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Mitologia em Português

Resumir o Mahabharata parecer-nos-ia uma tarefa impossível, até que numa dada altura encontrámos num comentário à obra uma frase extremamente interessante - "se o Ramayana mostra o que acontece quando um líder perfeito está no governo, já este outro épico leva-nos ao contrário, à forma como os impérios são elevados e destruídos pela presença de maus líderes." Talvez seja, mais que tudo o resto, esse o grande tema por detrás desta obra, mas igualmente a razão pela qual é tão difícil conseguir resumi-la. Não se trata de uma história contínua, em que as personagens se vão mantendo ao longo das páginas, mas sim da trama de um grande conflito entre dois grupos de primos, os 100 Kauravas e os cinco Pandavas, na qual vão aparecendo uma infinidade de histórias secundárias. E dito assim pode até parecer relativamente simples, mas a trama prolonga-se por centenas de anos, com a guerra entre estes primos, em si mesma, a ser um episódio alongado - a chamada Guerra Kurukshetra - mais do que o centro de toda a história. Para estabelecer um paralelismo com a literatura ocidental, é como se a Ilíada fosse apenas um pequeno e breve capítulo numa obra contínua e que ocupa mais de 200000 versos. Então, como resumir algo dessa magnitude?!

Árvore Genealógica do Mahabharata

Na imagem acima pode ser vista uma árvore genealógica da grande família envolvida em toda esta guerra e na trama do Mahabharata. Na parte superior está, a amarelo, o casamento de Ganga e Shantanu, de que já cá falámos anteriormente, mas só assim, colocado em contexto, se pode ver o seu papel na grande magnitude de toda a história. E, depois, à medida que se vai olhando para a imagem com atenção, podem ir sendo descobertos vários mistérios, de que podemos dar dois exemplos:

Como é possível que cinco irmãos consigam defrontar 100 homens? Normalmente isso seria estranho, mas a sua mãe, Kunti, numa dada altura recebeu o "dom" de ter filhos com todos os deuses que desejasse, e então a sua quíntupla prole foi uma espécie de semideuses, com poderes e forças muito acima dos meros mortais.

Como é que cinco irmãos tiveram filhos de uma mesma mulher? Um deles ganhou-a num concurso de tiro com arco (são outras culturas...), mas face à sua extrema beleza eles decidiram partilhá-la entre si. Eventualmente, isto leva a que um deles, Yudhishthira, perca tudo o que tem - incluindo a própria esposa - ao jogo, fazendo com que estes cinco irmãos sejam exilados para uma floresta durante vários anos (a semelhança com o caso de Rama parece ser intencional). A longo prazo, quando os Pandavas retornam para receber de volta o reino que era seu por direito, os Kauravas recusam devolvê-lo, o que leva a uma enorme guerra e à destruição quase total de ambos os ramos da família, naquele que pode ser vista como a sequência mais famosa da obra.

 

Mas será toda esta história do Mahabharata assim tão simples como pode parecer por aqui? Não o é, porque quase tudo o que vai tomando lugar é explicado através de uma relação com as vidas e eventos do passado. Por exemplo, quando Mandavya, um sábio, é empalado de uma forma que poderá ao leitor parecer desnecessária, ele depois é informado, já no reino de Yama, que sofreu esse triste destino porque na chamada "idade da inocência" magoou vários insectos de uma forma muito semelhante. E coisas como estas vão-se repetindo, repetindo e repetindo, até que às tantas o leitor poderá esquecer-se de onde ia na trama principal. Não é enfadonho, de todo, mas aumenta bastante o tamanho da obra e a complexidade das suas sub-tramas, até porque algumas das histórias de Krishna são aqui recontadas. Nesse sentido, é no início da guerra que se chega a um momento particularmente famoso, conhecido como Bhagavad Gita.

Bhagavad Gita, parte do Mahabharata

Arjuna, um dos cinco Pandavas, escolhe ter Krishna a seu lado em combate, apenas como cocheiro (a alternative era ter o exército do deus, mas o herói pensou que ter a divindade a seu lado era bem melhor, como até acabou por se provar), e nesse momento eles têm um interessante diálogo filosófico sobre a legitimidade de tudo o que se estava a passar. Será que é legítimo causar-se deliberadamente sofrimento numa guerra? É uma questão muito interessante... que, contrariamente ao resto da obra, até existe traduzida para Português, dado o interesse que tem, mesmo que fora do contexto de toda a aventura. Momentos igualmente filosóficos aparecem por toda a obra, com este a ser um dos mais fascinantes que encontrámos:

  • Quem é realmente feliz?

