A origem de Adamastor

Claro que todos conhecemos esta famosa figura dos Lusíadas de Camões, mas a origem de Adamastor também tem uma outra face que a maior parte das pessoas hoje desconhece. Por exemplo, sabiam que a estátua que aparece na maior parte dos manuais escolares não é tirada num qualquer país africano, ou mesmo no local em que se supunha que este gigante viveu – como até poderíamos supor – mas sim em Lisboa, mais precisamente no Miradouro de Santa Catarina, com vista privilegiada para o Tejo?

A origem de Adamastor, estátua em Lisboa

Agora, se os contornos gerais da nossa figura do Adamastor foram invenção de Luís de Camões, o próprio gigante já existia anteriormente, sendo conhecido pelo menos desde o século III d.C., sob os nomes de Damastor (em Claudiano) ou Adamasthor (em Sidónio Apolinário). Em ambos os casos, o nome deste mesmo gigante é mencionado num contexto de uma gigantomaquia, um enorme combate entre os deuses e os gigantes que tinha lugar na Mitologia Grega e Romana (mas cujo mito já não nos chegou de uma forma mais completa), sendo por isso possível que o nome até já viesse de um mito anterior, potencialmente grego, já que o nome Adamastos (Αδαμαστος, no original grego) significa “Indomável”.

 

E, no contexto do grande poema épico de Camões, o significado do nome faz todo sentido – os Portugueses chegam ao Cabo das Tormentas, conquistam pela primeira vez o Adamastor, este “Indomável” de outros tempos, e recebem então um sinal de boa esperança para a continuação da sua viagem. Será que já alguma vez tinham pensado nisto? Mesmo em caso negativo, esta origem de Adamastor não pode deixar de nos fazer pensar que outros elementos mitológicos secretos se escondem por detrás das muitas figuras deste épico camoniano, como José Agostinho de Macedo nos alertou no prefácio do seu épico O Oriente

A lenda de Joe Magarac

Estátua de Joe Magarac

A lenda de Joe Magarac, que contamos hoje, vem dos EUA, mais precisamente da zona de Pittsburgh, Pennsylvania. O seu apelido e os próprios contornos da lenda dão a entender que esta história poderá ter tido origem em emigrantes do leste da Europa que aí se tinham fixado e trabalhavam na indústria do aço.

 

Então, quem é Joe Magarac? Essencialmente, é uma figura lendária que se distinguiu no trabalho da indústria do aço, talvez pelo invulgar facto de ser um homem feito desse material. Tinha ainda super-força, a capacidade de trabalhar sem jamais descansar, conseguia fazer dezenas de coisas diferentes com o aço e mostrava-se capaz de múltiplos feitos sobre-humanos.

De entre as várias histórias que lhe estão associadas encontrámos duas dignas de nota. Numa delas, Joe ganhou um concurso de força cujo prémio era uma bela mulher chamada Mary – mas depois, sabendo que ela já estava apaixonada por um outro operário, permitiu-lhe esse casamento, desejando as maiores felicidades aos noivos.

Numa outra, Joe salvou a vida de alguns operários mas acabou por cair numa fornalha, sendo derretido pelo fogo. Desaparecido então do nosso mundo, dizia-se que o seu legado continua na forte estrutura de uma qualquer construção da região em que ele viveu.

 

O que dizer de tudo isto? A relação da lenda de Joe Magarac com a indústria local do aço, que ainda hoje é muito significativa, é notória. Por isso, é possível que tenha nascido de um conjunto de tall tales locais, como se nos nossos dias um trabalhador de um qualquer call centre dissesse que já teve um colega que atendia 30 chamadas numa hora, tinha taxa de vendas de 100% e conseguia prémios de produtividade sem ser intrujado pelas chefias. Lendas como essas permitem tornar possível o impossível, na medida em que nos fazem sonhar com um limite sobre-humano a que até podemos tentar aspirar mas jamais iremos atingir.

“O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito”, de Monteiro Lobato

O Saci de volta!

Há pouco mais de um ano que aqui falámos do Saci (ou Sacy), uma criatura lendária muito famosa no Brasil. Na altura, um dos grandes problemas que sentimos em sintetizar a sua história foi o facto de lhe serem associadas muitas crenças divergentes nas diversas regiões do país.

 

Monteiro Lobato parece ter sentido a mesma dificuldade, e por volta do ano de 1917 tentou fazer um inquérito sobre o tema, que depois publicou directamente nesta obra, O Saci-Pererê: Resultado de um Inquérito. Nela são apresentados as opiniões e histórias dos diversos participantes que deram as suas respostas. O que é curioso é que a mesma criatura parece apresentar, para os vários leitores, diversas características, por vezes até contraditórias – alguns dizem que ele anda nu, outros que usa calções vermelhos; uns dizem que por detrás desta figura se escondiam escravos fugitivos, outros que era um pássaro com um canto muito singular; uma reencarnação do Diabo, ou uma criatura puramente inofensiva; um ser quase omnipotente, ou uma mera invenção de uma mente medrosa; uns falam de um só Saci, outros de uma espécie com esse nome comum; etc.

