Porque Ganesha tem cabeça de elefante?

Se não são muitas as pessoas nascidas em Portugal que conheçam bem os deuses e figuras do Hinduísmo, há pelo menos uma entidade divina cuja imagem já todos devem ter visto em diversos locais – Ganesha (ou Ganexa, Ganesh), um deus com cabeça de elefante. Agora, se figuras como estas até eram muito comuns nos mitos do Antigo Egipto, no Hinduísmo estes seres de dupla forma não são tão frequentes (para outro exemplo ver o caso de Narasimha, um “homem-leão” e quarto avatar do deus Vishnu). E por isso uma questão de curiosidade impõe-se – porque tem Ganesha cabeça de elefante?

Porque Ganesha tem cabeça de elefante?

Parecem existir várias opiniões, mas optamos por contar aqui, de uma forma breve, as duas mais famosas. Numa delas Ganesha nasceu com esta forma. Porém, numa outra o deus envolveu-se num confronto em que lhe cortaram a cabeça; depois, sendo incapazes de encontrar a original, os outros deuses substituíram-na pela de um elefante. E porquê este animal? Bem, mesmo sem conhecerem as histórias associadas a esta figura, basta olhar para a imagem acima para notar que ele gosta muito de doces (vejam até onde coloca a tromba, um prato de laddus *!), e tem uma pança proeminente; como tal, pareceu justo aos outros deuses darem-lhe a cabeça de um animal que também partilhava essas mesmas características.

 

Estará uma destas opiniões certa? Será que a resposta até é outra, completamente diferente? Não se trata de uma questão de certo ou errado; nos textos do Hinduísmo, como nos de todas as outras religiões, existem factos consumados e existem opiniões, e a razão por detrás da cabeça elefantina com que Ganesha costuma ser representado pertence ao segundo grupo.

 

 

*- Um agradecimento à Embaixada da Índia em Portugal, que nos ajudou nesta preciosa identificação.

A lenda(?) de Beatriz Burgos

Lemos esta lenda(?) de Beatriz Burgos num qualquer livro há muito, muito tempo. Recordar-nos onde foi parece-nos agora difícil, mas há um elemento curioso – a escritora do livro assegurava o leitor, uma e outra vez, de que esta era uma história bem real, de um homem de quem ela tinha ouvido falar, mas que tinha falecido uns anos antes.

 

Pedro Pinto tinha dois filhos. Um deles, o mais velho, apaixonou-se por Beatriz Burgos, mas o seu pai disse-lhe que jamais permitira esse casamento, porque a amada nada tinha para oferecer excepto a sua beleza física. Desiludido, esse filho chorou durante dias e dias, mas depois lá aceitou a derrota.

Beatriz apaixonou-se, depois, por outro homem. Um homem que era, nem mais nem menos, o filho mais novo de Pedro. Pensava amá-lo mais que tudo neste mundo. E então, um dia, acabou por dizer ao irmão deste que estava loucamente apaixonada, e que a não ser que algo acontecesse ao seu amado, jamais poderia vir a amar outro homem neste mundo.

Então, louco de raiva e de ciume, o filho mais velho de Pedro Pinto foi a casa e matou o irmão mais novo com um punhal, pensando que assim Beatriz o voltaria a amar a ele, e somente a ele. Mas esta, quando soube o que aconteceu, suicidou-se, e o seu corpo deu à costa em Oeiras. Já o homicida, esse, juntou-se a um mosteiro, onde viria a falecer em inícios do século XIX.

 

Terá isto sido mesmo verdade? Nunca conseguimos descobri-lo; se tem um conjunto de elementos muito comuns nas tragédias de amores, existem igualmente histórias semelhantes mesmo nos nossos dias. É uma história tristemente verosímil, mas as nossas buscas pelo nome de Beatriz Burgos não nos levaram a nenhuma conclusão muito palpável.

Os segredos da mãe e da madrasta da Cinderela

Cinderela

A Cinderela, enquanto história infantil, é provavelmente uma das mais famosas dos nossos dias. No entanto, a versão que nos chegou pelos Irmãos Grimm, como várias outras, tem vários elementos censurados, necessários para tornar uma história de adultos num conto muito mais próprio para crianças. Até poderíamos aqui contar várias alterações que foram sendo feitas ao longo dos séculos, mas hoje focamo-nos em duas delas, as histórias da mãe e da madrasta da Cinderela. Quem ler a história dessa heroína tal como ela nos é apresentada nos nossos dias poderá deparar-se com um problema, o facto da mãe e a madrasta serem figuras sobre as quais sabemos muito pouco. A primeira é um fantasma cuja existência apenas pode ser subentendida pela existência de uma filha. A segunda, a horrenda madrasta da Cinderela, é-nos apresentada como um ser odioso, que até tem as suas próprias filhas, mas pouco mais. Porém, em versões muito mais antigas são-nos revelados elementos surpreendentes que podem mudar toda a história…

 

Alguns anos antes, Cinderela, então ainda menina, sentia uma enorme inveja do tempo que a mãe passava com o pai. Para o ter só para si mesma, com a ajuda de uma empregada doméstica empurrou um armário e ensanduichou mortalmente a mãe. Depois, ambas disseram ao pai que nada sabiam sobre esta tenebrosa morte, e que provavelmente a mãe morreu devido a um acidente totalmente caricato. Esta empregada doméstica viria a tornar-se, mais tarde, a própria madrasta da Cinderela.