Aquele que tem poucos meios mas nenhumas dívidas; esse é um homem verdadeiramente feliz.

  • Qual é a coisa mais espantosa?

Dia após dia e hora após hora as pessoas morrem e os corpos são levados, mas os espectadores nunca se parecem aperceber que também eles irão morrer algum dia, e parecem pensar que irão viver para sempre. Esta é a coisa mais espantosa do mundo.

 

Porém, se estas linhas parecem um pouco difusas, é porque não é - repita-se - fácil resumir toda a trama do Mahabharata, excepto de uma forma muito geral. A obra vai contando a história de toda a família, até que vão surgindo vários motivos de conflito entre Pandavas e Kauravas, que têm o seu pico numa enorme guerra entre ambos. Dito assim parece fácil, mas depois, existem todo um conjunto de momentos muito interessantes para leitura e análise individual. Um dos mais curiosos, a nosso ver, é a forma - já aludida acima - como Yudhishthira perde tudo o que tem. O leitor pode vê-lo, uma e outra vez, a ir perdendo sucessivos jogos de sorte e de azar, e quase que apetece gritar "Não! Pára! Não sejas estúpido!"; e, ainda assim, mesmo após ser perdoado uma primeira vez, ele perde (novamente) tudo o que tem, numa espécie de comédia trágica da vida humana. Dá que pensar, sem qualquer dúvida.

Também a própria Guerra Kurukshetra tem muito que se lhe diga, pela forma quase dragonballesca como alguns momentos se desenvolvem. Num dado instante, por exemplo, dois heróis usam o seu maior poder, e então os próprios deuses têm de intervir na batalha para evitar a completa destruição de todo o universo (e não estamos a exagerar, é mesmo o que o poema diz). Ao mesmo tempo, são frequentemente explicadas as histórias de cada um dos combatentes*, como obtiveram as suas armas mais famosas, entre outras coisas que são secundárias para a aventura, mas que também contribuem para que se conheçam melhor cada uma das personagens.

Encontra-se um pouco de tudo neste Mahabharata. Fazendo nossas as palavras iniciais, talvez seja correcto definir este poema épico como uma espécie de visão da própria realidade, não sob a sua forma quase idílica (como no Ramayana), mas tal como ela é nas nossas próprias vidas. As personagens são francamente humanas, têm forças e fraquezas, que fazem delas - salvo a presença de alguns poderes mais estranhos, que dificilmente algum dia teremos - não uma espécie de heróis etéreos, mas uma espécie de reflexão sobre nós mesmos e a influência que os conflitos podem ter nas nossas vidas.

Krishna e o Mahabharata

Não é fácil resumir o Mahabharata. Já o dissemos e poderíamos repeti-lo mil outras vezes. A termos de resumir a obra, possivelmente repetiríamos o que já foi dito acima, i.e. que este poema épico conta "a história de toda a família, até que vão surgindo vários motivos de conflito entre Pandavas e Kauravas, que têm o seu pico numa enorme guerra entre ambos", mas com a ressalva de que essas palavras são demasiado redutoras de toda a beleza da obra, bem como dos muitos episódios que a constituem. Por isso, fica o convite de que a leiam. Existe em Inglês, com uma infinidade de volumes, mas pode ser encontrada gratuitamente online, numa tradução mais antiga. Não conseguimos encontrar qualquer tradução portuguesa, com excepção de uma do Bhagavad Gita.

 

 

*- Existem muitos momentos no Mahabharata que não podem deixar de nos recordar a Ilíada. Seria intencional? Será que os respectivos autores se basearam numa história quase comum, que foi perdida ao longo dos séculos? Por exemplo, antes da Guerra Kurukshetra começar são estabelecidas diversas leis entre os combatentes (que acabam por ser todas transgredidas...); se forem relidas no contexto do épico grego, as mesmas regras podem ser inferidas tacitamente de lá, em momentos como aqueles em que dois heróis se defrontam em combate individual, sem que ninguém interfira entre eles. Será coincidência? Será que a aparição de um cavalo no final de ambas as obras pode ser razão para inferir uma ligação entre elas? Pelo menos dá muito que pensar, se terá existido uma qualquer relação entre os dois poemas épicos. Existem alguns estudos sobre o tema, para quem tiver ficado com curiosidade.

