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Este é um mito de origem medieval, com diversas versões em vários países europeus, que vão adicionando mais ou menos elementos a uma trama-base, que pode ser contada assim:

 

O mito de Melusina é o de uma mulher misteriosa, mas inesquecivelmente bela, que um dado cavaleiro veio a conhecer. Caído de amores por ela, prometeu-lhe que faria tudo o que pudesse para a obter para esposa; mas Melusina, essa, limitou-se a pedir-lhe algo de muito simples - que a deixasse completamente só numa determinada altura.

Inicialmente, o cavaleiro respeitou esse pedido e tudo corria bem. Pelas suas artes mágicas, Melusina deu-lhe até tudo aquilo que ele poderia desejar - amor, riquezas, filhos, um enorme castelo, entre muitas outras coisas. Mas depois, um dado dia, movido pela curiosidade e contrariando a sua promessa original, decidiu vê-la no banho e notou que a sua amada tinha uma forma monstruosa escondida abaixo da cintura. Já ela, mal se apercebeu do gesto do cavaleiro, desapareceu nesse preciso instante e nunca mais foi vista...

Melusina (ou Melusine)

Nesta pequena história podem ser vistos um conjunto de elementos que aparecem em muitas outras lendas medievais, dos quais a promessa não-cumprida é um dos mais óbvios. As versões divergem em relação ao acto proibido por Melusina - o de ser vista a tomar banho, ou o de ser vista num dado dia da semana? - mas todas elas afirmam que o cavaleiro acabou por desrespeitar essa proibição e, como tal, acabou por perder não só o seu grande amor como todos os outros grandes dons que esta lhe tinha propiciado.

 

Poderia perguntar-se... porquê essa proibição? Dever-se-ia a um tabu relativo à nudez feminina, como no mito de Acteon? A razões religiosas, tratando-se o dia da semana de aquele consagrado ao Senhor? A razões anteriores a esta trama, que até prefaciam outras versões? Não sabemos, mas proibições semelhantes aparecem em muitas outras histórias da Idade Média, acabando por ser desrepeitadas em todas elas e levando, quase sempre, aquele que as quebra ao mais completo desespero.

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Quando, há já algumas semanas atrás, discutimos a lenda da "Porca" de Murça, um elemento fulcral da lenda prendia-se com a verdadeira identidade do animal que atacava as aldeias. Porém, no mito grego de hoje não há esse problema - a criatura em destaque é, sem qualquer dúvida, uma porca!

Porca de Cromion em combate com Teseu

Esta porca, filha de Tífon e Equidna, aterrorizava as populações da aldeia de Cromion, sendo chamada de "Phaia" (que pode ser traduzido do Grego como "Cinzenta") em virtude da idosa que a tinha criado. Quando um jovem Teseu passou na região derrotou definitivamente a criatura, mas não há registo do que fez ele com a dona.

 

O momento do confronto pode ser visto na imagem acima, com a idosa (e respectiva bengala) e a porca no lado esquerdo, enquanto que o herói, do lado direito e ainda sem barba dada a sua juventude, se prepara para aquele que seria um dos seus primeiros confrontos com uma criatura mitológica. Será que existiu, na Antiguidade, um poema sobre esta batalha? É bem possível que sim, mas já não nos chegou, apesar do momento ainda estar bem representado em diversos vasos.

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O Épico (ou Epopeia) de Gilgamesh é, como já cá foi contado antes, um dos mais antigos textos ficcionais contínuos que chegaram aos nossos dias. Mas quem já o tiver lido certamente que se deparou com um problema - a trama sequencial termina no 11º capítulo/livro, em que Gilgamesh perde, em favor de uma serpente, o seu possível acesso à imortalidade. Se isso nos faz subentender que o herói teria, um dia, de vir mesmo a morrer, a mesma fonte já nada nos diz sobre o que viria a acontecer na continuação da história.

 

Caso encerrado? Não tanto - existem textos da Suméria, com cerca de 4000 anos, que hoje são conhecidos sob o nome A Morte de Gilgamesh. São muito fragmentários, mas permitem-nos saber que pelo menos três episódios ainda tomavam lugar após o término da trama do épico:

 

  • Existia um momento em que o herói era levado a contemplar a sua própria mortalidade. Parafraseando uma sequência que sempre nos pareceu bela:

Deve ter-te sido dito que a morte é a essência de ser humano. Deve ter-te sido dito que isto seria o resultado de cortarem o teu cordão umbilical. O mais negro dia dos seres humanos agora aguarda por ti. O local solitário agora aguarda por ti. A imparável torrente agora aguarda por ti. A batalha inevitável agora aguarda por ti. A batalha desigual agora aguarda por ti. O conflito de que não podes escapar agora aguarda por ti. Mas não deves ir para o submundo com o coração zangado (...)

 

  • Como é natural, o herói acaba por morrer. A sua morte era, aparentemente, tratada com relação aos feitos passados, numa espécie de fórmula repetida - "Aquele que fez X caiu e não mais se irá levantar".

