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Dom Fuas Roupinho e o Veado

Conta-nos esta lenda que, numa manhã de nevoeiro por volta de 1182, Dom Fuas Roupinho andava a caçar por terras da Nazaré quando viu um veado. No calor do momento decidiu persegui-lo quase até aos fins do mundo, e por pouco ia sendo levado à sua própria morte - o veado saltou de um penhasco e o cavalo do herói quase que o ia acompanhando, até que o "Farroupim" evocou o nome de Nossa Senhora e, no derradeiro momento, o animal estacou miraculosamente, salvando a vida daquele que transportava. As marcas do milagre foram de tal forma profundas que, segundo alguns, ainda podem ser vistas no local.

 

Como sempre nestas lendas, existem algumas divergências aqui e ali, mas uma das referências mais interessantes que encontrámos passa por se dizer que o veado era uma transformação do diabo, e daí se compreender a ajuda santa de Nossa Senhora.

Mas terá sido toda esta história verdade? Sabemos que Dom Fuas Roupinho foi uma figura real, viveu no tempo de Dom Afonso Henriques, foi alcaide de Porto de Mós e até um eminente comandante naval, sendo muito provável que tivesse passado pela Nazaré. Sabemos igualmente que foi ele quem mandou construir uma capela nessa vila, sobre uma antiga gruta onde já existia uma imagem de Nossa Senhora (e, supostamente, próxima do local do milagre), pelo que poderá ter sido essa uma grande razão da associação entre as duas figuras. Mas se o episódio do veado realmente tomou lugar, isso é algo que só o próprio "Farroupim" nos saberia dizer.

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Para terminar este mês temático português decidimos falar de algo menos comum. Num famoso filme nacional, Aldeia da Roupa Branca, de 1939, surge uma breve sequência em que um grupo de crianças ensaia uma pequena peça de teatro. Nela estão representadas uma princesa, um pastor, uma bruxa e alguns anjos. Pouco depois, quem está a ensaiar a peça diz que a cena pertence à "nova história da Princesa Magalona, que eu comprei em Lisboa".

A Princesa Magalona

Aos mais curiosos poderia surgir uma questão - afinal de contas, quem é essa tal "Princesa Magalona"?

 

Em busca de uma resposta acabámos por descobrir que existe mesmo uma história com esse nome. Tratava-se, originalmente, de uma história medieval, que parece ter sido popular por toda a Europa e que até teve diversas edições em Portugal. Mas, nas edições a que tivemos acesso, já dos séculos XVIII e XIX, intituladas História verdadeira da princesa Magalona, filha d'El-Rei de Nápoles, e do nobre, e valoroso cavalheiro Pierres, Pedro de Provença, e dos muitos trabalhos, e adversidades, que passaram, sendo sempre constantes na fé, e virtudes, e como depois reinaram, e acabaram a sua vida virtuosamente no serviço de Deus, não existe qualquer referência ao momento mostrado no filme. De facto, a história do livro não tem quaisquer elementos mágicos, apresentando uma trama que muito se assemelha a tantos outros romances de cavalaria. E, na verdade, parte do seu conteúdo até é muito brevemente aludido no Dom Quixote de Cervantes, através de uma menção ao "rapto" de Magalona por Pedro.

 

Mas seria, então, a história presente no filme pura fantasia cinematográfica? Parecia-nos que sim, até que nos apercebemos da existência de diversas histórias tradicionais associadas ao nome de uma outra "Princesa Magalona", que não era a figura medieval e cuja herança ainda hoje pode ser encontrada no substantivo magalona, que o dicionário da Priberam diz tratar-se de uma "mulher vistosa, ataviada".

Nesse contexto, o breve momento do filme parece derivar de uma ligação entre duas tradições reais mas distintas - a personagem ter comprado um possível folhetim em Lisboa; e ele conter uma possível "nova" história de uma princesa cujo nome era bem conhecido nas histórias orais da época.

Esta possibilidade faz até sentido se tivermos em conta o carácter muito tradicional, quase estereotipado, das personagens da peça - a bela princesa, o pastor que não gosta da cidade, a feiticeira cujos poderes nada podem contra a religião cristã, etc. E se, nesse seguimento, a história aí parcialmente representada não parece existir de forma mais completa... até faria algum sentido que sim!

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A "Porca" de Murça

Imaginem-se, por um breve momento, a passear na Vila de Murça, no norte de Portugal. Ao cruzarem o Largo 31 de Janeiro poderão encontrar a estátua presente na imagem acima. Mas... o que vêem representado nela? É uma porca, um javali, um urso, ou um outro animal?