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O mito de Yama, de que falamos aqui hoje, é digno de nota por se referir a uma figura originalmente da Índia (e do Hinduísmo), mas que por via do Budismo depois foi transportada para vários outros locais, nomeadamente a China e o Japão, sofrendo algumas alterações ao longo dessa transmissão. Podemos tentar explicar o seu papel (quase) comum na mitologia indiana, chinesa e japonsa de uma forma muito sucinta.

O mito de Yama

Originalmente, a figura que ficou conhecida como Yama já estava associada ao reino dos mortos, com pelo menos uma tradição a dizer que ele tinha sido o primeiros dos mortais a falecer, conhecendo por isso já bem o reino que viria a administrar. Depois, o seu papel vai evoluindo - na China e no Budismo, sob o nome de Yanluo Wang, ele parece tornar-se mais uma figura que definia e controlava as reencarnações, decidindo o que acontecia a cada pessoa após a sua morte, não só em termos de potenciais castigos, mas também definindo sob que forma as pessoas iriam reencarnar. E é nesse papel que o encontramos no Nihon Ryoiki, uma compilação japonesa de milagres budistas do século IX da nossa era.

 

Referimo-nos concretamente a essa fonte literária porque a presença de Yama - mais conhecido no Japão como Emma-O - na mesma é estável, repetida e apresenta sempre o mesmo papel - quando alguém morre é transportado para um enorme e belíssimo palácio, em que os bons actos feitos em vida são contrastados com as realizações menos boas. Por exemplo, numa determinada história dessa fonte literária, é apresentado um homem que fez muitos bons actos na sua vida, mas que também venerou "os deuses chineses" (por oposição a seguir os preceitos budistas, supõe-se). Assim, quando o falecido chega ao tribunal de Yama, surgem versões antropomórficas dos dois grupos de actos, que se debatem pela sua salvação ou condenação; às tantas, o juíz considera que o caso era muto difícil de julgar, optando então por absolver o réu dado este ter praticado mais bons actos do que negativos, e ele até foi trazido de volta à vida, emendando depois o seu comportamento anterior (i.e. passou então a seguir todas as ideias do Budismo).

 

O mito de Yama é, portanto, o de um juíz imparcial, quase humano nas suas forças e fraquezas, que procura com a sua justiça recompensar - ou punir - os actos que as pessoas realizaram nas suas vidas. Face a figuras ocidentais, como o Minos grego ou o Deus cristão, talvez a sua grande fraqueza seja mesmo o seu notável carácter humano, visto que depende de testemunhos - mais do que uma qualquer espécie de poderes místicos - para formular as suas decisões. Talvez até já se tenha enganado, culpando um justo por um pecador, ou deixando o segundo escapar? Não encontrámos qualquer fonte directa em que isso tenha acontecido, contrariamente ao que aconteceu em mitos como os dos Gregos (e.g. recorde-se, por exemplo, a forma como Sísifo enganou os deuses dos mortos), mas é provável que até exista alguma história que siga essas linhas - recorde-se, por exemplo, que no Dragon Ball Z os falecidos  se cruzaram repetidamente com esta figura, que nem sempre soube como julgar muito bem as suas acções em vida...

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Se existem muitas criaturas estranhas na Mitologia Grega, é igualmente verdade que poucas são tão famosas como a Medusa. Já cá falámos dela diversas vezes, e até contámos o seu mito grego, mas uma pergunta poderá persistir - qual a origem da Medusa? Como é que se passou acreditar numa criatura que é tão única no panorama dos mitos gregos e latinos?

A origem da Medusa, a Naga?

A solução para essa difícil questão da origem da Medusa poderá passar por um confronto com os mitos da Índia e do Oriente, em que criaturas muito semelhantes, chamadas Nagas ou Najas, populam os mais diversos mitos. Elas viviam debaixo da terra, guardavam tesouros e - certamente o mais importante para esta publicação de hoje - adoptavam várias formas físicas. Se muitas vezes eram meras serpentes, tal como as conhecemos dos jardins zoológicos, podiam igualmente adoptar uma forma antropomórfica, com rabo serpentino, cabelos feitos de serpentes e tronco feminino (presume-se que este último elemento seja para melhor seduzirem o sexo masculino). Curiosamente, não parecem ter existido "Najos", formas masculinas da mesma criatura...

