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Mitologia em Português

01 de Outubro, 2021

As lendas de Dona Branca

Falar de uma lenda de Dona Branca, como se existisse uma só figura com esse nome, não é possível. Isto porque ao terem existido várias personagens que partilharam o nome em Portugal ao longo dos séculos, não é totalmente claro a qual delas uma breve expressão como a que dá título a esta publicação se poderá referir. Portanto, a título de exemplo, falamos aqui apenas de três delas e de uma forma relativamente breve.

Uma lenda de Dona Branca

Talvez a mais famosa Dona Branca, para os nossos dias de hoje, seja a chamada "Banqueira do Povo", que viveu no século XX e que é conhecida por todo um esquema em pirâmide que usava para emprestar dinheiro, e/ou pagar juros, a quem a contactava. Contar muito mais sobre a sua vida e as suas acções escapa ao objectivo de hoje, bastando aqui dizer que ás tantas ela lá foi presa e condenada pelos seus vários crimes. Faleceu e foi sepultada no Cemitério do Alto de São João no ano de 1992.

 

Uma segunda Dona Branca está associada a uma lenda da tomada de Silves aos Mouros. Parece ser bastante conhecida, pelo que não vale a pena recordá-la aqui - quem não a conhecer ainda poderá lê-la neste site externo - mas o que ela tem de especial é o facto de nos permitir compreender que se trata de uma história relativamente recente, até pela referência conturbada a anjos, fadas e vampiros. Relembra-nos, de certa forma, a lenda da Boca do Inferno; em ambos os casos, as partes que as constituem permitem-nos compreender que são histórias recentes escondidas sob a face de lendas antigas. Talvez até exista um fundo mais antigo por detrás de ambas, mas não é fácil distinguir essas várias camadas da trama.

Será esta a Torre de Dona Branca?

Já a terceira remete-nos para uma "Torre de Dona Branca" que em outros tempos existiu em Currelos - hoje o local faz parte da freguesia de Carregal do Sal, mas o pequeno castelo, originalmente da freguesia em questão, aparentemente ainda pode ser visto no novo brasão (juntamente com os símbolos de Sobral e Papízios). Esta é provavelmente a lenda a que se referia Teófilo Braga, pelo que vamos recordá-la aqui.

Reza então a história de que neste local, agora desaparecido, viveu uma nobre chamada Branca de Vilhena. Dado dia, durante um período de ausência do seu marido, ela deu à luz um par de gémeos. Agora, nas crenças da época, isto poderia querer dizer que ela tinha tido relações sexuais com dois homens diferentes - bastará recordar-se o mito grego de Hércules e Íficles - o que muito incomodou a senhora. Face à possível acusação (infundada), ela decidiu então pedir a um criado que levasse uma das crianças para a floresta*, a matasse, e lhe trouxesse a sua língua. E assim teria sido feito, não fosse o criado ter encontrado o seu patrão pelo caminho, e por compaixão lhe ter contado o que se passou; este pediu-lhe então que entregasse à sua esposa a língua de um cão, enquanto a criança seria criada por um aldeão.

Os anos foram passando, até que um dia esta Branca de Vilhena e o respectivo marido foram assistir a uma romaria e encontraram entre o povo um jovem muito semelhante ao seu filho. Tocada por remorsos, a esposa decidiu então levar essa criança para junto da que tinha criado todos aqueles anos. Mas depois, sem conseguir ter a coragem de admitir ao marido o que tinha feito todos aqueles anos atrás, atirou-se da torre a que viria a dar o nome e faleceu.

 

Três lendas de Dona Branca, se é correcto chamar-lhes isso assim, de uma forma horizontal. Uma que até é uma história bem real, uma que até poderá ter tido um fundo histórico, e uma que contribuiu para explicar o nome dado a uma torre hoje desaparecida. Sobre as três, talvez possamos até dizer que atestam bem a popularidade do nome em outros tempos, potencialmente pela associação nacional e ocidental entre a cor, a pureza e a beleza. Mais comentários que esses, temos hoje de os deixar aos possíveis leitores, porque estas linhas já vão longas...

 

 

*- Nas versões da lenda a que tivemos acesso nunca é explicado como esta estranha escolha foi feita, para quem até estiver com essa estranha curiosidade.

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