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Santa Isabel e o Milagre das Rosas

De entre as lendas de santos em Portugal é provável que esta seja uma das mais famosas. Por isso, iremos recordá-la com as mesmas palavras que a descrevem no Largo do Castelo do Sabugal:

 

A história mais popular da Rainha Santa Isabel é sem sombra de dúvida o «Milagre das Rosas». Segundo a lenda portuguesa, numa manhã fria e geada de inverno a rainha santa saiu do Castelo do Sabugal para fazer a caridade aos mais desprotegidos da sociedade, levando no seu regaço pedaços de pão e outros víveres. Foi de imediato interpelada pelo rei seu marido, que a questionou «que levais no regaço?» De imediato respondeu «são rosas, senhor!»

Desconfiado, D. Dinis inquiriu-a de novo. «Rosas de Inverno?» A rainha mostrou então o conteúdo do regaço do seu vestido e nele só haviam rosas, ao contrário dos pãos que aí colocara.

In «História de Portugal», de Manuel Pinheiro

 

Onde tomou lugar um tão estranho acontecimento? Poderá ter sido em Coimbra, em Alenquer, em Leiria, ou até em outros locais, mas a presença desta versão da lenda no Castelo do Sabugal nota que também esse local é a ele associado. Mas, se realmente tomou lugar ou se trata somente de uma história fictíca, é algo mais difícil de responder...

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Há algumas semanas que alguém veio cá procurar por "lendas antigas da época dos portugueses". Não é totalmente claro o que a pessoa pretendia, mas dado esse mote achámos que poderíamos contar uma das mais antigas lendas de Portugal, a da Batalha de Ourique.

Afonso Henriques em combate

Conta-nos esta lenda que a 25 de Julho de 1139 Afonso Henriques se encontrou em combate contra os exércitos de cinco reis mouros. As hostes inimigas pareciam-lhe infindáveis. Em desespero, retirou-se para um local fechado, um simples espaço em que pudesse descansar. Minutos depois surgiu-lhe um misterioso idoso que o convidou a sair para o exterior e olhar o céu. Quando o fez, Afonso Henriques viu Cristo Crucificado entre inúmeras hostes de anjos, e este prometeu-lhe que venceria a dura batalha do dia seguinte, como veio a acontecer.

Em gesto de agradecimento, o rei colocou cinco quinas na sua bandeira, em homenagem aos cinco reis mouros então derrotados.

 

Quem seria o misterioso idoso? Porque insistiu para que o milagre fosse exibido no exterior? Não sabemos a resposta à segunda pergunta, mas em relação à primeira a identidade da figura parece variar mediante as versões, podendo tratar-se de um qualquer santo ou até do próprio Jesus Cristo.

 

Agora, este até podia ser o grande mito da fundação de Portugal, que permitiria ver a independência como um desejo divino e Afonso Henriques como o grande timoneiro dos destinos de Portugal, mas... estragando um pouco a proverbial festa, é também uma lenda que só aparece em fontes escritas já no século XV, ou seja, mais de 300 anos após o suposto evento. É pouco provável que tenha um fundo de verdade, mas não deixa de ser uma belíssima lenda da fundação do nosso país.

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Há poucas horas falámos sobre o brasão da cidade de Coimbra, apontando nessa altura a dificuldade que era descortinar o verdadeiro significado por detrás dos seus símbolos. E, nesse sentido, antes de voltarmos a um mito grego, queríamos então cá trazer também um exemplo de uma situação contrária, um caso em que é bastante mais fácil fazê-lo.

Agora, se Coimbra foi a segunda capital de Portugal, achámos que poderíamos igualmente dedicar algum tempo aos leitores "do outro lado do oceano" e falar da segunda capital do Brasil - Rio de Janeiro - cujo brasão pode ser visto abaixo.

Brasão da Cidade do Rio de Janeiro

No topo, como é costume, podem ser vistas as cinco torres que simbolizam o seu estatuto de cidade. Em redor, o louro e o carvalho e duas criaturas marinhas (foi-nos dito que são botos, parecidos com os golfinhos), cada qual com seu significado hieráldico. Mas o que está no centro?

O azul significa a lealdade. A esfera armilar e as três flechas, que já aí constam desde o tempo dos portugueses, remetem-nos para as descobertas manuelinas e a morte de São Sebastião (não confundir com Dom Sebastião). Finalmente, o barrete frigio central é, desde os tempos da Revolução Francesa, um símbolo da república.

