram muitos problemas até aos seres divinos (ver, por exemplo, a lenda de Narasimha). Outro exemplo poderá ser o dos Devas nem sempre terem um carácter completamente honesto, não estando acima de acções como mentir e iludir para atingirem a obtenção dos seus objectivos - e, na verdade, em outras histórias chegam até a matar para o conseguirem, como evidenciam muitas outras histórias da Índia.

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