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Mitologia em Português

Em dia de Santo António nada como recordar a outrora famosa Oração de Santo António para Encontrar Objetos Perdidos. Se hoje ela já está muito esquecida, como outras orações populares nacionais, ainda existem idosos que a procuram, normalmente quando querem encontrar algo que perderam em suas casas. Note-se que esta oração já aparecia, com propriedades que se criam mágicas, atestada em finais do século XVII, altura em que uma tal Ana Martins, acusada de feitiçaria perante a Inquisição, a usava para ajudar aqueles que procuravam coisas perdidas. Já nessa altura a oração se encontrava associada ao santo lisboeta, de que cá contámos uma de muitas lendas anteriormente. E então, esta oração, na versão apresentada no interrogatório de Ana Martins, diz-nos o seguinte:

A Oração de Santo António para Encontrar Objetos Perdidos

Milagroso Santo António,
Pelo hábito que vestiste
Pelo cordão que cingiste
Pelo breviário que rezaste
Pela cruz que tomaste
Pelo Senhor que levantaste
Por aqueles três dias
Que no horto de Jesus
Em busca do Breviário andaste,
Pelo contacto que de Jesus tiveste;
Que nos seus braços se foi sentar,
Pelo rico sermão
Que na cidade de Pádua estava pregando,
E revelação
Que tiveste que levavam vosso pai
À força por sete sentenças falsas,
E delas o livraste,
Enquanto a gente rezava a "Avé Maria",
E o vosso rico sermão acabaste,
Assim vos peço P. S. António
Façais aparecer o que se furtou [/ou perdeu].
Amén.

 

É curioso constatar que esta Oração de Santo António para Encontrar Objetos Perdidos faz breves menções à vida do próprio santo. Existem (muitas) outras versões, algumas das quais nem contêm esse elemento específico, mas esta versão prima pelo facto de ter sido comunicada à Inquisição durante um julgamento por feitiçaria, como já referido antes, dando-nos a entender que quem a dizia tinha plena confiança nos poderes místicos deste conjunto de palavras. Mas... será que funciona, ou nem por isso? Não fomos tentá-lo, mas fica esse convite, para quando perderem alguma coisa. Em pior dos casos, nada acontece; no melhor, reencontram o que perderam sem muita dificuldade. Se assim o for, agradeçam ao santo e avisem-nos também, para atestar - ou, pelo contrário, negar - o seu alegado poder.

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Existem palavras que usamos no nosso dia-a-dia e que se foram tornando tão habituais que raramente pensamos na sua ascendência e significados reais. A origem de Alfacinha, Tripeiro, Morcão e Tanso caem nessa categoria, porque tendemos a perceber essas palavras como uma espécie de insultos, mas não nos interrogamos sobre o porquê de o serem - ou até de terem deixado de o ser, como é especialmente evidente no primeiro caso. Então, de onde vem o carácter depreciativo de cada uma dessas quatro palavras?

A origem de Alfacinha, Tripeiro, Morcão e Tanso

Alfacinha... poderia pensar-se que não é um insulto! E já não o é, nos dias de hoje, mas começou por sê-lo. Quando vimos a designação atestada numa obra do século XVI, ela referia-se aos lisboetas - como ainda hoje - mas num sentido pejorativo, pelo facto de eles dedicarem todo o seu tempo e dinheiro a uma excelente aparência exterior, enquanto que em suas casas só comiam alfaces e rabanetes, ou seja, as coisas mais baratas então acessíveis ao povo. Assim sendo, ser "um alfacinha" era, originalmente, ser um habitante da capital de Portugal, mas um que era caracterizado como sempre muito bem vestido, mas que ao mesmo tempo quase que passa fome para alimentar essa grande ostentação exterior.

O nome de Tripeiro vem de um episódio histórico, apesar de já não se ter bem a certeza de qual (lemos duas teorias, mas não sabemos afiançar qual das duas será a correcta), em que os habitantes da cidade cederam toda a sua carne para ajudar o país, reservando apenas as tripas para si mesmos. Nesse sentido, o que para eles era um motivo de grande orgulho, ao longo dos séculos gerou uma designação, "tripeiro", que muitas vezes é utilizada pelos não-habitantes como uma espécie de insulto.

