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Mitologia em Português

Conhecida no original como Ruyijun Zhuan, O Senhor da Satisfação Perfeita é uma obra chinesa do século XVI que merece ser mencionada por cá não em função do seu conteúdo mitológico, que é quase inexistente, mas por nos parecer suficientemente invulgar para a época em que foi produzida. Se na Europa da altura ainda se parecia pregar uma espécie de visão muito casta das relações sexuais, quase só procriativas e no seio do casamento, já nesta obra chinesa o sexo é apresentado de uma forma clara e muito directa.

Wu Zetian, amante do Senhor da Satisfação Perfeita

A base de toda a história é relativamente simples - Wu Zetian, imperatriz da China em finais do século VII e inícios do VIII, tinha um problema, que era o facto de não conseguir encontrar ninguém que a satisfizesse completamente na... chamemos-lhe, "artes do amor". Assim, casou e teve vários amantes, mas nunca ficou satisfeita na cama. Até que lá encontrou um jovem, ainda virgem, que foi capaz de a satisfazer continuamente, e a quem depois viria a chamar O Senhor da Satisfação Perfeita.

Mas... que tem tudo isto de especial? Não acontece em várias obras literárias dos nossos dias? Talvez sim, mas não na altura e ainda menos com estes contornos - Wu Zetian tinha pelo menos 70 anos quando conheceu este Xue Aocao (que, recorde-se, ainda era um adolescente), e a aventura que une ambos é uma apresentada numa obra plenamente sexual, em que a heroína toma repetidamente o controlo das situações, ordenando até o que pretende, mas sem um conjunto de metáforas e escondimentos que caracterizavam a literatura ocidental da mesma época. É quase como ver um filme pornográfico, mas um escrito e realizado do ponto de vista feminino, em que é a mulher que repetidamente toma o controlo face a um jovem inicialmente inexperiente, mas que ao longo do tempo lá vai aprendendo como satisfazer a sua mestra e monarca.

 

Não sabemos se estes amores de Wu Zetian por Xue Aocao têm algum carácter histórico ou são mera ficção, mas não deixam de ser uma curiosa história de sexo, mais do que de amor. É essa a relação entre ambos, algo plenamente e quase puramente sexual, aquilo a que hoje chamaríamos "amigos coloridos", e tentar chamar-lhe algo de diferente é uma clara deturpação do espírito do original. Se, na Europa católica do século XVI, ter sexo pelo sexo e pelo prazer era visto de uma forma muito negativa, face a este Senhor da Satisfação Perfeita somos levados a acreditar que as coisas eram bem diferentes na China da mesma época.

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Quem foi o primeiro homem a voar em Portugal? A acreditar-se numa espécie de lenda nacional, terá sido Bartolomeu de Gusmão na sua Passarola, ainda em inícios do século XVIII, ou seja, mais de um século antes de João da Mata Camacho Pina de Gouveia. A uma primeira vista já não deveria ser possível ter-se a certeza de que ela funcionava mesmo - já lá iremos... - mas ainda hoje a sua imagem é famosa na cultura nacional e europeia, ao ponto de ser um elemento importante da trama da uma das obras de José Saramago, o Memorial do Convento. Mesmo assim, para quem ainda não a conhecer, reproduzimos aqui uma imagem da estranha máquina voadora, retirada especificamente do seu manuscrito original:

Bartolomeu de Gusmão e a Passarola

O que tem então de especial, esta representação original da agora-famosa máquina? Ela foi incluída num pedido de apoios que o autor fez ao rei de Portugal e que ainda existe nos nossos dias. Mas, se o conteúdo desse pedido, feito em Latim, provavelmente não terá muito interesse para o leitor comum, já a legenda desta imagem apresenta alguns aspectos curiosos. Ela explica em que consiste cada uma das partes da máquina - as tais letras A, B, C, D, [...] presentes ali na sua representação - e entre elas podem ser encontrados dois elementos particularmente importantes, que traduzimos do original latino:

E [na frente e traseira da máquina] - duas esferas que contêm o segredo da atracção (...)

