São ainda hoje muitas as histórias que se contam sobre o autor dos Lusíadas (como a da sua cegueira), mas muitas outras foram caindo no esquecimento ao longo dos séculos. Assim, as lendas de Camões que aqui trazemos hoje foram encontradas num manuscrito, entre muitas outras da mesma época, como as desventuras de Chiado. Terão sido verdade, ou apenas uma mera espécie de contos populares na sua época? Não sabemos, nem há forma real de o verificar com grandes certezas, mas aqui fica uma primeira história apresentada nesse manuscrito, com adaptações para facilitar a sua leitura nos nossos dias:

Indo um dia Luís de Camões passeando por uma rua de Lisboa, viu a uma janela duas damas jogando às cartas; parou ele defronte delas, e da rua lhes esteve dizendo algumas galanterias de que elas não fizeram caso, antes mostrando que nem davam fé de quem as dizia, foram jogando por diante; vendo ele que aquele seu não dar fé era mais dissimulação que inadvertência, chegou-se mais ao pé da janela e disse-lhes:
“Tenha esse jogo já fim,
senhoras, não jogueis mais,
porque entendo que jogais
por fazer jogo de mim.
Se é certo este meu juízo,
não é coisa justa, logo,
que estejais fazendo jogo
de quem vos ama de siso.”Elas, pondo os olhos nele e tornando-os no mesmo instante a recolher, mordendo os beiços, disfarçando o riso, uma que de ambas era mais travessa deixou cair uma carta na rua. Levantou-a logo o Camões e viu que eram três paus; e entendendo que aquilo era o mesmo que dizer-lhe que se fosse enforcar, olhando para ela disse:
“Por acabar dias maus
da triste vida que passo,
mandai, Senhora, o baraço,
que já cá tenho três paus.”A isto não puderam elas dissimular o riso, mas, mortas dele, recolheram-se para dentro, e o Camões, deixando o posto, continuou o seu passeio.
Seria verdade ou mentira, que isto alguma vez tomou lugar? Meras lendas de Camões? Repita-se que não há qualquer forma de o sabermos, mas esse suposto amor do poeta por diversas damas, seja em Portugal ou no estrangeiro, nas várias terras por onde passou, parece ter sido um tema popular na época. Veja-se outro exemplo:
Na Índia galanteava Luís de Camões uma nativa de Goa, por nome Maria Cortes; passava ela na manhã de um dia santo a ouvir missa com sua mãe viúva, sem outra alguma companhia, por onde o Camões estava com alguns amigos seus, os quais, vendo-a vir assim desacompanhada, disseram para ele:
— Vedes lá? Vem a Senhora Maria Cortes para a Igreja só com sua mãe. Tinhas-te vós agora acomodado para, como seu galante, a poderes acompanhar; porém, estares vós aqui por onde ela passa, e sofreres que vá tão só como vem, cheira a pouca cortesia.
O Camões a deixou chegar mais perto, e tanto que a teve a lanço de cumprimento, com o barrete na mão se foi para ela, dizendo:
“Não sei se por ser do Porto,
se por ser bom português,
cortesias me têm morto,
perdido sou por Cortes.”E com isto se foi andando diante dela até a Igreja, onde lhe deu água benta, e se tornou para a companhia dos amigos que o ficaram esperando no mesmo posto, aos quais ele contou a galanteria com que se oferecera por escudeiro da dita Maria Cortes.
Serão estas puras lendas de Camões, ou histórias mais reais da sua vida? Não sabemos, não sabemos, mas mereceram ser trazidas de volta aos nossos dias de hoje…