 

A presença comum de criaturas como estas nos mitos orientais podem explicar a presença da forma invulgar e incomum da Medusa nos mitos ocidentais, mas será que existe uma ligação real entre estas duas criaturas mitológicas, ou se trata tudo de uma mera coincidência? Tudo indicaria o segundo caminho, até que encontrámos um mito indiano de uma jovem chamada Sulocana. Segundo a sua história, enquanto ela fazia amor com o marido num altar viu um horrendo espírito da natureza a olhar para eles; gozando com essa figura, fazendo contrastar a fealdade de aquele que a via com a sua própria beleza natural, foi então vítima de uma maldição, passando a envenenar, mortalmente, todos aqueles para quem olhava. E só um mortal sobreviveu a ela...

Perseu e a Medusa

Não é claro que Sulocana também tenha sofrido uma transformação física, potencialmente até na forma de uma Naja, mas as semelhanças com um dos mitos que envolve esta figura mitológica grega é notável, com um espírito da natureza a tomar aqui o lugar do deus dos mares. Considerar o mito que bem conhecemos nesta sequência explicaria o porquê de, no caso de Perseu e da Medusa, o herói ter de olhar para um escudo - ele não pretendia evitar olhar para o monstro, mas sim que este, ao acordar do seu sono, não olhasse directamente para ele; o poder de transformar em pedra não se devia à fealdade da criatura mitológica, como pensamos demasiadas vezes, mas ao poder mortal do seu olhar directo.

Ao mesmo tempo, recorde-se que se as Górgones têm um corpo repleto de serpentes, essa sua forma serpentina não tem qualquer significado ou função real no mito. Mesmo quando a figura mitológica é representada com asas, o que acontece em muitos vasos, também elas não têm qualquer presença na própria trama, denotando um certo afastamento, difícil de explicar, entre a trama mitológica e a iconográfica, como se a razão por detrás de toda a representação se tivesse perdido ao longo dos séculos.

 

Face a tudo isto, é provável que a origem da Medusa nos deva remeter para os mitos da Índia, ou do Oriente na sua forma mais geral, tendo resultado de uma confluência antiga entre diversas histórias originalmente distintas - pelo menos uma que servia para dar uma forma horrendo à criatura, e uma segunda em que entrava a grande capacidade mortal de um olhar amaldiçoado. Não conseguimos provar com exatidão quando é que essa associação teve lugar - talvez até através de trocas comerciais e culturais muito anteriores à nossa era - mas não temos razões reais para duvidar que possa ter acontecido...

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Já cá falámos sobre parte da grande lenda dos avatares de Vishnu, mas achámos que hoje poderíamos completar, de uma forma sucinta (até por motivos de tempo e espaço), esse mesmo tema. Potanto, e antes de mais, recorde-se o que já aqui foi explicado sobre o conceito hindu de avatar, muito necessário para se compreenderem bem as linhas que se seguem:

Os Hindus acreditam num número muito grande de deuses, de que Ganesha será o mais famoso entre nós, mas têm algumas figuras que consideram mais importantes do que outras. Entre as mais significativas conta-se o deus Vishnu (ou Vixnu, se preferirem), que reencarnou várias vezes e em diversas formas distintas (a que se chamam avatares), para trazer benefícios à humanidade.

Assim, os avatares de Vishnu referem-se às formas que esse deus foi adoptando sucessivamente, cada vez que deixou o Vaikuntha, o seu reino celestial, para vir ao nosso mundo. O número de vezes que o fez, e até as próprias formas que foi adoptando, nem sempre são totalmente estáveis (já lá iremos), mas hoje vamos aqui apresentar as 10 formas mais comuns a este deus, os chamados Dashavatara. E fazêmo-lo hoje não pelas nossas próprias palavras, mas através de uma tradução e adaptação de um momento da obra Kalki Purana, de altura de composição desconhecida, em que estas dez figuras eram recordadas quase como na imagem abaixo e pelos seus eventos essenciais:

A lenda dos Avatares de Vishnu

[1-] Quando os objectos dos três mundos foram destruídos pela água da devastação, e as Vedas [i.e. os livros sagrados] foram perdidas, apareceste na sob a forma de Matsya, [o peixe,] para proteger os princípios religiosos que tinhas estabelecido anteriormente.

