O mito de Toth, inventor da escrita

O mito de Toth, figura também conhecida entre nós pelos nomes de Tote ou Thoth, é talvez um dos mais famosos do Antigo Egipto, pelo facto de este deus ser frequentemente apresentado não só como a figura associada a todo o conhecimento, mas igualmente pelo facto de se acreditar que tinha sido ele a trazer o dom da escrita à humanidade, inaugurando uma sequência de (suposta) preservação do conhecimento divino que, séculos mais tarde, acabará por dar lugar ao Corpus Hermeticum, entre outras obras supostamente etéreas e de conhecimento divino.

Toth ao lado de Ammit

Mas o que diz, então, o mito de Toth? Infelizmente, as histórias egípcias que nos chegaram são frequentemente fragmentárias, impedindo que se conte a história deste deus numa só narrativa com princípio, meio e fim, mas temos é pleno conhecimento de um factor muito importante – quando havia a necessidade de escrever ou anotar algo, era sempre este o grande deus envolvido nessa tarefa. Por exemplo, quando falámos sobre a deusa Ammit e a pesagem das almas (deusa novamente assinalada na imagem acima), à sua frente pode ser visto este deus, Toth, prestes a fazer o seu trabalho e a anotar, aparentemente num papiro, o resultado de cada pesagem individual. Era, por isso, um deus escriba, mas também um deus de todo o conhecimento, desde a Astrologia até à Oratória, passando pela Botânica, Geometria e Matemática – ou, mesmo para simplificar, de todas as áreas do conhecimento, sem excepção de maior relevância.

 

Outro elemento comum nas várias referências – agora iconográficas – a Toth é o facto de ele ser frequentemente representado com a cabeça de um íbis, tornando bastante fácil a tarefa de o reconhecer entre os outros constituintes do panteão egípcio. Se existem excepções – também pode aparecer representado sob a forma de um babuíno, talvez pelo facto desses animais poderem utilizar ferramentas, como o deus o fazia para a sua escrita – a utilização da forma de íbis parece ser quase uma regra, mais do que uma excepção.

 

Mas, para terminar, será que existe algum mito de Toth, na Mitologia Egípcia, específico a essa figura? Mais do que procurar um mito essencial em que ele tenha o papel principal, o que encontrámos foram vários relatos em que ele aparece como uma figura secundária, auxiliando, por exemplo, na tarefa de completar o ano com os 365 dias que ainda actualmente tem, ou ajudando Ísis na procura por Osíris. Este deus parece ser, portanto, uma figura importante, mas de segunda linha entre os seres divinos, pelo menos entre as fontes literárias que nos chegaram – mas, admita-se, já não sabemos até que ponto isso capta a realidade existente no Antigo Egipto, podendo Toth ter sido uma figura de maior importância mas cujos mitos essenciais já não nos chegaram bem representados!

A origem do Tarot – verdades e falsidades

Há algumas semanas fizeram-nos uma pergunta relacionada com a origem do Tarot. Isso levou-nos a uma busca maior por respostas, mas também pela evolução e significado das suas cartas. Apesar de termos encontrado mais perguntas do que respostas, achámos que podíamos fazer aqui um breve resumo da sua origem, ou da história essencial do tarot, em sete pontos muito significativos:

 

1– Até meados do século XV não temos qualquer prova real de que estas cartas existissem. Nenhuma!

A carta Tarocchi de Saturno

2– Em meados do século XV sabemos que existiam em Itália um conjunto de cartas hoje chamadas Tarocchi. Eram constituídas por uma imagem, um nome, e uma numeração que as identificava numa determinada sequência, num total de 50 cartas separadas em cinco temas diferentes. Nenhuma obra literária da altura nos parece contar precisamente como eram utilizadas, mas são diversos os estudiosos que argumentam que eram usadas para ajudar a ensinar as crianças de famílias mais abastadas, como se fossem as flash cards dos nossos dias. No exemplo acima pode ser visto o deus Saturno a devorar um dos seus filhos, numa evidente referência ao cerne do mito latino.

