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Mitologia em Português

Apesar do seu nome, há que deixar claro que a lenda de Fílis e Aristóteles cavalgado tem uma origem medieval, existindo numa forma escrita pelo menos desde inícios do século XIII. Não temos forma de saber quando foi criada, mas também não conseguimos encontrar qualquer prova real de que já existisse nos tempos da Antiguidade. Assim, quase certamente que se trata de uma invenção medieval, destinada a demonstrar de uma forma muito misógina o carácter nefasto das mulheres, como acontece em muitas outras histórias da época (ainda recentemente aqui apresentámos outro exemplo), mas que merece ser recontada por cá face à sua popularidade no medievo europeu e sua ligação evidente com os temas da Grécia Antiga:

A lenda de Fílis e Aristóteles cavalgado

Alexandre Magno era aluno de Aristóteles, mas Fílis - cuja identidade precisa nem sempre é muito clara - queria afastá-los. Assim, fez com que o famoso filósofo se apaixonasse por ela, pedindo-lhe depois uma prova do seu amor. Completamente apaixonado, este dispôs-se a fazer tudo o que a amada lhe pedisse, e então esta quis cavalgá-lo, num sentido que parece ter sido puramente literal. Ele aceitou o estranho pedido, e face ao ridículo de toda esta situação, de ver Fílis e Aristóteles cavalgado (atente-se à presença do jovem no interior de um castelo, na imagem acima), a personagem feminina foi capaz de mostrar a Alexandre Magno que... bem, a moral de toda a história parece divergir mediante a versão, mas tipicamente é comunicado que o poder da Filosofia nada conseguia contra os esquemas malévolos e manipuladores das mulheres, tão constantes em muitas outras obras e lendas da Idade Média. Por isso, dizia esta malévola figura ao jovem, estudar Filosofia era completamente inútil!

 

Claro que este já não é o Aristóteles da Antiguidade, aquele famoso autor de obras filosóficas, mas em pelo menos uma das versões que consultámos ele até acaba por dar a volta a toda esta estranha situação, aproveitando para ensinar a Alexandre Magno que a Filosofia também passava por se saber escolher os actos da nossa vida, pesando-os pelas consequências, neste caso aceitando ridicularizar-se somente para poder aproveitar os encantos do corpo de Fílis.

 

Na verdade, toda esta ideia de reutilizar temas e personagens da Antiguidade em novos contextos é uma característica relativamente comum da literatura medieval. Basta ter-se em conta, por exemplo, as adaptações aos Ciclos Troiano e Tebano feitas nessa época, ou a forma como obras como Orlando Enamorado ou o Livro do Armeiro-Mor pegaram em mitos antigos e os readaptaram para novas audiências. Nesse sentido, as figuras desta lenda de Fílis e Aristóteles cavalgado são como que meros fantasmas de outros tempos, cujos nomes subsistem mas cujo espírito original já há muito tinha sido perdido. Bastaria substituir-se os nomes das personagens por outros com o mesmo espírito e tudo o resto poderia ser mantido nesta história. Mas, ainda assim, numa dada altura esta lenda foi famosa por toda a Europa, e até chega a aparecer em alguns manuscritos nacionais...

 

[P.S.- Na semana que vem iremos cá apresentar três famosos mitos do continente americano.]

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Nos tempos da Antiguidade as Mulheres da Tessália, uma região da Grécia Antiga, eram conhecidas por serem grandes e famosas feiticeiras. O seu maior exemplo era o de Medeia (que nem era dessa região, mas finjamos que sim), aquela feiticeira malévola e vingativa, mas de um modo mais geral o que se dizia é que estas mulheres tinham poderosos poderes mágicos, sendo até capazes de retirar a própria Lua dos céus. Agora, essa estranha possibilidade é muito repetida, apesar de ser também muito raramente concretizada, até porque se torna difícil compreender o que elas fariam com esse astro, após tê-lo deslocado do seu local habitual nos céus...

Mulheres da Tessália

Porém, um escólio de tempos bizantinos revela dois factos muito curiosos em relação a estas Mulheres da Tessália. Elas possuíam toda uma infinidade de poderes mágicos, sim, mas para poderem tomar proveito deles tinham frequentemente de dar algo seu, algo que lhes fosse muito precioso, em troca, sendo referido que frequentemente perdiam "os pés e os olhos", talvez por esses elementos poderem ser considerados como alguns dos mais importantes do corpo humano - conseguem imaginar as vossas vidas sem esses órgãos no vosso corpo? É um pouco difícil, não é...?

