O mito de Salmoneu

O mito de Salmoneu é, entre os Gregos, o de uma figura que até poderá parecer relativamente simples, mas nem por isso menos digna de nota, face aos estranhos actos que perpetrou na sua vida.

Os cavalos de Salmoneu?

Conta-se então que Salmoneu foi irmão de Sísifo e rei da Élida, uma região da Grécia. Inicialmente muito amado pelos seus súbditos, acabou por, numa espécie de estranha loucura, passar a considerar-se como a face terrena de Zeus. Pensou, por razões que não são fáceis de compreender, que até era o próprio deus do Olimpo, e começou então a pedir que o venerassem como tal.

Se esta ideia ainda não parecer suficientemente estranha, Salmoneu decidiu então que seria ainda mais venerado pela população se conseguisse imitar parte dos poderes de Zeus. Assim, recorrendo a um subterfúgio, começou a imitar o som da trovada de forma um tanto ou quanto estranha – pegando na sua quadriga, ligou-lhe todo um conjunto de objectos para que esta, ao produzir o seu movimento natural, o fizesse sempre acompanhada com o som que desejava. Isso convenceu, na verdade, algumas pessoas de que ele era verdadeiramente o deus Zeus vindo à terra. Mas esse monarca dos deuses, como não podia permitir uma situação tão absurda e insultuosa para o seu carácter, depressa resolveu todo o caso – atirando um dos seus (verdadeiros) raios ao rei, fulminou-o, fazendo-o abandonar o mundo dos vivos!

 

O sentido de todo o mito é muito simples, e como em diversos casos que cá foram falados ao longo dos anos a sua lição é simples – o ser humano não deverá tentar desafiar os deuses, porque estes lhe são superiores em tudo. Quem o faz – ou, para se ser mais preciso, quem o tenta fazer – acaba sempre punido, como aconteceu com a figura principal deste mito de Salmoneu.

“Histórias Proveitosas”, de Gonçalo Trancoso

As Histórias Proveitosas, mais conhecidas pelo seu nome alternativo de Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, são uma obra de Gonçalo Fernandes Trancoso que contém alguns contos escritos durante uma altura de peste do século XVI. Se a ideia e o contexto não são novos – de facto, até já cá falámos deles anteriormente – neste caso específico são dignos de nota pelo facto de esta se tratar da mais antiga obra nacional com este género ficcional. Desconhecemos as fontes completas do autor – em alguns casos até nos informa delas, mas essas são excepções mais do que regras – mas o seu objectivo é claro, até face aos nomes dados a esta sua obra.

Contos e Histórias de Proveito e Exemplo

Essencialmente, Gonçalo Trancoso pretendia contar um conjunto de histórias que pudessem tanto deleitar como instruir. Não são, no seu geral, muito fantasiosas, mas sofrem de um estranho problema – em vez de, como é comum hoje em dia, apresentarem uma moral no final, por vezes apresentam morais parciais ao longo da trama, o que quebra o seu ritmo… e acaba por ser pena, porque várias sequências da obra são interessantes, ainda para os nossos dias, e dão que pensar.

 

Por exemplo, a primeira de todas apresenta-nos “um exemplo que disse um Padre da Companhia, que ensinava no Colégio de Santo Antão, em Lisboa” e fala-nos de um ladrão e um ermitão. O primeiro pede repetidamente ao segundo que reze por ele, para que Deus o ajude a sair da sua vida de crime, mas volta sempre aos seus maus actos. Às tantas, o ermitão lá lhe demonstra um problema notável em toda a situação – as suas rezas, por si mesmas, nada podiam, excepto se o ladrão também quisesse trabalhar para emendar a sua conduta reprovável. A moral a retirar é clara, mas este é um dos exemplos em que ela ficou reservada para o final, em vez de interromper a sequência dos eventos, o que tende a acontecer nos relatos mais longos.

 

Face a um problema como este, quase que apetece dizer que a obra tem muito espaço possível para melhorar. E tem (!), mas devemos é ter em conta que se tratou da primeira compilação de contos em Portugal. Por isso, talvez não se pretendam perfeitas, estas Histórias Proveitosas de Gonçalo Trancoso, mas com um certo charme, de um novo autor – é provável que tenha escrito mais uma ou duas obras, se não estiver a ser confundido com um homónimo – que então pretendia explorar os limites de um novo género.

A verdadeira história da Pequena Sereia

A verdadeira história da Pequena Sereia é um pouco mais complexa do que algumas de que cá falámos no passado. Se, por exemplo, na história da Cinderela foram removidos alguns elementos mais cruéis, ou na da Bela e o Monstro a moral da história foi significativamente alterada, já neste caso existe um elemento horrendo na trama, bem como três finais distintos. Mas já lá iremos, convém apresentar brevemente esta história – como bem se sabe, a Pequena Sereia é um conto da autoria de Hans Christian Andersen, mas que teve algumas influências de autores anteriores, e que hoje nos é famosa devido a uma versão da Disney.

