Actualização deste espaço

Para celebrar o final de 2020, e o início do ano de 2021, foi feita uma pequena actualização ao site. Essencialmente, a categoria de “outros mitos e lendas” terminou, mas foi substituída por diversas categorias individuais para vários países – como por exemplo Mitos e Lendas da China, Mitos e Lendas da Índia ou Mitos e Lendas de Espanha, entre muitas outras – como nos tinha sido sugerido há uns meses atrás. Surgiram até as categorias de Mitologia Europeia (para mitos e lendas comuns a vários países de Europa) e Mitologia Mundial (para mitos e lendas que ocorrem em várias culturas de todo o mundo). Infelizmente, ao mesmo tempo isto leva a que algumas publicações anteriores possam estar em categorias incorrectas ou incompletas, mas isso será corrigido progressivamente ao longo do tempo.

 

Também, acrescente-se que estamos a considerar fazer mais períodos temáticos. Por exemplo, a primeira semana deste ano será dedicada a histórias de Portugal que são bem conhecidas apenas na sua região local, de que a lenda de Santo Ovídio é um bom exemplo. Como sempre, quem tiver sugestões para uma publicação, ou ciclo de publicações sobre um determinado tema específico, poderá deixar um comentário e, se for possível, iremos concretizá-lo!

 

E, para terminar esta actualização de hoje… bom ano de 2021 para todos os que nos vão lendo!

“Elegíada”, o texto mais triste do mundo?

Será Elegíada o texto mais triste do mundo? Certamente que esta pergunta não tem uma resposta fácil, até em virtude do facto da tristeza ser um critério bastante discutível e difícil de definir, mas quando há algumas semanas ouvimos falar de um texto que era categorizado por um crítico nacional como o mais triste de Portugal, ou o mais triste alguma vez composto em língua portuguesa, sabíamos que tinhamos de lhe dar uma olhadela. E foi o que fizemos, ao longo de mais de 400 páginas de um épico nacional que hoje é muito pouco lido. Conte-se a sua história.

Um dos textos mais tristes do mundo?

Viveu na segunda metade do século XVI um padre jesuíta que ficou conhecido por Pereira Brandão. Entre o pouco que sabemos da sua vida é conhecido que ele acompanhou o Rei Dom Sebastião à Batalha de Alcácer-Quibir. Sobreviveu ao grande desastre e, menos de 10 anos depois, escreveu um poema épico, a Elegíada, em que o herói é o próprio monarca D. Sebastião. Ou seja, escreveu provavelmente o único poema épico do mundo em que o herói não só não triunfa nos seus objectivos, como até acaba por morrer no campo de batalha. E desenganem-se aqueles que esperam, aqui, um poema de esperança para o futuro profetizado por Bandarra ou imortalizado nas lendas – o rei estava mesmo morto, não ia voltar, e a obra termina no ponto em que o reino de Portugal é informado desse assustador destino. Esse é um tom de tristeza que pauta repetidamente toda a obra, que até começa com os seguintes versos, bem exemplificativos do seu conteúdo geral:

Mortes, danos, castigos, mágoas canto,
Males que todo o mundo chora e sente,
Um nunca visto estrago, e o rouco pranto,
Nunca enxuto em portuguesa gente.
Armas, furor, e temeroso espanto,
Em que se abrasa a Líbia ardente,
Quando [D.] Sebastião passar queria
A restaurar o Rei da Barbaria.

 

Parece tão triste quanto interessante, não é? Ao contrário do épico escrito sobre Henrique de Borgonha, o tema desta Elegíada dificilmente poderia ser mais fascinante, ainda para mais se foi escrito por alguém que testemunhou os eventos que reporta na primeira pessoa. Contudo, se a obra até tem alguns momentos preciosos, o seu mérito poético é demasiado discutível. Mesmo naqueles instantes em que surge algo mais digno de nota, como o misterioso idoso que inspira o rei falando-lhe do glorioso passado de Portugal (seria ele Camões?), ou a viagem do monarca por Sintra, eles demasiado depressa se desvanecem… e isso é particularmente notável naquele que deveria ser o episódio da morte de Dom Sebastião, no penúltimo canto, que é tratado com uma ligeireza que não pôde deixar de nos fazer sentir algo como “O quê? Só isto? Morre o rei e é apenas isto que o poeta tem para nos apresentar?” Em suma, o seu tema até era bom, mas o poeta não foi capaz de o tratar da forma conveniente para um verdadeiro poema épico.