F [na parte superior, acima do homem] - (...) fios com um grande número de bolas de âmbar (...) que pelo calor dos raios do sol irão atrair os tensores.

Ou seja, trocando por míudos, supostamente a Passarola de Bartolomeu de Gusmão mantinha-se no ar devido a alguns elementos físicos (apresentados com as letras restantes na legenda), bem como a duas esferas com uma substância completamente secreta - sobre a qual, muito naturalmente, nada conseguimos aqui dizer - e pela capacidade do sol em atrair a âmbar. E se isso nos pode parecer bastante estranho neste nosso século XXI, é porque a segunda dessas características assenta num conjunto de ideias que vêm de tempos da Antiguidade - relembre-se o mito de Faetonte e depressa se compreenderá essa suposta relação entre a âmbar e o elemento solar - mas que também foram sendo desmentidas ao longo dos séculos. De facto, tanto quanto se saiba hoje, não há qualquer propriedade "mágica" que os atraia!

 

Portanto, será que a Passarola de Bartolomeu de Gusmão voava mesmo? Visto que os dois grandes elementos que referimos acima eram considerados cruciais para o funcionamento da máquina... a não ser que a tal "substância secreta" fosse da mais pura magia (algo que, verdade se diga, não temos qualquer forma real de confirmar ou desmentir...),  é difícil que esta criação conseguisse mesmo elevar-se nos céus e voar "muitas vezes duzentas e mais léguas de caminho por dia", como a proposta feita ao rei prometia. Curiosamente, os argumentos do seu criador convenceram tanto o monarca como a sua corte, mostrando-nos que estas bases principais, estranhas para os nossos dias, ainda eram consideradas como da mais completa validade em inícios do século XVIII...

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A lenda da Nossa Senhora de Guadalupe, também conhecida como a Virgem de Guadalupe, merece ser contada por cá em virtude de ser possivelmente a mais conhecida de todas as aparições marianas na América do Sul. Já cá falámos da Virgem de Fátima e dos milagres de Lourdes, ambos famosos na Europa, pelo que esta outra história - possivelmente uma lenda - também merece ser contada por cá, até porque não é muito conhecida em Portugal.

A lenda da Nossa Senhora de Guadalupe

Conta-se então que a 9 de Dezembro de 1531 um tal Juan Diego estava nos seus afazeres quando lhe surgiu uma desconhecida muito bonita. Ela dirigiu-se a ele no seu dialecto local, apresentou-se como a Mãe de Deus e incumbiu-o de uma lição - ele deveria ir ao bispo da região e pedir-lhe para que fosse construída uma capela no local. Naturalmente que o bispo não quis acreditar lá muito na história, mas pediu algum tempo para pensar no que lhe estava a ser reportado.

No dia seguinte, 10 de Dezembro de 1531, Juan Diego voltou a encontrar a mesma mulher, mas disse-lhe que tinha falhado na sua tarefa. Esta assegurou-o que acabaria por levar a sua missão a bom porto. Então, o jovem voltou a ir falar com o bispo da região, que se mostrou um pouco menos incrédulo, mas que também pediu provas de todo este suposto evento, como nos parece muito natural.

No dia 11 de Dezembro de 1531, Juan Diego tornou a encontrar esta misteriosa mulher e disse-lhe que precisava de uma sinal real das aparições. Esta assegurou-o que ele iria receber um no dia seguinte; porém, um familiar dele adoeceu, e então o jovem não pôde ir ao local na altura que tinham planeado.

