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Mitologia em Português

A lenda de La Llorona é provavelmente uma das mais famosas da cultura mexicana, mas é relativamente conhecida na cultura ocidental graças a filmes como A Maldição da Mulher Que Chora (no seu original, The Curse of La Llorona). Ademais, teve um impacto significativo na cultura sul-americana, gerando outras lendas, como a de La Sayona na Venezuela, ao ponto de muitas vezes estas figuras se confundirem, como se de uma só se tratassem. Assim, e como é natural, existem muitas versões de toda a sua história, mas iremos contar aqui a mais famosa de todas elas.

A lenda de La Llorona

Conta-se então que uma mulher nativa do México - sobre o seu nome, já lá iremos - se apaixonou por um nobre espanhol. Amavam-se muito, queriam-se ambos muito, mas os pais desse espanhol não consentiram no seu casamento, e então este par de amados decidiu viver juntos sem casar, e acabaram por ter dois filhos. Depois, os anos passaram-se, até que os pais deste nobre lá o conseguiram convencer a contrair um casamento legítimo com uma outra mulher. Infinitamente triste, aquela que um dia o tinha amado, e que agora já não era amada, decidiu matar os seus próprios filhos num curso de água próximo, suicidando-se em seguida, entre lágrimas sem fim. E agora, em virtude dessas suas acções (a razão mais concreta depende de versão para versão), assombra o mundo dos vivos, matando também os filhos de outras mulheres.

 

Antes de se comentar brevemente toda esta história, há um ponto que convém explicar - quem eram, na verdade, este par de amados? A lenda nem sempre refere os seus nomes, mas numa das versões mais curiosas a que tivemos acesso eles são apresentados como Hernán Cortés e uma mulher que ficou conhecida popularmente como La Malinche, e que o ajudou na conquista do México. É curioso notar que a história de ambos até apresenta algumas semelhanças com a lenda - Cortés teve filhos dela, mas foi casado legitimamente com duas espanholas, Catalina Suárez e Juana de Zúñiga... por isso, esse caso (real) poderá ter sido uma inspiração para toda esta lenda, que posteriormente foi alterada para dar um novo contexto e significado a todos os acontecimentos; é possível que, originalmente, La Llorona tivesse chorado não por perder este amor de um homem, ou mesmo por matar os seus filhos (o que La Malinche não fez, na realidade), mas por ter traído o país que a viu nascer, gerando até o adjectivo malinchista!

 

Volte-se agora à propria lenda de La Llorona. A ideia por detrás dela não é propriamente nova - recordem-se os casos de Gello, de Medeia, de Lilith, entre muitos outros - e apresenta, como é comum em muitas outras culturas pelo mundo fora, a ideia de uma mãe que, ao ter perdido os seus próprios filhos, agora causa um sofrimento semelhante em todas aquelas que partilham o seu estatuto. As razões para tal não são completamente claras na versão da lenda que recontámos acima, mas outras tornam o seu objectivo mais claro - ou ela sente inveja das mulheres que ainda têm os seus filhos vivos; ou mata-os porque, agora completamente insana na sua tristeza, os confunde com os seus próprios, e pensa que ainda estão vivos, desejando-lhes então uma nova morte.

Em qualquer dos casos, na sua forma actual La Llorona é, essencialmente, uma figura muito usada para recomendar às crianças que evitem cursos de água durante a noite. Foi assim que primeiro a conhecemos, no México e através de uma idosa mexicana, mas também é uma ideia que ocorre em muitas outras culturas pelo mundo fora, e.g. recorde-se o caso do Kappa nipónico.

 

Finalmente, se existe uma canção mexicana muito famosa, "La Llorona" (um exemplo pode ser ouvido aqui), há que frisar que ela não se refere concretamente a esta lenda, mas sim a uma mulher que chora pelo facto do seu amado ir para a guerra. Se esse evento se refere a uma outra versão desta lenda, é algo que deixamos à consideração de quem ler estas linhas...

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Se existem muitas criaturas estranhas na Mitologia Grega e Romana, desde a Lâmia e Momo até figuras como a Medusa, já o mito de Gello transporta-nos para uma intemporalidade muito curiosa, por se tratar de uma história que, com uma singela alteração de nome, continua a ser repetida em diversas culturas por todo o mundo até mesmo nos nossos dias de hoje - relembre-se, nesse sentido, a Llorona mexicana, entre incontáveis outras possibilidades por todo o mundo!

O mito de Gello

Sobre este mito de Gello, conta-se então que ela era originalmente uma menina muito jovem. Depois adoeceu, passou por uma doença muito grave, acabando até por falecer nessa sua tenra idade. Tinha sonhado amado alguém, casar, ter os seus próprios filhos, mas... fruta da doença, do seu falecimento, nunca pôde acabar por concretizar esses seus desejos. E assim, enraivecida pela tirania que o Destino lhe tinha imposto, após a morte decidiu continuar a assombrar este mundo, assustando a matando não só as outras crianças, mas também causando muitas outras mortes como a sua.