Sabendo esta informação, o ódio da madrasta – ou será medo, o que ela sentia pela Cinderela? – torna-se muito melhor justificado. Mas esta história ainda não terminou – anos mais tarde Cinderela arrependeu-se das suas acções. Foi ao túmulo da mãe, rezou-lhe, e o espírito da falecida apareceu-lhe no escuro da noite. Primeiro, este espectro perdoou-a pelos seus actos, e depois deu-lhe os sapatos e o vestido para o baile, os mesmos que um dia tinham estado guardados no interior do armário mortal.

 

O que é curioso nestes elementos que foram sendo sanitizados é o facto de nos darem referências importantes que não constam nas histórias actuais, em que a morte da mãe de Cinderela é um mistério, a filha parece cruelmente injustiçada, a madrasta é um estereótipo maldoso, e uma fada madrinha* surge de uma forma totalmente miraculosa, como um conveniente deus ex machina das tragédias dos Gregos. Mas, ao final do dia, a mãe até existiu, a menina Cinderela não era nenhuma santinha, a madrasta até tinha muito boas razões para os seus actos, e a origem do vestido e sapatos para o baile certamente que chocaria os mais novos…

 

*- “Madrinha”, até em substituição de uma mãe agora ausente e totalmente removida da história…

A História de Sinué

Um exemplo de óstraco com fragmento da história

A História de Sinué é um texto egípcio com cerca de 3800 anos, que nos chegou em fragmentos como aqueles representados na imagem acima. Conta-nos, sob a forma de algo que poderíamos descrever como um brevíssimo poema épico (tem apenas cerca de 311 versos na versão a que tivemos acesso), alguns fragmentos da vida adulta do homem que lhe deu o título.

 

A história começa contando como Sinué, assustado com a notícia da morte do monarca dos seus dias, fugiu do Egipto e passou vários anos a servir um outro rei. E serviu-o bem, sem qualquer dúvida. Foi tendo vários filhos, venceu opositores muito fortes, mas nunca deixou de querer voltar à terra que o viu nascer. E quando, já velho, acabou por fazê-lo, foi até muito bem recebido de volta.

 

Esta História de Sinué é, como pode ser visto pelo breve resumo acima, uma que tem uma trama bastante simples. Não contém nada de muito implausível, não apresenta qualquer episódio estritamente mitológico, sendo até possível que se tenha tratado de uma história completamente real, cuja grande popularidade conseguiu fazer chegar até aos nossos dias. Agora, cabe apenas a cada um de nós decidir se iremos lê-la, ou não…

A “Ilíada” da Marvel

Faz já algumas semanas que aqui falámos da banda desenhada The Trojan War da Marvel. Na altura, mencionámos igualmente que a mesma editora já tinha publicado, anteriormente, uma versão da Ilíada em quadradinhos, mas o que podemos dizer dessa outra obra, publicada um ano antes?

 

Trata-se, única e exclusivamente, de uma opinião pessoal, que até foi muito debatida deste lado do ecrã, mas sentimos que é inferior à sua “sequela”, na medida em que se foca mais nos diálogos do que em tentar relatar acções mais gerais. Isto nada teria de mal, naturalmente, não fosse o facto da conjugação entre as acções mostradas e os próprios diálogos parecerem frequentemente pouco condizentes. Veja-se, por exemplo, este momento de um diálogo entre Páris e Heitor:

Páris e Heitor nesta obra de Marvel

Este deveria ser o momento em que Heitor, o bastião de Tróia, critica o seu irmão, mas Páris quase que parece gozá-lo, não nas suas palavras mas na forma como é aqui representado. Além disso, os diálogos pareceram-nos todos muito estáticos, como se se pretendesse reproduzir o épico não pela sua beleza poética, mas enchendo-os de palavras caras – e, na verdade, os próprios autores parecem ter reconhecido essa dificuldade, já que os (oito) volumes terminam com um glossário. Apesar destas fragilidades, há que admitir que as aventuras respeitam, quase sempre, o conteúdo do poema de Homero.

 

Se, anteriormente, até elogiámos a obra The Trojan War da Marvel, neste outro caso não nos parece justo fazê-lo. Se a ideia de transpor os Poemas Homéricos para banda desenhada é interessante e digna de nota, a forma como o próprio poema foi adaptado por Roy Thomas parece-nos muito menos positiva, dando lugar a um resultado um tanto ou quanto enfadonho, menos aprazível que a sua sequela.