Assim, na tarde do dia 12 de Dezembro de 1531, com medo das repercussões da sua falha, o jovem tentou evitar o local em que antes tinha visto esta senhora. Porém, ela trocou-lhe as voltas e apareceu-lhe novamente. Prometeu curar o familiar de Juan Diego, consolando-o com uma frase como "¿No estoy yo aquí que soy tu madre?", e pediu-lhe que levasse algumas rosas locais ao bispo. Quando o fez, os dois companheiros mexicanos notaram que a imagem desta Nossa Senhora de Guadalupe ficou miraculosamente gravada na veste que tinha sido utilizada para transportar as rosas - milagre, milagre!

Finalmente, a 13 de Dezembro de 1531, o familiar de Juan Diego viu esta miraculosa mulher e foi curado. A misteriosa dama revelou ainda que queria ser venerada sob o nome de "Guadalupe", e assim foi feito, como atesta o nome actual desta Mãe de Deus.

 

Mas terá sido tudo isto verdade? Será que aconteceu como se conta hoje, mais ou menos como há cerca de cinco séculos atrás? Efectivamente, as primeiras referências a esta imagem miraculosa e a todos estes eventos datam ainda de meados do século XVI. Porém, o que é curioso é que quando os religiosos locais investigaram toda a questão, descobriram que tinha existido uma deusa-mãe venerada no mesmo local, de seu nome Tonantzin, e que agora os nativos andavam a chamar esse mesmo nome a esta Nossa Senhora de Guadalupe, como se se tratasse de uma nova versão da sua divindade original, dando azo a algum cepticismo natural entre os Ocidentais. Além disso, o bispo que aparece em toda esta lenda, que se crê ter sido um tal Juan de Zumárraga y Arrazola, deixou obra escrita, mas nunca menciona estes eventos - mais uma razão para cepticismo. Existem até aqueles que dizem que o santo que ficou conhecido sob o nome de Juan Diego nem sequer existiu realmente...

 

Nestas coisas de fé, como já dissemos em relação aos milagres de outras Nossas Senhoras, acaba por ser tudo uma questão de crença. O que é facto, no entanto, é que quem for à Cidade do México poderá encontrar, no interior de um vidro, a mesma imagem miraculosa que se atribui a toda esta lenda da Nossa Senhora de Guadalupe. Tem algumas adições posteriores, por razões difíceis de explicar, mas diz-se que é a mesma imagem referida em toda esta história, que um dia esteve gravada numa das vestes de Juan Diego. A imagem, em si, existe, levantando questões significativas, como a sua proveniência original. Se veio dos céus, de um milagre, de uma qualquer fraude pia, ou de algum outro lado, essa é uma resposta que temos de deixar aos leitores...

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Quando, há alguns dias, cá falámos sobre a origem do nome do Chiado lisboeta, apontámos que já muito poucos liam as obras associadas ao poeta António Ribeiro Chiado. Assim, achámos que era apenas justo que as fossemos ler e escrever um pouco sobre elas. Não foi possível encontrá-las a todas, pelo que naturalmente apenas referimos aqui apenas as que conseguimos localizar - caso alguém saiba onde encontrar as restantes, por favor deixe-nos um comentário com essa informação!

A estátua de António Ribeiro Chiado

Passando então a este pequeno desafio, o autor escreveu pelo menos três autos na tradição de Gil Vicente. O Auto das Regateiras, Prática dos Compadres e Prática de Oito Figuras parecem manter a senda do seu predecessor, mas - a nosso ver - não têm muito interesse para os dias de hoje, excepto por se tratarem de obras nacionais.

Os Avisos para Guardar essencialmente apresentam um conjunto de coisas com que os leitores deviam ter cuidado, e.g. "Guardar de cão que manqueija/e de homem mui fragueiro", "Guardar de homens casados/que em seus feitos são solteiros", "Guardar de fazer farinhas/com homem de ruins artes", "Guardar de quem tem começo/e não busca meio e fim". Caso não seja evidente, "guardar" deve aqui ser interpretado como uma espécie de sinónimo de "ter cuidado com".

