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Capa do livro "American Gods"

Há já alguns meses que uma jovem nos recomendou o livro American Gods, de Neil Gaiman, mas só agora tivemos oportunidade de o ler. Essencialmente, é um texto ficcional que através da sua personagem principal, o misterioso Shadow, mostra como os deuses de outros tempos, e os pseudo-deuses dos nossos dias, "vivem" nos dias de hoje. E essa é, naturalmente, uma ideia interessante (mas não completamente nova...), mas também uma que nos parece muito mal aproveitada ao longo da novela; muitas das presenças divinas remetem-se a breves alusões aqui e ali, como no momento em que o autor faz uma alusão ao mito egípcio da pesagem da ka, mas sem que nunca explique mais sobre o conceito - isto, apesar de até o reaproveitar na sua história.

 

De uma certa forma, sentimos que este livro seria muito melhor se tivesse breves anotações a explicarem as muitas alusões que o autor vai fazendo aos deuses e seus respectivos mitos. Claro que pode ser lido sem esse elemento, mas acaba por se perder um interessante subtexto da história, até porque a maioria dos leitores dificilmente estará (bem) familiarizado com histórias como as do Barão Samedi, de Ratatosk, ou da criação pagã da Páscoa, entre muitas outras.

Mas, no seu geral, esta é uma curiosa obra ficcional de que os interessados em mitos e lendas irão gostar. Também existe uma série de televisão baseada nela, para quem até preferir ver em vez de ler.

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Este livro merece ser referido por cá dado o seu estranho papel na história da literatura ocidental. Quanto Cervantes escreveu o primeiro tomo do seu Dom Quixote, a obra tornou-se tão popular e famosa que os leitores pareciam suspirar por mais aventuras do seu herói. E elas até surgiram algum tempo depois, não pela mão do autor original, mas pela de um tal "Alonso Fernández de Avellaneda". Essa prática não era proíbida na altura, mas, pelo menos, parecia ser um pouco mal vista, dado que Cervantes ainda estava vivo. Como tal, o autor original depressa escreveu um segundo tomo "oficial", que ainda hoje é incluído nas edições dos nossos dias e em que também critica as falsas aventuras do "outro" Quixote, o de Avellaneda.

 

Nesse contexto, a versão de Avellaneda foi sendo esquecida - não parece sequer existir em tradução portuguesa - e é hoje vagamente criticada como sendo inferior à de Cervantes. Mas será que o é? É uma questão um tanto ou quanto discutível; essa versão apresenta uma ligação muito maior aos antigos romances de cavalaria, fazendo bastantes referências a aventuras como as de Orlando, Amadis, Palmeirim e outros tantos heróis medievais, enquanto que a do autor original abandona um pouco essa ideia no segundo tomo. Ao mesmo tempo, também é uma espécie de desfilar de desapontamentos, com uma oferta de aventuras em que o leitor é repetidamente levado a pensar uma coisa e depois lhe é dado algo completamente diferente - desde se atrasar para torneios, até defrontar gigantes que depressa se tornam donzelas, ou acabar preso numa espécie de clínica psiquiátrica, este é um Quixote bastante desapontante, apesar de ter alguns momentos reluzentes, que poderão agradar a quem ainda gosta de romances de cavalaria.

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Há mais de um ano que aqui falámos da origem das fadas. Recentemente, adquirimos um livro intitulado Les Fées du Moyen-Age, da autoria de L. Maury, que acrescenta alguma informação a esse tema, não só relativamente às fadas, em si, mas também a outras criaturas medievais, como os gnomos e os trolls.

Another of the Cottingley Fairies

Aparentemente, as fadas podem provir das fatae latinas. Se sabemos que as ideias pagãs, após a ascenção do Cristianismo, sobreviveram mais tempo nas pequenas povoações do que nas grandes cidades, o que parece ter acontecido é que existiu um desenvolvimento paralelo (e pouco documentado) de algumas crenças. Assim, uma crença nas fatae - em termos de Destinos, Moirae, etc. - parece ter-se indo associando a alguns locais rurais específicos, e depois foi evoluindo através de um sincretismo de outras crenças antigas. Por exemplo, a sua magia e conhecimento do futuro poderá vir dos Destinos romanos; as suas danças, das que tinham lugar nos rituais de Baco; a sua longa idade, da dos Sátiros campestres; a sua pureza, da das sacerdotisas; o seu local de habitação, da antiga veneração de árvores, cavernas e cursos de água; etc.