Já Morcão vem do Latim murcus, nome que era originalmente dado a alguém que se auto-mutilou para evitar o serviço militar obrigatório. Visto que sem o polegar era quase impossível conseguir segurar numa espada, num escudo ou até numa lança (o que era obrigatório para as guerras do tempo dos Romanos), essas pessoas eram dispensadas do dever militar. Depois, ao longo dos séculos, a expressão "morcão" foi crescendo nesse seu sentido, para passar a designar aqueles que não têm jeito para determinadas tarefas, não só as das artes da guerra, mas também muitas mais.

 

Já Tanso é um pouco mais complicado, com os dicionários nacionais que consultámos a atribuírem-lhe uma "origem obscura". Nada teríamos para dizer em relação a essa palavra, não fosse o facto de termos ouvido uma opinião muito intrigante - Tian Shu era uma divindade famosa na China, uma espécie de deus supremo, e através da influência cristã nesse país ela foi ficando mal vista no Ocidente, até que se passou a designar por "tanso" aquele que acreditava nesse tipo de coisas, que os Cristãos tendiam a ver como nada mais que, como eles tendiam a pensar nessa altura, "superstições estúpidas". Será esta a verdadeira origem da palavra e do seu sentido na nossa cultura? Não podemos ter a certeza...

 

Serão mesmo estas as explicações correctas por detrás da origem de Alfacinha, Tripeiro, Morcão e Tanso, enquanto palavras insultuosas? A resposta é claramente positiva para os três primeiros casos, mas já em relação ao último, e como já foi dito acima, tudo é mais discutível e muito menos seguro - chamemos-lhe, por isso, uma questão de mera opinião, que serve para explicar o significado, mas que também o faz de uma forma dubiamente insegura. É, pelo menos por agora, uma questão de pura e simples opinião.

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Há alguns dias que nos deparámos com este Livro do Infante D. Pedro de Portugal. A figura histórica que lhe deu título é Pedro de Portugal, filho do rei Dom João I (e futuro duque de Coimbra), que ficou historicamente conhecido pelas suas muitas viagens. E é precisamente delas que fala este livro - conta-nos como este jovem, acompanhado por doze companheiros (fazendo o número de 13, escolhido mesmo em virtude de Cristo e os seus doze apóstolos), viajou pelas mais diversas terras e viu todo um conjunto de monumentos e de milagres, acabando a sua viagem pouco depois de chegar ao fabuloso reino cristão de Preste João das Índias.

Livro do Infante D. Pedro de Portugal

É uma obra sucinta - pouco mais de 30 páginas, na edição a que lhe tivemos acesso, de que mostramos a capa acima - e em que a ficção e a realidade se entrecruzam repetidamente, com os viajantes a contarem quase só o que viram, sem que alguma vez o descrevam verdadeiramente... o que levanta uma boa questão - terão sido estas viagens mesmo reais, ou pura imaginação? Sabemos que este Dom Pedro existiu, e sabemos que viajou com companheiros, mas será que um deles, um tal Gomes de Santo Estêvão, escreveu efectivamente este Livro do Infante D. Pedro de Portugal com base nas experiências por que passou? Dificilmente isso terá acontecido, não só porque a obra contém diversas impossibilidades (e.g. numa dada altura até é oferecida aos heróis carne de Unicórnio, e são mencionados os poderes milagrosos do seu corno), como também faz passar os seus heróis por terras puramente míticas, como a dos Pigmeus e Grous, ou o grande reino cristão do Oriente que se pensava ter sido fundado por São Tomé.

 

Assim, esta é, na verdade, uma obra de literatura de viagem, numa mesma tradição que também nos trouxe a História de Alexandre (de Pseudo-Calístenes) e as viagens de João de Mandeville (entre muitas outras), caracterizadas pela inclusão de elementos fantásticos em viagens que se supunham reais. Mas, na nossa opinião, é também de uma qualidade muito inferior à oferecida por essas outras suas companheiras. Mereceu ser mencionada aqui por ter nascido num contexto nacional e com heróis nacionais, tendo até sido relativamente popular por volta dos séculos XVII e XVIII, mas não é, admita-se, uma obra muito interessante para um leitor comum dos nossos dias, na medida em que a trama é muito repetida, avança demasiado rápido, e pouco nos diz sobre os locais que vão sendo "visitados".

