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Mitologia em Português

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15 de Fevereiro, 2021

A lenda dos avatares de Vishnu

Já cá falámos sobre parte da grande lenda dos avatares de Vishnu, mas achámos que hoje poderíamos completar, de uma forma sucinta (até por motivos de tempo e espaço), esse mesmo tema. Potanto, e antes de mais, recorde-se o que já aqui foi explicado sobre o conceito hindu de avatar, muito necessário para se compreenderem bem as linhas que se seguem:

Os Hindus acreditam num número muito grande de deuses, de que Ganesha será o mais famoso entre nós, mas têm algumas figuras que consideram mais importantes do que outras. Entre as mais significativas conta-se o deus Vishnu (ou Vixnu, se preferirem), que reencarnou várias vezes e em diversas formas distintas (a que se chamam avatares), para trazer benefícios à humanidade.

Assim, os avatares de Vishnu referem-se às formas que esse deus foi adoptando sucessivamente, cada vez que deixou o Vaikuntha, o seu reino celestial, para vir ao nosso mundo. O número de vezes que o fez, e até as próprias formas que foi adoptando, nem sempre são totalmente estáveis (já lá iremos), mas hoje vamos aqui apresentar as 10 formas mais comuns a este deus, os chamados Dashavatara. E fazêmo-lo hoje não pelas nossas próprias palavras, mas através de uma tradução e adaptação de um momento da obra Kalki Purana, de altura de composição desconhecida, em que estas dez figuras eram recordadas quase como na imagem abaixo e pelos seus eventos essenciais:

A lenda dos Avatares de Vishnu

[1-] Quando os objectos dos três mundos foram destruídos pela água da devastação, e as Vedas [i.e. os livros sagrados] foram perdidas, apareceste na sob a forma de Matsya, [o peixe,] para proteger os princípios religiosos que tinhas estabelecido anteriormente.

[2-] Quando os deuses e os demónios aceitaram cooperar para bater o oceano de leite, com o propósito de obter o néctar, usaram o [lendário] Monte Mandara como um pau para o bater, mas foram incapazes de suportar o seu peso. Na altura aceitaste a forma de Kurma, [a tartaruga,] e suportaste esse monte nas tuas costas. Assumiste essa forma para que os semideuses pudessem beber o néctar da imortalidade.

[3-] Quando os demónios derrotaram Indra, o rei do céu, e o poderoso [demónio] Hiryanyaksha estava prestes a matá-lo, somente para derrotar esse rei dos demónios e salvar a terra assumiste a forma de Varaha[, o javali].

Narasimha, avatar de Vishnu

[4-] Quando o extremamente poderoso Hiranyakashipu, que tinha conquistado os três mundos, começou a atormentar os semideuses, fazendo-os viver em constante medo, para os protegeres decidiste aniquilar este rei dos demónios. Devido à influência dos poderes de Brama [i.e. o deus-criador], este demónio não podia ser morto por qualquer homem, deus ou semideus; com qualquer arma; nos planetas ou na terra; durante o dia ou a noite. Então, assumiste a forma do ser meio-homem, meio-leão, Narasimha, para não transgredir a promessa do deus-criador. Quando o demónio se preparava para te morder, abriste-lhe o peito com as tuas garras e assim o enviaste para o reino dos mortos.

[5, já falado aqui -] Apareceste como o irmão mais novo de Indra, assumindo a forma do anão Vamana, e foste à arena sacrificial do Rei Bali para o enganar. Apenas lhe pediste a caridade de três passos de terra. Ele aceitou, mas falhou ao cumprir a sua promessa, porque assumiste uma forma gigantesca e cobriste todo o universo com apenas dois passos.

[6-] Quando os reis da terra se sentiram demasiado orgulhosos e abandonaram os princípios religiosos, encarnaste como Parasurama para os aniquilar. Nessa encaranção, ficaste igualmente enraivecido pelo roubo da vaca, destruindo a casta dos guerreiros por vinte e uma gerações.

[7, já falado aqui -] Quando os três mundos estavam a ser atormentados por Ravana de dez cabeças, encarnaste para o destruir. Aprendeste a arte de lançar flechas e foste para a floresta em exílio por catorze anos. Durante esse tempo Ravana raptou a tua esposa, Sita. Demoraste algum tempo, mas depois cruzaste o oceano, construindo uma ponte com a ajuda dos macacos guerreiros, e mataste o senhor de [Sri] Lanka, Ravana, com toda a sua família.

[8-] Depois apareceste como Balarama. Diminuiste as dores da terra ao aniquilares muitos demónios. Ao mesmo tempo, todos os semideuses e devotos veneraram os teus pés de lótus.

Buda, avatar de Vishnu

[9-] Na devida altura apareceste como Buda e mostraste ódio pelos princípios prescritos pelo criador. Instruiste os teus seguidores a abandonarem o seu apego a este mundo de ilusão, fazendo-os renunciar a todos os desejos de gratificação dos sentidos. Apesar de teres rejeitado as Vedas, nunca rejeitaste a ética do mundo.

[10, muito adaptado -] Aparecerás como Kalki para eliminar a dinastia de Kali [i.e. a deusa da destruição] ao destruir os budistas, ateístas, e outros que tais, assim protegendo o verdadeiro caminho da religião.

 

Agora, os mais atentos poderão notar que falta aqui Krishna, a que já cá fizemos duas alusões através dos mitos de Dhenuka e Putana. A sua ausência deve-se ao facto de esta listagem não ser completamente estática. Na verdade, ainda há dias um amigo que pratica activamente a religião hindu nos dizia, com enorme ênfase, que Krishna não era um avatar, mas sim a maior expressão do mais elevado dos deuses hindus. São muitos os crentes que partilham de essa mesma ideia, mas nesse caso eles adaptam parte da história, dizendo que era Balarama, em vez do seu irmão, a reencarnação do deus. Outros crentes omitem completamente Buda desta lista, e assim sucessivamente...

De modo muito semelhante, também as principais histórias associadas a cada um de estes dez avatares podem variar um pouco. Em relação a Matsya, por exemplo, é por vezes dada uma história, até potencialmente alternativa a esta, de um peixe que foi crescendo de tamanho e acabará por salvar o rei que sempre o ajudou, numa sequência que acaba com um dilúvio universal.

 

A lenda dos avatares de Vishnu é, então e na sua grande essência, um dos maiores pilares do Hinduísmo. Seria interessante falarmos de cada uma destas figuras de forma mais alongada, mas por agora será suficiente esta breve introdução, que até poderá, um dia, vir a ser seguida por explicações mais alongadas, se existir interesse significativo nisso.

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