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Mitologia em Português

Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas. Juntem-se a nós numa imprevisível viagem por mitos, lendas, livros antigos e muitas outras curiosidades.

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Espaço da autoria de Ovídio Silva (Doutorando em Clássicas), e de um anónimo interessado nestes temas. Juntem-se a nós numa imprevisível viagem por mitos, lendas, livros antigos e muitas outras curiosidades.

Qual o significado do brasão da cidade de Coimbra (Portugal)?

30.01.20

Há alguns dias, enquanto passeávamos pela cidade de Coimbra, perguntaram-nos qual o significado do invulgar brasão da cidade. Para quem não souber a que nos referimos, aqui fica ele:

Brasão de Coimbra

Quem é a mulher na parte superior da imagem? Porque é o elemento central tão vermelho? A que se referem a presença de um dragão, um leão e um cálice?

 

O grande problema em descortinar o significado por detrás de todos estes elementos, e do próprio brasão, não se prende tanto com uma ausência de fontes, mas com uma enorme discrepância entre todas elas, cada qual com uma opinião distinta. E, por isso, nada como contar duas das versões que nos chegaram.

 

Segundo a Comédia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, de Gil Vicente, o elemento feminino era uma princesa de nome Colimena, que foi raptada por um gigante e aprisionada numa torre, acabando por ser salva por um leão e uma serpente que, inesperadamente, parecia ter amestrado. Poderia ser uma boa resposta ao mistério por detrás de toda a simbologia da cidade, mas na mesma peça a princesa acrescenta que "o cálice está errado, pois devia ser uma torre aprisionadora". Mas não é uma torre - é um cálice ou uma fonte (em algumas versões antigas até pode ser vista a figura feminina no seu interior), denotando que o autor da peça já desconhecia a razão verdadeira por detrás desse elemento central, descartando-o com uma alternativa muito pouco real.

 

Noutra versão, a figura feminina representada no brasão era a Rainha Santa Isabel. Face a séculos de confrontos na cidade (até se poderia dizer que o Mondego foi sendo tingido de sangue, daí o elemento vermelho), a sua vinda veio trazer comunhão e harmonia a dois grandes grupos que aí habitavam (seriam eles, por exemplo, cristãos e muçulmanos, escondidos por detrás das figuras do leão e do dragão?), juntando-os com um mesmo sangue (aqui representado na figura do cálice). É uma metáfora interessante, mas também só parece surgir mais tardiamente.

 

O que sabemos, na verdade, é que os símbolos da cidade não surgiram por magia. Quando alguém decidiu, por exemplo, que estes deveriam conter uma serpente (ou um dragão), isso foi feito com uma determinada intenção. Infelizmente, neste caso particular essa realidade una já se parece ter perdido ao longo dos séculos, como denota o facto de não existir uma só explicação horizontal, mas várias opiniões divergentes. E por isso não sabemos o que este brasão significava, na sua forma original - temos acesso, isso sim, é a diversas opiniões, aparentemente construídas sobre o desconhecimento de aquelas que foram, faz já muitos séculos, as razões reais.