A Querela entre o Chiado e Afonso Alvares preserva-nos um conjunto de poemas escritos por este autor e que obtiveram resposta do seu visado, supostamente quando o poeta estava preso. Também as Cartas a Amigos Religiosos e a Regra Espiritual que fez António Chiado ao Geral de S. Francisco contêm dados biográficos, seja em prosa ou verso, mas não nos pareceram muito interessantes para os dias de hoje.

Ainda, os Letreiros reportam um conjunto de ideias, e respectivo comentário pessoal, a que o autor supostamente teve acesso em túmulos que viu em "Hespanha".

 

Também associados a este autor surgem as Parvoices que Acontecem Muitas Vezes e as Profecias para o ano de 1579. Falamos delas em conjunto porque são, a nosso ver, as mais interessantes das obras de António Ribeiro Chiado a que tivemos acesso, por preservarem um conjunto de ideias que se foram mantendo ao longo dos séculos quase como no tempo do seu compositor - se correctas, ou não, já não nos compete a nós julgar. Assim, as Parvoices que Acontecem Muitas Vezes - que parecem ter sido compostas por cinco livros, mas dos quais apenas dois estavam presentes na edição que consultámos - contêm um conjunto de ideias que podem ser consideradas como "parvoíces", a que se tende a seguir um provérbio ilustrativo. Podemos dar aqui alguns breves exemplos:

Homem que consente que sua mulher mande mais em casa que ele - Parvoíce!
Mal vai a casa em que a roca manda na espada.

Homem não fidalgo que consente que sua mulher aprenda a ler - Parvoíce!
Ou é cornudo ou anda para o ser.

Quem um dia só conversa com outro, lhe descobre seus segredos - Parvoíce!
A quem dizes tua puridade, dás-lhe tua liberdade.

Quem gasta mais do que tem de renda - Parvoíce!
Quem não tem, e muito despende, na praça se vende.

Quem bebe àgua sem primeiro a ver - Parvoíce!
Quem acena a dama de longe - Parvoíce!
Quem de longe acena, de perto se condena.

Finalmente, as Profecias para o ano de 1579, publicadas em data incerta, contam-nos um conjunto de coisas que António Ribeiro Chiado previa que iam acontecer nesse ano. E, curiosamente, é quase certo que todas elas se realizaram. Como é isso possível, perguntam-se? Para que isso se possa compreender melhor, relatamos aqui algumas das muitas profecias contidas na obra, escolhidas de uma forma completamente aleatória:

Os caminhos estarão estendidos pelo chão, e as serras, porque mais cansarão cinquenta homens a pé que um a cavalo.
Estarão os mortos debaixo da terra, e os vivos por um cabo e por outro.
Será tanta a escuridade pelo mundo que todos terão os olhos cerrados quando dormirem.
As chuvas serão tão grandes que não haverá navio que pelo mar não ande a nado.
Os trovões e terramotos serão tantos que, de puro temor, não haverá homem nascido que fique por nascer.
O fogo se tornará mais quente que os banhos das Caldas.
Na terra haverá penedos e seixos mais duros que pedras.
As galinhas pretas porão ovos brancos, pelas grandes mudanças que haverá no mundo.
Todo o malfeitor não sairá da cadeia enquanto nela estiver preso, nem haverá enforcado que chegue com os pés ao chão.
Ficando o dia claro, aparecerá Lisboa em Almada, Badajoz em Elvas, e Evoramonte em Évora.

Interessante, não é?! Por isso, em 2021 talvez já seja mais do que altura de se apresentarem alguns destes textos de António Ribeiro Chiado nas salas de aula e nos manuais escolares, quanto mais não seja para que as gerações vindouras possam conhecer a obra de mais um autor nacional. Garantimos, com todas as certezas deste mundo, que mais depressa os estudantes teriam prazer em ler profecias como as que citámos acima do que obras que fazem adormecer, como o típico Felizmente Há Luar!

