As lendas de Matacães

Na estrada que separa Torres Vedras de Alenquer pode ser encontrada, sem dificuldade de maior, um desvio para uma povoação de nome Matacães. É indubitavelmente um nome singular, mas quem desejar saber mais sobre ele, ou a origem do nome, depressa se deparará com uma pequena lenda associada a esta povação, segundo a qual a povoação tem esse nome porque, no tempo da Reconquista Cristã, supostamente existiu uma batalha nesse lugar, em que os combatentes gritaram “Matem esses cães!”, referindo-se não ao animal doméstico, mas à mesma palavra num sentido pejorativo. E seria uma lenda muito simples, pouco notável, pelo menos até olharmos para o brasão da antiga Freguesia de Matacães (hoje já foi fundida com outras duas):

Lenda de Matacães

Este é um brasão que, no contexto da lenda reproduzida acima, dificilmente poderia ser compreendido. Porque tem este brasão de Matacães um cacho de uvas, uma oliveira parcialmente despida e um sino vermelho?

A nosso ver, estes três símbolos estão intimamente ligados. Diz uma outra lenda da mesma povoação, ainda hoje muito ligada à agricultura, que existiu lá uma oliveira solitária, em que costumava aparecer uma imagem milagrosa de Nossa Senhora. Tentaram movê-la várias vezes do local (relembrando-nos até a lenda da Nossa Senhora da Piedade da Merceana, localidade que não fica muito longe desta), mas a imagem regressava sempre ao seu local original, no topo da oliveira, pelo que foi construída uma igreja no local (é hoje a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira, na mesma povoação). Depois, os peregrinos ao local foram retirando folhas a essa famosa árvore, dando-lhe o aspecto singular que pode ser visto no brasão que reproduzimos acima.

Duas oliveiras ainda hoje podem ser vistas próximas do local, em Matacães, mas desconhecemos se alguma delas é a original, aquela de que nos fala esta lenda. Certo é que a imagem já não se desloca miraculosamente para o local, impossibilitando a verificação do milagre outrora famoso. É pena (!), mas pelo menos assim se compreende a distinção entre a lenda que dá nome à povoação e uma outra, muito diferente, relativa aos três elementos que ainda estão presentes no seu brasão.

Porque se chama Templo de Diana ao de Évora?

Entre os monumentos romanos mais famosos de Portugal conta-se, além das Ruínas de Conímbriga, um templo em Évora que é conhecido sob o nome de Templo de Diana. Que é um templo do tempo dos Romanos, e que por isso estaria dedicado a uma qualquer figura divina da sua altura, é algo que dificilmente alguém duvidará, mas uma outra pergunta significativa acabará por restar, uma que aqui decidimos abordar no início destas publicações diárias até ao final do novo confinamento – porque se chama ele Templo de Diana, afinal de contas?

O Templo de Diana de Évora em dois momentos da sua história

O templo já teve um aspecto muito diferente (ver acima, respectivamente em gravuras do século XIV e XIX), mas as referências que fomos lendo a ele referem-se, quase exclusivamente, ou à sua localização na cidade de Évora (de no romano Ebora Liberalitas Julia), ou a uma associação a Diana, deusa romana da caça. Quem pesquisar um pouco sobre o tema irá encontrar informação de que, aparentemente, essa designação vem de uma obra de Manuel Fialho, autor jesuíta do século XVII, intitulada Évora Ilustrada. Não conseguimos encontrá-la para consulta, mas um epítome da mesma obra, compilado já alguns anos depois e de título Évora Gloriosa, diz essencialmente o seguinte em relação a este templo:

Entre todas [as divindades veneradas em Évora] a sua divindade tutelar, especialmente após o governo de Sertório, foi Diana, a quem levantaram aquele famoso templo, cujas presentes ruínas indicam hoje a soberba da sua fábrica.

Ou seja, este autor, a quem é dado grande crédito na origem do nome dos nossos dias, nunca parece explicar o porquê de considerar que neste templo tinha sido venerado a deusa Diana. Ponto final?