A carta Tarocchi da Justiça

3– Juntamente com estas cartas existiam várias outras chamadas Tarocco, que eram usadas para jogos. Entre as que compunham os baralhos para esses jogos incluíam-se algumas das representações também presentes nas anteriores, como a imagem da “Justiça”, mostrada acima, permite compreender. O que é importante frisar sobre estas cartas, independentemente da composição do baralho, é que eram usadas exclusivamente para jogos lúdicos, não tendo qualquer relação com a cartomancia ou alguma tentativa de previsão do futuro.

A carta XVI do Tarot

4– Nenhum autor nos parece ter preservado o verdadeiro significado por detrás das imagens presentes nessas cartas. Na verdade, algumas delas até mudavam frequentemente de nome e de imagem; por exemplo, na carta XVI “A Torre” podia ser substituída por “O Relâmpago”… mas quem olhar para a primeira das duas poderá ainda encontrar frequentemente o segundo elemento lá, podendo fazer crer que o elemento pictórico original era mesmo esse, mais do que algum edifício.

 

5– Na segunda metade do século XVIII – ou seja, quase 300 anos depois da sua primeira aparição atestável – é que nos aparecem provas de que essas cartas eram usadas para cartomancia, uma prática que foi popularizada por Jean-Baptiste Alliette, i.e. “Etteilla”. A ideia parece ter originado com Antoine Court, cuja obra Le Monde primitif argumentava, sem quaisquer provas reais, que estas cartas vinham do tempo dos Egípcios. A origem do Tarot, no sentido moderno da ideia e na sua função de prever o futuro, é indisputavelmente desta altura!

 

6– Porquê os Egípcios, e não os Gregos ou os Romanos? Esse autor, também conhecido como Court de Gébelin, vivia numa altura em que existia uma espécie de pandemia de amor por tudo o que viesse do Egipto; sem quaisquer provas reais, repita-se essa ideia crucial, levantou então a “certeza” de que as cartas em questão escondiam um conhecimento secreto dos Egípcios.

 

7– Voltando a “Etteilla”, parece ter sido o primeiro autor famoso que popularizou e ensinou como usar estas cartas para prever o futuro, associando a elas um conjunto de ideias místicas. Outros autores seguiram-se, atribuindo diferentes ideias místicas às mesmas cartas ou a baralhos muito semelhantes. Daí, a ideia foi chegando aos nossos dias.

 

Face a estas provas, que são fáceis de comprovar, uma questão tem de ser posta – será o tarot digno de algum crédito? Mesmo que queiramos acreditar, de forma completamente imparcial, nas ideias de autores como Jean-Baptiste Alliette, há que reconhecer que elas têm uma falha fatal, que é o facto de se basearem em cartas cuja composição e significados originais são completamente desconhecidos, e que até foram sendo alteradas ao longo dos séculos.

Por exemplo, a carta XVI, já mostrada acima, pode ser chamada “A Torre” mas mostra é frequentemente a destruição desse edifício. Seria, originalmente, uma alusão à Torre de Babel bíblica, que não parece ter vindo das cartas do Tarocco mas de outro baralho? É possível que sim, até o afirma a “Dra.” Maria Helena da televisão, mas então o que dizer da carta XII, que tem representada um homem pendurado pelos pés, como eram punidos alguns criminosos na Itália do século XV? Ou como fazer sentido da ideia de que a carta IX, “O Eremita”, representava originalmente o Tempo, i.e. o conceito grego, com uma ampulheta na mão? Ou como explicar a presença de apenas três das quatro virtudes cardeais – o que aconteceu à Prudência, que até aparecia nas cartas Tarocchi e em outros baralhos do mesmo género?

A carta Tarocchi da Prudência

É estranhíssima, esta ausência em particular, dado todo o contexto em que se insere, mas também nos permite provar algo – mesmo que até preservassem um qualquer conhecimento secreto, esse seu significado original já se perdeu há muitos séculos atrás. Se as cartas conhecidas como Tarocchi eram compostas por cinco ciclos de dez constituintes cada, cujos significados contextuais são fáceis de compreender, nas cartas do Tarocco, que viriam dar lugar aos Arcanos Maiores do Tarot, essa relação já não existe, nem sabemos se algum dia terá existido. Nem sabemos verdadeiramente de onde surgiram cartas como “A Torre” ou “A Papisa“, apenas para dar dois exemplos.