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Qual é, na verdade, a origem do nome do Chiado lisboeta? "Ele veio de um poeta" - diriam alguns - "até existe uma estátua à saída da estação do metro!" Mas... e se vos dissermos que podem estar enganados? Numa cidade que até ao Terramoto de 1755 esteve tão pejada de nomes religiosos, porque haveria de existir uma zona com o nome de um poeta que, admita-se em toda a verdade, já quase ninguém leu? É a busca por esse significado que aqui iremos apresentar hoje, mas tenha-se em conta que as linhas que se seguem serão longas...

Qual a origem do nome do Chiado?

Portanto, pense-se no seguinte. Historicamente, a termos de dar o nome de um poeta nacional a uma zona de Lisboa, a escolha mais óbvia seria Luís de Camões (com ou sem pala no olho). E falamos até desse autor dos Lusíadas porque no prólogo do seu Auto do El-Rei Seleuco, de meados do século XVI, surge uma frase curiosa da boca de uma das personagens:

Ainda vossas mercês não ouviram uma trova. Faço-as tão bem como o Chiado.

Depreende-se, portanto, que no tempo de Camões, ou um pouco antes, existisse uma figura conhecida pelas suas trovas com este nome real ou alcunha. Visto que esse nome não abunda em Portugal, depreende-se, quase automaticamente, que também tenha sido ele a dar o nome à zona lisboeta - caso encerrado, nesta busca pela origem do nome do Chiado? Não, nem por isso, porque se se pensar mais no tema nota-se o estranho que toda essa possibilidade é, mesmo que se queira supor, como alguns já fizeram, que o poeta tenha vivido na zona - como explicar que um autor de segunda ou terceira linha tenha dado o seu nome a algo no século XVI, quando o grande autor dos Lusíadas não o fez?!

Assim, face a este problema, já outros dizem que o nome veio de um taberneiro lisboeta da época, um tal "Gaspar Dias", que supostamente tinha a sua casa comercial na zona. O que, no entanto, levanta outra dúvida - como é que sabemos isso?! Quer dizer, se alguém associa o nome que buscamos seja ao poeta (que, na verdade, nasceu António Ribeiro), seja a este Gaspar Dias, de onde lhe vem mesmo essa informação? É uma questão verdadeiramente importante, mas que as muitas respostas encontradas na internet e em jornais tendem repetidamente a ignorar...

 

Em busca de uma resposta mais fiável traçámos a fonte dessas informações até finais do século XIX, inícios do XX, altura em que Alberto Pimentel decidiu editar algumas das obras do poeta, então já muito esquecidas. No seu livro Obras do Poeta Chiado, em jeito de prefácio este autor defende, recapitulando as diversas opiniões anteriores, que essa personagem veio para Lisboa em meados do século XVI, depois de abandonar uma vida religiosa, e se tornou tão famosa que acabou por dar nome ao local em que viveu.

Porém, anos mais tarde, no livro O Poeta Chiado, o mesmo autor acrescenta que encontrou um novo documento, que os seus antecessores não consultaram (i.e. foi ele o primeiro a trazer à luz essa informação, permitindo defini-lo como a fonte dessa informação), e que atesta que até circa 1567 tinha vivido em Lisboa, mais precisamente na Rua Direita da Porta de Santa Catarina*, um "Gaspar Diaz o chyado d'alcunha vynhateiro" (ou "Gaspar Diaz Chyado"). Como o autor admite igualmente, não se percebe se a alcunha deste homem era Chyado ou Vynhateiro, mas a presença do artigo "o" na primeira referência, bem como a referência habitual à profissão em documentos da época, pode dar a indicar a primeira hipótese. Infelizmente não conseguimos consultar o próprio documento - ele está na Torre do Tombo mas não se encontra digitalizado (não é caso único) - mas fazendo fé apenas na transcrição parcial de Alberto Pimentel, em lado nenhum é dito que este homem tinha uma taberna (ele parecia fazer ou vender vinho, o que não é bem o mesmo).