 

Esta história de Gello, que originalmente era contada para assustar as crianças, numa espécie de "Papão" dos tempos da Antiguidade, não pode deixar de nos relembrar o famoso caso de Lilith, mas também muitos outros que existem nas mais diversas culturas por todo o mundo - normalmente, quando uma criança falece, esse evento horrendo é atribuído, misticamente, ou a uma mãe invejosa, ou uma criança que, como ela, também passou pela mesma situação. Fazem-se amuletos, rezas, e outras coisas que tais, na esperança de que isso evite situações como estas, e mesmo nos nossos dias continuam alguns rituais, mais ou menos religiosos, que podem ser associados ao nascimento e cuidado das crianças em tenra idade, e que em muitos casos tiveram origem em histórias como esta...

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Contar, hoje, esta pequeníssima história da cobra que mama implica dar-lhe algum contexto. Há algumas semanas, enquanto andávamos em busca de histórias pelo país fora, deparámos-nos com uma casa velhinha numa zona já bastante povoada. Não sabemos durante quanto mais tempo ainda lá ficará - até porque estava para venda - mas visto que tinha no seu quintal um potencial vestígio dos tempos romanos, tivemos a curiosidade de perguntar se alguém sabia alguma coisa sobre ela.

A lenda da cobra que mama

A maior parte das pessoas limitou-se a dizer-nos algo tão simples como "Ah, era a casa do Senhor X, ele já faleceu". Porém, um homem, na casa dos seus 60 anos e que viveu na mesma rua em criança, disse-nos algo de muito mais curioso - "segundo a minha mãe, nessa casa havia uma cobra que mamava nas mulheres grávidas e nos animais. Não sei se era verdade ou não... [risos] se calhar era a minha mãe que não queria que eu me aproximasse, e então disse isso para me assustar?" Se, por um lado, não conseguimos atestar a veracidade de toda a história em associação a este local específico - já passaram décadas desses acontecimentos, e não conseguimos encontrar mais ninguém que aí vivesse na mesma época - é curioso constatar que desde os tempos da Antiguidade, e em diversas culturas pelo globo fora, são apontados casos como este, de cobras que mamam, entre outros animais que ou dão de mamar (e.g. veja-se o caso de Rómulo e Remo), ou mamam em seres humanos (e.g. o atribuído a Erictónio em algumas versões do seu mito). Mas a que se deve toda essa estranha ideia?

 

No seu geral, ela deriva de crenças mágicas. As razões para tal variam de cultura para cultura, mas de uma forma mais geral quem dá de mamar a uma cobra pode ser visto como uma feiticeira (ou uma pessoa diabólica, na cultura cristã), enquanto que quem recebe o "leite" do mesmo animal acaba por tomar uma associação ao poder, a um qualquer benefício trazido pelos deuses. Nesse contexto, será então verdade que, naquela casa ali da imagem, existiu mesmo uma cobra que mama? Ou será uma pura lenda e nada mais? Já não sabemos, mas o que podemos afirmar, sem margem para dúvidas, é que existem histórias como essas por todo o mundo, algumas delas até ainda nos nossos dias de hoje, que ainda se tomam por reais, sejam-no ou não...

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Algumas das histórias, mitos e lendas que cá fomos contando ao longo do tempo referem a aparição misteriosa de imagens miraculosas. Desde o caso de Nossa Senhora da Merceana até ao de Matacães, passando por lendas como a do Santuário da Peninha em Sintra, entre muitas outras, estas histórias têm tipicamente um conjunto constante de vectores comuns:

  • Têm lugar num ambiente rural;
  • O principal interveniente é um pastor ou pastora;
  • Surge-lhes uma imagem de Nossa Senhora;
  • Ela é retirada do local e levada para uma igreja;
  • A imagem regressa misteriosamente ao local em que surgiu;
  • É construída uma igreja ou capela próxima do local.

Santuário da Peninha, local de uma das imagens miraculosas

As semelhanças são notáveis e repetem-se pelo menos por toda a Europa, mas pode gerar uma questão muito natural - de onde vêm as imagens miraculosas presentes em todas estas circunstâncias? Mesmo que se quisesse acreditar na possibilidade de milagres, as semelhanças entre os vários eventos são mais que muitas, o que acaba por ser estranho. Não saberíamos o que responder, não fosse o facto de recentemente nos ter sido confirmado que este mesmo padrão existia, de uma forma completamente intencional e durante séculos, em alguns países do leste da Europa.