Porém, o mesmo escólio também acrescenta algo a toda a esta história, um elemento muito curioso. Não nos é dito que alguém o tenha feito, nem sequer é fornecido o nome de alguma figura mitológica ou mais real associada a um potencial episódio, mas é dito que quando as Mulheres da Tessália retiravam a Lua do céu, muitas vezes escondiam-na debaixo das suas próprias camas, utilizando-a para si mesmas e para o que bem lhes apetecesse, como se de um redondo e estranho espelho se tratasse.

Não sabemos, admita-se com toda a sinceridade do mundo, que fontes literárias poderá ter consultado quem nos deixou essa informação na margem de um manuscrito, mas pelo menos ela contribui para que possamos compreender um pouco melhor aquela que é uma referência comum em diversas obras da Antigudade, mas que a uma primeira vista nos poderia parecer demasiado misteriosa para ser descortinada nos nossos dias...

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Há já quase uma década que aqui se falou dos conselhos amorosos de Ovídio, mas hoje completamos o tema falando sobre os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis, três figuras femininas que indubitavelmente merecem ser referidas no mesmo contexto que as famosas obras sobre o amor do autor romano. Por isso, quem foram elas?

Os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis

Conta-se que Astyanassa foi uma das empregadas que cuidou de Helena de Tróia quando esta ainda era muito jovem. Depois, aqui e ali, podem ser encontrados alguns brevíssimos factos que lhe foram sendo associados, mas o mais relevante para o tema de hoje é que se dizia que foi ela que ensinou à causadora da Guerra de Tróia as artes da sedução, contribuindo muito significativamente para a paixão de (Alexandre) Páris . Ainda mais - foi esta figura que inventou as diversas posições sexuais, tendo até escrito uma obra literária sobre esse tema. Mas, caso alguém tenha interesse em ir procurar esse texto, devemos deixar claro que não há qualquer prova de que ele tenha mesmo existido, visto que é sempre referido mas jamais citado.

Assim sendo, talvez até para colmatar a impossibilidade de leitura de uma obra como essa, outras mulheres cortesãs (ou seja, que se dedicavam à venda do prazer por dinheiro), escreveram os seus próprios textos sobre o tema. E talvez até tenham sido muitas, mas só nos chegaram informações associadas a duas delas.

 

Uma delas, conhecida sob o criptónimo de Elefantis, publicou um livro que sabemos que até tinha ilustrações, contendo novas (ou "nove", como outros preferem ler) formas diferentes de praticar os actos derivados do amor. Infelizmente, nada nos chegou dos seus textos, ou mesmo das respectivas ilustrações, pelo que não nos é possível averiguar se terão tido algum impacto na obra de Ovídio.

Contudo, um outro caso é um pouco diferente - Filenis também escreveu um livro sobre os mesmos temas, mas dela já nos chegaram algumas breves linhas, permitindo-nos saber um pouco mais. Assim, a autora nasceu na ilha de Samos e era filha de um tal Ocimenes. A sua obra parecia abordar não só a prática sexual, em si mesma, mas também tudo aquilo que envolvia o tema do amor e a sedução, chegando a dizer, por exemplo, que mesmo que uma mulher fosse muito feia o potencial amante a deveria equiparar a Afrodite, ou que uma mulher mais velha poderia ser comparada a Reia (a chamada "Mãe dos Deuses"). É uma informação que suscita curiosidade, claro, mas que ao apenas nos ter chegado em breves fragmentos, também não nos permite saber muito mais sobre o texto original.

 

Ainda assim, isto prova que os conselhos amorosos de Astyanassa, Filenis e Elefantis, tal como o de outros potenciais autores e autoras da Antiguidade, podem ter dado um pano de fundo à Arte de Amar ovidiana, mas também contribuído para a sua proibição, pelos seus antecessores se tratarem, como nos informam os autores que aludem a estes textos, de obras pouco recomendáveis ao público em geral. Recorde-se até que, como já cá foi dito antes, livros pornográficos em Latim apenas vieram muito mais tarde, mas aqueles em língua grega foram, quase certamente, aqueles que aqui apresentámos hoje...