 

O que sabemos, isso sim, é que a origem do Tarot não está ligada à Antiguidade, e dizer que as suas cartas constituintes preservam, por exemplo, algum conhecimento secreto de um tal Livro de Thoth (sim, o deus egípcio do conhecimento), como o quis dizer Jean-Baptiste Alliette, é puramente falso. Querer prever o futuro com cartas de Tarot – ou com quaisquer outras – deve sempre ter em conta esta sua falsa herança… porque, na verdade, utilizá-las a elas, seja porque método for, não faz qualquer sentido real, só nos podendo dar as respostas que os “leitores” de cartas já sabem que queremos ouvir. E nenhuma Maya, Maria Helena, ou outro dos tantos “astrólogos” que existem pode mudar isso…

O mito de Hermafrodito e Salmacis, a ninfa violadora

Não é Salmacis, mas até podia ser...

São virtualmente incontáveis os mitos gregos e latinos em que uma personagem do sexo masculino não sabe aceitar o desinteresse do sexo oposto. Porém, o mito comum de Hermafrodito e Salmacis prima por apresentar uma situação oposta, mostrando-nos o caso de uma ninfa – ou, para sermos mais precisos, uma naíade – que, pura e simplesmente, não sabia aceitar um “não” alheio.

 

Hermafrodito era um jovem de 15 anos que, um dado dia, decidiu passear pela floresta. Enquanto habitava a sua pequena fonte, Salmacis viu-o e sentiu um enorme amor à primeira vista. Tentou insinuar-se perante ele, tentou beijá-lo, tentou mil outros estratagemas, mas o jovem pura e simplesmente não tinha qualquer interesse nela. Então, irritada, decidiu enganar Hermafrodito, para que este tomasse um pequeno banho na fonte. Quando, ingenuamente, ele acabou por o fazer, Salmacis puxou-o para seu lado, abraçou-o com força, cobriu-o de beijos e disse que nunca mais o iria largar, pedindo aos deuses que a fizessem cumprir essa promesa. Eles, inesperadamente, e sem nunca ouvirem os horrendos gritos de desespero do jovem, fundiram então Salmacis e Hermafrodito num só corpo, que ambos depois viriam a ocupar para o resto do tempo…

 

Muito podíamos escrever sobre este mito em específico, desde a origem do nome de Hermafrodito até ao possível facto de toda esta história poder ter sido uma invenção ovidiana, mas se o contamos hoje é por uma necessidade especial. Raramente nos metemos em certo tipo de questões, mas… hoje, abrimos uma pequena excepção. A violência, no contexto de qualquer espécie de relação, nunca é aceitável. Nunca. Há pouco mais de uma semana uma amiga pessoal sofreu algo completamente bárbaro por causa de um homem, numa situação com contornos como os acima, e… se gostam de uma pessoa, tenham a decência de a respeitar sempre. Para vosso bem e deles.

As quatro figuras místicas dos quatro evangelistas – e seu significado

Há já alguns anos sentámo-nos com uma amiga na Igreja de São Roque, em Lisboa. Quem explorar bem o local poderá encontrar, nas colunas laterais dos dois lados deste templo, quatro figuras humanas, estando elas acompanhadas por uma águia, um anjo (ou homem), um touro e um leão.

Que as quatro figuras humanas são os quatro evangelistas – Mateus, Marcos, Lucas e João – é relativamente fácil de inferir por todo o contexto, mas a questão da nossa amiga era um pouco mais difícil – porquê estes animais, e como foram eles associados a cada um dos evangelistas?

Um Querubim

A primeira resposta não é muito difícil – quando o profeta Ezequiel viu os Querubins, definiu-os como tendo quatro asas e quatro caras distintas – águia, homem, touro e, finalmente, leão. Por isso, se estas eram as quatro formas que compunham a totalidade de um ser divino, faz algum sentido que a totalidade do cânone bíblico fosse associada ás mesmas quatro figuras.