[2-] Quando os deuses e os demónios aceitaram cooperar para bater o oceano de leite, com o propósito de obter o néctar, usaram o [lendário] Monte Mandara como um pau para o bater, mas foram incapazes de suportar o seu peso. Na altura aceitaste a forma de Kurma, [a tartaruga,] e suportaste esse monte nas tuas costas. Assumiste essa forma para que os semideuses pudessem beber o néctar da imortalidade.

[3-] Quando os demónios derrotaram Indra, o rei do céu, e o poderoso [demónio] Hiryanyaksha estava prestes a matá-lo, somente para derrotar esse rei dos demónios e salvar a terra assumiste a forma de Varaha[, o javali].

Narasimha, avatar de Vishnu

[4-] Quando o extremamente poderoso Hiranyakashipu, que tinha conquistado os três mundos, começou a atormentar os semideuses, fazendo-os viver em constante medo, para os protegeres decidiste aniquilar este rei dos demónios. Devido à influência dos poderes de Brama [i.e. o deus-criador], este demónio não podia ser morto por qualquer homem, deus ou semideus; com qualquer arma; nos planetas ou na terra; durante o dia ou a noite. Então, assumiste a forma do ser meio-homem, meio-leão, Narasimha, para não transgredir a promessa do deus-criador. Quando o demónio se preparava para te morder, abriste-lhe o peito com as tuas garras e assim o enviaste para o reino dos mortos.

[5, já falado aqui -] Apareceste como o irmão mais novo de Indra, assumindo a forma do anão Vamana, e foste à arena sacrificial do Rei Bali para o enganar. Apenas lhe pediste a caridade de três passos de terra. Ele aceitou, mas falhou ao cumprir a sua promessa, porque assumiste uma forma gigantesca e cobriste todo o universo com apenas dois passos.

[6-] Quando os reis da terra se sentiram demasiado orgulhosos e abandonaram os princípios religiosos, encarnaste como Parasurama para os aniquilar. Nessa encaranção, ficaste igualmente enraivecido pelo roubo da vaca, destruindo a casta dos guerreiros por vinte e uma gerações.

[7, já falado aqui -] Quando os três mundos estavam a ser atormentados por Ravana de dez cabeças, encarnaste para o destruir. Aprendeste a arte de lançar flechas e foste para a floresta em exílio por catorze anos. Durante esse tempo Ravana raptou a tua esposa, Sita. Demoraste algum tempo, mas depois cruzaste o oceano, construindo uma ponte com a ajuda dos macacos guerreiros, e mataste o senhor de [Sri] Lanka, Ravana, com toda a sua família.

[8-] Depois apareceste como Balarama. Diminuiste as dores da terra ao aniquilares muitos demónios. Ao mesmo tempo, todos os semideuses e devotos veneraram os teus pés de lótus.

Buda, avatar de Vishnu

[9-] Na devida altura apareceste como Buda e mostraste ódio pelos princípios prescritos pelo criador. Instruiste os teus seguidores a abandonarem o seu apego a este mundo de ilusão, fazendo-os renunciar a todos os desejos de gratificação dos sentidos. Apesar de teres rejeitado as Vedas, nunca rejeitaste a ética do mundo.

[10, muito adaptado -] Aparecerás como Kalki para eliminar a dinastia de Kali [i.e. a deusa da destruição] ao destruir os budistas, ateístas, e outros que tais, assim protegendo o verdadeiro caminho da religião.

 

Agora, os mais atentos poderão notar que falta aqui Krishna, a que já cá fizemos duas alusões através dos mitos de Dhenuka e Putana. A sua ausência deve-se ao facto de esta listagem não ser completamente estática. Na verdade, ainda há dias um amigo que pratica activamente a religião hindu nos dizia, com enorme ênfase, que Krishna não era um avatar, mas sim a maior expressão do mais elevado dos deuses hindus. São muitos os crentes que partilham de essa mesma ideia, mas nesse caso eles adaptam parte da história, dizendo que era Balarama, em vez do seu irmão, a reencarnação do deus. Outros crentes omitem completamente Buda desta lista, e assim sucessivamente...

De modo muito semelhante, também as principais histórias associadas a cada um de estes dez avatares podem variar um pouco. Em relação a Matsya, por exemplo, é por vezes dada uma história, até potencialmente alternativa a esta, de um peixe que foi crescendo de tamanho e acabará por salvar o rei que sempre o ajudou, numa sequência que acaba com um dilúvio universal.