 

Queiramos ou não, a resposta a essa questão é um elemento fulcral da lenda da Porca de Murça. Numa dada altura esta estátua celta foi encontrada perto da povoação, e dela derivou a lenda de que, em tempos idos, um enorme animal tinha assolado aquela região, até que foi atacado e morto pelos habitantes, restando dessa grande batalha a memória imortalizada na estátua.

 

Mas, a acreditar nessa breve lenda, qual foi o animal a atacar os aldeões, e que pode ser visto tanto na estátua como no emblema da vila? Uma enorme porca? Uma ursa? Um javali? Outro animal? É, talvez mais que tudo, aquilo que nela quisermos ver, uma reinterpretação de uma antiga estátua, cujo significado original já há muito se perdeu nas areias do tempo.

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Face de Endovélico

A grande maioria dos mitos que vão sendo contados por cá provêm da Grécia Antiga ou do tempo dos Romanos. Temos acesso a esse conhecimento porque os autores da altura decidiram deixar-nos, por escrito, algumas das histórias que envolviam cada uma dessas divindades e heróis. Contudo, o caso de Endovélico é significativamente diferente.

 

Endovélico é conhecido como o mais popular dos deuses (ou heróis divinizados?) da Península Ibérica. Mas, mesmo se tratando de uma importante divindade nativa, nenhum autor grego ou romano nos fala dele, nem nenhum autor ibérico a ele se refere com informação credível. E, na verdade, nada saberíamos hoje sobre ele não fosse o facto de terem sido encontrados diversos ex-votos com o seu nome, como aquele que pode ser visto na imagem acima, juntamente com uma cabeça que se supõe ser de Endovélico. A pouca informação que temos (ver, por exemplo, aqui um interessante artigo de José D'Encarnação que a resume) permite-nos perceber alguns dos seus contornos e poderes, mas nada nos diz sobre alguma possível história real que possamos associar a esta figura ou ao seu santuário de São Miguel da Mota.

 

Nesse sentido, se Endovélico até é uma divindade de uma importância inegável na cultura ibérica, procurar um mito associado a ele é uma tarefa impossível. Nenhum autor nos parece ter deixado a sua história real, sendo ele, para nós, pouco mais que um mero nome de um passado há muito esquecido.

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A ponte em Cruz Quebrada

Muitos são os topónimos portugueses cuja verdadeira origem se encontra envolta em mistérios. Hoje iremos falar de outro local problemático, a Cruz Quebrada. De onde vem esse nome? Existem pelo menos duas lendas associadas a ele:

 

Numa delas, um moleiro local sofreu várias desilusões de amores. Procurando uma solução para os seus males do coração, aproximou-se de um herético que lhe disse que deveria fazer um dado ritual, no qual um dos passos passava por mutilar uma cruz que estava exposta em público. Imprudentemente, fê-lo mas foi apanhado; em seguida foi julgado e queimado numa fogueira, mas o acto que tinha cometido pareceu tão horrendo entre os fiéis que acabou por dar nome à povoação em que teve lugar.

 

Uma outra lenda diz algo significativamente diferente. Conta-nos que no tempo das invasões francesas alguns soldados estrangeiros decidiram derreter símbolos religiosos para reaproveitarem os materiais. Com vista a esse objectivo, numa dada altura foram a uma ponte em que existiam duas cruzes e removeram uma delas. Por milagre, a sua companheira começou a gritar, a pedir socorro, e só se calou quando a outra foi reposta no seu local. Tal milagre levou ao nome da "Cruz Que Brada" (i.e. que solta gritos), que mais tarde se tornou "Quebrada".

 

Porque tem, então, a povoação de Cruz Quebrada esse nome? O elemento miraculoso da segunda lenda é potencialmente problemático, mas não sabemos até que ponto a primeira será digna de maior crédito. Poderá, realmente, preservar a origem do nome da povoação, mas... terá sido verdade, a história que nos conta?

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Boca do Inferno

Para quem já tiver ido a Cascais, tomando a estrada na direcção do Guincho poderá encontrar uma zona que tem o nome de "Boca do Inferno". Uma designação tão singular certamente que tem uma razão de ser, não é?