 

A segunda resposta, no entanto, é bastante mais complexa, porque a associação dos quatro animais aos quatro evangelistas foi variando ao longo dos séculos e entre os diversos autores. Por exemplo, para Santo Ireneu a figura do “leão” era João, para Hipólito de Roma era Mateus e para São Jerónimo já era Marcos. Agora, mais do que dar aqui as suas justificações individuais, importa frisar o que todas elas tinham em comum – associavam uma característica metafórica de cada uma das quatro figuras a uma característica que os autores atribuíam aos próprios evangelistas, e.g. “Marcos é representado com o homem porque no seu evangelho Jesus nasce como um”. Por isso, na verdade não há uma associação que se possa dizer que é a correcta, todas elas está abertas a debate.

 

Portanto, os quatro evangelistas estão associadas a quatro figuras místicas – águia, anjo (ou homem), touro e leão – porque essas mesmas quatro figuras constavam no Querubim de Ezequiel, mas os seus significados e associações variam bastante. Será que estes argumentos, que não foram apresentados na altura, teriam convencido a nossa amiga?!

Cyrano de Bergerac e as visitas à lua e ao sol

A figura de Cyrano de Bergerac é-nos hoje famosa de uma peça de teatro e alguns filmes em que é representado como um bom espadachim, um belíssimo poeta, e igualmente possuidor de uma cara com um proeminente nariz. A tragédia, da autoria de Edmond Rostand, é de finais do século XIX, mas parece ter-se baseado na vida de uma figura bem real, um Cyrano de Bergerac que viveu na primeira metade do século XVII. Relatar os eventos (reais) da sua vida ultrapassam o nosso objectivo de hoje, mas bastará dizer que entre os livros que ele escreveu se contam duas obras, publicadas postumamente, que são muito curiosas.

Uma viagem pelos céus

A primeira dessas duas obras de Cyrano de Bergerac chama-se História Cómica dos Estados e Impérios da Lua. É uma novela em que o herói viaja de Paris para a Lua, onde encontra toda uma civilização de estranhas criaturas. Também visita o Jardim do Paraíso (uma sequência parcialmente censurada em algumas versões), tem alguns diálogos com o Daemon de Sócrates, entre outras aventuras, mas o seu elemento mais proeminente são algumas sequências (jocosas) de debates filosóficos, em que num dado momento até é defendido, com argumentos completamente lógicos, que cortar uma couve é um crime maior do que matar uma pessoa.

 

A segunda é conhecida como Os Estados e Impérios do Sol, e é uma sequela da anterior. Após ter voltando à Terra, pouco depois a personagem principal vai parar ao Sol, onde encontra várias outras aventuras. Apesar de alguns momentos filosóficos (por exemplo, até é explicado o porquê do herói não ficar queimado…), esta é uma sequela mais focada na aventura, em que vão surgindo personagens e situações completamente inesperadas umas após as outras. A mais interessante de todas elas é a do mito da Árvore de Orestes e Pílades, uma reinterpretação sequencial de diversos mitos da Antiguidade, que até poderemos contar aqui um dia destes.

 

O final da segunda obra até faz uma breve menção a uma possível sequela, que aparentemente não existe, o que nos faz pensar… será que o autor estava familiarizado com as obras de Luciano da Samósata, em particular a História Verdadeira, em que eventos semelhantes a estes têm lugar? Será essa ausência de uma terceira sequela uma tentativa de homenagear a obra de Luciano, em que uma sequela também é prometida mas não existe? Não sabemos, mas tanto nestas duas obras como nas do seu predecessor da Grécia Antiga não seria incorrecto chamá-las de ficção científica, que até inspiraram autores posteriores.

 

Enfim… merecem ser lidas, estas duas obras de Cyrano de Bergerac? São obras leves, que podem ser lidas com um notável prazer lúdico, mas também não são muito fáceis de encontrar. Assim, se as virem a ambas numa qualquer livraria e a um preço convidativo, não hesitem!