 

Agora, não sabemos se esta Elegíada é o texto mais triste do mundo. Ou sequer se é o texto poético mais triste alguma vez composto em Portugal, mas se for colocado no seu contexto original entende-se o porquê de já ter recebido essa designação. É um poema emblemático de um momento muito particular da história portuguesa, do grande desespero de um povo, mas isso não faz dele, ainda assim, um bom poema épico. Explica-se, sem muita dificuldade, que seja essa falta de mérito poético que tenha levado ao seu esquecimento nos nossos dias. E quem desejar lê-lo faça-o como nós, mais pela breve curiosidade do que pela esperança de nele encontrar algo capaz de rivalizar com os Lusíadas de Camões.

A lenda do Doutor Fausto

A lenda do Doutor Fausto apareceu na Europa por volta do século XVI, mas o facto de ser relativamente recente não a torna menos interessante, bem pelo contrário. Na verdade, ainda hoje se debate a identidade deste “Fausto”, se ele terá sido baseado numa figura real ou se é apenas uma mera lenda fantasiosa, com tantas outras histórias do sobrenatural que nos foram chegando ao longo dos séculos. Não sabemos. Por isso, recorde-se aqui a sua história, e que seja o leitor a decidir o que pensa de tudo isto.

A lenda do Doutor Fausto

O homem que ficou conhecido sob este nome estudou muito. Uma das versões da sua história que lemos diz que ele tinha “16 mestrados”, num possível erro de tradução do alemão original, antes de se doutorar em Teologia. Porém, por muito que estudasse sempre sentiu que esse seu conhecimento lhe servia de pouco. Queria mais, queria o tipo de conhecimento que normalmente está vedado aos seres humanos. Então, recorrendo às artes mágicas e a uma renegação do Cristianismo, fez um pacto com uma entidade demoníaca, Mefistófeles, entregando-lhe a sua vida e vendendo-lhe a sua alma se este fizesse tudo o que lhe pedia durante alguns anos (24, segundo algumas versões). Até aqui a trama é relativamente estável, com algumas ligeiras diferenças, mas depois surgem dois possíveis caminhos.

 

Nas versões mais antigas, de que a Trágica História do Doutor Fausto será provavelmente a mais famosa nos nossos dias, os poderes concedidos por Mefistófeles parecem agradar ao Doutor Fausto, que se mostra repetidamente satisfeito ou temente do seu pacto, que no início até o conduz ao conhecimento que ambicionava, mas que depois o parece levar a diversas mesquinhices menores. Há momentos em que parece querer voltar atrás, e outros em que se sente impotente para alterar o seu destino. Por exemplo, quando diz que gostava de casar, o seu ajudante demoníaco diz que tal não é possível, porque o casamento é um acto divino e ele tinha renegado a tudo o que diz respeito a Deus; em vez disso, envolve-se sexualmente com Helena de Tróia e tem um filho dela, numa sequência com quase nenhuma importância na trama. No final, completamente incapaz de alterar o destino que já antevê há muito, é morto de uma forma horrenda, indo para o Inferno.

 

É igualmente notável a versão da famosa tragédia de Johann Wolfgang von Goethe, que possivelmente terá inspirado autores como Thomas Mann. Aqui, todo o conflito interno do Doutor Fausto é quase posto de parte, com Mefistófeles a tornar-se uma espécie de companheiro ajudante que vai permitindo e colaborando em tudo aquilo que o herói deseja. Há uma trama amorosa mais marcada, com a paixão do herói pela jovem virgem Gretchen, que acaba mal (e dificilmente não suscitará alguma tristeza no leitor). Porém, na segunda parte da obra o herói também se apaixona por Helena de Tróia, no meio de uma sequência – criada totalmente pelo autor – em que entram as mais diversas personagens mitológicas da Antiguidade. No final, a personagem principal morre e vai para o Céu, mas as razões para tal pouco lhe pertencem. Acaba por ser desapontante, porque esta figura – por oposição à da versão anterior – é que parece merecer ir para o Inferno…