 

No final, o que se pode concluir verdadeiramente sobre o chamado “Saci-Pererê”? Mais que tudo, talvez o facto da figura não ser apenas uma, mas sim assemelhar-se a diversas, que partilham um nome muito semelhante, mas cujos contornos essenciais se aproximam em alguns momentos e divergem em outros. Mas uma coisa é certa – quem tiver interesse nesta lenda brasileira tem obrigatoriamente de ler esta obra, porque ela preserva – como o próprio autor nos diz – um momento da sua história que ficou cristalizado no tempo.

Os algarismos romanos – 4 deve escrever-se IIII ou IV?

Hoje decidimos falar daquela que parece ser uma das grandes questões da humanidade – como se escreve 4 em algarismo romano? É fácil lembrar o 1 (árabe) como I, o 2 como II, o 3 como III, mas… afinal de contas, que número romano se segue? Como se escrevia 4 em algarismo romano? Deverá ele ser escrito como IV ou IIII? E, se a resposta correcta for apenas a primeira (como frequentemente nos é dito na escola), porque razão é que tantos relógios apresentam um “IIII” no seu mostrador, como na imagem abaixo?

4 em algarismo romano

Em tempos de escola aprendemos que o 4 romano deveria ser escrito “IV”, que o 19 deveria ser escrito “XIX”, e outras coisas que tais. Porém, há alguns dias, enquanto uma colega de Coimbra relia uma passagem da Guerra Gálica de Júlio César, deparou-se com um estranho problema, numa passagem que dizia Atuatucos XVIIII milia. Talvez fosse um simples erro de cópia ou transmissão medieval, mas o problema repetiu-se noutras sequências – passuum CCCC e XXXX Bibracte (entre outras). Em busca de resposta, consultámos um outro livro, o de Plínio o Velho, em que acabámos por encontrar números como “CCLXXXXVII”, “CCCCL” ou “MMMM”. Mas, ao mesmo tempo, também fomos encontrando muitas referências a números como IV, IX, ou XC.

 

Isto gera um problema – estariam figuras tão eminentes como Júlio César ou Plínio o Velho erradas? Ou, pelo contrário, quem estava errado eram os outros autores que nos chegaram dos tempos da Antiguidade? Não nos é possível responder a essa questão de uma forma directa, mas é curioso que um erro – seja de que lado for – tenha sido muito pouco criticado. Por isso, talvez não seja correcto ver este problema como uma questão de “certo” ou “errado”, mas de mera opinião, em que os números podiam ser escritos de ambas as formas, porque mesmo assim não deixavam de ser compreendidos, sendo apenas ligeiramente mais difícil escrever e ler VIIII do que IX. Quem quiser dizer que VIIII está errado irá opor-se a figuras como César e Plínio; quem disser que IX está errado irá opor-se a um possível peso colectivo de muitos outros autores – qual dos dois casos o pior, venha o proverbial Diabo e decida-o por si mesmo.

 

Agora, se o IV, ou o que supomos ser o 4 em algarismo romano, se parece ter popularizado ao longo dos séculos, resta uma questão – porque é que alguns relógios têm IIII em vez de IV, mas também usam IX em vez de VIIII? Perguntámos a vários relojoeiros, que nos disseram que se tratava de uma convenção pictórica de algumas marcas, mas que eles já não sabiam de onde vinha originalmente. E isso, por agora, basta-nos.

O triste destino do Palácio de Cristal, no Porto

Quem, na cidade portuguesa do Porto, procurar o Palácio de Cristal já não o encontra. Foi triste, o seu destino. Nesse sentido, se muitos dos monumentos que cá referimos ao longo dos anos já desapareceram há séculos e séculos, ainda nos é difícil compreender como alguém poderá ter destruído algo que, a nós, nos parece tão belo. Mas, ao mesmo tempo, existem exemplos muito mais recentes e igualmente difíceis de explicar, como o que aqui apresentamos hoje.

 

Quem for à cidade do Porto, como apontado acima, poderá visitar o Jardim do Palácio de Cristal. O jardim está por lá, mas o Palácio de Cristal que lhe deu o nome já há muito que desapareceu. O seu nome remete-nos para uma estrutura muito particular, feita quase completamente de vidro, permitindo a entrada da luz no seu interior, como pode ser visto nestes postais retirados da Biblioteca Nacional:

Palácio de Cristal, entrada

Palácio de Cristal, parte frontal

Palácio de Cristal, parte traseira

Ainda existem outros palácios de cristal pelo mundo fora (e.g. em Madrid), mas o que aconteceu a este Palácio de Cristal da cidade do Porto? Foi destruído em nome do progresso, o seu monumental órgão martelado até à mais completa ruína, no ano de 1951, sendo substituído poucos anos depois por uma estrutura semi-circular que não pode deixar de nos parecer abominável, e que hoje ocupa o mesmo espaço visto acima.

O nome do jardim mantém-se, possivelmente em virtude da grande oposição que os portuenses levantaram aquando da destruição do palácio. Mas, na verdade, assim se perde não só a história e beleza do passado, mas também a razão de ser do nome de muitos locais…