A Pequena Sereia no mar

Nesse sentido, o conto original tem bastantes semelhanças com essa versão americana. Não há nada muito significativamente diferente até que a Pequena Sereia – que aqui não tem outro nome senão este – pede à sua avó que lhe ensine mais sobre os seres humanos. E é nesse momento que surge um dado estranho – é dito a esta jovem sereia, na altura com 15 anos, que os seres humanos viviam pouco tempo, mas que após a morte eram levados para o Céu e tinham uma vida eterna (por oposição aos seres marinhos de que elas faziam parte, que viviam 300 anos mas depois se tornavam em espuma do mar). Traumatizada, não pode deixar de perguntar à avó se havia alguma alternativa… e sim, havia, ela podia obter uma alma se conseguisse casar com um ser humano que a amasse “mais que ao pai e mãe”! Fazendo então um pacto com uma bruxa do mar, a heroína obtém pernas – em troca, perde a voz e consente morrer se não conseguir obter o amor que procurava – e vai para o mundo dos humanos. Tenta casar com o Príncipe que um dia salvou de um naufrágio, por quem ela estava totalmente apaixonada, mas… ele acaba por casar com outra mulher, com quem vem a confundir a sua salvadora.

 

E é aqui que toda a trama se complica. Na primeira de todas as versões, a Pequena Sereia, não tendo conseguido casar com o Príncipe, pura e simplesmente morre, feita em espuma do mar. Na segunda, ela recusa matar o antigo amado (o que lhe permitira voltar a ser sereia novamente), e depois transforma-se numa nova espécie de ser, semelhante a um Silfo, que supostamente poderia vir a obter a imortalidade se fizesse boas acções durante 300 anos. Já na terceira versão, a mais comum nas edições dos nossos dias, após esta transformação a antiga habitante dos mares ascende aos céus sob a forma de um pseudo-silfo, dá um derradeiro beijo na testa do Príncipe, e surge então uma estranha moral da história, em que as crianças são advertidas de que um dia é adicionado aos 300 anos do (imerecido) “castigo” destas criaturas cada vez que elas se portam mal.

 

O que dizer de todas estas versões? Procuram transformar algo completamente trágico num final que apenas podemos classificar como “menos mau”, mas em qualquer um dos casos não é propriamente o que esperaríamos encontrar num conto para um público infantil. Esta é, sem qualquer dúvida, uma história atípica nesse sentido, já que aborda tacitamente até considerações teológicas (i.e. acreditava-se que apenas os seres humanos tinham alma, e nesse sentido os animais de estimação, ou quaisquer outros seres, nunca poderiam vir a partilhar da alegria eterna dos Céus), naturalmente incomuns em histórias para crianças. A necessidade que a Disney sentiu de a normalizar, de tornar esta apenas mais uma história de amor entre um príncipe (humano) e uma princesa (dos oceanos), é aqui bem compreensível – toda a história, e o seu final, funcionariam bem num filme para os mais velhos, mas destoam no panorama das aventuras infantis.

“Fortis fortuna adiuvat” – origem, tradução e significado

Fortis fortuna adiuvat é, sem qualquer mínima dúvida, um provérbio latino muito famoso nos nossos dias de hoje, mas qual a sua origem, tradução e significados reais? É algo em que certamente já muita gente pensou, até porque a frase até aparece em filmes tão conhecidos como os da saga de John Wick, e parece instar-nos a arriscar, a procurar aquilo que queremos mesmo nas nossas vidas, já que isso depende, primeiro e primordialmente, de nós próprios. Assim sendo, falemos um pouco mais sobre ela.

 

A origem da expressão fortis fortuna adiuvat

Afinal, de onde vem essa famosa expressão? Duas das fontes literárias mais antigas que temos para ela parecem ser Cícero e Virgílio, ambos autores do tempo dos Romanos, mas o primeiro deles dá-nos uma pista importante quando, ao citar a expressão, a atribui a Quinto Énio. Por isso, dadas as muitas referências aos Anais deste Énio no poema épico de Virgílio, a Eneida, parece-nos provável que ambos os autores a tenham conhecido através dessa mesma fonte comum, então muito famosa. Mas isso não implica que esse tenha sido o seu autor original, sendo até possível que a expressão já viesse do tempo dos Gregos.

De facto, uma rápida pesquisa online revela que alguns até a atribuem a Alexandro Magno, sem qualquer fonte literária associada, pelo que é muitíssimo provável que se trate mais de uma atribuição tardia, quase em termos de wishful thinking, do que algo com uma base real. Se foi mesmo esta personagem história que o disse, não parecemos ter hoje qualquer prova real disso mesmo.

Fortis fortuna adiuvat e a Fortuna Favorece os Bravos, na sua origem, tradução e significado

Qual a tradução de fortis fortuna adiuvat? Será ela apenas a fortuna favorece os bravos?