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A lenda da Padeira de Aljubarrota é uma de aquelas que toda a gente em Portugal - e provavelmente até no Brasil - conhece pelo menos em nome, fazendo parte integrante da Mitologia Portuguesa. Na sua forma mais simples, diz-nos que na Batalha de Aljubarrota, em 1386, que opôs Portugueses a Castelhanos, os combatentes locais se mostraram tão bravos face aos invasores que até uma padeira local, de nome Brites de Almeida, se juntou ao combate e acabou por matar, à cacetada, sete invasores que se tinham escondido no interior do seu forno. Mas terá sido verdade?

A lenda da Padeira de Aljubarrota

Nunca encontrámos provas concretas da sua existência real, mas ao longo dos séculos foram adicionados novos episódios a toda esta lenda da Padeira de Aljubarrota. De facto, à medida que o tempo foi passando até foi criado toda uma história por detrás de Brites de Almeida, que enriqueceu esta versão simples de trama. Por exemplo, se prestarem muita atenção à imagem acima, irão notar que ela tem seis dedos em cada mão, que é um elemento que provém dessa versão expandida da tradição, e que nos chegou por obras como Auto Novo e Curioso da Forneira de Aljubarrota, de Diogo da Costa (século XVIII). E então, o que é acrescentado a toda a história?

 

Segundo essa versão expandida da lenda da Padeira de Aljubarrota, ela nasceu no Algarve e os seus pais faleceram quando ela ainda era muito nova. Brava desde tenra idade, assustava os seus colegas, estudou esgrima, e até matou em combate um cavaleiro que ousou pedi-la em casamento*. Foi raptada por Mouros, levada para África e obrigada a fazer tarefas femininas, que tanto odiava. Escapou, matando os seus captores, e voltou a Portugal. Ajudou um homem que tinha sido raptado por ladrões, derrotando-os a todos, e às tantas lá deu por si na vila de Aljubarrota, em que uma padeira idosa lhe deu trabalho. Aquando da famosa batalha, os Castelhanos estavam a passar fome e tentar roubar o pão que estava a ser cozido no interior do famoso forno, levando a que esta famosa figura os matasse. E, finalmente e sem que seja dada demasiada ênfase a esse famoso episódio, por volta dos 40 anos ela casou com um Agricultor local e tiveram uma filha, que parece ter ficado conhecida sob o nome de "Velha de Diu"**.

 

Como é fácil constatar, esta versão tardia da história da Padeira de Aljubarrota é pura ficção, até porque contém todos os elementos característicos da literatura de aventuras da sua época, como um rapto por estrangeiros, elementos fantásticos, ou uma figura heróica (quase) invencível. É uma trama que nasceu de uma necessidade de explicar o carácter muito único da sua figura principal, dizendo aos leitores que ela não era uma mulher vulgar, mas sim uma cujo carácter guerreiro, e força, vinha de uma tenra idade. E não é de coisas como essas que nascem as lendas? De uma expansão de uma possível verdade primordial, cujos contornos reais se foram esquecendo ao longo dos séculos?!

 

Não sabemos, admita-se, se esta Padeira de Aljubarrota até existiu mesmo, ou se terá tido aquela mesma função na batalha que a tradição lhe atribui, mas o que podemos ter a certeza é que ela é uma das mais famosas heroínas da história de Portugal, cuja fama, como já referido anteriormente, nos chegou até mesmo aos dias de hoje. E, para o resumo desta lenda de hoje, isso basta-nos.

 

 

*- Um elemento curioso de toda esta história é o facto de ser enfatizado que ele não se apaixonou pela potencial beleza de Brites de Almeida, cuja fealdade até é bem descrita na trama, mas sim pela sua força e carácter guerreiro.

**- Outra figura lendária da história da lusofonia, que o texto diz ter pelejado contra cem muçulmanos apenas com uma lança. A tradição atribui esses eventos a uma Isabel Fernandes, que viveu em Diu por volta do ano de 1546, espaçando em mais de século e meio as duas batalhas. Como tal, é naturalmente impossível que ela fosse filha real de Brites de Almeida, sendo provável que o autor se refira a ela somente como uma filha da famosa Padeira de Aljubarrota num sentido puramente metafórico.