O curioso desta possibilidade é que permite, aqui e ali, reencontrar vectores de ligação aos mitos da Antiguidade. Quando a Bela Adormecia é destinada, por uma fada malévola, a se picar numa roca de fiar, não se torna fácil ver nessa história uma alusão ao carácter fiandeiro e destinador das três Moiras dos Gregos, agora vistas como malévolas por influência do Cristianismo? Quando um cavaleiro medieval encontra uma fada dos cursos de água, como a Senhora do Lago arturiana, não estariam os autores da história a pensar ainda nas Ninfas de outros tempos, que também ajudavam alguns heróis? As suas asas, não poderão elas provir das de Eros/Cupido?

 

Face a esta argumentação, parece-nos justo, por fim, ver na origem das fadas uma amálgama de múltiplas crenças pré-cristãs, que ao longo dos séculos se foram cristalizando numa só figura de muitos atributos, tanto salvadora como destruidora (mediante quem a vê), e que parece ir mantendo funções dispersas que o Cristianismo tanto tentou eliminar e/ou sobrescrever com o culto dos santos.

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Capa do livro

De entre as muitas pesquisas que foram aqui feitas ao longo dos anos poucas nos intrigaram tanto como o caso das muitas pessoas que, por uma razão desconhecida, decidiram procurar pela obra O Estrangeiro, de Albert Camus. Isso, naturalmente, levou-nos a explorá-la, mas nada nela nos parece remeter directamente para a literatura ou os mitos da Antiguidade. É, essencialmente, uma novela/romance em que um dado homem tem uma vida completamente normal, mata alguém (de forma acidental?), e depois tem de lidar com as consequências dessa acção.

Assim, desconhecemos o porquê de tanta gente ter procurado por essa obra por cá; seria pela confusão entre a Literatura Clássica (i.e. da Antiguidade) e os clássicos da literatura, a que a obra de Camus quase certamente pertence?

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Gulliver preso pelos Liliputianos

As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, é um daqueles livros que todos parecem conhecer - de filmes, de menções em outras obras, de sátiras na cultura popular, etc. - mas que poucos ainda parecem ler. É, essencialmente, um exemplo satírico daquilo que se costuma chamar "literatura de viagem", e que pode ser definida, de forma muito sucinta, como aquela em que alguém vai viajar e, posteriormente, conta aos seus leitores as coisas - muitas delas completamente estranhas - que foi vendo. Esse elemento é aqui levado ao extremo, com a personagem titular a passar por desventuras completamente inacreditáveis (mas com elementos moralizadores), que ele afirma, jocosamente, que foram completamente reais.

 

Mas, se até existem algumas referências a figuras e eventos da Antiguidade neste livro, em particular no momento em que Gulliver fala com alguns falecidos de esses tempos antigos, devemos é relembrar que este é talvez o mais famoso exemplo de uma tendência que começou nos primeiros séculos da nossa era, com uma obra chamada As Coisas Incríveis Além de Tule (de António Diogenes), sendo que "Tule" era uma ilha que pensava existir-se no ponto mais a norte da Europa (seria a Islândia? Não temos a certeza). Já não nos chegou de forma completa, mas foi um dos livros lidos por Fócio de Constantinopla, que ainda o resumiu na sequência 166 da sua Biblioteca.

Alguns anos mais tarde, outro exemplo particularmente famoso da literatura de viagem é a História Verdadeira, de Luciano, que já continha episódios naturalmente jocosos, e que até poderá ter vindo a inspirar a obra de Jonathan Swift. E, depois, seguiram-se muitas outras ao longo dos séculos...

 

(Se até se poderia levantar uma ressalva de que a Odisseia também é uma obra que contém viagens, há que deixar presente que esses momentos são acessórios face às aventuras de Ulisses, nunca se pretendendo documentar directamente os locais pelos quais o herói foi passando.)

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Hoje, falamos de parte da história de Sun Wukong, uma figura pouco conhecida em Portugal mas muito famosa na China e em diversos outros países orientais. É ele um dos heróis da novela chinesa Jornada ao Oeste, pelo que seria difícil contar todas as suas aventuras num só punhado de linhas. Assim, relatamos aqui apenas as suas primeiras aventuras, na versão que este texto nos preserva.