Traduzir Latim, como qualquer outra língua, não é tarefa fácil, porque umas mesmas palavras podem significar coisas significativamente diferentes mediante o seu contexto. Portanto, de uma forma muito simples, esta expressão latina pode significar coisas tão variadas e sibilinas como “A fortuna favorece os bravos”, “A sorte sorri aos audazes”, “A sorte protege os audazes” ou mesmo “a sorte favorece os audazes”, entre outras (e.g. em Inglês, “fortune favours the brave”). Nenhuma destas é mais correcta que as outras, são apenas traduções diferentes de um mesmo conteúdo original, que, mediante o contexto em que se insere, até poderá soar melhor de uma ou de outra forma. Por exemplo, já vimos a expressão original, em Latim, utilizada até em anúncios relativos a criptomoedas, o que levanta a questão do seu significado…

 

O que significa, na realidade, fortis fortuna adiuvat?

Erasmo de Roterdão, quando explica esta expressão na sua obra sobre adágios latinos, dá-lhe uma metáfora particularmente importante, dizendo que não devemos viver as nossas vidas como animais que se escondem no interior das suas carapaças. Isto, diz-nos o célebre autor, porque as coisas boas, aquelas que a fortuna, a sorte ou o destino, nos possam vir a trazer dependem frequentemente de nós próprios. Assim sendo, para voltar ao exemplo concreto das criptomoedas, o que os anunciantes pretendem, ao utilizar esta expressão concreta nos seus anúncios, é dizer ao público que se este ainda pouco conhece do tema (como é natural, dado elas serem relativamente recentes), poderá e deverá arriscar na aquisição das mesmas, já que estas lhe podem trazer muitos benefícios… o que até pode, ou não, ser verdade, mas discutir esse tema já escapa ao nosso objectivo de hoje.

 

Agora que explicámos a origem, tradução e significado de toda esta hoje-famosa expressão do tempo dos Romanos, deixamos igualmente um pequeno convite adicional a quem nos ler – se ficaram curiosos em relação à origem e significado de outras expressões latinas que ainda são usadas em Portugal e no Brasil nos nossos dias, podem ver muitas outras na nossa compilação de 150 Frases Famosas em Latim, e explorar também as respectivas origens na nossa secção de expressões!

Como se faz um pacto com o Diabo?

Como se faz um pacto com o Diabo, ou como fazer um pacto com uma figura como Satanás? A ideia é muito comum na cultura popular dos nossos dias, com as personagens de um qualquer livro ou série de televisão normalmente a assinarem uma espécie de contrato com o seu próprio sangue, mas nunca é contado, ou mesmo mostrado, à audiência no que consiste esse pacto chamado faustiano, de uma forma mais precisa. Poderia pensar-se que não se sabe a resposta, que é apenas uma ideia ficcional que nunca foi muito elaborada, mas quando é dito que figuras heréticas tão eminentes como Lutero, Calvino ou o famoso Doutor Fausto fizeram pactos dessa natureza, o que pensar?

Ter uma resposta a questões como estas nem sempre é fácil. Não porque as respostas não existam, mas porque normalmente estão em manuscritos que, ainda hoje, se encontram vedados ao público ou catalogados de forma deliberadamente incorrecta. Nesse sentido, para a publicação de hoje foi-nos feito um pedido menos vulgar – podíamos publicar este tema e explicar como se faz um pacto com o Diabo, sim, mas com a importante ressalva de que não podemos divulgar a origem do documento apresentado abaixo. Ele está em Latim numa biblioteca portuguesa, mas mais não podemos dizer. Segue-se uma breve tradução das linhas originais, explicando como fazer um pacto com o Diabo:

Como se faz um pacto com o Diabo?

Renuncio-te, Deus-Pai, que me fez. Renuncio-te, Espírito Santo, que me abençoou. Renuncio-te, Jesus Cristo, que [duas ou três palavras estão rasuradas e ilegíveis]. Nunca vos irei adorar ou servir depois deste dia, e juro-me completamente a Lúcifer, senhor do negro abismo. E juro-me às suas regras, e ele deverá servir-me e fazer-me o que eu lhe pedir. Em troca, dar-lhe-ei o meu próprio sangue como seguro e juramento. Isto garante que serei dele em corpo e alma para toda a eternidade, se ele fizer o que eu lhe peço ou ordeno. Assim, assino com a minha própria mão e com o meu próprio sangue. Isto está certo e verdadeiro em todas as formas possíveis.

 

Supostamente, esta fórmula deveria ser escrita e depois, como o seu próprio texto indica, assinada em sangue. Mas esse elemento não bastaria, já que só surtia efeito na presença de uma testemunha muito especial – o próprio Diabo (ou Satanás, ou Lúcifer, ou como preferirem chamar a essa entidade…) tinha de estar presente e ver a pessoa a assinar com os seus próprios olhos, sob pena de todo o procedimento não ter qualquer valor real. Agora, em que circunstâncias é que aconteceria se juntarem todos esses estranhos factores num mesmo local e à mesma hora é algo que já desconhecemos, por nos parecer impossível… Porém, este breve exemplo prova é que existiu, em outros tempos, pelo menos uma fórmula explícita de alguém fazer um pacto com o Diabo, mesmo que todo o procedimento não tenha – hoje, como na altura em que foi escrito – qualquer efeito real. É uma mera curiosidade, e absolutamente nada mais.