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Mitologia em Português

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19 de Abril, 2020

A verdadeira e surpreendente história da Carochinha e do João Ratão

João Ratão e a Carochinha

Existem histórias que fazem parte da cultura popular portuguesa e que todos conhecemos mais ou menos bem. A história da Carochinha e do João Ratão é uma delas, mas a verdade é que nos dias de hoje é contada de uma forma incompleta. Já lá iremos; para quem não se recordar bem dela, pode ser relembrada da seguinte forma:

 

Uma Carochinha encontrou algum dinheiro e após consultar algumas vizinhas decidiu usá-lo para casar. Pôs-se à janela de casa, cantarolando "Quem quer casar com a carochinha, que é bonita e perfeitinha?", e foram vários os animais que se aproximaram. A cada um deles a Carochinha perguntou como era a sua fala, respondendo depois "Não me serves, a tua fala iria acordar os meninos durante a noite". Ás tantas, lá apareceu um ratinho, posteriormente conhecido como João Ratão, e eles casaram.

Dias depois a Carochinha teve tarefas para fazer e pediu ao João Ratão que cuidasse dos feijões que tinha ao lume na sua ausência. Ele fê-lo, mas ao ver se estes já estavam cozidos acabou por cair na panela. A sua esposa, chegando a casa e não o encontrando em lado nenhum, decidiu comer os feijões e... entre eles encontrou o João Ratão, pondo-se a chorar pela perda do marido que amava.

 

Normalmente a história termina por aqui. Contudo, uma edição de contos populares datada de 1879 associa-a à região de Coimbra e continua a história de uma forma surpreendente - uma tripeça, uma espécie de banco com três pés, pergunta então à Carochinha:

 

«Que tens, Carochinha,
Que estás aí a chorar?»
«Morreu o João Ratão
E por isso estou a chorar»
«E eu que sou tripeça
Ponho-me a dançar.»

Diz dali uma porta:
«Que tens tu, tripeça,
Que estás a dançar?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
E eu que sou tripeça
Pus-me a dançar.»
«E eu que sou porta
Ponho-me a abrir e a fechar.»

Diz dali uma trave:
«Que tens tu, porta,
Que estás a abrir e a fechar?
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
E eu que sou porta
Pus-me a abrir e a fechar.»
«E eu que sou trave
Quebro-me.»

Diz dali um pinheiro:
«Que tens, trave,
Que te quebraste?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
E eu quebrei-me.»
«E eu que sou pinheiro
Arranco-me.»

Vieram os passarinhos para descansar no pinheiro e viram-no arrancado e disseram:
«Que tens, pinheiro,
Que estás no chão?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
E eu arranquei-me.»
«E nós que somos passarinhos
Vamos tirar os nossos olhinhos.»

Os passarinhos tiraram os olhinhos, e depois foram à fonte beber água. E diz-lhes a fonte:
«Porque foi passarinhos,
Que tirastes os olhinhos?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça está a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
E nós, passarinhos,
Tirámos os olhinhos.»
«E eu que sou fonte
Seco-me.»

Vieram os meninos do rei com os seus cantarinhos para levarem água da fonte e acharam-na seca e disseram:
«Que tens, fonte,
Que secaste?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
E eu sequei-me.»
«E nós quebramos os cantarinhos.»

Foram os meninos para o palácio e a rainha perguntou-lhes:
«Que tendes, meninos,
Que quebrastes os cantarinhos?»
«Morreu o João Ratão,
A Carochinha está a chorar,
A tripeça a dançar,
A porta a abrir e a fechar,
A trave quebrou-se,
O pinheiro arrancou-se,
Os passarinhos tiraram os olhinhos,
A fonte secou-se,
E nós quebrámos os cantarinhos.»
«Pois eu que sou rainha
Andarei em fralda pela cozinha.»

Diz dali o rei:
«E eu vou arrastar o c...
Pelas brasas.»

 

É fácil compreender a razão pela qual a história dos nossos dias termina com a morte do João Ratão. A ladainha que se seguia não é de fácil memorização, apresenta alguns elementos claramente satíricos, outros impróprios para crianças, e até alguns bem críticos da nobreza da altura. Mas, ainda assim, não deixa de ser uma história que nos põe um sorriso nos lábios!

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