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Mitologia em Português

05 de Fevereiro, 2021

Em busca dos Olharapos, Olharapas e Olhapins

Para quem ainda não o saiba, os Olharapos, Olharapas e Olhapins são criaturas da mitologia nativa portuguesa, que um dia parecem ter sido bem conhecidas no norte do nosso país. Infelizmente, ao longo dos anos foram-se perdendo, sendo hoje pouco mais do que uma vaga memória de outros tempos. Isso é particularmente visível na compilação do Lendarium, que regista um - e somente um - registo para a primeira destas criaturas (pode ser visto aqui), mas nenhum para as duas restantes. O dicionário da Priberam define as três criaturas - Olharapos, Olharapas e Olhapins - de forma quase igual, como "Entidade[s] pertencente[s] à superstição popular, equivalente[s] a fantasma, lobisomem ou papão", enquanto que a Infopédia diz que o primeiro é um "gigante feroz, com um só olho, que protagoniza diversas lendas populares tradicionais". Há uns anos, em plena Expo 98, lá se ouviu falar dos seus nomes (uma imagem deles no portfólio de um construtor pode ser vista abaixo), mas com pouca relação com as figuras originais do mesmo nome. Fora estas breves referências, as três classes de criaturas parecem hoje estar muito perdidas. Assim, e para que não fossem totalmente esquecidas, decidimos partir em busca delas, numa viagem que foi tudo menos fácil, e que hoje concluímos com as considerações abaixo:

Olharapos na EXPO 98

O Olharapo e a Olharapa estão intimamente ligados, sendo a segunda uma versão feminina do primeiro. Sabemos, seguindo Leite de Vasconcelos, que estes seres tinham um único olho e eram antropófagos, com Ana de Castro Osório a nos preservar pelo menos uma história destas criaturas (confesse-se, não pudemos encontrar e consultar todos os livros da autora...), em que elas parecem confundir-se com o Polifemo homérico; a sua história, nessa autora, é quase somente a do confronto deste ciclope com Ulisses, alterando apenas os nomes dos intervenientes e adicionando a toda a história algumas ligeiras adaptações.

 

Já o Olhapim era uma criatura que, supostamente, tinha quatro olhos, dois na parte da frente da cara e outros dois na nuca, permitindo-lhe ver tudo em seu redor. Essa ideia até está presente no dicionário da Priberam, que define apenas o Olhapim, mas não as outras duas criaturas, como uma "pessoa que tudo vê e observa", o que dá algum jeito para entender o seu carácter original, até porque já não conseguimos encontrar qualquer história em que eles tivessem um papel significativo.

Pior ainda (!) - se pelo contexto da história de Ana de Castro Osório se infere que o Olharapo de que ela ouviu falar tinha necessariamente um só olho, que até é cegado pelo herói da história, as diversas fontes que consultámos dão a estas três criaturas um número indefinido ou variável de olhos (que pode ir de um a quatro, estando o número invulgar de olhos até bem presente no prefixo dos seus nomes), fazendo deles quase até sinónimos uns dos outros. Isso tende a ser um sinal de que a sua representação física não era uniforme nas várias aldeias e entre as pessoas que iam partilhando histórias destas criaturas, dificultando a sua compilação sistemática, porque uma história como a de Ulisses e Polifemo não funcionaria, naturalmente, numa terra em que este monstruoso vilão tivesse mais do que um olho passível de ser cegado.

 

Foi isto que encontrámos, relativamente às criaturas que hoje são conhecidas pelo nome individual de Olharapo, Olharapa e Olhapim. É pouco, muito pouco, sendo provável que as suas lendas originais estejam, hoje, já (quase?) totalmente esquecidas. Mais umas décadas e é possível que até os seus nomes sejam completamente esquecidos, como as histórias dos Gambozinos, de Endovélico, de Atégina e de Turiacos, entre tantas outras figuras bem nacionais que o tempo nos foi apagando...

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