Ao mesmo tempo, o autor também encontrou num manuscrito de título Diversas historias e ditos facetos a diversos propositos, que nos diz que "deve ser anterior ao ano de 1617", um conjunto de histórias jocosas referentes a um homem astucioso deste nome. Não as cita directamente, parafraseia algumas delas, não sendo 100% claro pelo seu texto se se referem sempre ao poeta ou também a outra figura; o documento parece estar na Torre do Tombo**, mas entre as várias tramas aí apresentadas conta-se a seguinte, que aqui reproduzimos a puro título de curiosidade:

Passando o Chiado pela porta da Sé viu um grupo de muchachos e, dando-lhes atenção, ouviu-os dizer:
- Eu tomara ser bispo.
- Eu tomara ser papa.
- Eu tomara ser rei.
O "herói", acercando-se deles, interpelou-os dizendo:
- E sabeis vós o que eu tomara ser?
- ...?
- Tomara ser melão, para que me beijardes [no sítio onde se beijam os melões]***.

Essas descobertas levantam três grandes possibilidades... se o nome da zona de Lisboa ainda não parecia existir antes do século XV, quem lhe deu essa designação? O poeta, o vinhateiro, ou uma possível figura popular de identidade incerta? Alberto Pimentel parece resolver o problema identificando o terceiro com o poeta e dizendo que António Ribeiro veio para Lisboa e ficou em casa de Gaspar Diaz, possibilitando uma espécie de transferência de alcunhas... o que é estranho, porque não é por termos um amigo com uma dada alcunha que nos começam a chamar o mesmo! Então, se várias figuras partilhavam esse mesmo nome, de onde vinha ele? Conforme a mesma obra também esclarece, na altura a palavra significava nada mais, nada menos, que "astuto" - algo que tanto o comerciante de vinhos, como o poeta e a figura popular, poderiam ter sido!

 

Portanto, a acreditarmos que viveram mesmo na zona em questão, e que até o possam ter feito na mesma altura, poderá ser isso que contribuiu para a dificuldade em descobrir a identidade da figura por detrás da origem do nome actual. Hoje, quando dizemos "vamos ali a X", depreende-se que esse X tenha lá algo de notável - mas seria uma loja de Gaspar Diaz, ou o local em que um poeta, potencialmente famoso na cultura popular da época por mais do que os seus versos, tinha vivido? Será que alguns poemas eram declamados sob o efeito do dom de Baco, como algumas historietas parecem indiciar vagamente? Será que as figuras até se conheciam? Ou, talvez até mais importante, qual delas tinha um maior potencial para não ser esquecida ao longo do tempo? De uma forma irónica deve notar-se que ambas foram (quase) esquecidas, daí até a dificuldade em saber-se qual delas a mais - e menos - importante... mas, a tratar-se mesmo do poeta, ele poderá ter sido famoso entre o povo não tanto pelos seus versos, hoje quase olvidados, mas por todo um conjunto de histórias populares brejeiras que lhe foram sendo associadas - conforme apontado por Alberto Pimentel, pelo menos uma delas aparece mais tarde também associada a Bocage, dando-nos a perceber que a sua verdadeira origem já estava esquecida na segunda metade do século XVIII.

 

Quando a estátua foi colocada no local, foi-o por se considerar horizontalmente o poeta, o autor de trovas, como a origem do nome popular do Chiado. Mas foi-o quase sem provas reais, porque se depreendeu que o incomum nome só poderia mesmo vir dele. Mas, acreditando então que existiu no local uma loja de vinhos proeminente (o documento já referido acima dá a entender que o seu proprietário e a respectiva esposa tinham posses significativas), será que ela não poderá ter sido, numa dada altura, tão popular que passou a dar o nome à rua em que estava localizada, e que o facto de António Ribeiro também ter vivido lá é pura coincidência? Poderá pensar-se em toda a questão da seguinte forma - quando alguém nos diz "vou ali ao Ronaldo", se a casa do futebolista for em frente a um restaurante com mais de 50 anos que até partilha o mesmo nome, como sabemos nós a que local a pessoa se referia? Sabemo-lo porque a conhecemos, conhecemos os seus hábitos e o seu contexto pessoal... mas no caso aqui em questão, e desconhecendo-se hoje o contexto da época, é difícil conseguir tirar essa conclusão.