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A lenda do Bispo Negro é provavelmente uma das mais antigas de Portugal, mas é hoje particularmente famosa de um relato que nos chegou preservado por Alexandre Herculano, que mantém as linhas gerais das versões mais antigas da lenda. Assim, e a acreditar-se em toda esta história, ela tomou lugar no século XII da nossa era, mas só aparece atestada por escrito mais tarde - a versão que lemos é já de finais do século XVI. Assim sendo, não temos provas reais de que esta lenda do Bispo Negro tenha algum fundo de verdade, mas certamente que a podemos recordar por aqui:

A lenda do Bispo Negro

Conta-se então que após os seus muitos combates Dom Afonso Henriques capturou a própria mãe - já cá falámos disso recentemente - e recusou libertá-la, por muitas vezes que isso lhe fosse pedido. Assim, a mando do Papa, o bispo de Coimbra exigiu-lhe a libertação de Dona Teresa, sob pena de excomunhão. Mas o rei, não desejando ainda soltar aquela que o deu à luz, recusou esse pedido, e foi então excomungado. Zangado com toda a situação - na verdade, que tinha o Papa de se intrometer na política nacional? - o nosso monarca decidiu nomear um novo bispo para Coimbra. Ninguém aceitou tomar o lugar, até que Afonso Henriques lá elegeu para esse lugar um tal Suleima (ou Martinho, filho de Suleima, segundo outra versão) para o lugar; isto pouco teria digno de nota, não fosse o facto de ele se tratar de um bispo negro, uma coisa nunca vista até então.

A lenda continua dizendo que, face a esse desrespeito contínuo pelas ordens do Papa, todo o reino de Portugal foi então excomungado, até que Dom Afonso Henriques lá se zangou com tudo isto e ameaçou um legado papal, resolvendo com essas suas acções toda a situação e repondo a normalidade religiosa do país. Porém, não sabemos se o nosso primeiro rei lá libertou Teresa de Leão, sua mãe, ou se manteve o bispado de Coimbra nas mãos de Dom Suleima...

 

Para nós, hoje, toda esta lenda poderá apresentar pouco motivo para qualquer controvérsia, até que se entenda a razão de todo o problema - o nome Suleima, dado quase sempre a este bispo (ou ao seu pai...), indica claramente que este se tratava de uma figura de ascendência árabe. Naturalmente que agora era Cristão, tinha professado uma vida religiosa (ou nem poderia ser bispo, como é óbvio), mas, no mínimo dos mínimos, com base na informação que temos podemos afirmar que ou ele era filho de um árabe, ou já tinha até praticado o Islamismo. E, como tal, no contexto cultural da época não seria certamente a melhor opção para tomar aquela posição religiosa, sugerindo até que o rei de Portugal poderia ter tornado bispo um islâmico - uma ideia tão absurda hoje como há quase 1000 anos atrás, não tanto pela cor negra da sua pele, mas por todo o estereótipo que o seu nome pode conjurar. Seria como se, nos nossos dias de hoje, fosse anunciado que o padre de uma determinada paróquia mais envelhecida ia ser não um Francisco, ou um João, mas um Mohammed Bin Salman... certamente que as pessoas mais tradicionais poderiam ver algo de errado nisso, não é?

 

Frise-se, neste sentido, que não sabemos se esta lenda do Bispo Negro nos preserva acontecimentos com algum fundo de verdade. Alexandre Herculano parece ter pensado que não. Por via das dúvidas, fomos confirmar os bispos de Coimbra durante o reinado do nosso Dom Afonso I - i.e. especialmente entre os anos de 1128 e 1185 - e se nos restantes nada encontrámos que indicie a existência de uma figura como a que procurámos, já no ano de 1182 foi eleito um tal "D. Pedro". Ele parece ter sido bispo por menos de um ano, e a informação da Diocese de Coimbra apenas nos diz, em relação a ele, que se tratou do "segundo deste nome" (i.e. o segundo bispo da cidade que teve o nome de Pedro). O que é um pouco estranho, visto que a mesma fonte parece apresentar informações mais significativas em relação aos outros prelados da mesma cidade e do mesmo espaço de tempo, mas quase nada nos diz sobre este - terá sido ele esquecido, como tantos outros factos associados à mesma cidade? Ou terá sido ele a misteriosa figura a dar azo a esta história, uma espécie de Papisa Joana nacional?

A resposta, como sempre nestas coisas, fica para quem for ler estas linhas...

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