 

O que distingue o caso deste brasão do de Coimbra, em Portugal? Se ambos foram sendo alterados ao longo dos séculos, no caso do Rio de Janeiro os símbolos essenciais foram (quase) sempre os mesmos, de uma simplicidade que evita quaisquer confusões. Já os de Coimbra, na sua complexidade tornaram possível que o significado inicial se fosse perdendo, levando a múltiplas interpretações que, por parecerem verdade, contribuíram para o esquecimento de uma simbologia que lá teria existido antes.

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Há alguns dias, enquanto passeávamos pela cidade de Coimbra, perguntaram-nos qual o significado do invulgar brasão da cidade. Para quem não souber a que nos referimos, aqui fica ele:

Brasão de Coimbra

Quem é a mulher na parte superior da imagem? Porque é o elemento central tão vermelho? A que se referem a presença de um dragão, um leão e um cálice?

 

O grande problema em descortinar o significado por detrás de todos estes elementos, e do próprio brasão, não se prende tanto com uma ausência de fontes, mas com uma enorme discrepância entre todas elas, cada qual com uma opinião distinta. E, por isso, nada como contar duas das versões que nos chegaram.

 

Segundo a Comédia sobre a Divisa da Cidade de Coimbra, de Gil Vicente, o elemento feminino era uma princesa de nome Colimena, que foi raptada por um gigante e aprisionada numa torre, acabando por ser salva por um leão e uma serpente que, inesperadamente, parecia ter amestrado. Poderia ser uma boa resposta ao mistério por detrás de toda a simbologia da cidade, mas na mesma peça a princesa acrescenta que "o cálice está errado, pois devia ser uma torre aprisionadora". Mas não é uma torre - é um cálice ou uma fonte (em algumas versões antigas até pode ser vista a figura feminina no seu interior), denotando que o autor da peça já desconhecia a razão verdadeira por detrás desse elemento central, descartando-o com uma alternativa muito pouco real.

 

Noutra versão, a figura feminina representada no brasão era a Rainha Santa Isabel. Face a séculos de confrontos na cidade (até se poderia dizer que o Mondego foi sendo tingido de sangue, daí o elemento vermelho), a sua vinda veio trazer comunhão e harmonia a dois grandes grupos que aí habitavam (seriam eles, por exemplo, cristãos e muçulmanos, escondidos por detrás das figuras do leão e do dragão?), juntando-os com um mesmo sangue (aqui representado na figura do cálice). É uma metáfora interessante, mas também só parece surgir mais tardiamente.

 

O que sabemos, na verdade, é que os símbolos da cidade não surgiram por magia. Quando alguém decidiu, por exemplo, que estes deveriam conter uma serpente (ou um dragão), isso foi feito com uma determinada intenção. Infelizmente, neste caso particular essa realidade una já se parece ter perdido ao longo dos séculos, como denota o facto de não existir uma só explicação horizontal, mas várias opiniões divergentes. E por isso não sabemos o que este brasão significava, na sua forma original - temos acesso, isso sim, é a diversas opiniões, aparentemente construídas sobre o desconhecimento de aquelas que foram, faz já muitos séculos, as razões reais.

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Numa das suas epístolas, Luís Vaz de Camões diz-nos que vivia em Goa "mais venerado do que os touros da Merceana". A que se referia ele, e porque eram esses touros assim tão venerados? Podemos contar essa lenda, tal como nos foi contada nas nossas viagens:

Nossa Senhora da Piedade da Merceana

Por volta do século XIV, em terras de Alenquer, um pastor notou que um dos seus touros (de nome Merceano ou Marciano) desaparecia todos os dias, voltando algumas horas mais tarde. Isso acontecia tantas vezes que um dia decidiu segui-lo. Seguiu-o, seguiu-o, seguiu-o, até que encontrou o touro prostrado em frente de uma árvore, como que a rezar. Face a tal prodígio, o pastor decidiu olhar melhor e encontrou, na copa dessa mesma árvore, uma imagem de Nossa Senhora da Piedade.

Retirando-a do local, levou-a depois ao padre da sua paróquia, que a colocou numa igreja. Porém, por muitas vezes que a imagem fosse levada para essa igreja, tornava a desaparecer de lá e a reaparecer no seu local original. Tantas vezes teve lugar o duplo milagre que o padre acabou por desistir, optando pela alternativa de construir uma igreja no local.

 

Face a tal prodígio, e acreditando-se que o poeta nasceu em Alenquer, é possível que nos tempos de Camões os touros da Merceana ainda fossem famosos graças a este evento miraculoso, levando-o à referência da sua epístola.