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Na Mitologia Grega existem figuras que nos podem gerar confusão, e o mito de Cronos (e Chronos) é um deles, pela óbvia semelhança de nomes. O caso não é único - já cá apontámos um exemplo semelhante, o do mito de Tétis - mas a mais famosa de estas duas figuras chamava-se Κρόνος, enquanto que a outra tinha o nome de Χρόνος. A semelhança é notável, só muda a primeira letra grega, e naturalmente que isso não poderia deixar de causar alguma confusão. Portanto, quem é cada uma de estas duas figuras?

O mito de Cronos (e Chronos), e o Mr. Burns

Cronos, a mais famosa das duas personagens, era um dos titãs. Resumidamente, foi ele que destronou Urano, tendo cortado com uma foice os genitais do próprio pai (sim, este é um daqueles mitos gregos mais chocantes e grotescos), acção de que nasceu a deusa Afrodite. Depois, ascendendo ao trono do Olimpo, reinou com um punho de ferro. Mas tinha medo de ser destronado por um filho, como ele próprio tinha feito ao seu pai, e então quando lhe nasciam filhos e filhas, ele engolia-os. Fê-lo repetidas vezes, até que lá nasceu Zeus, cuja mãe substituiu por uma pedra. O futuro deus da trovoada foi então amamentado e criado por uma cabra, e mais tarde logo e destronou este Cronos, com pelo menos uma fonte literária a nos dizer que também ele castrou aquele que o gerou, antes de ascender ao trono do Olimpo. O vencido, esse, fugiu para Itália, onde veio a conhecer o deus Jano, entre outras aventuras muito pouco conhecidas.

O mito de Cronos (e Chronos), em mosaico

Até aqui tudo bem, mas afinal... quem foi essa tal outra figura divina, Chronos? Se até lhe existem associados alguns mitos bastante obscuros, de que (quase) ninguém aqui quererá ouvir falar, o seu papel nos mitos dos Gregos e dos Romanos pode ser resumido como o de uma representação metafórica do tempo, enquanto conceito, o que era relativamente comum na altura - bastará que se recorde, por exemplo, o mito de Nyx, deusa grega da noite, para ver um outro caso semelhante, em que um conceito como que obtém uma antropomorfização.

 

Agora, a ausência de mitos concretos e famosos, em relação a este segundo caso, poderá ter sido a principal razão pela qual o mito de Cronos e Chronos se começaram a confundir. Há quem diga que o primeiro também é o Tempo, há quem diga que são duas figuras completamente distintas, mas o que sabemos, sem margem para muitas dúvidas, é que originalmente, nos mitos mais antigos a que ainda temos acesso, eles eram duas figuras distintas, tal como as apresentámos aqui. E, por hoje, basta-nos isso.

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Se existem muitas criaturas estranhas na Mitologia Grega e Romana, desde a Lâmia e Momo até figuras como a Medusa, já o mito de Gello transporta-nos para uma intemporalidade muito curiosa, por se tratar de uma história que, com uma singela alteração de nome, continua a ser repetida em diversas culturas por todo o mundo até mesmo nos nossos dias de hoje - relembre-se, nesse sentido, a Llorona mexicana, entre incontáveis outras possibilidades por todo o mundo!

O mito de Gello

Sobre este mito de Gello, conta-se então que ela era originalmente uma menina muito jovem. Depois adoeceu, passou por uma doença muito grave, acabando até por falecer nessa sua tenra idade. Tinha sonhado amado alguém, casar, ter os seus próprios filhos, mas... fruta da doença, do seu falecimento, nunca pôde acabar por concretizar esses seus desejos. E assim, enraivecida pela tirania que o Destino lhe tinha imposto, após a morte decidiu continuar a assombrar este mundo, assustando a matando não só as outras crianças, mas também causando muitas outras mortes como a sua.

 

Esta história de Gello, que originalmente era contada para assustar as crianças, numa espécie de "Papão" dos tempos da Antiguidade, não pode deixar de nos relembrar o famoso caso de Lilith, mas também muitos outros que existem nas mais diversas culturas por todo o mundo - normalmente, quando uma criança falece, esse evento horrendo é atribuído, misticamente, ou a uma mãe invejosa, ou uma criança que, como ela, também passou pela mesma situação. Fazem-se amuletos, rezas, e outras coisas que tais, na esperança de que isso evite situações como estas, e mesmo nos nossos dias continuam alguns rituais, mais ou menos religiosos, que podem ser associados ao nascimento e cuidado das crianças em tenra idade, e que em muitos casos tiveram origem em histórias como esta...

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