 

Conta-nos então a lenda que próximo do local já existiu um castelo mágico. Nele vivia um horrendo feiticeiro que desejava casar com a mais bela jovem da região. Mas, uma e outra vez, esta recusou amá-lo. Então, procurando amolecer o coração da jovem, o feiticeiro prendeu-a numa torre e colocou um cavaleiro a guardar a entrada. Um dia, movido pela curiosidade, este guarda espreitou para o interior da cela, por uma primeira vez, apaixonando-se pela donzela. Também esta parece ter caído de amores por aquele que então a observava. Juntos, decidiram fugir da torre e viver o seu amor. Porém, o feiticeiro depressa soube desta intenção comum e usando a sua magia maléfica fez brotar um enorme buraco no chão, onde os dois amantes viriam a cair (para o Inferno?).

 

Agora, se esta é a mais famosa lenda da Boca do Inferno (uma pesquisa pela internet até revela, uma e outra vez, outras versões da mesma história), tem o problema de pouco ou nada explicar. Na verdade, até levanta mais perguntas do que aquelas a que responde! De onde vem, então, o nome desta "Boca do Inferno"? Face à ausência de outros mitos ou lendas que o expliquem, propomos aqui uma solução para o problema.

 

Um pequeno filme, datado de 1896 e dirigido por Henry Short, supostamente foi filmado neste local, e chama-lhe simplesmente "sea cavern", uma caverna próxima do mar.

No entanto, o que hoje podemos ver no local não é uma caverna, mas pouco mais que um arco de pedra. Se o tecto dessa (suposta) caverna tiver caído ao longo dos anos, a famosa lenda faz um pouco mais de sentido, mas continua sem explicar o nome do local. Porém, uma versão oral da mesma (ver aqui) dá uma pista preciosa, na medida que parece indicar que o nome era dado à entrada do local, à "boca" da caverna vista no vídeo, mais do que ao local em si. E isto, de facto, faz algum sentido. Quem, como tentámos há alguns dias, for à Boca do Inferno numa manhã de tempestade, pode facilmente ouvir o barulho aí produzido pelas ondas. Soa a uma espécie de rugido, de grito infernal. Se o acesso ao interior da caverna era difícil (e tratando-se, nessa altura, Cascais de uma vila piscatória, era quase certamente feito por barco) é possível que daí tenha surgido a ideia de que esta era uma entrada, uma metafórica "boca", para o Inferno.

 

Mas, então, onde ficam o feiticeiro, o cavaleiro e a donzela? Essa lenda certamente que não é medieval, nem faria sentido existindo ainda no local uma caverna. Terá nascido já no século XX, numa altura posterior ao abatimento do tecto, não existindo por isso uma relação directa entre a lenda que conhecemos e o nome do local? É possível que sim...

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Henriqueta Emília da Conceição e Sousa, nascida na cidade do Porto no ano de 1840, é uma figura complexa, na medida que as circunstâncias da sua vida estão hoje envoltas num misto de realidade e mito. Sabemos que foi órfã, que foi violada quando ainda era criança, e que posteriormente se dedicou aos roubos, à prostituição, e a outros ilegalidades, dando origem a um conjunto de circunstâncias a que alguns romances da época muito vieram a adicionar. Quando ainda não tinha sequer 30 anos, apaixonou-se por uma mulher de nome Teresa Maria de Jesus, que viria a falecer em 1868. E aqui começa a história de hoje.

 

Com o falecimento de Teresa, Henriqueta viu-se envolta no maior sofrimento. Não sabia como viver sem a "amiga". Chorava, lamentava-se, sentia-se incapaz de continuar a viver. Então, decidiu mandar construir-lhe um túmulo digno, ainda hoje adornado com uma belíssima estátua de São Francisco.

(C) Nils Pickert 2016

Restava a transladação do corpo. Henriqueta seguiu todos os trâmites legais, até ao dia da deposição da falecida na nova campa. Porém, quando foi altura do novo enterro, pediu para ficar alguns momentos a sós com a amiga, de forma a se poder despedir com maior emoção. Depois, só e face ao cadáver, arrancou-lhe a cabeça e levou-a. E, durante algum tempo, viveu com a cabeça da sua amada na sala de sua casa, colocando-a à mesa, beijando-a, falando até com ela, como se de uma pessoa viva ainda se tratasse.

 

Mais tarde foi apanhada neste seu crime, mas não sofreu qualquer pena de maior - tratava-se, segundo o juíz, de um crime de amor, da simples loucura e desespero de uma mulher muito apaixonada. Diz-se que a cabeça do cadáver foi posteriormente devolvida à sua proveniência, mas contrariamente aos desejos de Henriqueta não vieram a partilhar um mesmo túmulo na eternidade. E, por isso, duas noites por ano é ainda possível ouvir nesse cemitério o triste lamento de Henriqueta por Teresa...

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