E, para quem estiver curioso, o local da igreja chama-se hoje "Merceana" por causa do nome do próprio touro. Conta-se que a miraculosa imagem - uma Nossa Senhora "da Piedade" pelo facto de apresentar o corpo de Cristo nos braços de Santa Maria (i.e. uma pietà) - ainda está no seu interior, mas nunca tivémos a oportunidade de a ver com os nossos próprios olhos.

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Dom Fuas Roupinho e o Veado

Conta-nos esta lenda que, numa manhã de nevoeiro por volta de 1182, Dom Fuas Roupinho andava a caçar por terras da Nazaré quando viu um veado. No calor do momento decidiu persegui-lo quase até aos fins do mundo, e por pouco ia sendo levado à sua própria morte - o veado saltou de um penhasco e o cavalo do herói quase que o ia acompanhando, até que o "Farroupim" evocou o nome de Nossa Senhora e, no derradeiro momento, o animal estacou miraculosamente, salvando a vida daquele que transportava. As marcas do milagre foram de tal forma profundas que, segundo alguns, ainda podem ser vistas no local.

 

Como sempre nestas lendas, existem algumas divergências aqui e ali, mas uma das referências mais interessantes que encontrámos passa por se dizer que o veado era uma transformação do diabo, e daí se compreender a ajuda santa de Nossa Senhora.

Mas terá sido toda esta história verdade? Sabemos que Dom Fuas Roupinho foi uma figura real, viveu no tempo de Dom Afonso Henriques, foi alcaide de Porto de Mós e até um eminente comandante naval, sendo muito provável que tivesse passado pela Nazaré. Sabemos igualmente que foi ele quem mandou construir uma capela nessa vila, sobre uma antiga gruta onde já existia uma imagem de Nossa Senhora (e, supostamente, próxima do local do milagre), pelo que poderá ter sido essa uma grande razão da associação entre as duas figuras. Mas se o episódio do veado realmente tomou lugar, isso é algo que só o próprio "Farroupim" nos saberia dizer.

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Para terminar este mês temático português decidimos falar de algo menos comum. Num famoso filme nacional, Aldeia da Roupa Branca, de 1939, surge uma breve sequência em que um grupo de crianças ensaia uma pequena peça de teatro. Nela estão representadas uma princesa, um pastor, uma bruxa e alguns anjos. Pouco depois, quem está a ensaiar a peça diz que a cena pertence à "nova história da Princesa Magalona, que eu comprei em Lisboa".

A Princesa Magalona

Aos mais curiosos poderia surgir uma questão - afinal de contas, quem é essa tal "Princesa Magalona"?

 

Em busca de uma resposta acabámos por descobrir que existe mesmo uma história com esse nome. Tratava-se, originalmente, de uma história medieval, que parece ter sido popular por toda a Europa e que até teve diversas edições em Portugal. Mas, nas edições a que tivemos acesso, já dos séculos XVIII e XIX, intituladas História verdadeira da princesa Magalona, filha d'El-Rei de Nápoles, e do nobre, e valoroso cavalheiro Pierres, Pedro de Provença, e dos muitos trabalhos, e adversidades, que passaram, sendo sempre constantes na fé, e virtudes, e como depois reinaram, e acabaram a sua vida virtuosamente no serviço de Deus, não existe qualquer referência ao momento mostrado no filme. De facto, a história do livro não tem quaisquer elementos mágicos, apresentando uma trama que muito se assemelha a tantos outros romances de cavalaria. E, na verdade, parte do seu conteúdo até é muito brevemente aludido no Dom Quixote de Cervantes, através de uma menção ao "rapto" de Magalona por Pedro.

 

Mas seria, então, a história presente no filme pura fantasia cinematográfica? Parecia-nos que sim, até que nos apercebemos da existência de diversas histórias tradicionais associadas ao nome de uma outra "Princesa Magalona", que não era a figura medieval e cuja herança ainda hoje pode ser encontrada no substantivo magalona, que o dicionário da Priberam diz tratar-se de uma "mulher vistosa, ataviada".

Nesse contexto, o breve momento do filme parece derivar de uma ligação entre duas tradições reais mas distintas - a personagem ter comprado um possível folhetim em Lisboa; e ele conter uma possível "nova" história de uma princesa cujo nome era bem conhecido nas histórias orais da época.

Esta possibilidade faz até sentido se tivermos em conta o carácter muito tradicional, quase estereotipado, das personagens da peça - a bela princesa, o pastor que não gosta da cidade, a feiticeira cujos poderes nada podem contra a religião cristã, etc. E se, nesse seguimento, a história aí parcialmente representada não parece existir de forma mais completa... até faria algum sentido que sim!

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