 

  • O herói era tornado um juiz entre os mortos, talvez pela eminência que tinha tido entre os vivos.

 

Claro que esta informação é muito limitada, mas é também particularmente significativa se tivermos em conta que a mortalidade do próprio herói é um dos temas centrais do épico. Ele - como o próprio leitor - está condenado a morrer, por muitos e grandes que sejam os feitos que atingiu. Esta sequência adicional parece insistir nessa ideia - a morte é inevitável, sim, mas nem por isso deve ser temida. E, por essa ideia contemplativa, a história de Gilgamesh continua tão actual hoje como no dia em que primeiro foi posta por escrito...

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Dom Fuas Roupinho e o Veado

Conta-nos esta lenda que, numa manhã de nevoeiro por volta de 1182, Dom Fuas Roupinho andava a caçar por terras da Nazaré quando viu um veado. No calor do momento decidiu persegui-lo quase até aos fins do mundo, e por pouco ia sendo levado à sua própria morte - o veado saltou de um penhasco e o cavalo do herói quase que o ia acompanhando, até que o "Farroupim" evocou o nome de Nossa Senhora e, no derradeiro momento, o animal estacou miraculosamente, salvando a vida daquele que transportava. As marcas do milagre foram de tal forma profundas que, segundo alguns, ainda podem ser vistas no local.

 

Como sempre nestas lendas, existem algumas divergências aqui e ali, mas uma das referências mais interessantes que encontrámos passa por se dizer que o veado era uma transformação do diabo, e daí se compreender a ajuda santa de Nossa Senhora.

Mas terá sido toda esta história verdade? Sabemos que Dom Fuas Roupinho foi uma figura real, viveu no tempo de Dom Afonso Henriques, foi alcaide de Porto de Mós e até um eminente comandante naval, sendo muito provável que tivesse passado pela Nazaré. Sabemos igualmente que foi ele quem mandou construir uma capela nessa vila, sobre uma antiga gruta onde já existia uma imagem de Nossa Senhora (e, supostamente, próxima do local do milagre), pelo que poderá ter sido essa uma grande razão da associação entre as duas figuras. Mas se o episódio do veado realmente tomou lugar, isso é algo que só o próprio "Farroupim" nos saberia dizer.

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Porque é fim de semana, e por isso se presume que potenciais leitores terão mais algum tempo livre para estas coisas, ficam também aqui mais dois filmes de Georges Méliès que nos recordam da Antiguidade - a Viagem pelo Impossível e a Viagem à Lua, ambos com música que não é a original.

Hoje já com mais de uma centena de anos, estes dois filmes baseiam-se em obras de Júlio Verne. Porém, o que talvez já poucos saibam é que histórias como essas - de viagens à lua, ao sol, aos outros astros celestes, etc. - nasceram ainda em tempos da Antiguidade, com a História Verdadeira de Luciano da Samósata a nos preservar, ainda hoje, um dos seus exemplos mais notáveis.

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Hoje decidimos cá trazer um filme feito em 1903 - há já quase 117 anos! - pelo famoso Georges Méliès.

A música não é a original, mas tenha-se em atenção que o filme é tão antigo que, nessa altura, esta arte não só ainda era muda, como ainda nem apresenta os pequenos diálogos que virão a caracterizar os filmes mudos mais tardios. Assim, o visualizador é quase que convidado a criar a sua própria história dos reino das fadas, enquanto deixa os seus olhos aproveitarem o festim artístico da caracterização e dos belíssimos cenários.

Esperamos que gostem!

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Capa do livro "American Gods"

Há já alguns meses que uma jovem nos recomendou o livro American Gods, de Neil Gaiman, mas só agora tivemos oportunidade de o ler. Essencialmente, é um texto ficcional que através da sua personagem principal, o misterioso Shadow, mostra como os deuses de outros tempos, e os pseudo-deuses dos nossos dias, "vivem" nos dias de hoje. E essa é, naturalmente, uma ideia interessante (mas não completamente nova...), mas também uma que nos parece muito mal aproveitada ao longo da novela; muitas das presenças divinas remetem-se a breves alusões aqui e ali, como no momento em que o autor faz uma alusão ao mito egípcio da pesagem da ka, mas sem que nunca explique mais sobre o conceito - isto, apesar de até o reaproveitar na sua história.

 

De uma certa forma, sentimos que este livro seria muito melhor se tivesse breves anotações a explicarem as muitas alusões que o autor vai fazendo aos deuses e seus respectivos mitos. Claro que pode ser lido sem esse elemento, mas acaba por se perder um interessante subtexto da história, até porque a maioria dos leitores dificilmente estará (bem) familiarizado com histórias como as do Barão Samedi, de Ratatosk, ou da criação pagã da Páscoa, entre muitas outras.

Mas, no seu geral, esta é uma curiosa obra ficcional de que os interessados em mitos e lendas irão gostar. Também existe uma série de televisão baseada nela, para quem até preferir ver em vez de ler.

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