 

Assim sendo, qual é a verdadeira origem do nome do Chiado? Numa dada altura do século XVI viveu numa determinada rua lisboeta um Gaspar Diaz, comerciante de vinhos, que tinha essa alcunha - isso é certo! Mas crê-se, agora com menos certezas, que António Ribeiro, poeta e potencial herói de histórias brejeiras, também aí tenha vivido e partilhado a mesma alcunha. É, na nossa opinião, possível que tenha sido a conjugação de todos estes factores que levou ao nome popular da rua, mas também à enorme dificuldade em traçar a sua verdadeira origem. Por isso, afirmar, sem quaisquer dúvidas, que o nome veio mesmo do trovador - hoje quase esquecido, mas um dia também conhecido por meio de algumas aventuras ordinárias - não é completamente certo... e essa é a melhor resposta que temos para dar, pelo menos neste momento!

 

 

*- Pelo contexto depreende-se que tenha sido uma perpendicular à Rua da Misericórdia. A porta em questão, que dava nome à antiga rua, foi demolida no início do século XVIII, mas um pedaço da muralha ainda pode ser visto no interior do número 12 da Rua da Misericórdia.

**- Um enorme agradecimento aos funcionários da Torre do Tombo, que nos permitiram localizar este documento - aparentemente ele é o número 1817 dos manuscritos da livraria, mas ainda não está disponível online. A informação interna apenas informa que a obra em questão inclui "poesias, anedotas e notícias várias".

***- Essa censura partiu do próprio Alberto Pimentel, que admitiu que algumas das histórias presentes no documento eram de natureza "pornográfica".

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Agora falamos de uma curiosa estátua na Rotunda da Boavista, no Porto, para que ninguém diga, face à publicação sobre o Arco da Rua Augusta, que nos focamos sempre e demasiado na capital. Assim, para quem visita a cidade e gosta mais ou menos de futebol, é quase obrigatório comentar o que se vê no local, uma representação de um leão a matar uma águia.

Estátua da Rotunda da Boavista

Podem ser muitas as piadas que se fazem sobre isto, desde a rivalidade Sporting - Benfica (e, sobre o nome e símbolo de Benfica, já cá falámos antes), até à ausência notável de um dragão no conjunto escultório, passando pela "boa vista" que o local causa sempre aos sportinguistas, mas... afinal de contas, o que representa mesmo todo este monumento? Podemos explicá-lo, mas fazê-lo implica partir de uma história mais pessoal, que é provável que já muitos outros visitantes da cidade já tenham partilhado antes.

Se, como nós, não forem da zona do Porto, é muito provável que tenham passado por esta rotunda de carro. Assim, também tiveram uma certa facilidade em ver o que está no topo de todo o monumento, mas sem terem acesso à base desta estátua na Rotunda da Boavista. E esse é um elemento muito importante, porque dá um contexto à representação dos dois animais. Na verdade, este é o chamado "Monumento da Guerra Peninsular", um conflito que teve lugar entre 1808 e 1814, e na sua base estão colocadas várias esculturas alusivas à mesma (elas podem ser vistas virtualmente aqui) e ao episódio histórico da Ponte das Barcas. Nesse seguimento, o que o capitel tem representado é mesmo uma águia e um leão, porque em inícios do século XIX esses eram respectivamente os símbolos da França e de Inglaterra; como esse segundo país ajudou Portugal a defrontar os seus opositores franceses, o seu símbolo é aqui representado em posição de destruir o grande adversário nacional.