 

O que retirar de toda esta lenda? Apesar de estas duas versões serem significativamente diferentes (seria uma delas católica, e a outra protestante, como um dia se perguntou Teófilo Braga?), apresentam um cerne comum, uma espécie de advertência face aos pactos com o Diabo, de que cá falámos recentemente. Nunca correm bem, levando (pelo menos) à horrenda destruição do Doutor Fausto na primeira versão, e ao doloroso final de Gretchen na segunda. Portanto, se alguém até estava a considerar tomar uma decisão como essa na sua vida, fica o aviso de que tende sempre a correr muito mal para todos os envolvidos; mas, com um sorriso difícil de negar, também convém admitir que são já muito poucos aqueles que ainda acreditam nestas coisas… estará, nos dias de hoje, Mefistófeles desempregado?

Santa Maria e o homem que queria ver o Céu

Esta história de Santa Maria e o homem que queria ver o Céu, ao ser contada, deve sê-lo expondo igualmente um problema significativo. Ela provém das Cantigas de Santa Maria, do século XIII da nossa era (e de que já cá apresentámos uma pequena tradução de uma das cantigas), mas existe, com contornos muito semelhantes, por toda a Europa. Mudam frequentemente as personagens principais (que até pode ser outro santo ou um falecido amigo deste homem, entre outras figuras), mas parece ser sempre retido o cerne da história e pelo menos parte do seu desfecho. Assim sendo, parafraseie-se brevemente a históra, antes de mais comentários:

Santa Maria e um homem que queria ver o Céu

Havia um homem que era muito devoto a Santa Maria. Rezava-lhe horas e horas a fio. Um dia a santa apareceu-lhe e, face à devoção que este tinha demonstrado, decidiu conceder-lhe um pedido. O homem não teve muito que pensar – pediu à mãe de Cristo que o deixasse ver como era o Céu. E esta assim o fez – levou-o ao Céu, onde ele pôde ver belíssimas árvores de fruto, pássaros com um cantar de beleza indescritível, e outras coisas miraculosas. Então, por um breve momento, o homem distraiu-se a ouvir o canto de um qualquer pássaro… e quando foi trazido de volta ao mundo do vivos, tinham passado centenas de anos!

 

Se a memória não nos engana, esta é a versão da história tal como ela aparece nas Cantigas de Santa Maria. Outras versões, como referido acima, alteram as circunstâncias que levaram este homem ao Reino dos Céus, mas por vezes adicionam um elemento delicioso – quando este homem volta ao local de onde partiu, regressa também a sua casa e vê que tudo está diferente, ao ponto de agora morar um completo desconhecido lá. Quanto mais inquire sobre o local, mais se apercebe da passagem do tempo – a pequena vila é agora uma cidade, o pároco local foi substituído por um bispo, etc. – e, após falar com muita gente, são verificados os registos religiosos e descobre-se que esse homem tinha desaparecido há mais de 200 anos!

 

Interessante, não é? Mas, afinal de contas, qual é o objectivo de toda esta história? É provável que, originalmente, esta tenha sido uma história cujo objectivo principal era o de explicar aos mais simples como funcionava a passagem do tempo no Céu, e.g. o canto dos pássaros no Céu é tão belo que as pessoas podem passar décadas a escutá-lo sem se aperceberem. Não temos a certeza se a ideia nasceu com as cantigas associadas a Afonso X de Castela, ou se toda esta trama de Santa Maria e o homem que queria ver o Céu até já as antecede, talvez até por via oral, mas ainda hoje existem versões dela em Portugal e Itália. Sabemos, contudo, é que o cerne da história – a ideia da subida aos céus, e o seu retorno passado centenas de anos – terá pelo menos 700 anos, o que atesta bem a sua popularidade até aos nossos dias.

Onde nasceu Jesus Cristo?

Na verdade, onde nasceu Jesus Cristo? A localização desse local parece ser um dos grandes mistérios do Cristianismo. Quem for ler o Novo Testamento depressa conseguirá concluir que esta famosa figura nasceu em Belém, na Judeia, mas informações mais precisas não parecem estar verdadeiramente disponíveis no texto. Será, por isso, que ele nasceu numa casa, num estábulo, numa caverna, ou até num qualquer outro local?