Não, nem por isso, na medida em que podemos aqui lançar uma sugestão… quem for ler a famosa obra de Martinho de Dume acabará por se aperceber de que mesmo após a instauração do Cristianismo algumas pessoas dos campos continuaram a venerar os deuses pagãos e a repetir alguns dos seus ritos, por acreditarem que ajudavam nas tarefas agrícolas. Entre esses deuses contava-se, naturalmente, aquela Diana que ficará ligada ao culto das bruxas, e que em Portugal também surge associada a um potencial templo romano hoje ocupado pela estranha Capela de São Mamede de Janas (em Cintra/Sintra), tal como em Espanha foi associada a um templo romano em Mérida. É, por isso, provável que esses templos apareçam todos associados a Diana por se tratar da grande deusa pagã cujo nome ao longo dos séculos mais perdurou na cultura popular – e somente por isso, visto que no local não foi encontrada, segundo sabemos, qualquer referência directa ao nome da divindade tutelar do espaço.

 

Em suma, porque se chama Templo de Diana ao de Évora? Muito provavelmente porque, tendo-se esquecido ao longo dos séculos o nome da divindade aí venerada, o então-famoso nome da deusa pagã Diana tenha surgido como mais que provável para o espaço. Ela até pode ter sido venerada no local, sim, mas é uma hipótese tão válida como qualquer outro culto romano da mesma época – e, hoje, este templo até é mais associado ao culto do Imperador Augusto.

O mito de Pazuzu

O estranho mito de Pazuzu é um de aqueles que deve aqui ser apresentado com uma pequena história mais pessoal. Quando, há já alguns meses atrás, aqui falámos sobre Anneliese Michel, uma leitora apontou o curioso que era o facto de essa jovem ter estado possuída por “figuras históricas demonizadas, ou as mais elevadas hierarquias do mundo inferior”. Efectivamente, a mesma ideia é reaproveitada em incontáveis trabalhos de ficção, mas uma excepção muitíssimo curiosa pode ser vista na novela e filme O Exorcista. Por estranho que até possa parecer, aí é esta figura – e não uma qualquer outra figura muito mais conhecida nos nossos dias – o grande responsável pelo possessão da menina Regan MacNeil! Mas… quem é ele, na verdade?

O mito de Pazuzu em filme

Essencialmente, Pazuzu era uma figura mitológica da Babilónia. Não conseguimos encontrar qualquer referência puramente literária a ele, mas algumas das suas imagens e estátuas que nos chegaram têm algum texto inscrito. Nele, é referido que esta estranha figura, com corpo quase humano mas asas e cara ameaçadora, era filho do deus Hanpa (ou Hanbi, o deus do mal e igualmente pai do famoso Humbaba) e deus dos ventos, que causava a doença aos Homens através das suas correntes de ar previsivelmente nefastas – só quem nunca se constipou desconhece então o enorme poder deste deus!

É, na verdade, somente isto que nos dias de hoje ainda se sabe sobre a figura de Pazuzu. Nenhuma fonte que conseguimos encontrar nos parece contar mais que isto. E, nesse contexto, é então particularmente curioso que tenha sido ele o eleito para assombrar Regan MacNeil em O Exorcista, mais do que alguma figura sobejamente conhecida nos nossos dias, como tantos outros filmes e séries insistem em nos repetir. Por isso, deixamos uma ideia completamente nova – porque não criar um filme em que uma das personagens é assombrada pelo espírito de Homero, de Afonso Henriques ou até de Brites de Almeida, a famosa Padeira de Aljubarrota? Sempre seria mais original do que o constante recurso aos espíritos de Nero, Hitler e outras figuras que tais…

O mito de Pangu e a criação na Mitologia Chinesa

Falar da criação na Mitologia Chinesa não é tarefa fácil. Isto porque existem muitas versões desses acontecimentos, algumas mais filosóficas que outras, gerando um conjunto de opiniões muito diversas, mais do que uma completamente fixa e bem aceite por todos. O mito de Pangu (ou Pan Ku, segundo alguns), de que falamos hoje e que já só nos aparece preservado na literatura dos primeiros séculos da nossa era, é uma dessas opiniões, possivelmente uma das duas mais conhecidas (em relação a essa outra, voltaremos ao tema daqui a umas semanas), pelo que recontamos aqui esse mito chinês muito significativo.