 

Feliz ou infelizmente, esta estátua da Rotunda da Boavista nada tem a ver com futebol. O Benfica foi fundado em 1904, o Sporting em 1906, o Futebol Clube do Porto em 1893 (e o clube que partilha o nome desta rotunda é de 1903, para quem estiver com essa curiosidade), mas esta famosa estátua data logo da primeira metade do século XX, possivelmente de quando passaram cem anos daquele tal episódio da Ponte das Barcas, apesar de ter demorado quase meio século a ser concluída. Talvez assim se explique, ainda nos nossos dias de hoje, a ausência de um dragão portuense no local, que certamente muito agradaria à grande maioria dos habitantes da cidade...

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Se se costuma chamar à Praça do Comércio a mais famosa de Portugal, seria justo dizer que o Arco da Rua Augusta, a muito escassos metros a pé, é obrigatoriamente o mais conhecido dos países lusófonos. Foi construído no século XIX, para celebrar a vitória da reconstrução da cidade face ao Terramoto de 1755, o seu arquitecto original foi Eugénio dos Santos, e... mais do que debitarmos aqui todo um conjunto de dados históricos e arquitectónicos, lançamos é uma pergunta - quantos de nós já olharam para ele? Olhar a sério, com os proverbiais olhos de ver? Por estranho que pareça, mesmo entre os lisboetas parecem ser muito poucas as pessoas que o fazem - de facto, fomos perguntar a várias pessoas que vivem nessa cidade e nenhuma delas o parece já ter feito. Assim, prestemos alguma atenção à simbologia do local:

O Arca da Rua Augusta, curiosidades

O Arco da Rua Augusta, também conhecido como Arco do Terreiro do Paço (um nome alternativo dado a todo este local), tem em si um total de 10 figuras. Nos dois lados - número 1 e 6 na imagem - estão representados os rios Tejo e Douro, como os limites tradicionais da Lusitânia; o Douro, do lado direito, pode ser reconhecido em virtude de um cacho de uvas que tem na sua mão. Quatro outras figuras são famosos heróis nacionais - Viriato (n. 2, como fundador), Vasco da Gama (n. 3, como expansor), o Marquês de Pombal (n. 4, como reconstrutor) e o Condestável, Nuno Álvares Pereira (n. 5, como defensor). No topo está a Glória personificada (n. 8) a coroar o Génio (n. 7) e o Valor (n. 8), que podem ser identificados pela coroa, lira e o leão. Ao centro, n. 10, está o brasão de Portugal, com os característicos sete castelos, cinco escudos e "30 moedas pelas quais Judas vendeu Cristo" (um outro tema fascinante, mas que terá de ficar para outro dia). O texto em Latim, que separa o brasão das figuras superiores, diz-nos então as seguintes palavras:

VIRTUTIBUS MAIORUM
UT. SIT. OMNIBUS. DOCUMENTO. P.P.D.

Que significa algo como "Que as virtudes dos maiores [dos Portugueses] sirvam de lição a todos", seguido pela abreviatura latina Pecunia Publica Dicatum, i.e. "dedicado com dinheiro público". Sinais dos tempos - hoje celebram-se os inauguradores com placas comemorativas, em outros tempos celebravam-se os heróis da pátria e que algo era construído com o dinheiro que é de todos nós...

Em suma, este é um monumento que celebra a resiliência de Portugal e a portugalidade, mas... na verdade, também não tem muito para se ver. É algo que, como o Panteão Nacional, se vê uma vez (se tanto...), e está visto. Se até existe um relógio na sua traseira e um miradouro no seu topo, que pode ser visitado pelo singelo preço de 3 euros (para quem nunca tiver ido ao local pode fazê-lo virtualmente aqui), o Arco da Rua Augusta não é algo de muito especial para o visitante, com excepção da simbologia nacional que aqui apresentámos hoje, e à qual já muitos poucos parecem prestar atenção.

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