 

Sun Wukong poderia ser um macaco como os outros, mas nasceu de uma pedra mística na Montanha das Flores e Frutas. Pouco depois, encontrou-se com outros macacos e, juntos, descobriram que existia uma caverna secreta por detrás de uma cascata. Inicialmente não conseguiram descobrir como lhe aceder, pelo que decidiram honrar como seu rei aquele que conseguisse fazê-lo. Foi o macaco que nasceu da pedra mágica que o conseguiu fazer, acabando por receber tão grande honra.

Tendo descoberto esse recanto secreto, os macacos divertiram-se em segurança durante muito tempo. Mas, um dia, aperceberam-se de um problema - por muita diversão que tivessem, um dia acabariam por morrer. E essa foi, para eles como para qualquer um de nós, uma ideia assustadora.

Face ao problema, o macaco que nasceu da pedra decidiu partir em busca da imortalidade. Encontrou o sábio Bodhi, que lhe ensinou diversas artes mágicas e técnicas secretas. E foi ele que primeiro lhe deu o nome de Sun Wukong (que significa algo como "Macaco alerta para o nada", possivelmente em honra dos ensinamentos que teve, mas discutir crenças budistas escapa ao nosso objectivo).

 

Depois disto, o Rei Macaco teve muitas outras aventuras, mas para as conhecerem fica a sugestão de que leiam a Jornada ao Oeste, uma obra bastante divertida. Não parece existir em Português, mas existem diversas traduções para o Inglês. E, quanto mais não seja, depois poderão gabar-se de ter lido a obra literária que inspirou a primeira temporada do Dragon Ball - de facto, sabiam que Son Goku é o nome nipónico dado a esta mesma personagem?!

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Modelo Geocêntrico vs Modelo Heliocêntrico

Como todos nós aprendemos nos tempos de escola, existiu um período de tempo em que as pessoas pensavam que a Terra estava no centro do Universo. Depois apareceu Copérnico, que parece ter sido o primeiro a postular a ideia de que, afinal de contas, no centro do nosso Universo estava era o Sol. Esta comparação dos dois modelos pode ser vista na imagem acima, mas deixa-nos uma questão - afinal de contas, como é que Nicolau Copérnico descobriu isto?

 

A sua obra mais famosa, Da Revolução das Esferas Celestes, não é um texto simples. De facto, em busca de uma resposta à questão anterior encontrámos algumas referências a ela como "o livro que ninguém leu", possivelmente pela complexidade matemática que apresenta. Mas, felizmente para todos nós, uns anos antes o mesmo autor escreveu também um texto conhecido como Pequeno Comentário, em que apresenta a sua teoria de uma forma muito breve e simples.

 

E então, afinal de contas, como chegou Copérnico à sua teoria heliocêntrica? Simplificadamente, pegou nas medições dos muitos autores que o antecediam, como Cláudio Ptolomeu, e acabou por se aperceber de um problema - para esses autores, o movimento das esferas celestes não era uniforme. Em vez disso, os planetas moviam-se de uma forma muito inconsistente, como na imagem seguinte:

Geocentrismo

Em seguida, ele apercebeu-se que, em alternativa, se o Sol estivesse no centro do Universo todo este complexo modelo poderia ser muito simplificado - todas as medições que tinham sido feitas antes continuariam a bater certo, mas com um movimento das esferas celestes muito mais consistente e sucinto, em que todos os planetas se moviam de uma forma exclusivamente circular em torno de um mesmo centro, como pode ser visto na imagem abaixo.

Sistema Solar

Se esta explicação até poderá parecer simples, o que Nicolau Copérnico fez no seu livro Da Revolução das Esferas Celestes foi provar, matematicamente, que existia uma alternativa ao modelo dos Antigos, e que esta permita simplificar bastante o modelo que até então era seguido. Mais do que postular que cada planeta tinha o seu movimento individual, como antes, o seu modelo permitia compreender que todos os planetas tinham um mesmo movimento circular. Infelizmente, essa possibilidade também implicava vir a dizer que a Terra tinha de perder o seu lugar cimeiro no centro do Universo, algo que a Igreja de então não levou muito bem, condenando injustamente a teoria deste autor...

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