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Mitologia em Português

A História da Donzela Teodora foi publicada em Portugal em meados do século XVIII, mas já na altura se dizia tratar-se de uma tradução, do Castelhano, feita por um Carlos Ferreira. Foi, nessa altura, uma obra relativamente popular, até sendo posteriormente recriada em verso no Brasil (por Leandro Gomes de Barros), mas o que poucos pareciam saber - ou importar-se - é que se tratava de uma obra com já vários séculos, adaptada de um original medieval islâmico. Mas já lá iremos!

A História da Donzela Teodora, capa

De que fala esta História da Donzela Teodora? Numa breve introdução, a misteriosa donzela que ficará conhecida como Teodora foi encontrada num mercado de escravos e comprada por um mercador, que depois tratou de a educar em todas as sete Artes Liberais (e mais algumas). Depois, quando perdeu a sua fortuna, por sugestão de Teodora este pai adoptivo considerou vendê-la a um rei local por um preço bastante elevado. Estranhando a enorme soma pedida pelo homem, o rei decidiu então testar o valor da dama, fazendo-a confrontar-se com os três maiores sábios da corte. Segue-se uma sequência em que cada um dos três faz perguntas à jovem, até que, vencidos, todos eles admitem a superioridade do conhecimento de aquela que lhes respondia. Depois, completamente impressionado, não só o rei paga o enorme preço que tinha sido pedido pela jovem, como até a deixa voltar a casa com o pai adoptivo, não desejando ficar com ela para si mesmo.

 

Como se pode ver a trama da obra é relativamente simples, mas o cerne de toda a aventura são claramente as três sequências de perguntas feitas à jovem. Entre os originais islâmicos e as versões ibéricas essas questões parecem ter sido adaptadas, o que é relativamente fácil de fazer, já que os seus conteúdos não eram parte integrante da trama, podendo por isso ser modificados para incluir muitos outros temas. Na versão que lemos, por exemplo, o primeiro sábio faz-lhe perguntas sobre Astrologia; o segundo, entre outras coisas, pergunta-lhe no que consiste a beleza de uma mulher; enquanto que o terceiro, o mais pujante da tríade, lhe faz perguntas verdadeiramente intrigantes. Até podemos aqui dar alguns exemplos:

Qual é a coisa mais violenta, mais ardente, e que queima mais que o fogo?
Qual é a coisa mais doce que o mel?
Qual é a coisa mais dura que o ferro?
Qual é a ave que anda pelos montes e tem oito finais que outros grandes animais têm?
Que coisa é o Homem? E a Mulher?
Qual é a coisa mais rápida do mundo?
Qual é o maior dos prazeres?
Quais são os que nasceram mas não morrerão até ao fim do mundo?
Quais são os piores e principais pecados?
Qual é o melhor dia da semana? [Sexta-feira, por cinco razões, para quem tiver essa curiosidade.]

As respostas, se as quiserem, poderão encontrá-las na obra (está disponível gratuitamente nesta ligação), mas preste-se atenção ao facto de algumas das questões serem do âmbito cristão; na versão original naturalmente que ainda não existiam, elas nasceram da substituição do conteúdo islâmico e oriental original a um novo contexto, em que já não faziam muito sentido.

 

Para terminar, devemos dizer que esta História da Donzela Teodora é uma obra relativamente interessante. Talvez seja por isso que no Brasil Leandro Gomes de Barros a adaptou para versos, mantendo essencialmente a trama da versão disponível em Portugal. Com cerca de 30 páginas, esta é uma obra que tanto diverte um pouco como dá que pensar, mesmo nos dias de hoje, e que por isso mereceu ser relembrada nos dias de hoje.

 

P.S.- Esta obra não deve ser confundida com outra um pouco anterior, a histórica Vida da Imperatriz Teodora, de Duarte Ribeiro de Macedo, que conta simplificadamente as vidas de Teófilo e Teodora no Império Bizantino do século IX, e que até reconta parte da história de Cássia...

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