 

A lenda dos avatares de Vishnu é, então e na sua grande essência, um dos maiores pilares do Hinduísmo. Seria interessante falarmos de cada uma destas figuras de forma mais alongada, mas por agora será suficiente esta breve introdução, que até poderá, um dia, vir a ser seguida por explicações mais alongadas, se existir interesse significativo nisso.

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Provinda da Índia, a lenda de Kali e Raktabija é aqui digna de nota em virtude da segunda destas duas figuras, uma espécie de demónio indiano que se multiplicava cada vez que derramava uma única pinga de sangue que fosse.

A lenda de Kali e Raktabija

Os deuses hindus tentaram combater Raktabija com todas as suas maiores forças, mas cada vez que a atacavam e que a faziam derramar algum sangue, de cada pinga surgia mais uma cópia da sua opositora, até que se tornaram dezenas, centenas, milhares os corpos do demónio que estavam a defrontar.

Então incapazes de a derrotar com as suas forças individuais, os deuses juntaram todos os seus poderes e criaram Kali, deusa da destruição. Depois, deram-lhe todas as suas armas e pediram-lhe que destruisse Raktabija. A recém-criada deusa conseguiu fazê-lo - começou por colocar todos os clones da sua opositora na boca, tendo o cuidado de os mastigar sem nunca derramar uma única gota. Em seguida, cortou a cabeça da principal opositora e chupou todo o seu corpo até ao tutano, novamente tendo todo o cuidado de não deixar cair uma gota que fosse. Assim, sozinha mas com o poder de todos os deuses, foi capaz de fazer o que mais ninguém tinha conseguido...

 

Esta lenda de Kali e Raktabija é essencialmente uma das muitas teogonias de uma deusa, aqui ainda "nova", que se foi tornando bastante popular ao longo do tempo. Existem outras versões que contam como ela foi trazida ao mundo, naturalmente, mas esta em particular cativou a nossa atenção devido ao estranho poder do monstro que é aqui completamente destruído por Kali. Situações semelhantes, de pseudo-super-poderes como estes, são muito frequentes nas histórias do Hinduísmo, e não ficam a dever nada às histórias dos super heróis ocidentais dos nossos dias de hoje.

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A lenda de Vamana, provinda da Índia, conta-nos a história de um dos avatares de Vishnu (o conceito já foi explicado brevemente aqui). Não é tão conhecido como Rama ou Krishna, mas nem por isso deve ser considerado como menos importante, até porque, como essas outras duas figuras, teve um propósito muito específico neste mundo:

Um momento crucial da lenda de Vamana

Conta-se que Vamana era um pequeno anão. Enviado ao mundo para punir o rei Bali pelas suas muitas maldades, aproximou-se deste quando ele estava a fazer um sacrifício aos deuses e pediu-lhe um favor mínimo - apenas queria três curtos passos de terreno, para aí construir uma casa e cultivar alguns vegetais. O rei, face a um pedido tão estranho quanto pequenino (certamente que terá pensado algo como "Só queres três passos de terreno? Passos de um anão? Hahahaha"), mesmo contra os conselhos repetidos que lhe foram dados pela sua corte decidiu concedê-lo. Contudo, nesse preciso instante Vishnu abandonou a forma de Vamana e tomou um corpo gigantesco - com um primeiro passo cobriu toda a terra, com um segundo ocupou todo o céu, e... já não tendo onde colocar um terceiro, pisou depois a cabeça do próprio Bali com tanta força que acabou por enviar este monarca directamente para o submundo.

 

Se existem outras lendas de Vamana, ou histórias associadas a este avatar, o cerne da sua lenda é este, que começa com a reencarnação de Vishnu e termina, essencialmente, com o instante em que Bali é punido pelos seus crimes e por aquilo a que até poderíamos chamar a sua hybris. É uma trama relativamente simples, pelo que as lições que nos transmite são fáceis de discernir - a prudência necessária em todas as nossas acções será certamente a mais óbvia.

E, quanto aos restantes avatares deste mesmo deus hindu (os outros deuses também os têm, clarifique-se esse ponto), poderemos cá contar as suas histórias no futuro, caso haja interesse suficiente para tal. Será que alguém também as quer conhecer?

