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Mitologia em Português

22 de Fevereiro, 2021

O mito de Inana / Ishtar e Dumuzid / Tamuz

Entre os enredos mais famosos dos primórdios da história mundial conta-se o mito de Inana / Ishtar, que une esta deusa ao pastor Dumuzid / Tamuz. Iremos contá-lo abaixo, mas convém explicar, desde já, que nos referimos inicialmente a essas duas figuras principais desta forma, com nomes duplos, porque apesar dos intervenientes terem pelo menos quatro milhares de anos e as suas histórias essenciais se terem mantido ao longo do tempo, os seus nomes mudaram de cultura para cultura na mitologia e religiões do Próximo Oriente, retendo o seu espírito essencial; porém, para evitar uma constante e enfadonha repetição, iremos chamar-lhes apenas Inana e Dumuzid (os seus nomes mais antigos), mas deixe-se claro que as mesmíssimas aventuras também se aplicam ao par constituído pelos nomes, mais tardios, de Ishtar e Tamuz.

Inana, Ishtar, Eresquigal, ou outra deusa do mesmo período

Conta-se então que a deusa Inana quis casar e dois homens disputaram-na, o agricultor Enkimdu (não confundir com o famoso Enkidu, o companheiro de Gilgamesh), e o pastor Dumuzid. Este segundo conquistou-a com ajuda divina, e chegaram-nos até poemas bastante eróticos sobre a forma como o par amoroso se introduziu mutuamente às artes do amor e do sexo. De entre as referências mais curiosas presentes nos mesmos, o amante diz que já não tem tempo para se dedicar às relações sexuais "mais de 50 vezes por noite", até porque agora era rei e também tinha de gerir o seu reino.

 

Até aqui a história é relativamente simples, quase contínua entre fontes, mas depois torna-se mais difícil de seguir, já que nos foi chegando em momentos fragmentários. Sabemos, por exemplo, que num dado instante Inana desce ao reino dos mortos, por razões difíceis de compreender (terá sido para conhecer o sabor da morte, como dizem alguns?), onde se vai despindo progressivamente em cada um dos sete portões, numa possível metáfora para o facto de que nada podemos levar para esse nosso pós-vida. Nesse reino, a deusa encontra a irmã mais velha (Eresquigal), falece, mas é posteriormente trazida de volta à vida, com uma condição - ela tinha de encontrar alguém que aceitasse falecer no seu lugar. E acaba por escolher... não quem conseguiu trazê-la de volta à vida, nem os seus próprios filhos, nem qualquer outro ser humano deste mundo, mas o próprio Dumuzid, potencialmente porque este não sofreu o suficiente pela morte de uma mulher que dizia amar.

 

Sabendo do seu destino através de sonhos proféticos, sabendo o que o aguardava, Dumuzid até tenta escapar, recorrendo a vários subterfúgios humanos e divinos, mas lá acaba por ser capturado e levado para o mundo dos mortos. Não voltaria nunca mais, não fosse o facto da sua própria irmã, Gestinanna, se ter oferecido para ocupar o seu lugar durante metade do ano, permitindo ao falecido regressar ao reino dos deuses-vivos e aos braços da amada Inana. O mito não nos preserva o registo de qualquer zanga real entre eles, apesar de ela ter sacrificado alguém que dizia amar em favor do seu próprio bem-estar, nem nos diz se depois ainda continuaram a ter as suas relações sexuais as tais 50 vezes por noite...

Inana e Tamuz

Posto assim, todo este mito poderá parecer relativamente simples, mas há que frisar que esta trama, tal como a apresentamos aqui, só pôde ser reconstruída recuperando momentos muito fragmentários de diversos textos completamente distintos. Por exemplo, nas linhas que nos chegaram é muito difícil compreender o que aconteceu entre o seu casamento e o instante em que a deusa desce ao mundo dos mortos, tal como não é clara a razão específica pela qual escolheu o seu amado para ocupar o seu lugar no submundo, entre muitas outras questões sem resposta.

A Porta de Ishtar

Contudo, toda esta história ainda não fica por aqui. A influência do culto a esta deusa e ao seu amado prolongou-se por muitos séculos, podendo ser vista no tempo dos Gregos e dos Romanos em mitos como o de Adónis. Gilgamesh rejeita-a e goza-a, apontando no seu poema épico o mau destino das paixões anteriores da deusa. O décimo mês hebraico tem o nome de Tamuz, e o facto do seu culto ter sido celebrado por mulheres que choravam a morte desse deus-pastor ainda persiste na nossa Bíblia (i.e. Ezequiel 8:14). A famosa Porta ou Portão de Ishtar, visível na imagem acima, poderá até ter sido uma representação simbólica do espaço cruzado pela deusa para descer ao submundo.

Este mito é, portanto, um dos mais famosos da história da humanidade, apesar de ser - hoje - já muito pouco conhecido. Para isso contribuiu, sem qualquer dúvida, o facto de não nos ter chegado de uma forma contínua, mas sim através de diversos escritos sem início ou fim, em que se torna muito difícil compreender a totalidade dos eventos. Aqui tentámos sintetizá-los brevemente, recorrendo às diversas fontes literárias que nos chegaram, mas não foi tarefa fácil, ficando esta espécie de conto dos dois amados parcialmente incompleta até que se possa encontrar mais informação sobre ambos...

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