 

Quem conseguir recordar a trama de toda a história poderá lembrar-se que, aquando de uma sua viagem, Maria e José tentaram dormir numa espécie de pousada, mas foram informados de que não havia qualquer lugar livre – logo, torna-se improvável que ele tenha nascido numa casa, ou num qualquer local em que fossem alugados quartos. Mas, então, onde foi que este famoso evento teve lugar?

O texto latino diz-nos que este filho de Maria nasceu e foi colocado in praesepio, ou seja, numa manjedoura. Naturalmente que este é o nome dado a um local onde os animais comem, dando a sugestão de um nascimento num local indeterminado mas onde podiam até existir animais. Mas, ao mesmo tempo, isto não descarta a possibilidade de que ele tenha nascido noutro local e, posteriormente, tenha sido colocado numa manjedoura. As fontes, pura e simplesmente, não nos dão esta informação de forma clara, como já cá discutimos o ano passado.

Onde nasceu Jesus Cristo?

Depois, quando o episódio começou a ser representado na arte – acima, pode ser visto uma representação do século IV, possivelmente a mais antiga que nos chegou – deve ter surgido um problema. Se Jesus Cristo fosse apresentado somente numa manjedoura, como seria possível reconhecer de quem se tratava? É provável que, para facilitar esse reconhecimento, tenham sido adicionados à representação dois animais – um burro e uma vaca – dando um maior crédito à ideia de que se tratava de uma espécie de estábulo. Caso contrário, o que fariam os dois animais numa caverna? Mesmo que se queira acreditar que o burro era aquele que transportava Maria na longa viagem, e que por isso pernoitava próximo do casal, de onde apareceu toda a figura do bovino?

 

Este problema levanta uma possibilidade intrigante, quando inquirimos sobre o local onde nasceu Jesus Cristo – será que ele não nasceu numa caverna que estava a ser reutilizada como estábulo? É uma possibilidade como qualquer outra, sendo apenas apoiada num conjunto de provas circunstanciais, como o facto de textos apócrifos mencionarem esse local, ou a Igreja da Natividade, em Belém, ter sido construída sobre uma caverna – e porque estaria uma manjedoura nesse local? Ou a caverna, como supomos nestas linhas, estava mesmo a ser usada como estábulo, ou Maria e José conseguiram obter, talvez por empréstimo, essa peça de mobília onde colocar o menino, como o Corão parece indicar, ao nos dizer que existia uma palmeira por perto – estaria ela imediatamente fora da caverna, levando o casal a entrar para descansar durante a noite? São apenas suposições…

Viajemos então ao local dos acontecimentos, de um forma completamente virtual. Quem olhar pelo local acima, presente na Basílica da Natividade, poderá aí ver aquele que poderá ser um dos locais mais sagrados do Cristianismo, o suposto local do famoso nascimento, onde um dia se acreditou que esteve a manjedoura. Mas será que foi mesmo este o local dos acontecimentos? Temos a certeza? Na verdade não sabemos, nem podemos ter a certeza. As fontes literárias que temos não nos são suficientes para o podermos afirmar – mas é o que a tradição do Cristianismo, a mesma que nos transmitiu muitas outras ideias relativas à mesma religião, como o do local em que esta figura veio a falecer e ressuscitar, nos diz, quer queiramos, quer não!

 

Pergunte-se, então e para concluir, onde nasceu Jesus Cristo… sabemos que, segundo as fontes literárias, foi na povoação de Belém, na Judeia. Sabemos, igualmente, que após o nascimento o recém-nascido foi colocado numa manjedoura. Mas, admita-se sem qualquer dificuldade, não sabemos é se ele nasceu numa caverna ou num estábulo, sendo essa primeira possibilidade mais aceitável e conhecida somente com base nas tradições mencionadas acima. E, por vezes, em situações como estas é importante saber admitir isto mesmo, que existem coisas que sabemos e coisas que, aparentemente, ficarão desconhecidas para o futuro e no segredo dos deuses…