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Mitologia em Português

16 de Novembro, 2021

De onde vêm os poderes do Bruxo de Fafe?

Desde há uns anos para cá que se ouve falar nas notícias de um tal Bruxo de Fafe. De nome Fernando Nogueira, ele é provavelmente um dos mais famosos ocultistas de Portugal - talvez a par do Professor Bambo e de um tal Mestre Alves - mas nunca é muito bem explicado o que ele faz ou deixa de fazer. Normalmente a questão seria fácil de resolver, se ele tivesse um site na internet ou uma página nas redes sociais com os contactos - o que não parece ser o caso - mas na ausência dessa informação foi-nos colocada uma questão inesperada - afinal, em que acredita este Bruxo de Fafe? Ou, se assim preferirem, se o famoso Professor Bambo se diz um "prestigiado médium vidente", em que consistem os alegados poderes desta outra figura do ocultismo nacional?

Quem é o Bruxo de Fafe?

Quem procurar algumas imagens do senhor depressa se aperceberá que ele não é padre católico, nem estudou Teologia, mas rodeia-se sempre de uma iconografia essencialmente cristã, o que é comum em diversas religiões da América do Sul. Esta ideia parece até ser confirmada por uma entrevista muito recente em que, ameaçando Joana Marques, disse as seguintes palavras:

Ela está-se a meter com o bruxo de Fafe... Ou pára ou tem o Inferno atrás para toda a vida. Nunca mais se vai ver livre do Diabo. (...) Com o meu trabalho, invocarei todos os exus do mar e dos cemitérios e ela vai ter a maldição dos mortos-vivos.

A palavra mais importante nestas ameaças e estranhas crenças é provavelmente "exus". Usada assim, no seu plural, não se refere a um orixá, mas a um conceito da Umbanda - uma religião afro-brasileira, constituída por uma espécie de fusão de crenças africanas com o Cristianismo - que pode ser resumido na nossa cultura portuguesa como um espírito intermediário entre os vivos e os mortos. Esse tema, em si, é até muito interessante, mas terá de ficar para outro dia, face a uma questão mais relevante - será que este Fernando Nogueira viveu no Brasil, num qualquer país africano, ou estudou com alguém que perceba dessas religiões?

Infelizmente, não parecem existir entrevistas em que ele revele o seu passado de forma fidedigna, mas conseguimos encontrar uma intervenção televisiva de 2013 que revela alguns elementos muito interessantes... mas cuidado, este vídeo pode ser impróprio para os mais sensíveis, até porque tem alguns momentos que fazem relembrar exorcismos como o de Anneliese Michel:

Neste vídeo Fernando Nogueira não diz ter aprendido o que sabe no estrangeiro, nem nos informa que o seu conhecimento lhe foi transmitido por uma outra pessoa, o que é muito curioso... E ainda mais porque no vídeo refere conceitos como "porta aberta", "chakras" e "incensos", faz alusão ao acto de "incorporar", a "poderes espirituais", "conhecimentos bíblicos", e a muitas outras coisas que... para quem perceber pouco ou nada destes temas, são ideias e conceitos que pertencem a religiões e crenças místicas completamente diferentes. É, por exemplo, importante frisar que mesmo na Umbanda a cura é normalmente feita por intermédio dos exus, mais do que pela intervenção humana, o que não acontece nos exemplos deste vídeo, em que o dito bruxo até diz transportar os espíritos malévolos para o seu corpo. Assim, aquilo em que o Bruxo de Fafe acredita, a origem e fonte dos seus poderes, é supostamente uma miscelânea de crenças completamente díspares, em que, para citar uma expressão bem portuguesa, "não bate a bota com a perdigota"*, tomando-se proveito do grande desconhecimento, ou mesmo receio, que o público nacional tem desses temas.

 

Portanto, como nos podia perguntar algum leitor, serão os poderes do Bruxo de Fafe dignos de algum crédito? Será que as pessoas no vídeo foram verdadeiramente curadas por ele? Será que ele consegue exorcizar demónios e afastar feitiços malévolos, enquanto também os ameaça fazer aos seus próprios inimigos, como se diz que uma dia até fez ao Benfica? Será ele um novo Luís de La Penha? Nestas coisas de crenças a resposta fica sempre para os leitores, mas deixamos também uma questão que nos parece fulcral - onde aprendeu ele todo aquele conjunto de terminologias que utiliza, que provêm de crenças religiosas totalmente distintas? Mesmo que se pretenda acreditar que os seus conhecimentos lhe foram dados por uma qualquer entidade divina (desconhecida, já que nunca a nomeia), como se compreende essa constante discrepância de crenças, que num momento fala de "exus", no seguinte recorre a incensos de múltiplas variedades, num terceiro já denota crenças espíritas, e depois até fala de ideias relacionadas com vodu ou com a Bíblia? Não vos parece estranho?!

Se as coisas são para ser assim, tentemos até algo de completamente novo - em virtude dos nossos notórios conhecimentos de Misticismo, os próximos dez leitores que nos contactarem ali em baixo nos comentários, expondo problemas e questões místicas, poderão vir a ter o seu problema resolvido de uma forma completamente gratuita... é mesmo grátis, uma oportunidade única a aproveitar (!), mas não se deixem é enganar por quem vos promete mundos e fundos!

 

 

*- Para quem tiver alguma curiosidade sobre a origem da expressão "não bate a bota com a perdigota", fazemos aqui um pequeno aparte - uma "perdigota" é uma perdiz muito jovem, e a frase parece referir-se à ideia de que esse animal, escolhido apenas por motivo de rima, não faz par com uma bota (até por serem duas coisas completamente diferentes).

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