Pangu e a criação na Mitologia Chinesa

No início existia o caos (relembrando-nos até um famoso mito grego), poeticamente definido como a matéria ainda não formada no interior de um ovo. Foi aí que nasceu ou apareceu Pangu, o primeiro de todos os seres, com uma forma muito animalesca – uma espécie de ser humano, mas muito peludo e com cornos. Provavelmente sem nada que fazer, este primeiro ente decidiu então ordenar todo esse caos, separando-o em duas metades, yin e yang, e forçando-as a afastarem-se com a força dos seus próprios músculos à medida que foi crescendo de estatura. Por vezes é até ajudado por quatro criaturas lendárias – o dragão, a tartaruga, o Qilin e Fenghuang, bem conhecidos nessa cultura – dada a complexidade da tarefa que estava a realizar.

18000 anos depois – um número naturalmente simbólico – Pangu sentiu-se a morrer. Então, o seu corpo foi progressivamente sofrendo uma mutação – da sua respiração nasceu o vento, dos seus dois olhos o Sol e a Lua, da sua cabeça as montanhas, dos seus músculos os campos passíveis de ser cultivados, do seu pêlo as florestas, das pulgas que o empestavam os mais diversos animais, e assim por diante, até que tudo o que existe foi criado pela morte deste primeiro ser.

 

Certamente que este mito de Pangu, de origem chinesa, levanta muitas questões – por exemplo, se ele já tinha pulgas, quem as criou a elas? – mas é, talvez mais do que tudo o resto, uma espécie de grande metáfora para a existência de tudo através da intervenção proto-humana, como na célebre ideia de que o ser humano é a medida de todas as coisas. Mas relembre-se, no entanto e de forma muito importante, que esta era somente uma única opinião entre tantas outras. Existem muitas mais, entre as quais se conta uma possivelmente até ainda mais famosa que esta (☯), mas essa outra criação na Mitologia Chinesa foi posteriormente contada numa outra página

Quem foi o Abade de Priscos?

Quem for à cidade de Braga, no norte de Portugal, poderá provar um doce típico local chamado Pudim Abade de Priscos. Se ele já não é assim tão fácil de encontrar como em outros tempos – fizemos a experiência há alguns anos, não tendo sido capazes de o provar em nenhum restaurante ou pastelaria da cidade – poderá levantar a questão do porquê do famoso doce ter este estranho nome. Pergunte-se, portanto – quem foi o Abade de Priscos que emprestou o seu nome a esta sobremesa?

Um Pudim Abade de Priscos

Bem, comece-se por dizer que Priscos é uma pequena freguesia a escassos quilómetros da cidade de Braga. Naturalmente que existiram, no passado, diversos abades nessa aldeia, mas apenas um deles ficou muito conhecido pelas suas criações gastronómicas. Nascido Manuel Joaquim Machado Rebelo em 1834, este abade de Priscos tinha por hábito presentear os seus paroquianos com as mais diversas comidas e doces, tendo até cozinhado para reis. Mas, apesar da sua grande fama nas artes da cozinha, ele parece ter pensado que elas eram demasiado secundárias face ao seu papel sacerdotal, e então não deixou a maior parte das suas receitas por escrito. Toda esta história teria terminado aqui, não fosse o facto de ele ter ensinado pelo menos uma delas numa escola local, aquela que acabaria por lhe ficar associada pelo nome até aos dias de hoje.

 

A receita não é secreta, ainda hoje; na verdade, o abade não parece ter pretendido ocultar os seus muitos sabores, apenas não os considerava assim tão importantes que merecessem ser deixados por escrito. E, nesse seguimento, hoje basta fazer uma pequena pesquisa pelo Pudim Abade de Priscos na internet e depressa se encontram as mais diversas formas de o cozinhar. Contudo, é provável que tenha sido a fama do próprio Manuel Joaquim Machado Rebelo que popularizou a sua receita original, confundindo o doce com a sua própria identidade religiosa, e dando a este doce o incomum nome que ainda tem nos nossos dias de hoje.