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Mitologia em Português

Mitologia em Português

08 de Fevereiro, 2020

A versão original da Saia da Carolina

Cremos que todos os leitores já conhecem a letra da Saia da Carolina dos nossos dias, i.e. "A saia da Carolina tem um lagarto pintado", pelo que é preferível recordá-la somente com um pequeno vídeo infantil, o primeiro que encontrámos na internet, acessível aqui.

Saia da Carolina

Esta música nada teria de especial, não fosse o facto de ontem uma idosa, ao recordar-nos algumas músicas do seu tempo de meninice, nos ter cantando uma versão significativamente diferente. Os mais cépticos poderão tentar apontar que se tratam de músicas diferentes... e poderíamos aceitar, não fosse um problema na canção infantil dos nossos dias, que passa pelo facto de somente descrever uma saia, em que ás tantas é acrescentado "foi lavada com sabão, tem cuidado ó Carolina não lhes deixes pôr a mão"...

 

Estes versos não puderam deixar de nos intrigar. À medida que pesquisávamos, encontrámos uma versão da música que era a cantada pela idosa, e uma outra, bastante semelhante mas de origem galega. Em ambos os casos, apenas aqui reproduzimos alguns versos mais significativos:

A saia da Carolina tem um lagarto pintado
Quando a Carolina dança o lagarto dá ao rabo.

A saia da Carolina, ten un lagarto pintado;
Cando a Carolina baila, o lagarto dalle o rabo.

Bailaste, Carolina?

Bailei sim senhor

Diz-me com quem bailaste?

Bailei com o meu amor.

Bailaches Carolina?

Bailei, si señor.

Dime con quen bailaches.

Bailei con meu amor.

A Carolina é uma tola que tudo faz ao revés

Despe-se pela cabeça e veste-se pelos pés.

A Carolina é unha tola que todo fai ó revés.

Éspese pola cabeza e díspese polos pés.

 

Bailaches Carolina?

Bailei, no cuartel.

Dime con quen bailaches.

Bailei co coronel.

O senhor cura nos baila porque tem uma coroa.

Baile, senhor cura, baile que Deus tudo lhe perdoa!

O señor cura non baila porque ten unha coroa.

Baile señor cura baile, que Dios todo llo perdoa.

 

Bailaches Carolina?

Bailei, abofé.

Dime con quen bailaches.

Bailei co meu Xosé.

A Saia da Carolina não tem pregas nem botão

Tem cuidado ó Carolina não te caia a saia ao chão.

A saia da Carolina foi lavada com sabão

Tem cuidado ó Carolina não lhe deixes pôr a mão.

 

A saia da Carolina é curta é das modernas

Tem cuidado ó Carolina ela não te tapa as pernas.

 

 

No curro da Carolina non entra carro pechado.

Na máis entra Carolina, co seu cocho polo rabo.

 

Co teu amor Carolina, non volvas a bailar,

Porque che levanta a saia

Ié moi mala de baixar.

 

Onde nos pode levar esta comparação? Essencialmente, A Saia da Carolina, enquanto canção infantil dos nossos dias, é uma versão sanitizada de uma versão sanitizada portuguesa de uma canção originalmente galega. Que é a versão de nuestros hermanos a original, e não a nossa, pode ser compreendido pelo facto de existir uma simplificação da letra geral e do próprio refrão, que é algo muito mais comum do que uma ampliação de um original.

 

A canção original não era, de todo, para crianças. Contém alguns elementos metaforicamente sexuais, associados a uma rapariga "tola" que "faz tudo ao contrário". Em que consistem as suas várias tolices é fácil de compreender na versão galega, mas esses elementos foram sendo censurados ou removidos tanto na versão dos nossos dias como na cantada pela idosa. E compreende-se assim de que "lagarto" fala a letra, a razão pela qual andavam a pôr as mãos na saia da Carolina, e o porquê de esta necessitar de ser lavada com sabão... e, no mesmo contexto, talvez um dia revelemos quem foi o tal gato a quem atiraram um pau!

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