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Falar da lenda de Rama, famosa entre os Hindus, implica necessariamente falar do épico Ramayana (ou Ramáiana, em forma aportuguesada), em que esta figura tem um papel principal. Os dois temas até se confundem, como se fossem um só - esta lenda é o tema principal apresentado nesse poema épico, apesar de também existirem outras versões da mesma história. Iremos então contá-la aqui, de forma demasiado breve, mas só podemos fazê-lo depois de apresentarmos duas clarificações iniciais, importantes para a maior parte dos leitores ocidentais, que poderão desconhecer estas coisas:

Os Avatares de Vishnu

Primeiro, é importante clarificar o conceito de avatar. Os Hindus acreditam num número muito grande de deuses, de que Ganesha será o mais famoso entre nós, mas têm algumas figuras que consideram mais importantes do que outras. Entre as mais significativas conta-se o deus Vishnu (ou Vixnu, se preferirem), que reencarnou várias vezes e em diversas formas distintas (a que se chamam avatares, alguns dos quais podem ser vistos na imagem acima), para trazer benefícios à humanidade - por exemplo, tomou a forma deste Rama, mas também a de Krishna (possivelmente a mais amada das suas formas), a de Sidarta Gautama (uma história muito interessante, mas que terá de ficar para outro dia), ou a de Vamana, entre várias outras.

 

Depois, temos também de introduzir, de uma forma breve, o próprio poema épico do Ramayana. Atribuído ao sábio Valmiki, que não só escreveu este poema como até é uma das suas personagens, este é um dos grandes poemas épicos da Índia (o outro é o Mahabharata, que já recordámos num mito), que narra as aventuras de Rama, um dos avatares de Vishnu, enviado ao mundo para derrotar Ravana, rei dos rakshasas (i.e. "demónios"), que entre os seus vários crimes andava a raptar milhares de mulheres bonitas e levá-las para a sua ilha, a do actual Sri Lanka. Face a estas duas introduções, resuma-se agora, muito simplificadamente, a história do Ramayana.

Personagens do Ramayana

Por influência de uma madrasta, Rama foi exilado por 14 anos do reino que iria herdar um dia, e foi viver para uma floresta acompanhado pela sua esposa, Sita (que era um avatar de Lakshmi, a consorte de Vishnu), e pelo irmão Lakshmana. Um dia, Ravana soube da beleza desta mulher e decidiu tomá-la para si, mesmo sabendo que ela já era casada com outro homem; para o conseguir, enviou um belíssimo veado de ouro para a floresta, e enquanto os dois irmãos se afastaram sucessivamente, para capturar uma tão bela criatura, o poderoso inimigo raptou então a formosa esposa do herói.

A parte mais significativa da história é, depois, aquela em que Rama tenta encontrar e recuperar a sua amada Sita. Pelo caminho, ele e Lakshmana conhecem Hanuman, o poderoso rei dos macacos, que os ajuda bastante nas suas aventuras, chegando a levantar uma montanha enorme nos seus ombros só por não encontrar uma pequena erva mágica que lhe foi pedida.

Como não poderia deixar de ser, Rama lá encontra Sita e derrota Ravana após uma longa batalha. Finalmente, tem-na nos seus braços, e... é aqui que surge aquele que, repetidamente, nos foi apontado como o momento mais controverso da obra. O herói parece amá-la verdadeiramente, num primeiro instante, mas depressa a rejeita. E fá-lo tratando-a até bastante mal, porque se recusa a acreditar que ela se tenha mantido fiel nos meses em que esteve a viver no palácio de Ravana - e mesmo quando ela prova, por influência divina, que lhe foi totalmente fiel e que o ama mais do que a qualquer outro homem, o herói ainda chega depois a duvidar dela uma segunda vez, antes de a perder para sempre neste mundo...

 

Não podemos, sem qualquer dúvida da nossa parte, captar toda a beleza deste épico num punhado de linhas. Nem conseguimos resumi-la com grande destreza assim, sendo que acima deixamos apenas um traçado demasiado breve do seu conteúdo. No seu cerne existem alguns momentos belíssimos, como o momento em que Rama vê Sita pela primeira vez, ou as muitas aventuras de Hanuman, ou a hybris repetida e estonteante do quase-invencível Ravana. E, por isso, talvez estas sejam aventuras que os leitores merecem conhecer em primeira mão, por muito pouco conhecida que esta obra seja em Portugal e no Brasil. Existe, pelo menos, em tradução inglesa, disponível gratuitamente online, pelo que o convite para quem a quiser conhecer melhor já está aqui feito!

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