 

Segundo o que nos foi dito, os padres de várias regiões, em plena Idade Média e até nos séculos que se seguiram, tinham por hábito deixar imagens da Virgem Maria onde pudessem ser encontradas. Depois, algum habitante local lá encontrava a imagem, reportava-a a alguém, a mensagem ia passando de boca em boca e as populações, face a um tamanho milagre, convertiam-se ao Cristianismo e abandonavam as crenças mágicas e pagãs dos seus antecessores, que sabemos que ainda continuavam a existir nesses tempos, e que em alguns casos até chegaram aos dias de hoje (e.g. o caso de rituais agrícolas que, na verdade, parecem não ter nenhuma função real).

Agora, isto até poderia ser uma difamação de uma espécie de "brigada anti-milagre", destinada a difamar tais imagens miraculosas, não fosse o facto de acontecer somente onde ainda não existiam igrejas e da imagem só voltar ao local em que foi encontrada depois de ter sido entregue a um padre. Coincidências...

 

Se tudo isto faz um certo sentido, há igualmente que admitir que não encontrámos quaisquer provas reais de que os padres portugueses da altura fizessem, de uma forma concertada, o mesmo que estes seus colegas de Leste. Não há registo disso, somente provas completamente circunstanciais dessa possibilidade. Por isso, se esse aparecimento de imagens miraculosas foi um verdadeiro e completo milagre, ou somente um logro piedoso perpetrado por alguns párocos e justificado com o bem das almas de todos aqueles que viviam num ambiente rural, fica à consideração dos leitores...

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Já cá referimos anteriormente que existe uma mitologia por detrás da criação dos Pokémons. Falámos até do exemplo concreto do mito da Magikarp, que tem a sua origem na China, mas o que dizer das restantes criaturas da série? São agora já quase 900, e gabamos a paciência de quem conseguir dizer o nome de todas elas (ou sequer reconhecer as suas formas individuais), pelo que não nos é possível ir estudar a origem de todas elas. No entanto, podemos falar das clássicas, aquelas primeiras 151 criaturas que ainda são as mais conhecidas. Refira-se, portanto, alguma da mitologia por detrás dos Pokémons de primeira geração:

Para pensar na mitologia dos Pokemons

  • Charmander, Charmeleon, Charizard - baseados nos dragões ocidentais. Porém, a sua cauda reluzente, sempre em fogo, poderá relembrar-nos a Salamandra, uma criatura dos bestiários que era capaz de viver nesse elemento sem se magoar.
  • Clefairy, Clefable - naturalmente baseadas nas fadas das histórias. A segunda delas até tem asinhas!
  • Vulpix, Ninetales - trata-se da raposa das noves caudas do folclore japonês.
  • Oddish, Gloom, Vileplume - baseados na espécie de flores rafflesia arnoldii, que é das maiores do mundo e cheira bastante mal.
  • Meowth, Persian - têm algumas semelhanças com o Maneki-neko do Japão, um pequeno gato a dar a pata que até pode ser visto em algumas lojas em Portugal, e que supostamente dá sorte a quem o tiver.
  • Growlithe, Arcanine - potencialmente baseados nas criaturas mitológicas, um misto de cão e leão, que podem ser vistas à entrada de muitos templos orientais.
  • Ponyta, Rapidash - a segunda destas criaturas tem por base a figura do Unicórnio.
  • Slowpoke, Slowbro - a segunda poderá, também, basear-se na lenda japonesa de uma criatura chamada Sazae-oni, que é um caracol do mar que, tendo chegado aos 30 anos, ganha poderes místicos.
  • Farfetch’d - derivado de uma expressão japonesa, "um pato a aparecer com um alho francês", que significa algo de muito conveniente.
  • Grimer, Muk - o primeiro deles baseia-se na lenda de uma criatura japonesa conhecida como Doratabo, que é um espírito do dono de um campo de arroz que decide voltar ao mundo dos vivos, num misto de carne e de lama, para se vingar de todos aqueles que não têm cuidado do seu antigo campo de cultivo.
  • Drowzee, Hypno - o primeiro é baseado na lenda do Baku.
  • Lickitung - possivelmente baseado na lenda de Akaname, uma criatura que lambe a sujidade existente nas casas de banho. Não para as limpar, somente porque gosta do sabor!
  • Magikarp, Gyarados - já cá falado anteriormente.
  • Lapras - baseado no Monstro de Loch Ness, que dispensa grandes apresentações.

 

Como é fácil compreender por esta lista sucinta, existe mesmo uma mitologia por detrás dos Pokémons, na medida que os criadores destas criaturas ficcionais se basearem, em alguns casos, em criaturas mitológicas e lendárias de todo o mundo para criar os seus bonecos, dando um espírito renovado a ideias que em alguns casos já têm vários séculos. É uma ideia interessante, e que provavelmente terá contribuído para a popularidade de toda esta série de videojogos!

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